8 de outubro de 2017

Trinta e três - Nós elaboramos um plano horrivelmente fabuloso

ESTRATÉGIA PRA QUÊ?
Subimos a colina e nos vimos na beirada de um campo de trigo de vários hectares. O trigo era mais alto do que nós, o que seria perfeito para passarmos despercebidos se os caras que estavam trabalhando no campo não fossem ainda mais altos: nove gigantes, todos com foices. O grupo me lembrava a fase de um jogo de videogame que joguei com T.J. uma vez, mas não tinha desejo de tentar encarar aquela aventura usando meu corpo real.
Cada escravo tinha uma coleira de ferro no pescoço. Fora isso, eles não ostentavam nada além de tangas e um montão de músculos. A pele cor de bronze, o cabelo desgrenhado e a barba pingavam de suor. Apesar do tamanho e da força, pareciam ter dificuldade de cortar o trigo. A passagem das lâminas fazia as plantas se inclinarem e produzirem um som igual ao de uma gargalhada antes de voltarem à posição original. A infelicidade dos escravos parecia quase tão grande quanto o seu fedor… e eles tinham um fedor como o das sandálias de Mestiço Gunderson.
Além do campo de trigo ficava a cachoeira bifurcada. Na face do penhasco havia um par de portas de ferro enormes.
Antes de dar tempo de dizer Droga, Mallory, o escravo mais próximo, que tinha uma cabeleira ruiva mais impressionante que a da srta. Keen, farejou o ar, se empertigou e se virou para nós.
— Ho, ho!
Os outros oito pararam de trabalhar e se viraram para nós, acrescentando “Ho, ho! Ho, ho! Ho, ho!” como um bando de aves estranhas.
— O que temos aqui? — perguntou o escravo ruivo.
— O que será? — perguntou outro, com um rosto tatuado impressionante.
— O que será? — perguntou um terceiro, talvez para o caso de não termos ouvido o tatuado.
— Vamos matar todos? — perguntou o ruivo aos colegas.
— É, provavelmente — concordou o tatuado.
— Esperem! — gritei antes que pudessem fazer uma votação, que eu tinha a sensação de que seria unânime. — Viemos por um motivo muito importante…
— … que não envolve nossa morte — acrescentou Sam.
— Bem pensado, Sam!
Eu assenti vigorosamente, e os escravos assentiram junto, aparentemente impressionados com a minha seriedade.
— Conte para eles por que estamos aqui, Mac!
Mallory me lançou seu olhar padrão de “vou te estripar depois com as minhas facas”.
— Bom, Zé-Ninguém, nós estamos aqui para… para ajudar esses gentis cavalheiros!
O jötunn mais próximo, o ruivo, franziu a testa para a foice. A lâmina curva de ferro estava quase tão corroída quanto Jacques quando eu o tirei do rio Charles.
— Não sei como vocês poderiam ajudar — retrucou o ruivo. — A não ser que façam a colheita para nós. Nosso mestre só nos deu lâminas cegas.
Os outros murmuraram em concordância.
— E os caules do trigo são duros como pedra! — bradou o tatuado.
— E tem mais! — disse outro escravo. — O trigo volta a crescer assim que cortamos! Só podemos descansar quando todo o trigo estiver cortado, mas… nunca conseguimos terminar!
O ruivo assentiu.
— É quase como se… — O rosto dele ficou sombrio com o esforço. — Como se nosso mestre não quisesse que a gente descansasse nunca.
Os outros assentiram, ponderando sobre essa teoria.
— Ah, sim, seu mestre! — disse Mallory. — Quem é mesmo?
— Baugi — respondeu o ruivo. — O grande lorde dos gigantes da pedra! Ele foi para o norte se preparar para o Juízo Final.
Ele disse isso como se Baugi tivesse ido ao mercado comprar leite.
— Ele é um mestre rigoroso — comentou Mallory.
— É! — concordou o tatuado.
— Não — disse o ruivo.
Os outros deram seus palpites.
— Não. Não, nem um pouco! Ele é gentil e bom!
Eles olharam com desconfiança de um lado para outro, como se o mestre pudesse estar escondido no trigo.
Sam pigarreou.
— Baugi deu algum outro dever para vocês?
— Ah, sim! — disse um escravo mais para trás. — Nós protegemos as portas! Para que ninguém pegue o hidromel de Suttung nem liberte o prisioneiro!
