8 de outubro de 2017

Trinta e seis - A balada de Mestiço, o herói do buraco

NOSSA TRIPULAÇÃO TINHA derrotado o outro gigante.
Eu percebi por causa do corpo maltratado e decapitado de um gigante caído na praia perto da doca. A cabeça não estava em lugar nenhum. Alguns pescadores contornavam o corpo com a mão no nariz. Talvez achassem que o gigante era uma baleia morta.
Samirah estava sorrindo na doca.
— Bem-vindo de volta, Magnus! Estávamos ficando preocupados.
Tentei retribuir o sorriso.
— Que nada. Eu estou bem.
Contei o que tinha acontecido com os corvos e Suttung.
A caminhada de volta para o navio até que foi agradável: só eu e Jacques apreciando as campinas e estradas rurais da Noruega. No caminho, bodes e pássaros fizeram comentários críticos sobre minha higiene pessoal, mas não podia culpá-los. Eu parecia ter andado por metade do país e rolado pela outra metade.
— Garoto! — Blitzen veio correndo pela prancha de acesso, com Hearthstone logo atrás. — Estou tão feliz que você está bem… Ah, eca! — Blitz recuou rapidamente. — Você está fedendo como aquela caçamba de lixo da rua Park.
— Obrigado. Era o cheiro que eu queria mesmo.
Não dava para ter muita certeza sobre a condição de Blitz porque ele estava com a rede de proteção contra o sol, mas a voz parecia alegre.
Hearthstone estava bem melhor, como se um dia inteiro de sono tivesse neutralizado o efeito das nossas experiências em Álfaheim. O lenço rosa e verde de Alex caía com elegância pelas lapelas pretas de couro.
A pedra foi útil?, sinalizou ele.
Pensei na pilha de corpos que deixamos no vale. Nós conseguimos o hidromel, eu sinalizei. Não teríamos conseguido sem a pedra de amolar.
Hearth assentiu, aparentemente satisfeito.
Você está fedendo.
— Já ouvi dizer. — Eu indiquei o corpo do gigante. — O que aconteceu aqui?
— Aquilo — disse Sam, os olhos brilhando — foi obra de Mestiço Gunderson. — Ela gritou para o convés do navio: — Mestiço!
O berserker estava tendo uma conversa acalorada com T.J., Alex e Mallory. Ele pareceu aliviado de ir até a amurada.
— Ah, aí está ele! — disse Mestiço. — Magnus, você pode explicar para T.J. que aqueles escravos tinham que morrer? Ele está pegando no pé da Mac por causa disso.
Três coisas chamaram minha atenção:
O apelido Mac tinha sido oficialmente adotado.
Mestiço estava defendendo Mallory Keen.
E, é claro. Fazia sentido que T.J., por ser filho de uma escrava livre, pudesse ter um probleminha por termos matado nove escravos.
— Eles eram gigantes — disse T.J., a voz carregada de raiva. — Eu entendo o que aconteceu. Eu entendo a explicação. Mas… vocês mataram todos. Vocês não podem esperar que eu aceite isso bem.
— Eles eram jötunns! — exclamou Mestiço. — Nem eram humanos!
Blitz pigarreou.
— Um gentil lembrete, berserker: Hearth e eu também não somos humanos.
— Ah, vocês entenderam o que eu quis dizer. Não acredito que estou dizendo isso, mas Mac fez a coisa certa.
— Não me defenda — disparou Mallory. — Só piora as coisas. — Ela se virou para Thomas Jefferson Jr. — Sinto muito que tenha que ter sido assim, T.J. De verdade. Foi horrível.
T.J. hesitou. Era tão raro Mallory se desculpar que, quando fazia isso, o ato era carregado de significado. T.J. assentiu com ressentimento; nem tudo estava bem, mas ele pelo menos consideraria as palavras dela. Ele fez cara feia para Mestiço, mas Mallory colocou a mão no ombro do infante. Eu me lembrei do que Sam tinha dito sobre T.J. e Mestiço já terem sido inimigos. Agora, eu conseguia ver quanto eles precisavam de Mallory para continuar na mesma equipe.
— Vou lá para baixo. — T.J. olhou para o cadáver do gigante. — O ar está mais fresco lá.
Ele se afastou.
Alex estufou as bochechas.
