8 de outubro de 2017

Trinta - Fläm, bomba, valeu, mãe

UMA SENHORA IDOSA não era o inimigo que eu tinha em mente.
Nós andamos uns três quarteirões no meio de um bando de turistas, passando por lojas vendendo chocolate e linguiça de alce e pequenos trolls de madeira de souvenir. (Era de se pensar que qualquer um que descendesse dos vikings saberia que criar mais trolls era uma péssima ideia.) Quando passamos por um mercadinho, Mallory segurou meu braço com força suficiente para deixar um hematoma.
— É ela. — Ela cuspiu a palavra como se fosse veneno.
— Quem? — perguntou Sam. — Onde?
Mallory apontou para uma loja chamada Detalhista do Tricô, onde turistas estavam babando pela exposição de rolos de fio de lã da produção local. (A Noruega conseguia oferecer algo para todos os gostos.)
— A mulher de branco — disse Mallory.
Eu avistei a pessoa de quem ela estava falando. No meio da multidão havia uma mulher idosa com ombros arredondados e uma corcunda. A cabeça se inclinava para a frente como se quisesse fugir do corpo. O suéter branco tricotado era tão peludo que parecia algodão-doce, e na cabeça havia um chapéu combinando que dificultava a visão do rosto dela. Pendurada em um dos braços havia uma bolsa cheia de rolos de lã e agulhas de tricô.
Não entendi o que chamou a atenção de Mallory. Eu conseguiria facilmente apontar dez outras pessoas do cruzeiro com aparência mais estranha. Mas então, a velha senhora olhou na nossa direção. Os olhos brancos enevoados pareceram me perfurar, como se ela tivesse jogado as agulhas de tricô no meu peito como um ninja.
O grupo de turistas se moveu, envolvendo-a, e aquela sensação passou.
Engoli em seco.
— Quem era…?
— Venham! — disse Mallory. — Não podemos perdê-la de vista!
Ela foi na direção da loja. Samirah e eu nos entreolhamos preocupadas e fomos atrás.
Uma cidadã idosa vestida de algodão-doce não devia andar muito rápido, mas a mulher já estava a dois quarteirões de distância quando chegamos à loja. Nós corremos atrás dela, desviando de grupos de turismo, ciclistas e homens carregando caiaques. Mallory não nos esperou. Quando Sam e eu a alcançamos, ela estava agarrada a uma cerca de arame de um pequeno terminal de trens, xingando enquanto procurava sua presa perdida.
— Você encontrou o trem — notei.
Na plataforma, havia seis vagões antiquados e pintados de cores chamativas. Turistas estavam embarcando. Os trilhos saíam da estação e seguiam pelas colinas até a ravina.
— Onde ela está? — murmurou Mallory.
— Quem é ela? — perguntou Sam.
— Ali!
Mallory apontou para o último vagão, onde a vovó algodão-doce estava subindo.
— Nós precisamos de passagens — gritou Mallory. — Rápido!
— Nós temos que esperar os outros — disse Sam. — Combinamos com eles que nos encontraríamos…
— NÃO DÁ TEMPO!
Mallory quase assaltou Sam para pegar as coroas norueguesas. (O dinheiro tinha sido providenciado, claro, pela sempre solícita Alex.) Com muitos xingamentos e gestos expansivos, Mallory conseguiu comprar três passagens na bilheteria da estação, então passamos voando pela catraca e subimos a bordo do último vagão na hora que as portas estavam se fechando.
O vagão estava quente, abafado e lotado de turistas. Quando o trem começou a subir a encosta, pensei que a última vez em que fiquei enjoado assim foi… Bem, no dia anterior, quando estava assando aquele coração de dragão em Álfaheim. Não ajudou o fato de eu captar ocasionalmente trechos de pios de pássaros do lado de fora, conversas que eu ainda conseguia entender, a maioria sobre onde encontrar as minhocas e os insetos mais suculentos.
— Tudo bem, Mallory, explique — exigiu Sam. — Por que estamos seguindo aquela senhora?
Mallory seguiu lentamente pelo corredor, olhando o rosto dos passageiros.
— Ela é a mulher que me fez morrer. Ela é Loki.
Sam quase caiu no colo de um velhinho.
— O quê?
Mallory contou a versão resumida da história que tinha me contado alguns dias antes: que havia armado um carro-bomba, se arrependido, recebido uma visita de uma velha que a convenceu a voltar e desarmar a bomba usando duas facas superúteis que acabaram sendo superinúteis. E depois, ca-bum.
— Mas Loki? — perguntou Sam. — Tem certeza?
Eu entendia a ansiedade de Sam. Ela estava treinando para enfrentar o pai, mas não esperava que acontecesse ali, hoje. Enfrentar Loki não era uma aula na qual se quisesse um teste surpresa.
