8 de outubro de 2017

Trinta e nove - Eu fico poético tipo, sei lá… um poeta

APESAR DA PROMESSA de Skadi, eu não dormi muito bem.
O frio do quarto e os trovões constantes não ajudaram. Nem mesmo saber que pela manhã Skadi nos daria esquis e nos jogaria pela janela. Além disso, não parei de pensar em Alex Fierro. Sabe como é, só um pouco. Alex era uma força da natureza, como os trovões. Ela atacava quando sentia vontade, de acordo com variações de temperatura e padrões de neve que eu não tinha como prever. Ela abalava minhas estruturas de uma forma poderosa, mas ao mesmo tempo estranhamente suave e contida, escondida por uma nevasca. Eu não conseguia distinguir quais eram suas motivações. Alex fazia o que queria. Pelo menos, era o que parecia para mim.
Fiquei um bom tempo olhando para o teto. Quando finalmente saí da cama, usei a bacia para lavar o rosto e botei roupas novas de lã, brancas e cinzentas, as cores de neve e gelo. Meu pingente de runa pendia frio e pesado, como se Jacques estivesse dando uma cochilada. Peguei meus poucos pertences e fui para os corredores de Lar do Trovão, torcendo para não ser morto por um servo assustadiço ou por uma flecha perdida.
No salão, encontrei Sam fazendo sua oração. Jacques zumbiu no meu peito, me informando em tom sonolento e irritado que eram quatro da manhã no horário de Niflheim.
Sam tinha virado o tapete de oração para as enormes janelas abertas. Achei que a mancha branca lá fora era um belo quadro a admirar enquanto se meditava sobre Deus ou sabe-se lá o quê. Esperei que ela terminasse. A essa altura eu já reconhecia o padrão. Um instante de silêncio no final, uma espécie de momento de paz que nem um trovão seria capaz de incomodar, e ela se virou e sorriu.
— Bom dia.
— Oi. Você acordou cedo.
Percebi que era uma coisa idiota para se dizer para uma muçulmana. Nenhum praticante dormia tarde porque era preciso estar acordado para as orações aos primeiros sinais de luz. Por estar viajando com Sam, passei a prestar mais atenção ao horário do amanhecer e do entardecer, mesmo quando estávamos em outros mundos.
— Eu não dormi muito — disse ela. — Achei que podia fazer uma ou duas refeições caprichadas.
Ela deu tapinhas na barriga.
— Como você sabe os horários de oração em Jötunheim? — perguntei. — E também onde fica Meca?
— Ah. Eu faço uma aproximação. Isso é permitido, porque o que vale é a intenção.
Eu me perguntei se o mesmo seria verdade no meu desafio iminente. Talvez Loki dissesse: Bem, Magnus, você foi péssimo no vitupério, mas fez seu melhor e, como o que vale é a intenção, você venceu!
— Ei. — A voz de Sam me arrancou dos meus pensamentos. — Você vai se sair bem.
— Você está incrivelmente calma. Considerando… você sabe, que hoje é o dia.
Sam ajeitou o hijab, que ainda estava branco para combinar com a roupa.
— A noite de ontem foi a vigésima sétima do ramadã. Tradicionalmente, é a Noite do Poder.
Eu esperei.
— É quando você fica superenergizada?
Ela riu.
— Mais ou menos. Essa noite celebra o momento em que Maomé recebeu sua primeira revelação do anjo Gabriel. Ninguém sabe exatamente que noite é, mas é a mais sagrada do ano…
— Espera, é a noite mais sagrada da religião, mas vocês não sabem quando é?
Sam deu de ombros.
— A maioria das pessoas escolhe a vigésima sétima, mas, sim, é incerto. Sabemos que é uma das dez últimas noites do mês do ramadã. Não saber deixa todo mundo alerta. De qualquer modo, a noite de ontem me pareceu certa. Eu fiquei acordada orando e pensando e me senti… confirmada. Senti que há uma coisa maior do que isso tudo: Loki, o Ragnarök, o navio dos mortos. Meu pai pode ter poder sobre mim porque é meu pai. Mas não é o único poder. Allahu akbar.
Eu conhecia a expressão, mas nunca tinha ouvido Sam usá-la. Admito que instintivamente senti um nó no estômago. Os jornais adoravam falar que os terroristas diziam isso logo antes de fazerem uma coisa horrível e explodir gente.
Eu não ia comentar isso com Sam. Imaginei que estivesse bem ciente disso. Era comum que, andando de hijab pelas ruas de Boston, alguém gritasse para ela voltar para seu país, ao que (se estivesse de mau humor) Sam respondia: “Eu sou de Dorchester!”
— É — falei. — Isso quer dizer deus é grande, não é?
Sam balançou a cabeça.
— É uma tradução um tanto imprecisa. Quer dizer Deus é maior.
— Maior do que o quê?
— Do que tudo. O motivo de dizer isso é para lembrar a si mesmo que Deus é maior do que tudo que você está enfrentando: seus medos, seus problemas, sua sede, sua fome, sua raiva. Até seus problemas com um pai como Loki. — Ela balançou a cabeça. — Desculpa, isso deve ter soado meio sentimentaloide para um ateu.
Dei de ombros, me sentindo constrangido. Queria ter a fé de Sam. Eu não tinha, mas isso funcionava para ela, e eu precisava que ela tivesse confiança, principalmente hoje.
— Bom, você parece superenergizada. É isso que importa. Pronta para arrebentar uns mortos-vivos?
— Estou. — Ela deu um sorrisinho. — E você? Está pronto para enfrentar Alex?
Eu me perguntei se Deus era maior do que o soco na barriga que Sam tinha acabado de acertar em mim.
— Hã, como assim?
— Ah, Magnus. Você é tão emocionalmente cego que é quase fofo.
Antes que eu pudesse pensar em um jeito inteligente de responder a isso, talvez gritando Nossa, o que é aquilo! e saindo correndo, a voz de Skadi explodiu no salão.
— Aí estão meus madrugadores!
A giganta usava peles brancas suficientes para vestir uma família de ursos-polares. Atrás dela, uma fila de servos se aproximava, carregando uma variedade de esquis de madeira.
— Vamos despertar seus amigos e botar vocês na estrada!

