8 de outubro de 2017

Trinta e dois - Mallory também ganha umas amoras

NÃO ME ENTENDAM mal.
Mas é que, se você vai cair do alto de uma montanha, a Noruega é um ótimo lugar para isso. Ao longo da queda, deslizamos por belas fontes d’água, quicamos em árvores majestosas, despencamos por escarpas imponentes e escorregamos por áreas de flores perfumadas. Em algum lugar à minha esquerda, Mallory Keen xingava em gaélico, enquanto Samirah, atrás de mim, gritava:
— Magnus, me dá sua mão! Magnus!
Eu não via onde ela estava, por isso não tive como obedecer. E também não estava entendendo por que ela queria ficar de mãos dadas enquanto mergulhávamos para a morte.
Fui lançado de uma crista, o impacto amortecido num abeto, e caí rolando numa ladeira menos íngreme até finalmente parar com a cabeça numa coisa fofa e quente. Através da névoa de dor, vi, logo acima de mim, a cara branca e marrom de um bode.
— Otis? — balbuciei.
Bééééé, respondeu o bode.
E eu entendi. Não porque ele fosse Otis, o bode falante de Thor, mas porque, àquela altura, balidos de bodes comuns eram tão compreensíveis para mim quanto pios de pássaros. O bode tinha dito: Não, seu burro. Meu nome é Theodore. E minha barriga não é travesseiro.
— Desculpa — murmurei.
Então ele se levantou e saiu andando, levando embora meu confortável apoio de cabeça.
Eu me sentei, grunhindo. Dei uma conferida geral em mim mesmo e não encontrei nenhum osso quebrado. Incrível. Frigga realmente conhecia os melhores caminhos para despencar em velocidades letais.
Samirah surgiu descendo do céu, o hijab verde ondulando em volta do rosto.
— Magnus, não me ouviu chamando? Você não precisava cair! Eu ia trazer vocês até aqui voando.
— Ah. — Aquele momento constrangedor em que você acabou de pular de uma janela porque sua amiga pulou da janela, mas então você lembra que sua outra amiga pode voar. — Agora tudo faz sentido. Cadê a Mallory?
— Cailleach! — gritou ela ali por perto.
Reconheci a palavra: era bruxa ou megera em gaélico, que ela devia estar usando como apelido carinhoso para a recém-descoberta entidade materna. Caso estejam curiosos, a palavra se pronuncia: qui… - e aí você dá aquela escarrada das fortes. Tenta em casa, pessoal! É divertido!
Por fim, vi Mallory. Estava meio que camuflada num pé de amora, a cabeça presa entre dois galhos, as roupas cobertas de folhagem com seus espinhos cravados. Estava pendurada de cabeça para baixo, o braço esquerdo dobrado num ângulo estranho.
— Aguenta aí! — gritei, o que, pensando bem, foi uma coisa estúpida de se dizer, pois obviamente ela não iria a lugar algum.
Depois que Sam e eu conseguimos tirá-la de sua nova amiga frutífera, invoquei o poder de Frey e curei mil pequenos cortes em Mallory e seu osso fraturado, apesar de não ter remédio que curasse seu orgulho ferido nem seu mau humor.
— Melhor? — perguntei.
Ela cuspiu uma folha.
— Em comparação a cinco minutos atrás? Sim. Em comparação a hoje de manhã, quando eu não sabia que aquela cailleach era minha mãe? Nem tanto.
Mallory pegou a noz do bolso. Tinha deixado um hematoma na coxa dela durante a queda, mas a casca estava intacta. Ela reagiu como se aquilo fosse uma afronta pessoal: enfiou a noz no casaco junto com a pedra de amolar, murmurando vários insultos aos ancestrais da noz.
Sam chegou a erguer o braço para dar tapinhas no ombro de Mallory, mas pensou melhor e desistiu.
— Eu… eu sei que você está com raiva.
— Ah, é? — retrucou Mallory. — Deu pra notar?
— Mas… Frigga — disse Sam, como se o nome fosse por si só uma dissertação completa, com três argumentos por parágrafo e uma conclusão — você vê as semelhanças, não vê?
Mallory flexionou o braço curado.
— E que semelhanças seriam essas, valquíria? Cuidado com o que vai dizer.
Sam ignorou a ameaça.
— Frigga é o poder por trás do trono! — explicou ela, transbordando admiração. — Odin é o rei, mas ele está sempre viajando. Frigga manda e desmanda em Asgard. Sem ninguém nem perceber. Não se lembra daquela história de quando Odin foi exilado?
Ao perguntar isso, Sam olhou para mim em busca de apoio.
Eu não fazia a menor ideia do que ela estava falando.
— Lógico — respondi. — Claro que lembro.
Sam apontou para mim como quem diz: Viu? O Magnus já sacou tudo!
— Vili e Ve, os irmãos de Odin, assumiram o poder na ausência dele — continuou Sam. — Mas, para isso, tiveram que se casar com Frigga. Reis diferentes, mesma rainha. Tudo seguiu bem em Asgard porque quem estava no comando era Frigga.
Mallory fechou a cara.
— Está dizendo que sou parecida com a minha mãe porque estou disposta a ficar com qualquer um em troca de poder?
— Não! — exclamou Sam, corando. — Estou dizendo que Frigga está sempre operando dos bastidores, nunca é vista, mas ela é o cimento que une os aesires.
Mallory bateu o pé, com raiva.
— Agora eu sou um cimento que todo mundo ignora.
— Estou dizendo que você é como sua mãe porque você é a Frigga do andar dezenove. T.J. e Mestiço nunca teriam ficado amigos se não fosse por você. Eles se odiavam.