— Sinceramente, acho que vocês não tiveram muita escolha, mas vão ter que dar um tempo para T.J. Ele já estava chateado por termos passado a manhã inteira andando de um lado para outro e só termos encontrado turistas e souvenirs de trolls.
Blitzen grunhiu.
— Pelo menos temos o hidromel agora. Não foi tudo por nada.
Eu esperava que ele estivesse certo. Se eu ia conseguir derrotar Loki no vitupério… apenas o tempo diria, e eu tinha a sensação de que, por mais mágico que o hidromel fosse, meu sucesso ia depender de mim. Só que eu era a pior pessoa com quem podia contar.
— Mas e esse gigante? — perguntei, ansioso para mudar de assunto. — Ele é Baugi, não é? Como vocês o mataram?
Todos olharam para Mestiço.
— Ah, parem com isso! — protestou Mestiço. — Vocês ajudaram bastante.
Hearthstone sinalizou: Blitz e eu dormimos o tempo todo.
— T.J. e eu tentamos lutar com ele — admitiu Alex. — Mas Baugi jogou um prédio em cima da gente.
Ela apontou para a costa. Eu não tinha reparado antes, mas um dos lindos chalés azuis de Fläm tinha sido arrancado da rua principal – onde agora havia um buraco que mais parecia um dente faltando – e jogado na praia, onde a casinha desmoronou como uma boia inflável murcha. Eu não fazia ideia de como os moradores interpretavam isso, mas ninguém parecia estar correndo em círculos, gritando de pânico.
— Quando voltei para o navio — disse Sam —, o gigante estava em meu encalço. Eu só tive energia para explicar o que estava acontecendo. Mestiço assumiu a partir daí.
O berserker parecia infeliz.
— Vocês estão exagerando.
— Exagerando? — Sam se virou para mim. — Baugi pousou no meio da cidade, assumiu forma de gigante, e saiu batendo o pé e berrando ameaças.
— Ele chamou Fläm de buraco imundo — resmungou Mestiço. — Ninguém diz isso sobre a minha cidade.
— Mestiço partiu para cima dele — continuou Sam. — Baugi tinha uns doze metros…
— Quatorze — corrigiu Alex.
— … e tinha uma camada de glamour nele, deixando tudo ainda mais apavorante.
— Tipo o Godzilla — sugeriu Alex. — Ou talvez meu pai. Tenho dificuldade de diferenciar os dois.
— Mas Mestiço foi para cima mesmo assim — continuou Sam —, gritando Por Fläm!
— Não é o melhor grito de guerra — admitiu Gunderson. — Para a minha sorte, o gigante não era tão forte quanto parecia.
Alex riu com escárnio.
— Ele era bem forte. Você que… bem, surtou. — Alex fechou as mãos em concha em volta da boca como se fosse me contar um segredo. — Esse cara é assustador quando entra no modo berserker. Ele literalmente fez picadinho dos pés dele. E aí, quando Baugi caiu de joelhos, Mestiço cuidou do resto dele.
Gunderson pigarreou.
— Ah, pare com isso, Fierro, foi você que usou seu garrote na cabeça dele. Ela saiu voando… — ele indicou o fiorde — … para aquele lado.
— Baugi já estava quase morto nessa hora — insistiu Alex. — Estava quase tombando. Foi o único motivo para a cabeça ter voado para tão longe.
— Bom — disse Mestiço —, ele está morto. É só o que importa.
Mallory cuspiu pela lateral do barco.
— E eu perdi a coisa toda porque estava presa dentro de uma noz.
— É — murmurou Mestiço. — É, perdeu.
Era minha imaginação ou Mestiço parecia decepcionado de Mallory ter perdido seu momento de glória?
— Quando se está dentro da noz — disse Mallory —, não dá para sair até que alguém permita que você saia. Sam demorou uns vinte minutos para lembrar que eu estava lá dentro…
— Ah, para com isso — disse Sam. — Foram só uns cinco.
— Pareceu mais tempo.
— Aham. — Mestiço assentiu. — Imagino que o tempo passe mais devagar quando se está dentro de uma noz.
— Cala a boca, pateta — resmungou Mallory.
Mestiço sorriu.
— Então vamos zarpar ou o quê? O tempo urge!