— Quem mais poderia ser? — Mallory franziu a testa. — Ela não está aqui. Vamos para o próximo vagão.
— E se a gente encontrar ele? — perguntei. — Ou ela?
Mallory desembainhou uma das facas.
— Já falei. Aquela mulher me fez morrer. Pretendo retribuir o favor.
No vagão seguinte, turistas se espremiam nas janelas para tirar fotos das ravinas, das cachoeiras e dos vilarejos pitorescos. Fazendas se espalhavam pelo vale em pequenas áreas quadradas. Montanhas projetavam sombras como o ponteiro de relógios solares. Toda vez que o trem fazia uma curva, a vista parecia mais bonita do que a anterior.
Samirah e eu parávamos toda hora, impressionados com a paisagem lá fora, mas Mallory não tinha interesse em coisas bonitas. A senhora também não estava no segundo vagão, então seguimos em frente.
No vagão seguinte, na metade do corredor, Mallory parou. As últimas duas fileiras da direita estavam organizadas em uma espécie de cantinho de socialização, com três assentos virados para trás e três para a frente. O restante do vagão estava lotado de gente, mas aquele cantinho estava vazio exceto pela velha. Ela estava virada na nossa direção, cantarolando baixinho enquanto tricotava, sem prestar atenção à vista e nem a nós.
Mallory trincou os dentes.
— Espere. — Sam segurou o braço dela. — Tem vários mortais neste trem. Que tal pelo menos confirmarmos que essa mulher é Loki antes de começarmos a matar e destruir tudo?
Se eu tivesse falado isso, acho que Mallory teria me acertado com o cabo da faca bem na virilha. Como foi Sam que pediu, ela embainhou a lâmina.
— Tudo bem — disparou ela. — Vamos tentar conversar com ela primeiro. Depois, vou matá-la. Feliz?
— Extasiada — disse Sam.
Isso não descrevia meu humor. Tenso e confuso chegavam mais perto. Mas segui as garotas quando se aproximaram da senhora de branco.
Sem levantar o olhar da peça de tricô, ela disse:
— Oi, queridos! Sentem-se, por favor.
A voz dela me surpreendeu. Era jovem e aveludada, como uma locutora de rádio de uma estação de propaganda em tempos de guerra tentando convencer soldados inimigos de que estava do lado deles.
Era difícil ver o rosto dela, e não só por causa do chapéu de abas largas. As feições cintilavam com uma luz branca enevoada, como o suéter. Ela parecia ter todas as idades ao mesmo tempo: menina, adolescente, mulher, senhora, todos os rostos existindo no presente como camadas de uma cebola transparente. Talvez ela não tivesse conseguido decidir qual glamour usar hoje e acabou usando todos.
Eu olhei para os meus amigos. Fizemos uma votação silenciosa.
Sentar?, perguntei.
Matar?, perguntou Mallory.
Sentar, ordenou Sam.
Nós nos sentamos nos três bancos na frente da senhora. Fiquei de olho nas agulhas, esperando que ela fizesse algum movimento abrupto e nos empalasse com elas, mas a mulher apenas continuou trabalhando na lã branca felpuda, fazendo o que parecia um cachecol de algodão-doce.
— E então? — disse Mallory com rispidez. — O que você quer?
A velha senhora riu com reprovação.
— Minha querida, isso é jeito de me tratar?
— Eu devia tratar você pior, Loki — rosnou Mallory. — Você me fez morrer!
— Mallory — disse Sam. — Não é o Loki.
O alívio na voz dela estava óbvio. Eu não tinha certeza de como Sam sabia, mas torcia para ela estar certa. Não havia espaço naquele vagão para brandir uma lança ardente de luz ou uma espada cantante.
O rosto de Mallory ficou vermelho.
— O que você quer dizer com não é o Loki?
— Mallory Audrey Keen — repreendeu a mulher. — Você realmente achou durante todos esses anos que eu era Loki? Que vergonha. Poucos seres nos nove mundos odeiam Loki tanto quanto eu.
Considerei isso uma boa notícia, mas quando fitei os olhos de Sam, percebi que ela tinha a mesma pergunta: Audrey?
Mallory tocou o cabo das facas como uma esquiadora se aproximando de um salto difícil.
— Você estava lá em Belfast — insistiu ela. — Em 1972. Você me deu essas facas inúteis, me falou para voltar correndo e desarmar a bomba naquele ônibus escolar.
Sam ofegou.
— Ônibus escolar? Você escolheu um ônibus escolar?
Mallory se esforçou para evitar nosso olhar. O rosto dela estava da cor de suco de cereja.
