8 de outubro de 2017

Trinta e cinco - Nunca mais quero depender de um bando de corvos

— BOM… — FALEI, USANDO o termo de praxe para começar conversas sobre como salvar nossa pele da destruição certa. — Alguma ideia?
— Beber o hidromel? — sugeriu Mallory.
Sam balançou o cantil.
— Parece que só tem um gole aqui. Se não funcionar rápido o bastante ou se o efeito passar antes de Magnus enfrentar Loki…
Foi como se um esquadrão de pequeninos T.J.s começasse a enfiar as baionetas na minha barriga. Agora que estávamos com o hidromel, meu desafio iminente com Loki parecia real e próximo demais. Empurrei esse medo para o fundo da mente. Eu tinha problemas mais imediatos.
— Acho que poesia não vai ajudar com esses caras — falei. — Jacques, quais são nossas chances em combate?
— Hum… — disse Jacques. — Baugi e Suttung. Dos dois eu conheço apenas a reputação. Fortes. Maus. Posso cuidar de um, provavelmente, mas os dois de uma vez só? Antes que esmaguem vocês como panqueca…?
— Podemos correr? — perguntei. — Fugir voando? Voltar para o navio para pedir reforços?
Infelizmente, eu já sabia a resposta. Ao ver as águias voando, ao ver como ficaram maiores em um minuto, eu soube que chegariam até ali num piscar de olhos. Os caras eram rápidos.
Sam pendurou o cantil no ombro.
— Eu poderia fugir deles voando, pelo menos até o navio, mas carregando duas pessoas? Impossível. Carregar uma só já me deixa mais lenta.
— Então vamos dividir para conquistar — disse Mallory. — Sam, pegue o hidromel. Volte para o navio. Talvez um dos gigantes siga você. Se isso não acontecer, bom, Magnus e eu faremos o melhor contra os dois. Pelo menos você vai levar o hidromel para os outros.
Em algum lugar à minha esquerda, uma vozinha piou:
— A ruiva é inteligente. Nós podemos ajudar.
Em uma árvore próxima havia um bando de corvos.
— Hã, pessoal — chamei a atenção delas —, aqueles corvos acham que podem nos ajudar.
— Acham? Você não acredita? — grasnou outro corvo. — Não confia em nós? Mande suas amigas para o navio com o hidromel. Daremos uma mãozinha para você aqui. Em troca, queremos alguma coisa brilhante. Qualquer coisa serve.
Passei as informações ao grupo.
Mallory olhou para o horizonte. As águias gigantes estavam chegando perto demais.
— Mas, se Sam tentar me carregar, eu vou fazer com que ela fique mais lenta.
— A noz! — disse Sam. — Se você conseguir entrar nela…
— Ah, não.
— Estamos perdendo tempo! — exclamou Sam.
— Argh! — Mallory pegou a noz e abriu as metades. — Como eu…?
Imaginem um lenço de seda sendo sugado pela boca de um aspirador de pó e desaparecendo com um slurp brusco. Foi isso que aconteceu com Mallory. A noz se fechou e caiu no chão, e lá de dentro uma vozinha gritou palavrões em gaélico.
Sam pegou a noz.
— Magnus, você tem certeza?
— Eu estou bem. Tenho Jacques.
— Você tem Jacques! — cantarolou minha espada.
Sam disparou para o céu, me deixando apenas com minha espada falante e um bando de pássaros.

