8 de outubro de 2017

Trinta e oito - Skadi sabe de tudo, flecha tudo

EU NÃO QUERIA soltar Alex. Ou talvez não fosse fisicamente capaz de fazer isso. Dois servos jötunn de Skadi tiveram que nos separar à força. Um deles me carregou por uma escada sinuosa para dentro da fortaleza, meu corpo ainda todo encolhido de frio.
Em comparação com o exterior, o salão de Skadi parecia uma sauna, apesar de o termostato provavelmente estar configurado para temperaturas quase congelantes. Fui carregado por corredores altos de pedra com tetos abobadados que me lembravam as igrejas grandes e velhas de Back Bay (ótimos lugares para se aquecer no inverno quando se é sem-teto). De tempos em tempos, um estrondo ecoava pela fortaleza, como se alguém estivesse disparando ao longe com canhões. Skadi gritou ordens para os servos, e nós fomos levados para aposentos separados para nos banhar.
Um jötunn me colocou em um banho tão quente que alcancei uma nota aguda que não alcançava desde o quarto ano da escola. Ainda na água, ele me deu uma coisa para beber, uma mistura com gosto de mato horrível que queimou minha garganta e fez meus dedos das mãos e dos pés se retorcerem em espasmos. Ele me tirou da banheira, e quando me vestiu com uma túnica e uma calça branca de lã, eu tive que admitir que estava quase me sentindo bem de novo, mesmo com Jacques agora pendurado no meu pescoço como pedra de runa. A cor dos meus dedos voltara ao normal. Eu conseguia sentir meu rosto. Meu nariz não tinha necrosado e caído, e meus lábios estavam exatamente onde Alex os deixou.
— Você vai viver — resmungou o gigante, como se esse fato fosse um fracasso pessoal da parte dele.
Ele me deu sapatos confortáveis de pele e uma capa grossa e quente, depois me levou para o salão principal, onde meus amigos já estavam esperando.
O salão era em boa parte o padrão viking: um piso de pedra rudimentar coberto de palha, um teto feito de lanças e escudos e três mesas com formato de U em volta de uma fogueira, embora as chamas de Skadi fossem brancas e azuis e não parecessem emitir calor.
Em uma das paredes, uma fileira de janelas do tamanho das de catedrais se abria para uma vista obscurecida por uma nevasca. Não vi vidro nas janelas, mas o vento e a neve não invadiam o aposento.
À mesa central, Skadi estava sentada em um trono feito de teixo coberto de peles. Os servos andavam de um lado para outro, levando pratos de pão fresco e carne assada, junto com canecas fumegantes que tinham cheiro de… chocolate quente? De repente, passei a gostar bem mais de Skadi.
Meus amigos estavam todos vestidos como eu, de lã branca, então parecíamos uma sociedade secreta de monges muito limpos: a Sociedade da Água Sanitária. Admito que procurei Alex primeiro, torcendo para me sentar ao seu lado, mas ela estava no banco mais distante, entre Mallory e Mestiço, com T.J. na ponta.
Alex me viu. Fez sinal para meu rosto espantado, como quem diz: Está olhando o quê?
Então tudo tinha voltado ao normal. Um beijo à beira da morte e voltamos para nosso sarcasmo de sempre. Que maravilha.
Eu me sentei ao lado de Blitzen, Hearthstone e Sam, o que achei ótimo. Nós todos começamos a jantar, exceto Sam. Ela não havia tomado banho, pois também era contra as regras do ramadã, mas tinha mudado de roupa. O hijab mudara de cor para combinar com a roupa branca. De alguma forma, ela conseguiu não olhar com desejo para a comida de todo mundo, o que me convenceu sem dúvida alguma de que ela tinha resistência sobre-humana.
Skadi parecia relaxada no trono, as tranças caindo pelos ombros, a capa de pelo fazendo-a parecer ainda maior do que já era. Ela girava uma flecha em cima do joelho. Atrás dela, a parede estava coberta de estantes com equipamentos: esquis, arcos, aljavas de flechas. Ela só podia ser fã de arquearia cross-country.
— Bem-vindos, viajantes, a Thrymheimr — disse nossa anfitriã. — Em nossa língua, Lar do Trovão.
Como se planejado, um estrondo sacudiu a sala, o mesmo bum que ouvi quando estava nos corredores da fortaleza. Agora, eu sabia o que era: trovão de neve. Dava para ouvir em Boston às vezes, quando uma tempestade de neve se misturava com uma tempestade normal. Parecia o ruído de bombinhas estourando dentro de um travesseiro de algodão, só que ampliado um milhão de vezes.
