8 de outubro de 2017

Trinta e um - Mallory ganha uma noz

VOCÊS SABEM COMO é. Você está lá, cuidando da própria vida, passeando de trem por uma ravina da Noruega, quando uma velhinha com agulhas de tricô se apresenta como sua mãe divina.
Se eu ganhasse uma coroa norueguesa toda vez que isso acontecia…
Quando Frigga deu a notícia, o trem parou de repente como se a própria locomotiva estivesse perguntando COMO É?
Pelos alto-falantes, um anúncio soou em inglês: alguma coisa sobre uma ótima oportunidade para tirar fotos de uma cachoeira. Não sei por que isso merecia uma parada, pois já tínhamos passado por umas cem cachoeiras lindas, mas todos os turistas se levantaram e saíram do vagão até ficarmos sozinhos: só Sam, Mallory, eu e a Rainha do Universo.
Mallory estava paralisada havia uns vinte segundos. Quando o corredor ficou vazio, ela se levantou de supetão e marchou até o fim do vagão, mas então pareceu decidir voltar e gritar para Frigga:
— Ninguém normal ANUNCIA uma coisa dessas do NADA!
Gritar com uma deusa não é uma boa ideia de modo geral. Você corre o risco de ser empalado, eletrocutado ou devorado por felinos gigantescos. (É coisa da Freya. Não perguntem.) Mas Frigga não pareceu se incomodar. Sua calma me fez questionar como ela podia ser a mãe da Mallory.
Agora que a aparência de Frigga tinha se firmado em uma imagem clara, eu vi cicatrizes leves sob os olhos brancos e dourados, marcando as bochechas como lágrimas. Em um rosto divinamente perfeito, as marcas eram incômodas, principalmente porque me lembravam outra deusa com cicatrizes similares: Sigyn, a estranha esposa muda de Loki.
— Mallory — disse Frigga. — Filha…
— Não me chame assim.
— Você sabe que é verdade. Desconfiava havia anos.
Samirah engoliu em seco, como se nos últimos minutos tivesse esquecido como engolir.
— Espere. Você é Frigga. Esposa de Odin. A sra. Odin. A Frigga.
A deusa riu.
— Até onde sei, querida, sou a única Frigga. Não é um nome muito popular.
— Mas… ninguém nunca vê você. — Sam tateou as roupas como se estivesse procurando uma caneta para pedir um autógrafo. — Quer dizer… nunca. Não conheço uma única valquíria ou um único einherji que tenha conhecido você. E Mallory é sua filha?
Mallory ergueu as mãos.
— Pode parar de dar ataque de fangirl, valquíria?
— Mas você não vê…?
— … mais um parente pilantra? Vejo, sim. — Keen fechou a cara para a deusa. — Se você é minha mãe, não é muito melhor do que meu pai.
— Ah, criança. — A voz de Frigga ficou pesada. — Seu pai não era tão ruim como quando você o conheceu. Sinto muito por você nunca ter visto ele da forma que eu vi, antes da bebida e dos ataques de raiva.
— Ah, teria sido incrível. — Mallory piscou os olhos avermelhados. — Mas, como você pediu desculpas, tudo está perdoado!
— Mallory — repreendeu Sam —, como você pode ser tão insensível? Ela é sua mãe. Frigga é sua mãe!
— É, eu ouvi.
— Mas… — Sam balançou a cabeça. — Isso é bom!
— Sou eu quem decido isso.
Mallory se sentou na cadeira, cruzou os braços e franziu a testa para as nuvens na bolsa de tricô da mãe.
Eu tentei identificar as similaridades entre mãe e filha. Fora o cabelo ruivo, não consegui. A presença de Frigga era gentil e leve como suas nuvens brancas. Irradiava calma, tranquilidade e melancolia. Mallory estava mais para um redemoinho; agitação e fúria. Apesar do elmo de guerra da deusa, eu não conseguia imaginar Frigga brandindo duas facas, assim como não conseguia imaginar Mallory sentada em silêncio, tricotando um cachecol de nuvem.
Eu entendia por que Mallory estava com raiva. Mas também entendia o anseio na voz de Samirah. Sam e eu tínhamos perdido nossas mães. Daríamos qualquer coisa para tê-las de volta. Ganhar uma mãe, mesmo uma que tivesse esperado mais de cinquenta anos para se revelar… Não era de se jogar fora à toa.
Do lado esquerdo do trem, uma música entrou pelas janelas abertas. Em algum lugar próximo, uma mulher estava cantando.
Frigga inclinou a cabeça.
— Ah… É só uma cantora mortal cantando para os turistas. Ela está fingindo ser um espírito da cachoeira. Mas não é uma nøkk de verdade.
Estremeci.
— Que bom.
— É bom mesmo — disse Frigga. — Vocês já vão enfrentar muitos desafios hoje com os escravos do gigante.
Sam se inclinou para a frente.
— Escravos?
— Infelizmente, sim — respondeu Frigga. — Os escravos do gigante Baugi protegem o hidromel. Para derrotá-los, vocês vão precisar da pedra que está com minha filha.
A mão de Mallory foi até o bolso do casaco. Eu tinha esquecido que ela estava carregando a pedra de amolar. Aparentemente, ela também.
— Não gosto da ideia de lutar com escravos — retrucou Mallory. — Também não gosto que você fique me chamando de filha. Você não conquistou esse direito. Ainda não. Talvez nunca.
