8 de outubro de 2017

Treze - Malditos avôs explosivos

— VOCÊ DEVIA TER começado falando isso — falei, com o coração disparado. — Hearth e Blitz não vão morrer. Isso invalida qualquer acordo.
O sorriso cheio de dentes de Njord era branco como neve escandinava. Eu queria saber o segredo dele para ficar tão calmo. Meditação? Pescaria? Aulas de yoga do Hotel Valhala?
— Ah, Magnus, você é tão parecido com o seu pai.
Eu pisquei.
— Nós dois somos louros e gostamos de ficar ao ar livre?
— Vocês dois têm bom coração — explicou Njord. — Frey faria qualquer coisa pelos amigos. Ele sempre amou com facilidade e desprendimento, embora às vezes sem sabedoria. Você carrega a prova disso no seu pescoço.
Fechei os dedos em volta da pedra de runa de Jacques. Eu conhecia a história: Frey renunciara à Espada do Verão para conquistar o amor de uma bela giganta. Como abriu mão da arma, ele seria morto no Ragnarök. A moral da história, como Jacques gostava de dizer: Primeiro as espadas, depois as namoradas.
Mas, de qualquer jeito, a questão era que praticamente todo mundo morreria no Ragnarök. Eu não culpava meu pai pelas escolhas dele. Se ele não se apaixonasse tão facilmente, eu não teria nascido.
— Tudo bem, eu sou igual ao meu pai. Ainda prefiro meus amigos a uma caneca de hidromel. Não ligo se é de abóbora com especiarias ou de pêssego tipo lambic.
— É de sangue, na verdade — disse Njord. — E de cuspe.
Comecei a ficar enjoado, mas achei que não era por estar viajando de costas.
— Como é que é?
Njord abriu a mão. Acima da palma flutuava a miniatura de um homem de barba vestindo uma túnica de lã. O rosto era simpático e alegre, a expressão capturada no meio de uma gargalhada. Ao vê-lo, foi difícil não me inclinar para a frente, sorrir e querer ouvir sobre o que ele estava rindo.
— Esse era Kvásir. — O tom de Njord beirava a tristeza. — O ser mais perfeito já criado. Milênios atrás, quando os deuses vanires e aesires deram fim à guerra, todos nós cuspimos em um cálice de ouro. Dessa mistura surgiu Kvásir, nosso tratado de paz ambulante!
De repente, eu não queria mais me inclinar para tão perto do homem cintilante.
— O cara foi feito de cuspe.
— Faz sentido — grunhiu Blitzen. — Saliva de deus é um excelente ingrediente.
Hearthstone inclinou a cabeça. Pareceu fascinado pela figura holográfica. Ele sinalizou: Por que alguém o assassinaria?
— Assassinato? — perguntei.
Njord assentiu, com um brilho nos olhos. Pela primeira vez tive a impressão de que meu avô não era só um cara tranquilo com pés bem cuidados. Ele era uma deidade poderosa que provavelmente poderia esmagar nosso navio com um único pensamento.
— Kvásir perambulou pelos nove mundos levando sabedoria, conselhos e justiça aonde quer que fosse. Era amado por todos. Até que foi massacrado. Uma coisa horrível. Injustificável.
— Loki? — tentei adivinhar, porque parecia a próxima palavra lógica daquela lista.
Njord deu uma gargalhada curta e amarga.
— Não dessa vez, não. Foram anões. — Ele olhou para Blitzen. — Sem querer ofender.
Blitzen deu de ombros.
— Os anões não são todos iguais. Assim como os deuses.
Se Njord se sentiu insultado, não demonstrou. Ele fechou a mão, e o homenzinho de cuspe desapareceu.
— Os detalhes do assassinato não são importantes. Depois, o sangue de Kvásir foi drenado do corpo e misturado com mel para criar um hidromel mágico. Tornou-se a bebida mais estimada e desejada dos nove mundos.
— Ugh. — Eu coloquei a mão na boca. Minha ideia de quais detalhes deviam ficar de fora de uma história era bem diferente da de Njord. — Você quer que eu beba hidromel feito do sangue de um deus feito de cuspe.
Njord coçou a barba.
— Dito assim, realmente parece ruim. Mas, sim, Magnus. Quem bebe o hidromel de Kvásir encontra seu poeta interior. As palavras perfeitas surgem. A poesia flui. O discurso encanta. As histórias hipnotizam os ouvintes. Com um poder como esse, você poderia ficar cara a cara e insulto a insulto em uma disputa com Loki.