* * *

A temperatura caiu quando estávamos velejando em direção ao pôr do sol. No meio do navio, Sam fez sua oração da noite. Hearthstone e Blitzen estavam na proa, olhando com admiração para os fiordes. Mallory desceu para o convés para ver como T.J. estava e preparar o jantar.
Eu estava no leme ao lado de Mestiço Gunderson, ouvindo a vela ondular ao vento e os remos mágicos cortarem a água em sincronia perfeita.
— Eu estou bem — disse Mestiço.
— Hã?
Eu olhei para ele. Seu rosto estava azul nas sombras da noite, como se ele o tivesse pintado para a batalha (como às vezes fazia).
— Você ia perguntar se eu estava bem — disse ele. — É por isso que está aqui, não é? Eu estou bem.
— Ah. Que bom.
— Admito que foi estranho andar pelas ruas de Fläm pensando que cresci ali em uma casinha com a minha mãe. O lugar é mais bonito do que eu me lembrava. E eu talvez tenha imaginado como teria sido minha vida se eu tivesse ficado, me casado e tal.
— Certo.
— Quando Baugi insultou a cidade, perdi a cabeça. Eu não estava esperando ficar… sabe como é, sentimental por estar aqui.
— Claro.
— Não que eu espere que alguém escreva uma balada por eu ter salvado minha cidade nem nada. — Ele inclinou a cabeça como se quase conseguisse ouvir a melodia. — Estou feliz de ter ido embora de novo. Não me arrependo das escolhas que fiz quando eu estava vivo, nem mesmo da de ter deixado minha mãe para trás e nunca mais tê-la visto.
— Certo.
— E Mallory ter conhecido a mãe dela… isso não importa para mim. Mas fiquei feliz de Mac ter descoberto a verdade, mesmo ela pegando um trem sem nos contar, mesmo correndo risco de vida, isso tudo sem que eu tenha ficado sabendo de nada. Ah, isso vale para você e Sam também, claro.
— Claro.
Mestiço bateu no leme.
— Maldita megera! O que ela estava pensando?
— Hã…
— Filha de Frigga? — A gargalhada de Mestiço soou meio histérica. — Não é à toa ela ser tão… — Ele balançou a mão, fazendo sinais que podiam significar quase qualquer coisa: Exasperante? Fantástica? Raivosa? Processador de alimentos?
— Hum…
Mestiço deu um tapinha no meu ombro.
— Obrigado, Magnus. Fico feliz de termos tido essa conversa. Você até que é legal para um curandeiro.
— Valeu.
— Você pode ficar responsável pelo leme? É só se manter no meio do fiorde e tomar cuidado com krakens.
— Krakens? — protestei.
Mestiço assentiu, distraído, e desceu para o convés inferior, talvez para dar uma olhada no jantar, ou em Mallory e T.J., ou talvez só porque eu estava fedendo.
Quando o céu escureceu por completo, já tínhamos chegado a mar aberto. Não colidi com o navio nem libertei nenhum kraken, o que foi bom. Eu não queria ter que lidar com isso.
Samirah terminou de rezar e assumiu o leme. Ela estava comendo tâmaras com a expressão habitual de êxtase pós-jejum.
— Como você está?
Eu dei de ombros.
— Considerando o dia que tivemos? Bem, eu acho.
Ela levantou o cantil e balançou o hidromel de Kvásir.
— Quer resolver isso agora? Cheirar ou provar, só para testar?
A ideia me encheu de náuseas.
— Guarde por enquanto, por favor. Vou esperar até a hora de realmente ter que beber.
— Sensato. O efeito pode não ser permanente.
— Não é isso. Eu estou com medo de beber e… e não ser suficiente. De mesmo assim eu não conseguir vencer Loki.
Sam parecia querer me dar um abraço, apesar de abraçar um garoto não ser algo que uma boa muçulmana faria.
— Eu penso a mesma coisa, Magnus. Não sobre você, mas sobre mim. Será que vou ter forças para enfrentar meu pai de novo? Será que algum de nós vai?
— Isso foi uma tentativa de elevar o moral?
Sam riu.
— Só podemos tentar, Magnus. Eu prefiro acreditar que nossas adversidades nos deixam mais fortes. Tudo pelo que passamos nesta viagem… conta. Aumenta nossas chances de vitória.
Eu olhei para a proa. Blitzen e Hearthstone tinham adormecido lado a lado nos sacos de dormir na base da figura de proa de dragão. Parecia um lugar estranho para dormir, considerando nossa aventura em Álfaheim, mas os dois pareciam em paz.
— Espero que você esteja certa, Sam. Porque uma boa parte foi bem difícil.
Sam suspirou como se libertasse toda a fome, a sede e os palavrões que guardou dentro de si durante o jejum.
