8 de outubro de 2017

Um - Percy Jackson se esforça ao máximo para me matar

— TENTE DE NOVO — disse Percy. — Desta vez, morrendo menos.
De pé no topo do mastro do USS Constitution, olhando para o porto de Boston sessenta metros abaixo, eu desejei ter as defesas naturais de um urubu de cabeça vermelha. Assim, poderia projetar vômito em Percy Jackson e fazer com que ele fosse embora.
Na última vez que ele me fez tentar dar aquele pulo, apenas uma hora antes, quebrei todos os ossos do corpo. Alex Fierro me levou correndo para o Hotel Valhala a tempo de eu morrer na minha própria cama.
Infelizmente, eu era um einherji, um dos guerreiros imortais de Odin. Desde que morresse dentro dos limites de Valhala, minha morte não seria permanente.
Trinta minutos depois, acordei novinho em folha. Agora, lá estava eu de novo, pronto para sentir mais dor. Uhul!
— Isso é mesmo necessário? — perguntei.
Percy apoiou as costas nos cordames, o vento bagunçando seu cabelo preto. Ele parecia um garoto normal: camiseta laranja, calça jeans, tênis brancos surrados. Se o vissem andando na rua, não pensariam: Ei, olha só, um semideus filho de Poseidon! Viva os olimpianos! Ele não tinha guelras nem dedos com membranas, mas os olhos eram verdes da cor do mar; do mesmo tom que eu imaginava que minha cara estivesse naquela hora. A única coisa estranha em Jackson era a tatuagem na parte interna do antebraço: um tridente tão escuro quanto madeira queimada, com uma única linha embaixo e as letras SPQR.
Ele já tinha contado que as letras eram a sigla de Sono Pazzi Quelli Romani – esses romanos são doidos. Eu não tinha certeza se ele estava falando sério.
— Olha, Magnus — disse Percy. — Você vai navegar por território hostil. Um bando de monstros marinhos e deuses do mar e sei lá mais o quê vão tentar matar você, certo?
— É, acho que sim.
Com isso, eu queria dizer: Por favor, não faça eu me lembrar disso. Por favor, me deixe em paz.
— Em algum momento — continuou Percy —, você vai ser jogado para fora do barco, talvez de um lugar alto como este. Você vai precisar saber como sobreviver ao impacto, não se afogar e voltar para a superfície pronto para a luta. Vai ser difícil, ainda mais na água fria.
Eu sabia que ele estava certo. Pelo que minha prima Annabeth tinha me contado, Percy passou por aventuras ainda mais perigosas do que eu. (E eu morava em Valhala, morria pelo menos uma vez por dia.) Só que, por mais que apreciasse o fato de ele ter vindo de Nova York me oferecer dicas heroicas de sobrevivência aquática, eu já estava ficando de saco cheio de tanto fracassar.
No dia anterior, eu tinha sido mastigado por um tubarão-branco, estrangulado por uma lula-gigante e queimado por mil águas-vivas furiosas. Havia engolido vários litros de água salgada tentando prender a respiração e aprendido que minhas habilidades em combate mano a mano não melhoravam quando eu estava dez metros debaixo d’água.
Naquela manhã, Percy já tinha andado comigo pelo Old Ironsides tentando me ensinar o básico sobre navegação e náutica, mas eu ainda não conseguia entender a diferença entre o mastro da mezena e o convés de tombadilho.
Agora, ali estava eu: um fracasso em cair de um mastro.
Ao olhar para baixo vi Annabeth e Alex Fierro nos observando do convés.
— Você consegue, Magnus! — gritou Annabeth, animada.
Alex fez sinal de positivo. Pelo menos, eu acho que o gesto foi esse. Era difícil ter certeza lá do alto.
Percy respirou fundo. Ele tinha sido paciente comigo até aquele momento, mas percebi que o estresse do fim de semana também já começava a afetá-lo. Sempre que ele olhava para mim, seu olho esquerdo tremia.
— Tá tudo bem, cara — prometeu Percy. — Vou demonstrar de novo, ok? Comece na posição de queda livre, braços e pernas abertos para desacelerar a queda. Então logo antes de bater na água, estique o corpo como uma flecha, cabeça para cima, calcanhares para baixo, costas retas, bunda contraída. Essa última parte é muito importante.