Meus pensamentos se reviraram junto com meu estômago. Por que tinha que ser eu a desafiar Loki?
Minha consciência respondeu, ou talvez tivesse sido Jacques: Porque você se ofereceu no banquete, bobão. Todo mundo ouviu.
Massageei as têmporas, me perguntando se era possível um cérebro literalmente explodir por excesso de informações. Essa era uma morte que eu nunca tinha tido em Valhala.
Hearthstone olhou para mim com preocupação. Quer uma runa?, sinalizou ele. Ou aspirina?
Eu fiz que não.
Então o diário do tio Randolph não era um truque. Ele deixou um plano real e viável. No fim das contas, apesar de tudo que fez, parecia que o velho tolo sentiu algum remorso. Ele tentou me ajudar. Eu não tinha certeza se isso me fazia sentir melhor ou pior.
— E o nome Bolverk? — perguntei. — O que significa?
Njord sorriu.
— Era um dos pseudônimos de Odin. Por muito tempo, os gigantes estiveram de posse de todo o hidromel de Kvásir. Odin usou um disfarce para roubar um pouco para os deuses. E conseguiu. Ele até espalhou gotas de hidromel por Midgard para inspirar bardos mortais. Mas o suprimento do elixir dos deuses acabou séculos atrás. O único hidromel que resta é uma porção pequena, guardada com muito ciúme pelos gigantes. Para conseguir, você vai ter que seguir os passos de Bolverk e ser capaz de roubar algo que apenas Odin já conseguiu.
— Perfeito — murmurou Blitz. — E como é que nós fazemos isso?
— Mais importante — interrompi —, por que a missão é tão perigosa para Hearth e Blitz? E como podemos fazer com que não seja?
Senti um desejo enorme de escrever um bilhete em nome de Hearth e Blitz: Queridas forças cósmicas, por favor, liberem meus amigos do destino mortal. Eles não estão se sentindo muito bem hoje. No mínimo, queria paramentá-los com capacete e coletes salva-vidas antes de mandá-los em frente.
Njord olhou para Hearthstone e Blitzen. Ele sinalizou: Vocês já sabem qual é sua tarefa.
Ele fez um boneco de palito ficar de pé na palma da mão: base; depois, dois punhos, um batendo em cima do outro: trabalho.
Trabalhem para construir as bases. Ao menos foi o que eu entendi. Tinha sido isso ou: Vocês vão cultivar os campos. Como Njord era o deus da colheita, fiquei na dúvida.
Hearthstone tocou no cachecol e sinalizou com relutância: A pedra?
Njord assentiu. Vocês sabem onde procurar.
Blitzen interrompeu a conversa, sinalizando tão rápido que as palavras ficaram meio confusas. Deixe meu elfo em paz! Nós não podemos fazer isso de novo! É muito perigoso! Ou ele podia estar querendo dizer: Deixe meu elfo no banheiro! Não podemos fazer esse relógio de pulso! Lixo demais!
— Do que vocês estão falando? — perguntei.
Em voz alta, minhas palavras pareceram incômodas e indesejadas no diálogo silencioso.
Blitzen passou as mãos pelo colete de cota de malha.
— Do nosso trabalho de reconhecimento de amplo espectro, garoto. Mímir nos mandou procurar o hidromel de Kvásir. E aí, ouvimos boatos de certo item de que precisaríamos…
— A pedra de amolar de Bolverk — adivinhei.
Ele assentiu com infelicidade.
— É o único jeito de derrotar o que protege o hidromel. — Ele abriu os braços. — Só não sabemos direito quem são, como faremos isso ou por quê.
Todas me pareceram perguntas importantes.
— A questão é que — continuou Blitz —, se essa pedra estiver onde achamos que está…
Tudo bem, sinalizou Hearthstone. Nós temos que fazer isso. Então é o que faremos.
— Amigo, não — disse Blitz. — Você não pode…
— O elfo está certo — interrompeu Njord. — Vocês dois precisam encontrar a pedra enquanto Magnus e o restante da tripulação navegam para descobrir a localização do hidromel. Estão prontos?
— Opa, opa, opa — falei. — Você vai mandá-los para longe agora? Eles acabaram de chegar!
— Neto, você tem muito pouco tempo até que o navio de Loki esteja pronto para zarpar. É preciso dividir para conquistar.
Eu tinha quase certeza de que a frase dividir para conquistar significava que o exército dividido era conquistado, mas Njord não parecia estar com humor para discutir.