— Prisioneiro? — perguntei. — Suttung?
Nove cabeças assentiram solenemente. Eles seriam uma ótima turma de jardim de infância se o professor conseguisse arrumar livros de colorir e giz de cera suficientemente grandes.
— Suttung é o irmão do mestre — disse o ruivo. — Ele é dono do hidromel e do prisioneiro da caverna.
Outro servo gritou:
— Você não pode dizer o que tem na caverna!
— Isso mesmo! — O ruivo ficou ainda mais vermelho. — Suttung é dono do hidromel e do prisioneiro que… pode ou não estar na caverna.
Os outros escravos assentiram, aparentemente satisfeitos pela desculpa do ruivo.
— Se alguém tentar passar por nós — disse o tatuado —, podemos interromper o corte do trigo por tempo suficiente para matar os invasores.
— Então — continuou o ruivo —, se vocês não vieram cortar o trigo, a gente pode matar vocês? Seria tão útil! Uma pausa cairia bem!
— Pausa para matar? — perguntou um deles mais atrás.
— Pausa para matar! — disse outro.
O restante deles se juntou ao grito.
Nove gigantes gritando pausa para matar era uma coisa que me deixava meio tenso. Pensei em ordenar que Jacques cortasse o trigo para os escravos, mas isso ainda nos deixaria diante de nove sujeitos enormes com ordens para matar invasores. Jacques talvez conseguisse matar os nove gigantes antes que eles fizessem o mesmo com a gente, mas eu não gostava a ideia de fazer picadinho de escravos quando podia fazer picadinho do mestre deles.
— E se nós libertássemos vocês? — perguntei. — Vamos fazer um exercício de imaginação. Vocês se voltariam contra seu mestre? Voltariam para sua terra natal?
Os gigantes ficaram com expressões sonhadoras.
— Talvez a gente fizesse essas coisas — concordou o tatuado.
— E nos ajudariam? — perguntou Sam. — Ou pelo menos nos deixariam em paz?
— Ah, não! — disse o ruivo. — Primeiro a gente mataria vocês. A gente adora matar humanos.
Os outros oito assentiram com entusiasmo.
Mallory olhou para mim de cara feia como quem diz: Eu te disse.
— Também, só a título de imaginação, nobres escravos, se lutássemos com vocês seríamos capazes de matá-los?
O ruivo riu.
— Que engraçado! A resposta é não. Estamos sob feitiços mágicos poderosos. Baugi é um grande feiticeiro! Nós não podemos ser mortos por ninguém, só uns pelos outros.
— E nós gostamos uns dos outros! — exclamou outro escravo.
— É! — disse um terceiro.
Os gigantes começaram a se juntar para um abraço em grupo, mas pareceram lembrar que estavam segurando foices.
— Muito bem, então! — Os olhos de Mallory brilharam como se ela tivesse tido uma ideia maravilhosa que eu ia odiar. — Sei exatamente como podemos ajudar vocês!
Ela enfiou a mão no bolso do casaco e tirou a pedra de amolar.
— Ta-dá!
Os servos não pareceram impressionados.
— É uma pedra — disse o ruivo.
— Ah, não, meu amigo gigante — retrucou Mallory. — Esta pedra de amolar pode afiar magicamente qualquer lâmina e deixar seu trabalho bem mais fácil. Posso mostrar?
Ela esticou a mão vazia. Depois de alguns minutos observando, o ruivo se pronunciou:
— Ah, você quer minha foice?
— Para amolar — explicou Sam.
— Para que… eu possa trabalhar mais rápido?
— Isso mesmo.
— Hum…
O ruivo entregou a arma.
A foice era enorme, então nós três tivemos que trabalhar juntos para conseguir amolá-la. Eu segurei o cabo. Sam segurou a lâmina no chão enquanto Mallory passava a pedra nas beiradas. Fagulhas voaram. A ferrugem sumiu. Em alguns movimentos, os dois lados da lâmina da foice brilhavam como novos à luz do sol.
— Próxima foice, por favor! — disse Mallory.
Em pouco tempo, os nove gigantes tinham armas afiadas e brilhantes.
— Agora — disse Mallory —, tentem usá-las no campo!
Os escravos começaram a trabalhar, e o trigo era cortado como se fosse papel de embrulho. Em questão de minutos, o campo todo tinha sido colhido.