— Queda livre — repeti. — Abertos. Flecha. Bunda.
— Isso. Olha só.
Ele pulou do mastro e caiu na direção do porto na posição perfeita, com as pernas e os braços abertos. No último momento, ele se esticou com os calcanhares para baixo e bateu na água, desaparecendo sem mal fazer a superfície ondular. Um instante depois, emergiu, as palmas das mãos para cima como quem diz: Viu só? É fácil!
Annabeth e Alex aplaudiram.
— Vamos lá, Magnus! — gritou Alex para mim. — Agora é sua vez! Seja homem!
Acho que isso era para ser uma piada. Na maior parte do tempo, Alex se identificava como do gênero feminino, mas hoje estava definitivamente masculino. Às vezes eu me enganava e usava os pronomes errados para ele/ela, então Alex rebatia implicando comigo sem piedade. Amizade é isso.
— Arrasa, primo! — exclamou Annabeth.
Lá embaixo, a superfície escura da água brilhava como uma sanduicheira recém-lavada, pronta para me esmagar.
“Certo”, murmurei para mim mesmo.
E pulei.
Por meio segundo, me senti bem confiante. O vento assobiava nos meus ouvidos. Abri os braços e consegui não gritar.
Beleza, pensei. Eu consigo fazer isso.
E foi nessa hora que minha espada, Jacques, veio voando do nada querendo bater papo.
— Oi! — As runas dele brilharam pela lâmina dupla. — O que você está fazendo?
Eu me debati todo ao tentar ficar na vertical para o impacto.
— Jacques, agora não!
— Ah, entendi! Você está caindo! Sabe, uma vez Frey e eu estávamos caindo quando…
Antes que ele pudesse continuar o que com certeza seria uma história fascinante, eu atingi a água.
Como Percy tinha avisado, o frio atordoou meu cérebro. Eu afundei, momentaneamente paralisado, sem ar nenhum nos pulmões. Meus tornozelos latejavam como se eu tivesse mergulhado em uma parede de tijolos. Mas pelo menos eu não estava morto.
Procurei ferimentos maiores. Quando se é um einherji, a gente fica especialista em identificar a própria dor. A gente pode estar cambaleando em um campo de batalha de Valhala, ferido mortalmente, prestes a dar o último suspiro, e ainda assim pensar calmamente: Ah, então é essa a sensação de ter a caixa torácica esmagada. Interessante!
Desta vez, eu tinha certeza de que havia quebrado o tornozelo esquerdo. O direito estava só torcido.
Coisa fácil de resolver. Conjurei o poder de Frey.
Como a luz do sol no verão, um calor se espalhou do meu peito até minhas pernas. A dor diminuiu. Eu não era tão bom em curar a mim mesmo quanto era em curar os outros, mas senti os tornozelos começando a melhorar, como se um bando de vespas simpáticas rastejasse sob minha pele, cobrindo as fraturas de lama, reconstituindo os ligamentos.
Ah, bem melhor, pensei enquanto flutuava pela escuridão fria. Mas tem outra coisa que eu devia estar fazendo… Ah, é. Respirando.
O cabo de Jacques cutucou minha mão como um cachorro querendo atenção. Fechei os dedos na empunhadura de couro e ele me puxou para cima, me tirando da água como uma Dama do Lago com propulsão a jato. Caí no convés do Old Ironsides, ofegante e trêmulo, ao lado dos meus amigos.
— Opa. — Percy deu um passo para trás. — Isso foi inusitado. Você está bem, Magnus?
— Estou — respondi, tossindo e parecendo um pato com bronquite.
Percy olhou as runas que brilhavam na espada.
— De onde veio essa espada?
— Oi, eu sou o Jacques! — apresentou-se Jacques.
Annabeth sufocou um grito.
— Ela fala?
Ela? — perguntou Jacques. — Ei, moça, exijo respeito. Sou Sumarbrander! A Espada do Verão! A arma de Frey! Existo há milhares de anos! E sou homem!
Annabeth franziu a testa.
— Magnus, quando me contou sobre sua espada mágica, acho que você se esqueceu de mencionar que ela… hum… que ele fala.
