8 de outubro de 2017

Vinte e cinco - Elaboramos um plano fabulosamente horrível

O PIOR LUGAR para um conselho de guerra?
Que tal o poço preenchido onde o irmão de Hearthstone tinha morrido, no meio de uma floresta sinistra, no mundo que eu mais detestava dos nove mundos, onde não podíamos esperar por nenhum apoio?
Aham, foi para lá que a gente foi.
Conjurei Jacques e o informei sobre a situação. Pela primeira vez ele não deu gritinhos de empolgação nem começou a cantar uma música.
— Um dragão de anel? — As runas dele se apagaram e ficaram cinzentas. — Ah, isso é ruim. Anéis amaldiçoados sempre criam os piores dragões.
Eu sinalizei para que Hearth entendesse.
Hearthstone grunhiu. O dragão tem um ponto fraco. A barriga.
— O que ele está dizendo? — perguntou Jacques.
Dentre os amigos de Hearthstone, Jacques era teimoso quando o assunto era aprender linguagem de sinais. Ele alegava que os gestos não faziam sentido para ele porque não tinha mãos. Eu achava que isso era vingança por Hearth não conseguir ler os lábios de Jacques, considerando que, sabe como é, Jacques não tinha lábios. Espadas mágicas podiam ser mesquinhas a esse ponto.
— Ele disse que a barriga é o ponto fraco do dragão — repeti.
— Ah, bom, isso é verdade. — Jacques não pareceu entusiasmado. — A pele é quase impossível de cortar, mas eles têm fendas na couraça da barriga. Se os três conseguissem fazer o dragão rolar, e desejo boa sorte com isso, talvez você conseguisse me enfiar pela fenda e alcançar o coração. Mas, mesmo que a gente tenha sorte, você já perfurou a barriga de um dragão de anel? Eu já. É nojento. O sangue deles é ácido!
Traduzi tudo para Hearth.
— Jacques, o sangue danificou você? — perguntei.
— Claro que não! Eu sou a Espada do Verão! Fui forjado com um acabamento mágico que resiste a qualquer tipo de desgaste!
Blitzen assentiu.
— É verdade. Jacques tem um ótimo acabamento.
— Obrigado — disse Jacques. — Alguém aqui aprecia um bom trabalho artesanal! Perfurar a barriga de um dragão não vai danificar a mim, mas estou pensando em você, rapazinho. Se uma gota daquele sangue cair em você quando estiver cortando o dragão, será seu fim. Aquela coisa vai te corroer inteiro. Nada pode impedir.
Eu tinha que admitir que não parecia divertido.
— Você não pode lutar sozinho, Jacques? Você poderia voar até o dragão e…
— E pedir gentilmente para ele me mostrar a barriga? — Jacques riu, emitindo um som que pareceu o de um martelo batendo em um telhado de metal corrugado. — Dragões de anel se arrastam com a barriga no chão por um motivo, pessoal. Eles sabem que não devem exibir seu ponto fraco. Além do mais, matar um dragão de anel é uma coisa muito pessoal. Você mesmo teria que me brandir. Um ato desses afeta seu wyrd.
Eu franzi a testa.
— Afeta meu o quê?
— Seu wyrd.
— Wyrd? O que que é isso? — murmurei.
— Ele quer dizer destino — disse Blitzen, sinalizando enquanto falava, para Hearth entender.
O sinal para destino era uma das mãos empurrando para a frente, como se tudo estivesse ótimo, lá-lá-lá, e aí as duas mãos caíam de repente no colo de Blitz, como se tivessem batido em uma parede e morrido. Acho que já mencionei que a linguagem de sinais pode ser um pouco descritiva demais, não é?
— Quando você mata um dragão de anel — disse Blitz —, principalmente um que era uma pessoa conhecida, está lidando com magia séria. A maldição do dragão pode reverberar no seu futuro, mudar o curso do seu destino. Pode… manchar você.
Ele disse a palavra manchar como se fosse pior do que ketchup ou gordura, como se matar o dragão não fosse sair do meu wyrd nem que eu botasse de molho antes de lavar.
Hearthstone fez gestos curtos, como era de costume quando estava irritado: Precisa ser feito. Eu vou fazer.
— Hearth… — Blitz se mexeu com inquietação. — Ele é seu pai.
Não mais.
Existe algum jeito de pegar a pedra de amolar sem matar o dragão?, eu sinalizei.
O elfo balançou a cabeça de forma inflexível. Não é esse o ponto. Dragões podem viver séculos. Eu não posso deixar ele assim.
Seus olhos muito claros ficaram úmidos. Assustado, percebi que ele estava chorando. Podia parecer idiotice, mas os elfos costumavam ter tanto controle sobre as emoções que fiquei surpreso de saber que eram capazes de chorar.
Hearth não estava só com raiva. Não queria vingança. Apesar de tudo que Alderman tinha feito a ele, Hearthstone não queria que o pai sofresse vivendo como um monstro. Sif avisou a Hearth que ele teria que voltar e reivindicar a runa herança. O que significaria encerrar a história triste da família e libertar a alma torturada do sr. Alderman.
— Eu entendo — falei. — De verdade. Mas me deixe dar o golpe final. Você não deve ter isso na sua consciência, no seu wyrd, sei lá.
— O garoto está certo — confirmou Blitz. — Não vai manchar tanto o destino dele. Mas você… matar o próprio pai, mesmo que seja por misericórdia? Ninguém deveria ter que fazer uma escolha dessas.
Eu achava que Samirah e Alex talvez discordassem. Ambas receberiam de braços abertos uma chance de tirar a vida de Loki. Mas, de modo geral, eu sabia que Blitz estava certo.
— Além do mais — disse Jacques —, sou a única lâmina capaz de fazer o serviço, e eu nunca deixaria o elfo me brandir!
Decidi não traduzir isso.
— O que você me diz, Hearthstone? Permite que eu faça isso?
As mãos de Hearthstone pairaram na frente dele como se fosse tocar piano no ar. Por fim, ele gesticulou Obrigado, Magnus. Foi um gesto como o de jogar um beijo, depois um punho com o polegar embaixo de três dedos formou M, indicando meu nome.
Normalmente, ele não se incomodaria em indicar meu nome. Quando se conversa com alguém em linguagem de sinais, o interlocutor é óbvio: basta olhar e apontar. Hearth usou meu nome para demonstrar respeito e amor.
— Deixa comigo, cara — prometi.
Tudo dentro de mim estremeceu ao pensar em matar o dragão, mas não havia a menor chance de eu deixar Hearthstone carregar esse peso. O wyrd dele já tinha sofrido o suficiente, graças ao sr. Alderman.
— E como vamos fazer isso, preferivelmente sem que o ácido transforme o Magnus aqui em espuma? — eu quis saber.
Hearth olhou para o amontoado de pedras. Os ombros murcharam, como se alguém estivesse empilhando pedras invisíveis em cima dele. Tem um jeito. Andiron… Ele hesitou na hora de fazer o nome do irmão em linguagem de sinais. Você sabe que a gente brincava aqui. Tem túneis, feitos por…
— Ele quer dizer nisser — explicou Blitzen. — São… — Ele parou com a mão a uns sessenta centímetros do chão. — Uns homenzinhos. Também são chamados de hobs. Ou di sma. Ou brownies.
Imaginei que ele não estava falando de brownies de chocolate.
Centenas deles moravam nesta floresta, sinalizou Hearth, antes de o meu pai chamar o exterminador.
Um pedaço de pão entalou na minha garganta. Um minuto antes, eu não sabia que essas criaturas existiam. Agora, sentia pena delas. Imaginava o sr. Alderman fazendo a ligação. Alô, é do controle de pestes? Tem uma civilização inteira no meu quintal que eu gostaria de mandar exterminar.
— Então… os túneis dos brownies ainda estão aí? — perguntei.
Hearth assentiu. São estreitos. Mas é possível usar um para chegar perto da caverna. Se pudéssemos fazer o dragão andar até onde você estiver escondido…
— Eu poderia atacar por baixo — percebi. — Direto no coração dele.
As runas de Jacques cintilaram em um tom de verde-limão.
— Essa ideia é péssima! Você vai tomar um banho de sangue de dragão!
Eu também não estava muito animado com a hipótese. Ficar escondido em um túnel que fora construído por brownies exterminados enquanto um dragão de cinco toneladas se arrastava acima de mim oferecia várias possibilidades de morte dolorosa. Por outro lado, eu não ia decepcionar Hearthstone. Agora, conseguir a pedra de amolar quase não parecia importante. Eu tinha que ajudar meu amigo a se livrar de seu passado horrível para sempre, mesmo que isso significasse correr o risco de tomar um banho de ácido.
— Vamos fazer uma simulação — sugeri. — Se a gente conseguir encontrar um bom túnel, pode ser que eu consiga perfurar o dragão rapidamente e sair antes de tomar um banho.
— Humf. — Jacques parecia muito mal-humorado. Por outro lado, eu estava pedindo para ele matar um dragão. — E por acaso isso quer dizer que você me deixaria enfiado no coração do dragão?
— Quando o dragão estiver morto, volto para pegar você… hã, supondo que eu consiga descobrir como fazer isso sem ser destruído pelo ácido.
Jacques suspirou.
— Tudo bem, acho que vale a pena seguir adiante com essa ideia. Mas, se você sobreviver a isso, vai ter que prometer me limpar muito bem depois.
Blitzen assentiu, como se as prioridades de Jacques fizessem sentido para ele.
— Ainda precisamos arrumar um jeito de tirar o dragão da caverna — disse ele. — Para ter certeza de que ele vai passar pelo ponto certo.
Hearth se levantou e andou até o monte de pedras do irmão. Olhou para ele por muito tempo, como se desejando que sumisse. E então, com dedos trêmulos, pegou a runa othala. Ele a esticou para que nós a víssemos. Não fez qualquer sinal, mas o significado ficou claro: Deixem isso comigo.