— Incrível! — exclamou o ruivo.
— Viva! — disse o tatuado.
Os outros servos comemoraram e gritaram.
— Finalmente podemos beber água!
— Vou poder almoçar! — exclamou outro.
— Estou precisando fazer xixi há quinhentos anos! — disse um terceiro.
— Vamos conseguir matar os invasores agora! — comemorou um quarto.
Que ódio desse cara.
— Ah, sim. — O ruivo franziu a testa para nós. — Peço desculpas, meus novos amigos, mas ao nos ajudar vocês invadiram o campo do nosso mestre, então não são nossos amigos e teremos que matar vocês.
Eu não era fã da lógica dos gigantes. Por outro lado, tínhamos acabado de dar a nove inimigos armas enormes e afiadas com as quais nos matar, então eu não podia falar nada.
— Esperem, rapazes! — gritou Mallory, balançando a pedra. — Antes de vocês nos matarem, precisam decidir quem vai ficar com a pedra!
O ruivo franziu a testa.
— Quem vai… ficar com a pedra?
— Ah, sim — disse Mallory. — Porque, vejam, o campo já está crescendo novamente!
E realmente, os cotocos de trigo já estavam chegando aos tornozelos dos gigantes.
— Vocês vão precisar da pedra de amolar para manterem as lâminas afiadas — continuou Mallory. — Senão, elas vão ficar cegas de novo. O trigo vai voltar ao tamanho de antes, e vocês não vão mais poder fazer pausas.
— E isso seria ruim — concluiu o ruivo.
— Com certeza — concordou Mallory. — E vocês não podem compartilhar a posse da pedra. Ela só pode pertencer a um de vocês.
— É verdade? — perguntou o tatuado. — Por quê?
Mallory deu de ombros.
— Essas são as regras.
O ruivo assentiu com sabedoria.
— Acho que podemos confiar nela. Ela tem cabelo ruivo.
— Perfeito! — exclamou Mallory. — Quem fica com ela?
Os nove servos gritaram:
— EU!
— Tenho uma ideia — disse Mallory. — Vou jogar a pedra para cima. Quem pegar fica com ela.
— Parece justo — concordou o ruivo.
Percebi o que estava prestes a acontecer um pouco tarde demais.
— Mallory… — disse Sam, nervosa.
Mallory jogou a pedra para o alto. Os nove gigantes correram para pegar e caíram uns em cima dos outros segurando lâminas afiadas e compridas. Em uma situação como essa, o desfecho é uma pilha enorme de gente morta.
Sam observava de olhos arregalados.
— Uau. Mallory, isso foi…
— Você tinha uma ideia melhor? — disparou Mallory.
— Não estou criticando. Eu só…
— Eu matei nove gigantes usando uma única pedra. — A voz de Mallory estava rouca. Ela piscou como se as fagulhas da pedra de amolar ainda voassem na direção de seus olhos. — Acho que foi um bom dia de trabalho. Agora, venham. Está na hora de abrir aquelas portas.


13 comentários:

  1. Uau. Ela foi bem prática.

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  2. Mallory é tipo a Annabeth desse livro, bons planos vindo do nada 👏

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  3. Mallory eu te amo♡♡♡

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  4. Quem é a filha de Loki aqui?

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  5. Que personagem pode ser esse prisioneiro

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  6. Damon Herondale(filho de Zeus)15 de outubro de 2017 21:09

    E deixaram a pedra de Bolverk, a melhor pedra de amolar, largada lá no meio de cadáveres de gigantes?
    O segundo desperdício que eles fazem

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    1. Não acho que eles pensam muito nas provisões para o amanhã!!!

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    2. Realmente, não foi nada inteligente.

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  7. Amo essa lógica implacável (e fria)da Mallory.

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  8. Cara, aqueles gigantes eram tão bobinhos que eu fiquei com dó deles terem morrido, principalmente por serem escravos

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Boa leitura :)