* * *

Nossos amigos não ficaram animados de acordar.
Eu tive que jogar água gelada na cabeça de Mestiço Gunderson duas vezes. Blitz resmungou alguma coisa sobre patos e me mandou ir embora. Quando tentei despertar Hearth, ele esticou uma das mãos para fora da coberta e sinalizou: Eu não estou aqui. T.J. pulou da cama gritando “ATACAR!” Felizmente, não estava armado, senão a essa altura haveria um furo no meu corpo.
Por fim, todos se reuniram no salão principal, onde os servos de Skadi tinham servido nossa última refeição, desculpem, nosso café da manhã, composto de pão, queijo e sidra.
— Essa sidra foi feita com as maçãs da imortalidade — disse Skadi. — Séculos atrás, quando meu pai sequestrou a deusa Idun, fermentamos algumas das maçãs dela para fazer a sidra. Já está bem diluída. Não vai tornar vocês imortais, mas vai melhorar a resistência, pelo menos o suficiente para que atravessem os ventos de Niflheim.
Bebi tudo. A sidra não me deixou particularmente energizado, mas senti, sim, um formigamento. E sossegou as reviravoltas no meu estômago. Depois de comer, experimentamos nossos esquis com graus variados de sucesso. Hearthstone se balançou graciosamente nos dele (quem sabia que ele era capaz de se balançar graciosamente?) enquanto Blitz tentava, em vão, encontrar um par que combinasse com seus sapatos.
— Tem alguma coisa menor? — perguntou ele. — E talvez marrom-escuro? Tipo de mogno?
Skadi deu um tapinha na cabeça dele, gesto que os anões não apreciavam.
Mallory e Mestiço se moviam com facilidade, mas os dois tiveram que ajudar T.J. a ficar de pé.
— Jefferson, eu achei que você tivesse crescido na Nova Inglaterra — disse Mestiço. — Você nunca andou de esqui?
— Eu morava na cidade — resmungou T.J. — Além disso, sou negro. Não havia muitos negros esquiando em Boston, em 1861.
Sam parecia meio desajeitada com os esquis, mas como ela sabia voar, não me preocupei muito.
Alex, por sua vez, estava sentada junto a uma janela calçando um par de botas de esquiar cor-de-rosa. Tinha trazido isso com ela? Oferecido uma gorjeta de algumas coroas para um gigante arrumar um par assim no armário de Skadi? Eu não fazia ideia, mas ela não ia esquiar para a morte usando roupas brancas e cinza sem graça. Ela estava usando uma capa de pelo verde (Skadi devia ter esfolado alguns Grinches para fazê-la) por cima da calça jeans malva e de um colete verde e cor-de-rosa. Para completar o visual, um chapéu de aviador no estilo Amelia Earhart e óculos também cor-de-rosa. Quando eu achava já ter visto todo tipo de roupa que só Alex conseguiria usar, ela aparecia com algo diferente.
Manteve-se alheia a todo o grupo enquanto ajustava os esquis. (Quando digo todo o grupo, estou falando de mim.) Parecia perdida em pensamentos, talvez considerando o que diria para a mãe, Loki, antes de tentar decapitar o deus com o garrote.
Em pouco tempo estávamos todos vestidos, de pé e em pares junto às janelas abertas, parecendo um grupo de saltadores das olimpíadas de inverno.