* * *

Eu olhei para os corvos.
— Beleza, pessoal, qual é o plano?
— Plano? — grasniu o corvo mais próximo. — Nós só dissemos que íamos ajudar. Não temos um plano propriamente dito.
Corvos idiotas e traiçoeiros. Além disso, que tipo de ave usa o termo propriamente dito?
Como eu não tinha tempo de matar o bando todo, contemplei minhas opções limitadas.
— Tudo bem. Quando eu der o sinal, voem na direção do gigante mais próximo e tentem distraí-lo.
— Claro — grasniu um corvo diferente. — Qual é o sinal?
Antes que eu conseguisse pensar em um, uma águia enorme desceu e pousou na minha frente.
A única boa notícia, se é que podemos chamar assim: a outra águia continuou voando e foi atrás de Sam. Nós dividimos. Agora, precisávamos conquistar.
Torci para a águia na minha frente se transformar em um gigante pequeno e fácil de derrotar, de preferência um que usasse armas que atirassem bolhas de sabão. Mas ele se transformou em um ser de nove metros, a pele como obsidiana lascada. Ele tinha o cabelo louro e os olhos pálidos de Gunnlod, que não combinavam nada com a pele rochosa e vulcânica. Gelo e neve pontilhavam seu bigode, como se ele tivesse mergulhado de cara em uma caixa de Sucrilhos. A armadura era costurada a partir de várias peles, inclusive algumas que pareciam ser de espécies em risco de extinção: zebra, elefante, einherji. Na mão do gigante cintilava um machado de ônix de lâmina dupla.
— QUEM OUSA ROUBAR DO PODEROSO SUTTUNG? — gritou ele. — VIM VOANDO DE NIFLHEIM E, CARAMBA, MEUS BRAÇOS ESTÃO BEM CANSADOS!
Não consegui pensar em nenhuma resposta que não envolvesse um grito agudo de terror.
Jacques flutuou até o gigante.
— Ei, amigo — disse ele. — Um cara surrupiou seu hidromel e foi embora por ali. Acho que ele disse que o nome dele era Hrungnir.
Jacques apontou na direção geral de York, Inglaterra.
Achei uma boa mentira, mas Suttung só franziu a testa.
— Boa tentativa — disse ele. — Hrungnir nunca ousaria me contrariar. Vocês são os ladrões e me tiraram de um trabalho importante! O grande navio Naglfar está prestes a zarpar! Não posso ficar voando de volta para casa toda vez que o alarme toca!
— Então Naglfar está perto, é? — perguntei.
— Ah, não está longe — admitiu Suttung. — Ao atravessar para Jötunheim, é só seguir a costa até a fronteira de Niflheim e… — Ele fez cara feia. — Pare de tentar me enganar! Vocês são ladrões e têm que morrer!
Ele ergueu o machado.
— Espere! — gritei.
— Por quê? — perguntou o gigante.
— É, por quê? — perguntou Jacques.
Eu odiava quando minha espada ficava do lado de um gigante. Jacques estava pronto para lutar, mas eu tinha lembranças ruins de Hrungnir, o último gigante da pedra que enfrentamos. Não foi fácil cortá-lo em cubinhos. Além disso, ele explodiu ao morrer. Eu precisava de todas as vantagens possíveis para vencer Suttung, inclusive do meu bando de corvos inúteis, para os quais ainda não tinha pensado em um sinal.
— Você alega que somos ladrões — falei —, mas como você conseguiu aquele hidromel, ladrão?
Suttung manteve o machado suspenso acima da cabeça, nos dando uma visão infeliz dos pelos louros em suas axilas de ônix.
— Eu não sou ladrão! Meus pais foram mortos por dois anões do mal, Fjalar e Gjalar.
— Ah, eu odeio esses dois.
— Não é? — concordou Suttung. — Eu teria matado ambos por vingança, mas eles me ofereceram o hidromel de Kvásir, então ele é meu por direito!
— Ah. — Isso quebrou o meu argumento. — Mesmo assim, o hidromel foi criado a partir do sangue de Kvásir, um deus assassinado. Ele pertence aos aesires!
— E você quer consertar as coisas — resumiu o gigante — roubando o hidromel de novo? E matando os escravos do meu irmão para isso?
Eu já mencionei que não gosto da lógica dos gigantes?
— Talvez? — E então, em um golpe de genialidade, pensei em um sinal para meus aliados alados: — Mas só se eu não estivesse NO BICO DO CORVO!
Infelizmente, os corvos foram lentos e não reconheceram minha perspicácia.
Suttung gritou:
— MORRA!
Jacques tentou interceptar o machado, mas a arma agiu com a gravidade, o impulso e a força do gigante a seu favor. Jacques, não. Eu mergulhei para o lado na hora que o machado partiu o campo no ponto onde eu estava.
Enquanto isso, os corvos tinham uma conversa tranquila.
— Por que ele disse “bico do corvo”? — grasnou um.