— Esqueci? — Sinceramente, eu não conseguia lembrar.
Nas semanas anteriores, Jacques saiu por aí sozinho, fazendo o que espadas mágicas sencientes fazem no tempo livre. Percy e eu praticávamos com espadas de treino padrão do Hotel Valhala. Não me ocorreu que Jacques poderia aparecer do nada e se apresentar. Além do mais, Jacques falar era a coisa menos estranha a respeito dele. Ele saber de cor todas as canções do musical Jersey Boysisso sim era esquisito.
Alex Fierro parecia estar tentando não rir. Ele estava de rosa e verde hoje, como sempre, embora eu nunca tivesse visto aquela combinação antes: coturnos, jeans rosado ultra skinny, camisa verde-limão para fora da calça e gravata xadrez, frouxa como se fosse um colar. Com seu Ray-Ban de armação preta e grossa e o cabelo verde repicado, parecia ter saído de uma capa de disco de new wave de 1979.
— Seja educado, Magnus — disse ele. — Apresente seus amigos para a sua espada.
— Hã, tá. Jacques, estes são Percy e Annabeth. Eles são semideuses gregos.
— Ah… — Jacques não pareceu impressionado. — Já conheci Hércules.
— Quem nunca? — murmurou Annabeth.
— É verdade — admitiu Jacques. — Mas acho que, se vocês são amigos do Magnus…
Jacques ficou totalmente imóvel. Suas runas se apagaram. Então pulou da minha mão e voou na direção de Annabeth, a lâmina estremecendo como se farejasse o ar.
— Onde ela está? Onde você escondeu a gata?
Annabeth recuou na direção da amurada.
— Opa, calma aí, espada. Não tão perto!
— Jacques, comporte-se — disse Alex. — O que você está fazendo?
— Ela está em algum lugar aqui — insistiu Jacques, voando até Percy. — Ahá! O que você tem no bolso, garoto do mar?
— Oi? — Percy pareceu meio nervoso com o fato de a espada mágica estar pairando perto da cintura dele.
Alex baixou os óculos.
— Agora eu fiquei curioso. O que é que você tem no bolso, Percy? A espada quer saber.
Percy tirou uma caneta esferográfica de aparência comum do bolso da calça.
— Você está falando disto?
— A-HA! — exclamou Jacques. — Quem é essa belezinha?
— Jacques — falei. — Isso é uma caneta.
— Não, não é. Eu quero ver! Me mostra!
— Hã… claro.
Percy tirou a tampa da caneta.
Na mesma hora ela se transformou em uma espada de noventa centímetros com uma lâmina de bronze brilhante em formato de folha. Em comparação a Jacques, ela parecia delicada, quase mignon, mas pela forma como Percy brandia a arma, eu não tinha dúvida de que ele seria capaz de se defender com aquela coisa nos campos de batalha de Valhala.
Jacques virou a ponta na minha direção, suas runas brilhando em vermelho-escuro.
— Viu só, Magnus? Eu disse que não era idiotice carregar uma espada disfarçada de caneta!
— Eu nunca disse que era, Jacques! — protestei. — Você disse.
Percy ergueu a sobrancelha.
— Do que vocês estão falando?
— Nada, não — respondi rapidamente. — Esse é o famoso Contracorrente? Annabeth me contou sobre ele.
— Sobre ela — corrigiu Jacques.
Annabeth franziu a testa.
— A espada do Percy é menina?
Jacques riu.
— Ah, .
Percy observou Contracorrente. Por experiência própria, eu poderia ter dito a ele que era quase impossível saber o gênero de uma espada só de olhar para ela.
— Hum… — disse ele. — Você tem certeza…?
— Percy — interrompeu Alex. — Respeite o gênero.
— Tudo bem, tá. Só é meio estranho eu descobrir isso agora.
— Por outro lado — comentou Annabeth —, você não sabia que dava para escrever com a caneta até o ano passado.
— Golpe baixo, Sabidinha.
— Enfim! — interrompeu Jacques. — O importante é que Contracorrente está aqui agora, é linda e me conheceu! Talvez a gente possa… sabe como é… ter um momento a sós para falar sobre, er, assuntos de espada?
Alex deu um sorrisinho.
— Parece uma ideia maravilhosa. Que tal a gente deixar as espadas se conhecendo enquanto vamos almoçar? Magnus, acha que consegue comer falafel sem engasgar?