— Lar do Trovão. — Mestiço assentiu seriamente. — Um bom nome, considerando, sabe, o constante…
Um trovão soou de novo, sacudindo os pratos na mesa.
Mallory se inclinou na direção de Alex.
— Não consigo alcançar Gunderson. Você pode bater nele por mim?
Apesar do tamanho enorme do salão, a acústica era perfeita. Eu conseguia ouvir cada sussurro. Perguntei-me se Skadi tinha planejado o local com isso em mente.
A giganta não comia nada do prato à sua frente. Melhor cenário: ela estava em jejum pelo ramadã. Pior cenário: ela estava esperando até termos engordado o suficiente para nos apreciar como prato principal.
Ela bateu com a flecha no joelho enquanto me observava atentamente.
— Então você é parente de Njord, é? — perguntou ela. — Filho de Frey, imagino.
— Sim, hã, senhora.
Eu não sabia se moça ou senhorita ou pessoa enorme e assustadora eram títulos apropriados, mas Skadi não me matou, então achei que não a tinha ofendido. Ainda.
— Consigo ver a semelhança. — Ela franziu o nariz, como se a semelhança não fosse um ponto a meu favor. — Njord não foi um marido tão ruim. Ele era gentil. Tinha pés lindos.
— Pés incríveis — concordou Blitz, balançando uma costela de porco para enfatizar.
— Mas nós não conseguíamos nos entender — continuou Skadi. — Diferenças irreconciliáveis. Ele não gostava do meu salão. Dá pra acreditar?
Hearthstone sinalizou: Você tem um salão lindo.
O gesto para lindo era fazer um círculo com a mão na frente do rosto e abrir os dedos como quem faz puf! Nas primeiras vezes que vi, achei que Hearth estava dizendo Isso faz meu rosto explodir.
— Obrigada, elfo — agradeceu Skadi (porque os melhores gigantes entendiam linguagem de sinais). — Sem dúvida, Lar do Trovão é melhor do que a casa de praia de Njord. Aquelas gaivotas gritando sem parar… eu não suportava o barulho!
Um trovão sacudiu a sala de novo.
— Sim — disse Alex —, não tem paz e tranquilidade, como aqui.
— Exatamente — concordou Skadi. — Meu pai construiu esta fortaleza, que sua alma descanse com Ymir, o primeiro gigante. Agora Thrymheimr é minha e não pretendo abrir mão dela. Já estou de saco cheio dos aesires! — Ela se inclinou para a frente, ainda segurando a flecha do mal cheia de espetos. — Agora me diga, Magnus Chase, por que Njord mandou você até aqui? Não me diga que ele ainda tem ilusões sobre ficarmos juntos de novo, por favor.
Por que eu?, pensei.
Skadi parecia legal. Eu já tinha conhecido gigantes suficientes para saber que nem todos eram maus, assim como nem todos os deuses eram bons. Mas se Skadi não queria mais saber dos aesires, eu não sabia se ela acharia bom irmos atrás de Loki, que, claro, era o maior inimigo dos aesires. Eu definitivamente não queria contar que meu avô, o deus da pedicure, ainda sentia falta dela.
Por outro lado, meus instintos me diziam que Skadi enxergaria qualquer mentira ou omissão com a mesma facilidade com que ouvia cada sussurro naquele salão. Thrymheimr não era um lugar para segredos.
— Njord queria que eu perguntasse o que você sente por ele — admiti.
Ela suspirou.
— Não acredito. Ele não mandou flores dessa vez, né? Eu falei para ele parar com os buquês.
— Nada de flores — prometi, me solidarizando de repente com todos os entregadores inocentes de Niflheim que ela devia ter matado. — E os sentimentos de Njord não são o motivo principal para estarmos aqui. Nós viemos impedir Loki.
Todos os servos pararam o que estavam fazendo. Olharam para mim e para a patroa, como se pensando: Ora, isso vai ser interessante. Meus amigos me encararam com expressões que variavam de Você vai tirar isso de letra! (Blitzen) a Não estrague tudo como costuma fazer (Alex).
Os olhos castanhos de Skadi cintilaram.
— Continue.
— Loki está preparando o navio Naglfar para zarpar. Viemos impedir, recapturar ele e levar de volta para os aesires, para não termos que lutar no Ragnarök, tipo, amanhã.
Outro trovão sacudiu a montanha.
O rosto da giganta estava ilegível. Eu a imaginei disparando a flecha pelo salão e empalando meu peito como um dardo de visgo.