Aquilo era novidade para mim.
— Sério?
— Tem razão — murmurou Mallory. — Quando eu cheguei… Argh. Eles eram insuportáveis. Quer dizer, ainda mais insuportáveis do que são hoje.
— Exatamente — disse Sam. — Você fez deles uma equipe. Depois disso, quando Odin se disfarçou de einherji, você acha que foi por acaso que ele foi morar no seu andar? Você é a agente escolhida de Frigga em Valhala. O Pai de Todos queria ver você de perto.
Eu não pensava nisso havia um tempo. Quando cheguei a Valhala, Odin estava morando com a gente no andar dezenove disfarçado de X, o meio troll. X gostava de cachorros, era bom nas batalhas e não curtia muito papo. Eu gostava bem mais de Odin naquela forma.
— Hum — grunhiu Mallory. — Você acredita mesmo que seja isso?
— Acredito. E quando Magnus chegou, onde ele foi parar? Na sua equipe. Foi a mesma coisa com Alex. E comigo. — Sam abriu os braços. — Então, desculpe por ficar babando quando conheci Frigga, mas ela sempre foi minha aesir favorita. Ela é meio que a antiLoki, mantém a ordem enquanto ele bagunça tudo. E agora que sabemos que você é filha dela… bom, faz todo o sentido para mim. Fico ainda mais honrada de lutar ao seu lado.
Dessa vez foi Mallory quem corou, mas não parecia ser de raiva.
— Bom, valquíria, você tem a lábia do seu pai. Não vejo motivo para te matar pelo que disse.
Esse era o jeito de Mallory de agradecer.
Sam inclinou a cabeça.
— Então podemos ir procurar o hidromel de Kvásir?
— Mais uma coisa — falei, porque não consegui me conter. — Mallory, se seu nome do meio é Audrey, suas iniciais são M.A.K.
Ela levantou o indicador.
— Não fale, Zé-Ninguém.
— A gente vai chamar você de Mac agora.
Mallory bufou.
— Meus amigos de Belfast me chamavam assim. O tempo todo.
Não era um não, então concluí que tínhamos permissão para usar o apelido.
Passamos uma hora andando pelo vale. Sam tentou mandar uma mensagem para Alex, para avisar que estávamos bem, mas não conseguiu sinal. Aposto que o deus nórdico do celular tinha decretado NÃO TERÁS NEM UMA BARRINHA DE SINAL! e agora estava rindo da nossa cara.
Pegamos uma ponte de madeira que estalava acima de corredeiras, cruzamos um pasto cheio de bodes que não eram Otis. A escuridão gélida deu lugar ao sol escaldante conforme seguíamos a trilha, entrando e saindo de bosques e mais bosques. O tempo todo, eu tentei como pude ignorar as vozes dos pássaros, esquilos e bodes, que não tinham nada de bom a dizer sobre nossa presença no território deles. Seguíamos devagar rumo à cachoeira bifurcada que tínhamos visto do trem. Mesmo naquela vastidão seria um ponto fácil de encontrar.
Paramos em um momento para almoçar algumas frutas secas que Mallory por acaso tinha consigo e algumas amoras silvestres, regadas à água de um riacho tão gelada que os dentes doíam. Sam não comeu, claro. Só fez sua oração do meio-dia, sobre o tapete verde de grama fofa.
Preciso fazer um comentário sobre o ramadã: ajudava a reduzir o impulso de reclamar. Sempre que eu começava a achar que as coisas estavam difíceis para mim, eu lembrava que Samirah estava fazendo o mesmo que eu, mas sem comer nada nem beber água.
Subimos pela outra encosta do vale, nos guiando pelos rios gêmeos da cachoeira. Quando finalmente estávamos nos aproximando da queda d’água, começamos a ouvir os fortes sons ásperos que ecoavam por cima do cume à nossa frente: rrrrrr, rrrrrr, rrrrrr, como lixa de metal raspando tijolo. Naquele momento, me lembrei da visão que Frigga nos mostrara, de nove caras corpulentos com foices. Pensei: Magnus, se aqueles caras estiverem depois daquela colina, é melhor você ter um plano.
— Gente, quem são esses guardiões que vamos enfrentar mesmo? — perguntei às meninas.
Mallory secou a testa. A jornada pelo vale não tinha sido piedosa com sua pele clara. Se chegássemos vivos ao fim do dia, ela estaria com uma grave insolação.
— Como eu disse, eles são escravos. Os que vamos enfrentar… tenho quase certeza de que são gigantes.
Tentei associar isso ao que eu sabia sobre gigantes, o que, devo admitir, não era muito.
— Então… gigantes escravizam outros gigantes?
Sam fez cara de nojo.
— O tempo todo. Os humanos acabaram com isso séculos atrás…
— Há quem discorde disso — resmungou Mallory.
— É verdade — concordou Sam. — O que eu quero dizer é que os gigantes agem como os vikings agiam. Clãs entram em batalha uns contra os outros. Eles fazem prisioneiros de guerra e os declaram sua propriedade. Às vezes os escravos conseguem conquistar liberdade, às vezes não. Depende do dono.
— Então talvez a gente possa libertar esses caras — sugeri. — Trazer eles para o nosso lado.
Mallory deu um riso de deboche.
— Guardiões invencíveis do hidromel… A não ser que você ofereça a liberdade a eles, aí é moleza!
— Só estou dizendo que…
— Não vai ser tão fácil, Zé-Ninguém. Vamos parar de sonhar e começar a lutar.
Ela foi na frente, em direção ao topo da colina. Aquela era uma atitude só um pouquinho menos perigosa do que saltar de um trem em movimento.