— Bem, Magnus Chase — disse Skadi —, a única coisa que falta é beber o hidromel.
Sam, de pé à minha esquerda, me ofereceu o cantil.
— Ah. — Eu me perguntei se era seguro beber hidromel antes de andar de esqui. Talvez as leis fossem menos severas em Jötunheim. — Você quer dizer agora?
— É — disse Skadi. — Agora.
Abri o cantil. Era o momento da verdade. Tínhamos nos aventurado pelos mundos e quase morrido várias vezes. Jantamos com Aegir, colocamos guerreiros de cerâmica para batalhar, matamos um dragão e pegamos hidromel usando uma mangueira de borracha velha só para que eu pudesse tomar a tal bebida feita de sangue e mel, que com sorte me deixaria poético o suficiente para humilhar Loki.
Não vi sentido em apreciar o sabor. Virei todo o hidromel em três goles grandes. Eu estava esperando sentir gosto de sangue, mas o hidromel de Kvásir tinha gosto de… bem, hidromel. Não queimava como o sangue de dragão e nem formigava como a sidra de quase imortalidade de Skadi.
— Como você está se sentindo? — perguntou Blitz, esperançoso. — Poético?
Eu arrotei.
— Estou me sentindo bem.
— Só isso? — perguntou Alex. — Diga alguma coisa impressionante. Descreva a tempestade.
Eu olhei para a nevasca pela janela.
— A tempestade parece… branca. E fria.
Mestiço suspirou.
— Vamos todos morrer.
— Boa sorte, heróis! — gritou Skadi.
E os servos dela nos empurraram pela janela em direção ao abismo.


12 comentários:

  1. "Eu olhei para a nevasca pela janela.
    — A tempestade parece… branca. E fria."

    Rindo demais!

    ResponderExcluir
  2. Porque sempre patos? Kkkk

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. vc ainda nad viu nd kkkkk

      Excluir
    2. Patos = criaturinhas sanguinárias

      Kkkkkk

      Excluir
    3. Damon Herondale(filho de Zeus)15 de outubro de 2017 23:47

      Não gosto de patos
      Sério, eles são mortais e querem matar todo mundo!

      Excluir
    4. Patos dominarão o mundo.

      Excluir
  3. Maçãs da imortalidade, seeeeeeeii

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Damon Herondale(filho de Zeus)15 de outubro de 2017 23:48

      Longevidade, na verdade

      Excluir
  4. Allahu akbar.

    Eu conhecia a expressão, mas nunca tinha ouvido Sam usá-la. Admito que instintivamente senti um nó no estômago. Os jornais adoravam falar que os terroristas diziam isso logo antes de fazerem uma coisa horrível e explodir gente.


    Magnus descreveu o que todo mundo pensou

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Nem sabia que era isso o que eles diziam XD
      Mas se soubesse, realmente pensaria o mesmo, infelizmente

      Excluir
  5. — Só isso? — perguntou Alex. — Diga alguma coisa impressionante. Descreva a tempestade.
    Eu olhei para a nevasca pela janela.
    — A tempestade parece… branca. E fria.
    Mestiço suspirou.
    — Vamos todos morrer.

    Eu estou chorando... de tanto rir! Kkk
    Esse livro tá muito bom.

    ResponderExcluir
  6. Magnus... você me fez chorar com sua poesia.

    ResponderExcluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)