Mas ela só jogou a cabeça para trás e riu.
— É por isso que vocês estão carregando o hidromel de Kvásir? Você pretende desafiar Loki a um vitupério?
Engoli em seco.
— Hã… é. Como você sabe que nós estamos com o hidromel de Kvásir?
Minha segunda pergunta, subentendida, foi: E você vai tirá-lo de nós?
A giganta se inclinou para a frente.
— Estou ciente de tudo que acontece no meu salão, Magnus Chase, e de todo mundo que passa por ele. Já fiz o inventário de suas armas, seus suprimentos, seus poderes, suas cicatrizes. — Ela observou a sala, pousando o olhar em cada um de nós… não com solidariedade, mais como quem estava escolhendo alvos. — Eu também saberia se um de vocês mentisse para mim. Para sua sorte, você não mentiu. Agora, me diga: por que eu deveria deixar vocês irem em frente com essa missão? Quero que me convença a não matar todo mundo aqui.
Mestiço Gunderson limpou a barba.
— Bom, primeiro, lady Skadi, nos matar daria muito trabalho. Se você conhece nossas habilidades, sabe que somos excelentes lutadores. Nós daríamos um trabalho danado…
Uma flecha atingiu a mesa a dois centímetros da mão de Mestiço. Eu nem vi como aconteceu. Olhei para Skadi… De repente, ela estava segurando um arco e uma segunda flecha já preparada para disparar.
Mestiço nem se mexeu. Colocou o chocolate quente na mesa e arrotou.
— Foi sorte.
— Rá! — Skadi baixou o arco, e meu coração voltou a bombear sangue. — Então vocês são corajosos. Ou tolos, pelo menos. O que mais podem me dizer?
— Que não somos amigos de Loki — ofereceu Samirah. — E nem você.
Skadi ergueu a sobrancelha.
— O que faz você dizer isso?
— Se você fosse amiga de Loki, nós já estaríamos mortos. — Sam indicou as janelas. — O porto de Naglfar fica aqui perto, não fica? Consigo sentir que meu pai está próximo. Você não gosta de Loki estar reunindo seu exército no quintal da sua casa. Se nos deixar seguir com nossa missão, vamos tirar meu pai da jogada.
Alex assentiu.
— Ah, vamos mesmo.
— Interessante — refletiu Skadi. — Duas filhas de Loki sentadas à minha mesa, e as duas parecem odiá-lo ainda mais do que eu. O Ragnarök gera aliados estranhos.
T.J. bateu palmas uma vez, tão alto que todos nos encolhemos (menos Hearth).
— Eu sabia! — Ele sorriu e apontou para Skadi. — Eu sabia que essa moça tinha bom gosto. Um chocolate quente gostoso assim? Um salão lindo desses? E servos em vez de escravos!
Skadi curvou o lábio.
— Sim, einherji. Eu detesto a escravidão.
— Estão vendo?
T.J. olhou para Mestiço com cara de Eu te disse. Mais trovões sacudiram os pratos e os copos, como se concordando com T.J. O berserker só revirou os olhos.
— Eu sabia que essa moça odiava Loki — resumiu T.J. — Ela é praticamente uma apoiadora da União!
A giganta franziu a testa.
— Não sei bem o que isso quer dizer, entusiasmado convidado, mas você está certo: eu não sou amiga de Loki. Houve uma época em que ele não pareceu ser tão ruim. Ele conseguia me fazer rir. Era encantador. Mas, durante o vitupério no salão de Aegir… Loki insinuou que… que tinha compartilhado a cama comigo.
Skadi estremeceu com a lembrança.
— Ele manchou minha honra na frente de todos os deuses. Disse coisas horríveis. E assim, quando os aesires o prenderam naquela caverna, fui eu que consegui a víbora e coloquei acima da cabeça de Loki. — Ela deu um sorriso frio. — Os aesires e vanires estavam satisfeitos só de deixar Loki preso por toda a eternidade, mas isso não era suficiente para mim. Eu queria que ele sentisse o gotejar do veneno na cara pelo resto da vida, assim como as palavras dele me fizeram sentir.
Eu decidi que não mancharia a honra de Skadi tão cedo.
— Bom, senhora… — Blitz puxou a túnica de lã. Ele era o único de nós que não parecia à vontade com a roupa nova, provavelmente porque o traje não permitia que ele usasse gravata. — Parece que deu ao vilão o que ele merecia. Você vai nos ajudar, então?
Skadi colocou o arco na mesa.
— Me ajudem a entender: você, Magnus Chase, planeja derrotar Loki, o mestre dos insultos, em um vitupério.
— Isso.
