8 de outubro de 2017

Trinta e quatro - Primeiro prêmio: um gigante! Segundo prêmio: dois gigantes!

ACHEI QUE MALLORY não parecia estar tão tranquila por ter matado os escravos quanto estava tentando demonstrar.
Como não conseguimos abrir as portas usando Jacques nem gritando coisas tipo Abre-te Sésamo, Mallory berrou de raiva. Chutou uma das portas, quebrou o pé e saiu pulando com o outro, xingando e chorando.
Samirah franziu a testa.
— Magnus, vai lá falar com ela.
— Por que eu?
A visão de Mallory ali cortando o ar com as facas não me agradava.
— Porque você pode curar o pé dela — disse Sam, irritantemente sensata, como sempre. — E preciso de tempo para pensar nesse problema da porta.
Não me pareceu uma boa troca, mas fui mesmo assim, Jacques voando ao meu lado e dizendo:
— Ah, a Noruega! Boas lembranças! Ah, uma pilha de escravos mortos! Boas lembranças!
Eu parei fora do alcance das facas de Mallory.
— Ei, Mac, posso curar seu pé para você?
Ela fez cara feia.
— Tudo bem. Parece que hoje é o dia de curar os ferimentos idiotas da Mallory.
Eu me ajoelhei e coloquei as mãos na bota que ela usava. Mallory soltou um palavrão quando coloquei os ossos no lugar com uma explosão de magia do verão.
Eu me levantei com cautela.
— Você está bem?
— Bom, você acabou de me curar, não foi?
— Eu não estava falando do seu pé.
Eu indiquei os gigantes mortos. Ela franziu a testa.
— Não vi outro jeito. Você viu?
Na verdade, não. Eu tinha quase certeza de que a solução de Mallory era o jeito com que tínhamos que usar a pedra de amolar. Os deuses, ou nosso wyrd, ou algum senso de humor distorcido das Nornas tinha ditado que navegaríamos por meio mundo, passaríamos por muitas dificuldades para conquistar uma pedra cinzenta e depois a usaríamos para enganar nove pobres escravos para que se matassem.
— Sam e eu não teríamos conseguido — admiti. — Você é quem prefere agir a discutir, como disse Frigga.
Jacques veio flutuando, sua lâmina tremendo e ondulando como uma serra.
— Frigga? Ah, cara, eu não gosto da Frigga. Ela é silenciosa demais. Dissimulada demais.
— Ela é minha mãe — resmungou Mallory.
— Ah, essa Frigga! — corrigiu Jacques rapidinho. — Ela é ótima.
— Eu odeio ela.
— Deuses, eu também! — compadeceu-se Jacques.
— Jacques — interrompi —, por que você não vai ajudar a Sam? Talvez você possa dar algum conselho sobre como passar por aquelas portas. Ou poderia cantar para ela. Sei que ela adoraria.
— Ah, é? Legal!
Jacques disparou para fazer uma serenata para Sam, o que significava que ela iria querer bater em mim mais tarde. Ainda bem que era ramadã e ela tinha que ser legal comigo. Nossa, eu sou um péssimo amigo.
Mallory apoiou o peso no pé curado. Parecia estar tudo certo. Até que para um péssimo amigo eu era um ótimo curandeiro.
— Eu vou ficar bem — disse ela, sem muita confiança. — É que passei por muita coisa em um único dia. Saber sobre Frigga, junto com… todo o resto.
Pensei nas discussões constantes entre Mallory e Mestiço no navio. Eu não entendia o relacionamento dos dois, mas sabia que eles precisavam um do outro tanto quanto Hearthstone precisava de Blitzen e nosso navio viking precisava ser amarelo. Não fazia muito sentido. Não era fácil. Mas era assim que as coisas tinham que ser.
— Ele está bem chateado — eu disse para ela. — Com as brigas.
— Bom, ele é um idiota. — Ela hesitou. — Quer dizer… supondo que você esteja falando sobre Gunderson.
— Garota esperta.
— Cala a boca, Zé-Ninguém.
Ela saiu andando para falar com Sam.
Nas portas, Jacques tentava ajudar sugerindo músicas que poderia cantar para inspirar novas ideias: “Knockin’ on Heaven’s Door”, “I Got the Keys” ou “Break on Through (to the Other Side)”.
— Não quero nada — disse Sam.
— Não quero nada? — Jacques parou para pensar. — Essa é do Stevie Wonder?
— Como estão as coisas, pessoal? — perguntei, interrompendo a conversa. Eu não sabia se era fisicamente possível estrangular uma espada mágica, mas não queria ver Sam tentar.
— Nada bem — admitiu ela. — Não tem tranca. Não tem dobradiça. Não tem fechadura. Jacques se recusa a tentar cortar o ferro…
— Ei! — exclamou Jacques. — Essas portas são uma obra de arte. Vejam que belezura! Além do mais, tenho quase certeza de que são mágicas.
Sam revirou os olhos.
— Se tivéssemos uma furadeira, talvez conseguíssemos abrir um buraco nesse ferro e eu poderia deslizar para dentro como uma cobra. Mas como não temos furadeira…
Do outro lado da porta, uma voz feminina gritou:
— Vocês já tentaram separar a junção?
Nós todos tomamos um susto. A voz soou bem próxima da porta, como se a mulher estivesse com o ouvido encostado no metal.
Jacques tremeu e brilhou.
— Ela fala! Ah, bela porta, fale de novo!
— Eu não sou a porta — disse a voz. — Sou Gunnlod, filha de Suttung.
— Ah — disse Jacques. — Que decepção.
Mallory aproximou a boca da porta.
— Você é a filha de Suttung? Está aí cuidando do prisioneiro?
— Não — respondeu Gunnlod. — Eu sou a prisioneira. Estou trancada aqui sozinha há… Na verdade, já perdi a noção do tempo. Séculos? Décadas? O que é mais longo?
Eu me virei para os meus amigos e usei linguagem de sinais, que era bem útil mesmo quando Hearthstone não estava por perto. Armadilha?
Mallory fez um V e bateu as costas da mão na testa, o que queria dizer burro. Ou .
Não temos muita escolha, sinalizou Sam, que em seguida gritou:
— Srta. Gunnlod, não há uma tranca por dentro? Um trinco que você possa girar?
— Bom, não seria uma boa prisão se meu pai tivesse colocado uma tranca ou um trinco ao meu alcance. Ele costuma abrir a porta com a ajuda do meu tio Baugi. Os dois precisam usar sua superforça de gigante. Não tem duas pessoas aí fortes assim, tem?
Sam me avaliou.
— Infelizmente, não.
Eu mostrei a língua para ela.
— Srta. Gunnlod, o hidromel de Kvásir está aí com você, por acaso?
— Um pouco — disse ela. — A maior parte foi roubada por Odin muito tempo atrás. — Ela suspirou. — Como ele era encantador! Eu deixei ele ir embora, e é claro que foi por isso que meu pai me trancou aqui. Mas ainda tem um pouco no fundo do último barril. É o bem mais precioso do meu pai. Suponho que seja isso que vocês querem?
— É isso mesmo — admiti.
Mallory me cutucou nas costelas.
— Se puder nos ajudar, srta. Gunnlod, ficaríamos felizes de libertar você também.
— Que fofo! — disse Gunnlod. — Mas infelizmente minha liberdade é impossível. Meu pai e meu tio uniram minha força vital a esta caverna. Faz parte da minha punição. Eu morreria se tentasse sair.
Sam fez uma careta.
— Me parece um castigo um pouco rigoroso demais.
— E é. — Gunnlod suspirou. — Mas eu entreguei o elixir mais valioso dos nove mundos de bandeja para nosso maior inimigo, então… é isso. Meu filho tentou desfazer o feitiço da caverna, mas até ele falhou. E ele é o deus Bragi!
Mallory arregalou os olhos.
— Você é mãe de Bragi, o deus da poesia?
— Isso mesmo. — A voz de Gunnlod se encheu de orgulho. — Ele nasceu aqui, nove meses depois que Odin me visitou. Eu já mencionei que Odin era encantador?
— Bragi? — falei. — A ideia era combinar com “brega”?
Mallory sinalizou: Não estrague as coisas, idiota.
— Não ligue para o Magnus, o nome é lindo e nem um pouco brega.
Eu pisquei.
— É. Nem um pouco. Bem, de qualquer modo, srta. Gunnlod, você disse alguma coisa sobre forçar a junção?
— Sim, eu acho que pode ser possível — confirmou ela. — Com duas lâminas, talvez consigam afastar as portas o suficiente para eu ter um vislumbre do rosto de vocês, respirar ar puro, quem sabe ver a luz do sol novamente. Seria o suficiente para mim. Ainda existe luz do sol?
— Por enquanto, sim — respondi —, mas o Ragnarök pode estar próximo. Temos esperança de usar o hidromel para impedi-lo.
— Entendi — disse Gunnlod. — Acho que meu filho Bragi aprovaria isso.
— Então, se conseguirmos afastar as portas, você acha que pode passar o hidromel pela abertura?
— Hum, talvez. Tenho uma mangueira velha aqui. Posso puxar o hidromel do barril, desde que vocês tenham um recipiente onde colocar.
Eu não sabia por que Gunnlod teria uma mangueira velha dentro da caverna. Talvez cultivasse cogumelos lá dentro, ou quem sabe a mangueira fosse usada para encher uma piscininha de plástico.
Sam tirou um cantil do cinto. Claro que a garota de jejum tinha sido a única que se lembrou de levar água.
— Eu tenho um recipiente, Gunnlod.
— Que maravilha! Agora, vocês vão precisar de duas lâminas. Finas e muito fortes. Senão, vão quebrar.
— Nem olhem para mim! — disse Jacques. — Sou uma lâmina grossa e jovem demais para quebrar!
Mallory suspirou e desembainhou as facas.
— Srta. Gunnlod, por acaso eu tenho duas facas finas e supostamente inquebráveis. Talvez seja melhor você se afastar das portas agora.
Mallory enfiou a ponta das armas na junção. Eram finas o suficiente para entrar quase até o cabo. Mallory empurrou as facas em direções opostas, separando as portas.
Com um rangido alto, ela conseguiu criar um vão em forma de V de uns dois centímetros no ponto em que as facas se cruzavam. Os braços de Mallory tremiam. Ela devia estar usando toda a sua força de einherji para manter a junção aberta. Gotículas de suor pontilhavam sua testa.
— Rápido — grunhiu ela.
Do outro lado das portas, o rosto de Gunnlod apareceu no vão: pálidos e lindos olhos azuis emoldurados por fios dourados. Ela respirou fundo.
— Ah, ar fresco! E luz do sol! Muito obrigada!
— Sem problema — respondi. — Mas e aquela mangueira…
— Sim! Está pronta.
Pela abertura, ela enfiou a ponta de uma mangueira preta de borracha. Sam enfiou na boca do cantil, e o líquido começou a cair no recipiente de metal.
Depois de tantos desafios para tentar obter o hidromel de Kvásir, eu não esperava que o som da vitória me deixasse com vontade de procurar o banheiro mais próximo.
— Pronto, acabou — disse Gunnlod, puxando a mangueira. O rosto dela reapareceu no vão. — Boa sorte ao tentar impedir o Ragnarök.
— Obrigado. Tem certeza de que não podemos tentar libertar você? Temos um amigo no navio que é bom com magia.
— Ah, não ia dar tempo — disse a giganta. — Baugi e Suttung vão chegar a qualquer minuto.
Sam berrou:
— O quê?
— Eu não mencionei o alarme silencioso? — perguntou Gunnlod. — Ele dispara assim que começam a mexer nas portas. Imagino que vocês tenham dois, talvez três minutos até que meu pai e meu tio apareçam por aqui. É melhor irem logo. Foi um prazer conhecê-los!
Mallory embainhou as facas. As portas se fecharam novamente.
— E é por isso — disse ela, enxugando a testa — que eu não confio em gente legal.
— Ei, pessoal.
Apontei para o norte, na direção do topo das montanhas. Brilhando sob o sol norueguês, se aproximando mais a cada segundo, havia duas águias enormes.