— É uma expressão — explicou outro. — Quer dizer que a pessoa está prestes a morrer.
— Tá, mas por que ele disse isso? — perguntou um terceiro.
— ROAAARR!
Suttung arrancou o machado do chão.
Jacques voou para a minha mão.
— A gente pode acabar com ele juntos!
Eu realmente esperava que não fossem as últimas palavras que eu ouviria.
— Bico do corvo… — repetiu um dos corvos. — Esperem aí. Nós somos corvos. Aposto que era o sinal!
— Isso! — gritei. — Pega ele!
— Tudo bem! — gritou Jacques com alegria. — Vamos lá!
Suttung ergueu o machado acima da cabeça mais uma vez. Jacques me puxou para a batalha quando o bando de corvos levantou voo da árvore e atacou a cara de Suttung, bicando seus olhos e nariz e barba polvilhada de Sucrilhos.
O gigante rugiu, cambaleante e cego.
— HA, HA! — gritou Jacques. — Agora pegamos você!
Ele me puxou para a frente. Juntos, enfiamos Jacques no pé esquerdo do gigante.
Suttung berrou. O machado escorregou de suas mãos, a lâmina pesada se enfiando no crânio do próprio dono. E é por isso, crianças, que nunca se deve brandir um machado enorme sem estar usando capacete de segurança.
O gigante tombou com um TUM que mais pareceu um trovão, bem em cima da pilha de escravos.
Os corvos pousaram na grama ao meu redor.
— Isso não foi muito cavalheiresco — comentou um. — Mas você é viking, então acho que cavalheirismo não se aplica.
— Isso mesmo, Godfrey — concordou outro. — O cavalheirismo era um conceito do final da era medieval.
Um terceiro corvo grasniu:
— Vocês dois estão se esquecendo dos normandos…
— Bill, pode parar — disse Godfrey. — Ninguém liga para sua tese de doutorado sobre a invasão normanda.
— E as coisas brilhantes? — perguntou o segundo corvo. — A gente vai ganhar algumas agora?
O bando todo me encarava com olhos reluzentes e gananciosos.
— Hã… — Eu só tinha uma coisa brilhante: Jacques, que no momento fazia uma dança da vitória em volta do cadáver do gigante e cantava “Quem matou um gigante? Eu matei um gigante! Quem é o matador de gigantes? Eu sou o matador de gigantes!”
Por mais tentador que fosse entregá-lo aos corvos, achei que talvez fosse precisar da minha espada na próxima vez em que tivesse que furar o pé de um gigante.
Então olhei para a pilha de escravos mortos.
— Ali! Nove lâminas de foice extremamente brilhantes! Serve?
— Hum… — disse Bill. — Não sei bem onde colocaríamos.
— Nós poderíamos alugar um galpão — sugeriu Godfrey.
— Boa ideia! Muito bem, garoto mortal. Foi bom trabalhar com você.
— Só tomem cuidado — avisei. — As lâminas são muito afiadas.
— Ah, não se preocupe com a gente — grasniu Godfrey. — Você tem um caminho perigoso à frente. Vai encontrar apenas um porto hospitaleiro daqui até o navio dos mortos, isso se for possível chamar a fortaleza de Skadi de hospitaleira.
Estremeci ao lembrar o que Njord dissera sobre a ex-esposa.
— É um lugar horrível — grasniu Bill. — Frio, muito, muito frio. E não tem nada brilhante lá. Agora, se nos der licença, temos que começar a dar conta de toda essa carniça para chegar às lâminas brilhantes.
— Amo nosso trabalho — disse Godfrey.
— Eu também! — grasniram os outros corvos.
As aves voaram para a pilha de corpos e começaram a trabalhar, uma coisa que eu não queria ver.
Antes que o bando conseguisse dar cabo das próprias vidas nas lâminas das foices e botasse a culpa em mim, Jacques e eu começamos nossa longa caminhada de volta até o Bananão.


4 comentários:

  1. — Por que ele disse “bico do corvo”? — grasnou um.

    — É uma expressão — explicou outro. — Quer dizer que a pessoa está prestes a morrer.

    — Tá, mas por que ele disse isso? — perguntou um terceiro

    — Bico do corvo… — repetiu um dos corvos. — Esperem aí. Nós somos corvos. Aposto que era o sinal!



    Parece quando eu ensino matemática pros meus colegas

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  2. Corvos com doutorado em história

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  3. NUNCA SUBESTIME O PODER DOS CORVOS

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  4. Só eu achei q um bando de corvos conseguirem alugar um galpão é mais estranho do que um deles estar escrevendo uma tese para doutorado sobre invasões normandas?

    Ass.: Mutta Chase Herondale

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Boa leitura :)