Nas bochechas de Frigga, as cicatrizes de lágrimas cintilaram como veias prateadas.
— Mallory… nunca é muito tempo. Eu aprendi a não tentar olhar tão longe no futuro. Sempre que tento… — Ela suspirou. — Há apenas tragédias, como o que aconteceu com meu pobre filho Balder.
Balder, pensei. Quem era Balder mesmo? Para lidar com deuses nórdicos, eu realmente precisava de um livreto com figurinhas coloridas e brilhantes de todos os jogadores, junto com as estatísticas da temporada.
— Ele morreu? — eu chutei.
Sam me cutucou, apesar de eu achar que era uma pergunta perfeitamente legítima.
— Ele era o mais lindo dos deuses — explicou Sam. — Frigga sonhou com o dia de sua morte.
— Então tentei impedir. — Frigga pegou as agulhas. Ela deu um ponto de vapor de nuvem. — Fiz com que tudo nos nove mundos prometesse não fazer mal ao meu filho. Pedi a cada tipo de pedra. A cada tipo de metal. Pedi à água salgada e à água doce. Ao ar. Até ao fogo. O fogo foi difícil de convencer. Mas tem muitas, muitas coisas nos nove mundos. Perto do final… eu admito que fiquei cansada e distraída. Negligenciei uma plantinha, o visgo. Quando percebi meu furo, pensei: Ah, não importa. O visgo é pequeno demais e insignificante demais para fazer mal a Balder. Mas então, claro, Loki descobriu…
— Eu me lembro dessa parte — disse Mallory, ainda olhando para o saco de nuvens. — Loki enganou um deus cego e fez com que ele matasse Balder com um dardo de visgo. O que quer dizer que Loki assassinou… meu irmão.
Mallory saboreou a palavra, experimentando-a. Pela expressão dela, concluí que não gostou.
— Então, mamãe querida, você falha espetacularmente com todos os filhos? Eu achava que era especial.
Frigga franziu a testa, e uma nuvem de tempestade pareceu escurecer as íris brancas. Desejei que os assentos fossem maiores para eu poder me afastar de Mallory.
— A morte de Balder foi uma lição difícil — disse a deusa. — Eu aprendi que até a rainha dos aesires tem limites. Se me concentrar, consigo desvendar o destino de qualquer ser vivo. Consigo até manipular o wyrd, até certo ponto. Mas apenas em curto prazo; vinte e quatro horas, às vezes menos. Se tentar olhar além, se tentar avaliar o destino mais distante de alguém…
Ela separou as agulhas. O tricô se desfez em filetes de vapor.
— Você pode me odiar, Mallory — continuou Frigga. — Mas é doloroso demais para mim visitar meus filhos, ver o que vai acontecer com eles e não poder impedir. É por isso que eu só apareço em ocasiões em que sei que posso fazer diferença. Hoje, para você, é uma dessas vezes.
Mallory parecia estar em dúvida: continuar com raiva ou saciar a curiosidade?
— Tudo bem, desisto — cedeu ela. — Qual é meu futuro?
Frigga apontou pela janela à nossa direita. Minha visão se projetou em zoom pelo vale. Se eu não estivesse sentado, teria caído. Achei que Frigga estava aprimorando meus sentidos, me dando uma clareza momentânea de nível Heimdall.
Na base de uma montanha de granito, uma saliência na rocha dividia uma cachoeira como se fosse a proa de um navio. No centro da pedra, entre duas cortinas brancas de água e espuma, eu notei um par enorme de portas de ferro.
E na frente dessas portas, em uma faixa de terra entre os rios, havia um campo de trigo. Nove homens corpulentos, usando coleiras de ferro e tangas, trabalhavam no campo, balançando as foices como um esquadrão de ceifadores.
Minha visão voltou ao normal. Ao olhar pelo vale, agora eu só conseguia ver o ponto em que a cachoeira se bifurcava, a talvez uns quinze quilômetros dali.
— É para lá que vocês devem ir — disse Frigga. — Basta seguir esta trilha.
Ela apontou para a base dos trilhos do trem. Abaixo da janela, uma faixa de cascalho ziguezagueava pela encosta. Chamar de trilha era generosidade. Eu teria chamado de queda mortal.
— Hoje, Mallory — anunciou a deusa —, você vai precisar dessas facas e da sua inteligência. Você é a chave para obter o hidromel de Kvásir.
Mallory e Sam pareciam enjoadas. Achei que elas também tinham experimentado gratuitamente a visão de Heimdall.
— Que tal ser um pouco mais vaga? — comentou Mallory.
Frigga deu um sorriso triste.
— Você tem o espírito ardente do seu pai, querida. Espero que consiga dominá-lo e usá-lo como ele não conseguiu. Você tem tudo de que precisa para pegar o hidromel, mas tem um último presente que posso dar a você, uma coisa que vai ajudar quando finalmente enfrentarem Loki. Como aprendi quando subestimei o visgo… até as menores coisas podem fazer uma enorme diferença.