— Não sejam duros demais com ela — pediu a senhora. — Disseram para Mallory que o ônibus estaria cheio de soldados, não de crianças. Era dia vinte e um de julho. O Exército Republicano Irlandês estava plantando bombas por toda Belfast contra os britânicos; olho por olho, dente por dente, como costuma ser. Os amigos de Mallory queriam participar.
— Dois dos meus amigos tinham sido baleados pela polícia no mês anterior — murmurou Mallory. — Tinham quinze e dezesseis anos. Eu queria vingança. — Ela olhou para a frente. — Mas Loki era um dos rapazes na nossa gangue naquele dia. Tinha que ser. Eu ouço a voz dele desde então, me provocando nos meus sonhos. Sei como o poder dele pode seduzir…
— Ah, sim. — A velha continuou tricotando. — E você está ouvindo a voz dele agora?
Mallory piscou.
— Eu… acho que não.
A mulher sorriu.
— Você está certa, querida. Loki estava lá naquela sexta-feira, disfarçado de um de vocês, incitando seus amigos para ver quanto caos podia criar. Você era a mais furiosa do grupo, Mallory, a única que não falava só da boca pra fora. Ele sabia como manipular você.
Mallory encarou o piso de madeira. Ela oscilou com o sacolejar do trem. Às nossas costas, turistas ofegavam de admiração a cada vez que uma nova vista aparecia.
— Hã, senhora?
Eu não costumava me intrometer em conversas com mulheres divinas apavorantes, mas me sentia mal por Mallory. Apesar do que tinha feito no passado, ela parecia estar encolhendo com as palavras da mulher. Eu me lembrava dessa sensação muito bem do meu sonho mais recente com Loki.
— Se a senhora não é Loki, o que é ótimo, aliás, então quem é? Mallory disse que a senhora também estava lá no dia que ela morreu. Depois que ela armou a bomba, você apareceu e disse…
A intensidade do olhar da mulher me fez grudar na cadeira. Dentro das íris brancas, pupilas douradas brilhavam como pequenos sóis.
— Eu falei para Mallory aquilo de que ela já desconfiava — disse a mulher. — Que o ônibus estaria cheio de crianças e que ela tinha sido enganada. Eu a encorajei a seguir a própria consciência.
— Você me fez morrer! — exclamou Mallory.
— Eu te incentivei a se tornar uma heroína, Mallory — explicou a mulher calmamente. — E você se tornou uma. O IRA explodiu cerca de vinte outras bombas em Belfast no dia 21 de julho de 1972. Esse dia ficou conhecido como Sexta-Feira Sangrenta. Quão pior teria sido se você não tivesse agido?
Mallory franziu a testa.
— Mas as facas…
— … foram um presente meu para você — interrompeu ela —, para que morresse com lâminas nas mãos e fosse para Valhala. Eu acreditava que seriam úteis para você um dia, mas…
— Um dia? — perguntou Mallory. — Você podia ter mencionado essa parte antes de eu explodir tentando cortar os fios de uma bomba com elas!
A testa franzida da mulher pareceu emergir pelas camadas de idade, a menina, a mulher e, por fim, a velha.
— Meus poderes de profecia são de curto alcance, Mallory. Só consigo ver o que vai acontecer em vinte e quatro horas, mais ou menos. É por isso que estou aqui. Você vai precisar dessas facas. Hoje.
Sam se empertigou.
— Quer dizer… para nos ajudar a pegar o hidromel de Kvásir?
A mulher assentiu.
— Você tem bons instintos, Samirah al-Abbas. As facas…
— Por que deveríamos ouvir você? — perguntou Mallory. — O que quer que você nos mande fazer provavelmente vai nos matar!
A mulher colocou as agulhas de tricô sobre o colo.
— Querida, eu sou a deusa da previsão e do futuro imediato. Eu nunca diria a você o que fazer. Só estou aqui para dar as informações de que você precisa para fazer a melhor escolha. Quanto a por que você devia me ouvir, espero que me ouça porque eu te amo.
— VOCÊ ME AMA? — Mallory olhou para nós sem acreditar, como quem diz: Vocês estão ouvindo essa maluquice? — Eu nem sei quem você é!
— Claro que sabe, querida.
A forma da mulher tremulou. À nossa frente surgiu uma mulher de meia-idade de beleza majestosa, o cabelo comprido da mesma cor do de Mallory, dividido em duas tranças que caíam pelos ombros. O chapéu se tornou um elmo de guerra de metal branco, cintilando e tremeluzindo como gás néon. O vestido branco parecia feito do mesmo material, só que trançado em dobras suaves. Na bolsa de tricô, a lã tinha se tornado bolas rodopiantes de névoa. A deusa, percebi, estava tricotando com nuvens.
— Sou Frigga, rainha dos aesires — disse ela. — E sou sua mãe, Mallory Keen.