32 comentários:

  1. AAAAAAAAAAHHHHHHHHHH!!! TAVA LOCA POR ESSE LIVRO MAU VIA A HORA DE LER. Karina-chan daisuki... Para os pobres como eu vc é a heroína maravilhinda.

    E começamos bem com os quatro de uma só vez, tio Rick sabe como agradar a gente né!!!

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    1. Pois é ❤
      Espero que goste do livro, Belle-chan!

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    2. Me desculpe, mas poderia me dizer a que "quatro" se refere?

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  2. — Por outro lado — comentou Annabeth —, você não sabia que dava para escrever com a caneta até o ano passado.


    A forma como o tempo passa é muito bizarra

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  3. Primeira a comentar!
    Muito ansiosa para os proximoa capitulos<3

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  4. Ahhhhhhhh esperei tanto! todos os dias eu dava uma olhadinha!
    Muito obrigada!!

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  5. Karina sua linda! Obrigado, obrigado e obrigado.
    Carol

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  6. Eu sabia que Jacques ia ficar de olho na contracorrente

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  7. Pera... DÁ PRA ESCREVER COM A CONTRACORRENTE!?

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    1. DÁ se colocar a tampa no outro lado da caneta, no punho da espada KKKKKKKK

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    2. SIM! Você não leu A Casa de Hades?

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  8. Mal posso esperar o que Pecy vai aprontar kkkkkk

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  9. Aquele encontro que esperávamos desde o primeiro livro do Magnus: Sumarbrander e Anaklusmos <3

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  10. Oi karina,eu estava doido pra ler esse livro e acaba que hoje é meu aniversário!!invejosos dirão que é mera coincidência mas eu sei que o livro foi postado hoje em minha homenagem kkkk
    Valeu karina você é demais!!!

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    1. Hahaha se é assim, espero que tenha gostado do presente!

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  11. SPQR= Sono Pazzi Quelli Romani o que significa: esses romanos são doidos

    Kkkkkkkkkk morri de rir kkkkkkkkkk😂

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  12. Um ano de espera recompensado com um começo desse: Percy, Annie, Magnus e Alex juntos. Além de um encontro entre as nossas espadas favoritas.Tio Rick sabe o que faz, e vc é demais, Karina. Vlw.

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    1. Imagina, Veronica! Espero que continue curtindo o livro :)

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  13. Kkkkkkjkkk só eu que ja tinha pensado nisso sobre cibtracorrenye e jacques no livro anterior???? E karina.... Ru queria saber quabdo voce vai comrcar a postar de novo harry potter.... Eu nao achei outro site pra ler.... Poderua responder?? Arigato!!

    ~Filha de Atena~

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    1. Então, Mi, não pretendo repostar :/ já publiquei os livros três vezes aqui, algumas vezes demorei meses pra repostar com esperanças de que tivessem se esquecido de nós, mas sempre excluíam... Desisti.

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    2. mil sua Hera eu ia levar o livro p vc ler!!!!!~le esfregar na cara q eu tenho)

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  14. Omz eu não acredito eu estava esperando essa cena a meses. Mas Tomara que o Percy e a Annabeth fiquem mais tipo até o fim do livro e não só poucos capítulos

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  15. Melhor descoberts do seculo.Serio,como o Percy nunca percebeu que contracorre te era menina,kkkk.Ah,esse Cabeça de alga

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  16. AI MINHA MORTE, TAVA LOUCA POR ISSO
    QUEM NUNCA, NÉ?

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  17. Damon Herondale(filho de Zeus)14 de outubro de 2017 12:16

    Primeiro cap e eu já to com falta de ar de tanto rir 😂😂😂😂😂😂😂😂😂😂😂😂😂😂😂😂😂

    Não sei se sobrevivo ao resto do livro 😕

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  18. Percy!!!!!😍😍😍😍😍😍

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  19. AI MEUS DEUSES KKKKKKKKKK
    Ami esse encontro.

    PS: Eu pulei o livro dois por já ter lido o mesmo

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  20. Cara o autor perdeu uma oportunidade de ouro. Poderia ter uma cena do treinamento de esgrima do Magnus onde ele aprenderia o golpe que o Luke ensinou pro Percy laaaaa no primeiro livro desse universo. Colocava o Percy falando a mesma coisa que o Luke disse pra ele: "é um movimento avançado" "consiste em fazer a espada do adversário girar" etc...... Ai era só acrescentar algo como "algo que um velho amigo me ensinou". Adoro quando os livros dialogam entre sí, trazem recordações do passado e mostra que isso ainda faz parte dos personagens. Nhé quem sabe na próxima o tio Ricky faz nois chora.

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  21. Não tenho palavras para descrever minha gratidão por você. Obrigada!

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Boa leitura :)