14 comentários:

  1. Gostei do modo como Tio Rick deu mais valor às personagens como Mallory, T.J...

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  2. Caso estejam curiosos, a palavra se pronuncia: qui… - e aí você dá aquela escarrada das fortes. Tenta em casa, pessoal! É divertido! - Eu ri disso hahaha

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  3. Tbem tipo:Magnus filho de Frey,quando eu li o 1 livro eu achei q era de Thor,Odin,sla
    Agora a Mallory ser filha de Frigga,esposa de Thor...
    N sei como meu cerebro ta aguentando tantas noticias

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    1. A esposa do Thor é a Lady Sif, a Frigga é a mãe/madrasta dele (dependendo da onde tu pesquisou).

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    2. Damon Herondale(filho de Zeus)15 de outubro de 2017 20:55

      Frigga esposa de ODIN. Falou nesse capítulo! Como escrever Thor no lugar de Odin?

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    3. Dear Amante de livros, vc deveria ler o livro de forma correta né colega, pq depois de ler os últimos três capítulos e afirmar que Frigga é esposa de Thor, é pedi pra ser suado até o fim do Ragnarok e quem sabe até uns milênios depois!

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  4. Tenho quase certeza que Cailleach é uma deusa celta

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  5. Damon Herondale(filho de Zeus)15 de outubro de 2017 20:57

    "Caso estejam curiosos, a palavra se pronuncia: qui… - e aí você dá aquela escarrada das fortes. Tenta em casa, pessoal! É divertido!"
    Melhor. Narrador. De. Todos

    O único Anti-Loki que eu conheço é Heimdal, os dois vão até lutar e se matar(literalmente) no Ragnarok

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    1. Damon-kun não creio que a Sam quis dizer de forma literal, seria mais como dizer que eles são o completo oposto um do outro. Como a Sam disse o Loke provoca intriga e Frigga quem uni as pessoas e apazígua o ambiente quando há intriga.

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    2. Concordo, não há melhor narrador que Magnus

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  6. "NÃO TERÁS NEM UMA BARRINHA DE SINAL!"
    Odeio quando os deuses resolvem decretar isso.

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  7. Caso estejam curiosos, a palavra se pronuncia: qui… - e aí você dá aquela escarrada das fortes. Tenta em casa, pessoal!

    claro que eu não tentei pronunciar isso

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  8. Cara, falaram do Otis e me bateu uma saudade daquele bode.

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Boa leitura :)