18 comentários:

  1. Isso - foi o mais chocante.

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  2. Por essa eu não esperava

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  3. Grande revelação da mãe da Mallory Keen!😮

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  4. Taa certo, essa me pegou de surpresa

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  5. Como só agora Mallory descobriu isso com tanto tempo em Valhala, com aquele negócio de adivinhação de paternidade? Só mesmo uma rainha finalmente decide dar o troco no marido infiel.

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    1. pensei a meeesma coisa

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    2. Damon Herondale(filho de Zeus)15 de outubro de 2017 20:19

      Não julgue as outras deusas-rainhas por causa daquele projeto perfeito de devil que os olimpianos infelizmente tem

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    3. Bem, isso foi surpreendente.

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    4. Assino em baixo da declaração do Damon-kun. Aquilo lá é só uma dor no ovo disfarçada de deusa-rainha.

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  6. Eu chutei todas as deuses nórdicas mas Frigga é um choque definitivamente

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  7. Eu estou mais chocada do que um pinto.

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  8. Damon Herondale(filho de Zeus)15 de outubro de 2017 20:23

    Quando ela falou que é uma deusa de previsão soube de cara q era Frigga
    Mas que ela é mãe da Mallory? Isso foi surpresa!
    Mallory Keen, a garota das facas, é filha da rainha de Asgard? Eu achava q ela era só uma mortal que teme uma morte heróica. A ficha ainda não caiu

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    1. Eu não tinha sacado na hora quem era, como vc mas tinha a mesma impressão de que a Mallory(é irrelevante, mas aqui no nordeste Mallory é uma marca de eletro domestico) era só uma mortal que morreu de forma heroica e não a filha da deusa-rainha. (°o°)

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    2. Comigo foi o contrário.
      O título do capítulo me deu um spoilerzinho. Fiquei imaginando se seria a mãe do Magnus que iria dar um oizinho, mas como ela estava morta e a disposição Sam era mortal, imaginei q seria a de Mellory...
      Só q eu n fazia A MENOR IDEIA d que FRIGGA era a deusa da previsão.

      Mas a Mellory n sabia quem era a mãe dela? De que ela era deusa?

      Ass.: Mutta Chase Herondale

      PS.: Já sabemos d onde vieram os cabelos ruivos d Thor.

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  9. Wow... altas revelações... nunca, na minha vida... eu nunca imaginaria que ela é filha de Frigga

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Boa leitura :)