8 comentários:

  1. Jacques... ele é suas canções! Kkkkkkkkkk😁

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  2. Amei muito essa moça *-* Bem que os outros oponentes poderiam ser legais e solícitos assim... Mas fico com medo do que vai acontecer com ela, espero que o pai e o tio morram, ou pelo menos não descubram que ela entregou o hidromel. (Que droga, não acredito que Odin a deixou a mercê desses nojentos! Decepção define.)

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    1. Sim, ele usa e abusa da pobre moça e a deixa lá para sofrer as consequências por ele, os deuses são mesmo uns cretinos.

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  3. Tava com cara de armadilha msm

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  4. — Frigga? Ah, cara, eu não gosto da Frigga. Ela é silenciosa demais. Dissimulada demais.

    — Ela é minha mãe — resmungou Mallory.

    — Ah, essa Frigga! — corrigiu Jacques rapidinho. — Ela é ótima.

    — Eu odeio ela.

    — Deuses, eu também! — compadeceu-se Jacques.




    Jacques me representa muito lidando com pessoas

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  5. Jacques disparou para fazer uma serenata para Sam, o que significava que ela iria querer bater em mim mais tarde




    Sinto saudades da Sam violenta do primeiro livro

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  6. Kkk, rachei de rir com o Jacques sendo dissimulado.

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  7. Eu ia comentar algo sobre o capítulo, mas eu esqueci o que era. :v

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Boa leitura :)