Ela parecia estar esperando que eu falasse poeticamente sobre minha perícia com verbos e adjetivos e tudo mais. Sinceramente, aquela resposta de uma palavra só foi a única coisa que consegui dizer.
— Muito bem, então — disse Skadi. — Que bom que vocês têm o hidromel de Kvásir.
Todos os meus amigos assentiram. Muito obrigado, queridos amigos.
— Você também foi sábio de ainda não ter bebido — continuou Skadi. — Não sobrou muito, e não dá para saber quanto tempo o efeito vai durar. Você devia beber pela manhã, pouco antes de partir. Isso deve dar tempo de o hidromel surtir efeito antes de você enfrentar Loki.
— Então você sabe onde ele está? — perguntei. — Ele está perto assim?
Eu não sabia se ficava aliviado ou petrificado.
Skadi assentiu.
— Depois da minha fortaleza há uma baía congelada onde Naglfar está ancorado. Em termos gigantes, fica a poucos passos daqui.
— E o que isso quer dizer em termos humanos? — perguntou Mallory.
— Não importa — garantiu Skadi. — Vou dar esquis para acelerar sua jornada.
Hearth sinalizou: Esquis?
— Não sou muito bom com esquis — murmurou Blitz.
Skadi sorriu.
— Não tema, Blitzen, filho de Freya. Meus esquis vão ficar bons em você. Vocês têm que chegar ao navio antes do meio-dia de amanhã. Até lá, o gelo bloqueando a baía vai ter derretido o suficiente para Loki partir para mar aberto. Se isso acontecer, nada vai poder impedir o Ragnarök.
Troquei um olhar com Mallory acima do fogo da fogueira. A mãe dela, Frigga, estava certa. Quando botarmos os pés em Naglfar, se chegarmos lá, quarenta e oito horas terão se passado desde Fläm.
— Se vocês conseguirem subir a bordo do navio — disse Skadi — vão ter que abrir caminho por legiões de gigantes e de mortos-vivos. É claro que eles vão tentar matar vocês. Mas, se conseguirem ficar cara a cara com Loki e fazer seu desafio, ele vai ter que aceitar por uma questão de honra. A luta vai parar por tempo suficiente para o vitupério.
— Então vai ser moleza — disse Alex.
As trancinhas de Skadi deslizaram pelos ombros quando ela se virou para encarar Alex.
— Você tem uma definição interessante de moleza. Supondo que Magnus consiga derrotar Loki em um vitupério e o enfraqueça o bastante para capturar Loki… como vocês vão aprisioná-lo?
— Hum… — disse Mallory. — Nós temos uma noz.
Skadi assentiu.
— Isso é bom. A noz deve servir.
— Então, se eu derrotar Loki no vitupério — falei — e nós fizermos a coisa toda com a noz e tal… vamos apertar as mãos da tripulação de Loki, todo mundo vai dizer “mandaram bem” e vão nos deixar ir embora, certo?
Skadi riu.
— Acho difícil. O cessar-fogo vai acabar assim que a competição terminar. E aí, de uma forma ou de outra, a tripulação vai matar vocês.
— Entendi — disse Mestiço. — Por que você não vem conosco, Skadi? Uma arqueira seria útil para o grupo.
Skadi gargalhou.
— Esse aí é muito engraçado.
— É, mas a graça passa rápido — murmurou Mallory.
A giganta se levantou.
— Esta noite, vocês são meus convidados, pequenos mortais. Podem dormir tranquilamente sabendo que não há nada a temer no Lar do Trovão. Mas, de manhã… — ela apontou para o abismo branco além das janelas — … vocês vão embora. A última coisa que quero é que Njord fique cheio de esperanças se eu mimar o neto dele.


7 comentários:

  1. Damon Herondale(filho de Zeus)15 de outubro de 2017 23:27

    "o neto dele"
    É dela tbm! Ela é a mãe de Frey e Freya

    Primeiro, a invulnerabilidade através do sangue do dragão de anel é ignorada, e agora o fato de Skadi ser avó de Magnus é esquecido, apagado e inexistente.

    Fala sério Riordan! 😠

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  2. Então tudo tinha voltado ao normal. Um beijo à beira da morte e voltamos para nosso sarcasmo de sempre. Que maravilha.

    Magnus deveria pedir dicas ao Percy sobre isso tbm. Ele tem experiência com beijos em situação de quase morte. Kkkk

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  3. "Um jötunn me colocou em um banho tão quente que alcancei uma nota aguda que não alcançava desde o quarto ano da escola." Eu lembrei do meme de Vitas. DEUS ME AJUDA KKKKKKKKKK

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Boa leitura :)