— Eu sei. Acho que uma das coisas mais difíceis de fazer é ver as pessoas como elas realmente são. Nossos pais. Nossos amigos. Nós mesmos.
Eu me perguntei se ela estava pensando em Loki ou em si mesma. Ela poderia estar falando sobre qualquer um do navio. Nenhum de nós estava livre do passado. Durante a viagem, vimos alguns espelhos bem reveladores. Meu momento no espelho ainda estava por vir. Quando enfrentasse Loki, eu tinha certeza de que ele teria prazer em aumentar cada defeito meu, em desvelar cada medo e fraqueza. Se conseguisse, ele me reduziria a uma pocinha chorona no chão.
Nós tínhamos até o dia seguinte para chegar a Naglfar, Frigga dissera… ou depois de amanhã, no máximo. Eu me vi hesitando, quase desejando perdermos o prazo só para eu não ter que enfrentar Loki cara a cara. Mas não. Meus amigos estavam contando comigo. Pelo futuro de todo mundo que eu conhecia, de todo mundo que não conhecia… eu precisava adiar o Ragnarök pelo máximo de tempo possível. Eu tinha que dar a Sam e Amir uma chance de terem uma vida normal, e a Annabeth e Percy, e à irmãzinha de Percy, Estelle. Todos mereciam um futuro melhor do que a destruição planetária.
Eu me despedi de Sam e abri meu saco de dormir no convés.
Tive um sono agitado. Sonhei com dragões e escravos. Sonhei que caía de montanhas e batalhava com gigantes de barro. A gargalhada de Loki ecoava nos meus ouvidos. O convés virava uma colcha de retalhos horrenda de unhas de homens mortos, me envolvendo em um casulo nojento de queratina.
— Bom dia! — disse Blitzen, me despertando com um susto.
A manhã estava congelante e cinzenta. Eu me sentei e quebrei a camada de gelo que havia se formado no saco de dormir. À nossa direita, erguiam-se montanhas com cumes nevados mais altas do que os fiordes da Noruega. Ao nosso redor, o mar parecia um quebra-cabeça de blocos de gelo. O convés estava coberto de geada, deixando nosso navio de guerra no tom amarelo-pálido de limonada aguada.
Blitzen era a única pessoa no convés. Ele havia se agasalhado, mas não estava mais usando nenhuma proteção solar, apesar de ser dia. Isso só podia querer dizer uma coisa.
— Nós não estamos mais em Midgard.
Blitzen abriu um sorriso fraco, sem humor.
— Nós já estamos em Jötunheim há algumas horas, garoto. Os outros estão lá embaixo, tentando se aquecer. Você… bom, por ser filho do deus do verão, é mais resistente ao frio, mas até você vai começar a ter problemas logo. A julgar pela velocidade com que a temperatura está despencando, estamos chegando perto da fronteira de Niflheim.
Eu estremeci instintivamente. Niflheim, o reino primordial do gelo: um dos poucos mundos que eu ainda não tinha visitado e nem fazia muita questão de visitar.
— Como nós vamos saber que chegamos? — perguntei.
O navio balançou com um barulho alto que afrouxou minhas juntas. Eu fiquei de pé, cambaleando. O Bananão estava parado na água. A superfície do mar tinha virado gelo sólido para todos os lados.
— Eu diria que chegamos. — Blitz suspirou. — Vamos torcer para Hearthstone conseguir conjurar algum fogo mágico. Senão, vamos morrer congelados em poucas horas.


6 comentários:

  1. Essa do morrer congelados meio que me fez lembrar o "Titanic".

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  2. *risos escandalosos* Magnus realmente é muito eloquente, não?
    Owwwwwwn, espero que Mallory e Mestiço fiquem bem de novo, eles são tão lindos juntos!

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    1. Eu também espero, eles ficam muito fofos juntos!

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  3. Agora que eles estavam falando sobre isso... O hidromel vai ajudar o Magnus a vvirar um poeta, sei lá, mas será que ele vai conseguir aguentar o que Loki tem a dizer? A possibilidade de derrota é muito grande (mesmo que, no fim, o final vá ser feliz mesmo).

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  4. — Mestiço partiu para cima dele — continuou Sam. — Baugi tinha uns doze metros…
    — Quatorze — corrigiu Alex.
    — … e tinha uma camada de glamour nele, deixando tudo ainda mais apavorante.
    — Tipo o Godzilla — sugeriu Alex. — Ou talvez meu pai. Tenho dificuldade de diferenciar os dois.

    Alex é d+

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Boa leitura :)