14 comentários:

  1. Wyrd? Essa palavra me traz tantas lembranças...

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    1. Ela não tem vogais

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    2. Wyrd/wyrda significa "destino" em alguma língua que não sei - quem sabe morta, provavelmente nórdica. Aparece em Eragon e em Trono se Vidro

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  2. Siegfried, o maior herói viking, matou um dragão de anel, se banhou no sangue dele pra ficar invulnerável e consumiu o coração pra poder falar com pássaros e ter o dom de sabedoria

    Como Siegfried fez tudo isso se o sangue do dragão é um ácido mortal, Sr. Riordan?

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    1. Teoricamente o rio Estige tb é totalmente mortifero, mas alguns herois, como o percy, conseguiram dar um mergulho e voltar cm vida, só que mais poderosos. Deve ser a mesma mecanica cm esse sangue ai, acredito eu.

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    2. Agora que vc falou foi na lenda se Siegfried... também fiquei confusa com isso espero que ele explique isso depois.

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  3. desculpe a curiosidade, mas quem é Siegfried? Personagem de algum livro? E pior ainda, livro do Riordan?

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    1. Não, essa foi uma história contada no livro, nào lembro quando

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  4. Eu quero comentar, mas simplesmente não sei o que escrever

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  5. Lembrei de Trono de Vidro.

    Ass.: Mutta Chase Herondale

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Boa leitura :)