Ela enfiou a mão na sacola e tirou uma esfera pequena, marrom e murcha… Uma castanha? Uma noz? Uma das grandes. Ela abriu as duas metades e mostrou que a casca estava vazia, depois as fechou de novo.
— Se Magnus derrotar Loki nos insultos, vocês podem aprisionar aquele traiçoeiro nesta casca.
— Espera, se? — perguntei. — Você não consegue ver meu futuro?
A deusa fixou o olhar branco e vazio em mim.
— O futuro é frágil, Magnus Chase. Às vezes, revelar o destino de uma pessoa pode bastar para esse destino se estilhaçar.
Engoli em seco. Parecia que um tom agudo estava reverberando nos meus ossos, pronto para quebrá-los como vidro.
— Tudo bem. Não quero estilhaçar nada.
— Se você derrotar Loki — continuou Frigga —, traga ele de volta para os aesires e vamos lidar com aquele trapaceiro.
Pelo tom da voz de Frigga, eu duvidava que os aesires planejassem dar a Loki uma festa de boas-vindas.
Ela jogou a noz.
Mallory a pegou com a ponta dos dedos.
— Meio pequena para um deus, não é?
— Não vai ser, se Magnus conseguir — disse Frigga. — O navio Naglfar ainda não zarpou. Vocês têm pelo menos vinte e quatro horas. Talvez quarenta e oito. Depois disso…
O sangue latejava nos meus ouvidos. Eu não via como poderíamos fazer tudo que precisávamos fazer em dois dias, muito menos em um. Eu definitivamente não via como podia insultar Loki até ele ficar do tamanho de uma noz.
O apito do trem soou, um som suplicante como o de um pássaro chamando o companheiro morto. (Podem acreditar, eu entendo cantos de pássaros.) Os turistas começaram a voltar para o trem.
— Eu tenho que ir — disse Frigga. — E vocês também.
— Você acabou de chegar. — A careta de desprezo de Mallory aumentou. Sua expressão ficou mais dura. — Mas tudo bem. Você que sabe. Vá embora.
— Ah, querida… — Os olhos de Frigga ficaram enevoados, a luz diminuindo nas pupilas douradas. — Eu nunca estou longe, mesmo você não me vendo. Nós vamos nos encontrar de novo… — Uma nova lágrima escorreu pelo caminho marcado na bochecha esquerda. — Até lá, confie em seus amigos. Você está certa: eles são mais importantes do que qualquer item mágico. E aconteça o que acontecer, quer você escolha acreditar ou não, eu te amo.
A deusa se dissolveu, com sacola de tricô e tudo, deixando uma camada de condensação na cadeira.
Os turistas voltaram para o vagão. Mallory ficou olhando para a marca úmida deixada pela mãe divina, como se torcesse para que as gotas de água pudessem se reconstituir em uma coisa que fizesse sentido: um alvo, um inimigo, até mesmo uma bomba. Uma mãe que aparecia do nada e declarava eu te amo, isso era algo que nenhuma faca, nenhuma inteligência e nenhuma casca de noz podia ajudá-la a conquistar.
Eu me perguntei se podia dizer alguma coisa que a fizesse se sentir melhor. Mas duvidava muito. Mallory respeitava ações, não papo-furado.
Aparentemente, Sam chegou à mesma conclusão.
— A gente tem que ir — disse ela —, antes que…
O trem começou a se mover. Infelizmente os turistas ainda estavam indo para seus assentos, bloqueando o corredor. Nós nunca conseguiríamos abrir caminho até a porta antes que o trem voltasse à velocidade máxima e deixasse a trilha da montanha para trás.
Sam olhou para a janela aberta à nossa direita.
— Que tal outra saída?
— Isso é suicídio — afirmei.
— Típico — corrigiu Mallory.
Ela foi na frente e pulou pela janela de um trem em movimento.


6 comentários:

  1. Uma das melhores mães até hoje.

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    1. Damon Herondale(filho de Zeus)15 de outubro de 2017 20:42

      Se tratando de mães divinas, acho que Frigga é a melhor(não consigo pensar em nenhuma outra tão boa)

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    2. Realmente, Frigga é uma fofa, mas fico triste por ela pela morte de Balder, perder um filho deve ser horrível.

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  2. [...] Para lidar com deuses nórdicos, eu realmente precisava de um livreto com figurinhas coloridas e brilhantes de todos os jogadores, junto com as estatísticas da temporada

    Acredite Magnus, não é só você...

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  3. Atena não era tão rim assim não, mas para pai eu acho que ainda não teve um melhor que Hades, a forma como é cuida dos filhos dele é a menos dolorosa até agora (além de dar presentes legais).

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  4. Eu só consigo imaginar o Loki e o Magnus se insultando assim:
    Loki:sua mãe era tão gorda que quando ia acampar tinha que usar cinco barracas
    Magnus: e você é tão feio, que a cobra não pingava veneno no seu rosto, ela vomitava porque tinha que olhar para você.

    Ask_sabidinha

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Boa leitura :)