— Deixe que eu vá então. — Fiquei de pé com dificuldade. Eu havia tido o dia mais longo da história dos dias. Estava prestes a desmoronar, mas não havia a menor possibilidade de eu ficar parado enquanto meus amigos mais antigos ficavam à mercê de um perigo mortal. — Ou pelo menos deixe que eu vá com eles.
— Garoto — disse Blitz, a voz falhando. — Está tudo bem.
O fardo é meu, sinalizou Hearth, as mãos empurrando um dos ombros dele para baixo.
Njord me deu outro sorriso calmo. Eu estava quase pronto para dar um soco nos dentes perfeitos do meu avô.
— A tripulação deste navio vai precisar de você, Magnus — avisou ele. — Mas prometo o seguinte: quando Hearthstone e Blitzen tiverem encontrado o paradeiro da pedra de amolar, quando tiverem preparado as bases para o ataque, enviarei os dois de volta para buscar você. E assim vocês três poderão enfrentar o perigo juntos. Se falharem, morrerão como uma equipe. Que tal?
Isso não me fez gritar viva, mas concluí que era a melhor proposta que eu ia receber.
— Tudo bem. — Ajudei Blitz a ficar de pé e dei um abraço nele. Meu amigo tinha cheiro de alga torrada e perfume Anão Noir. — Não ousem morrer sem mim.
— Vou me esforçar, garoto.
Eu me virei para Hearthstone. Coloquei a mão delicadamente em seu peito, um gesto élfico de profunda afeição. Você, eu sinalizei. Em segurança. Senão eu. Com raiva.
Os cantos da boca de Hearth se ergueram, apesar de ele ainda parecer distraí do e preocupado. Os batimentos saltavam sob meus dedos como uma pomba assustada batendo as asas.
Você também, sinalizou ele.
Njord estalou os dedos e meus amigos viraram água do mar, como ondas quebrando no casco.
Engoli minha raiva.
Disse para mim mesmo que Njord havia apenas enviado Hearth e Blitz para longe. Não pulverizado os dois. Meu avô prometeu que eu os veria de novo. Eu tinha que acreditar nisso.
— E agora? O que eu faço enquanto eles estiverem longe?
— Ah. — Njord cruzou as pernas em posição de lótus, provavelmente só para exibir as solas dos pés esculpidos pelas ondas. — Sua tarefa é igualmente difícil, Magnus. Você precisa descobrir onde está o hidromel de Kvásir. É um segredo bem guardado, que só alguns gigantes conhecem. Um deles, no entanto, pode ser convencido a contar para você: Hrungnir, que habita a terra humana de Jórvík.
O navio bateu em uma onda enorme, fazendo meu estômago pular.
— Já tive alguns maus encontros com gigantes.
— E quem não teve? — disse Njord. — Quando chegar a Jórvík, você terá que encontrar Hrungnir e desafiá-lo. Se vencer, exija dele a informação de que precisa.
Tremi, pensando na última vez que estive em Jötunheim.
— Diga que esse desafio não vai ser um torneio de boliche.
— Ah, não, fique tranquilo! — disse Njord. — Provavelmente será um combate corpo a corpo até a morte. Você precisa levar alguns amigos. Eu recomendaria a garota bonita, Alex Fierro.
Eu me perguntei se Alex ficaria lisonjeada ou enojada com o elogio, ou se só riria. Eu me perguntei se os pés de Alex eram tão bem cuidados quanto os de Njord. Uma coisa bem idiota de se pensar.
— Tudo bem. Jórvík. Onde quer que isso seja.
— O navio sabe o caminho — assegurou Njord. — Posso garantir navegação segura até lá, mas, se você sobreviver e avançar, seu navio vai ficar mais uma vez vulnerável a ataques de Aegir, Ran, as filhas deles ou… coisas piores.
— Vou tentar conter minha felicidade.
— É uma boa ideia — disse Njord. — Seu elfo e seu anão vão encontrar a pedra de amolar de que você precisa. Você vai descobrir a localização secreta do hidromel de Kvásir, vai derrotar Loki e prender aquele trapaceiro novamente!
— Agradeço o voto de confiança.
— Bem, é que, se você não fizer isso, Loki vai te insultar até que vire uma sombra patética e impotente de si mesmo. Depois, terá que assistir a todos os seus amigos morrendo, um por um, até só sobrar você para sofrer em Helheim por toda a eternidade enquanto os nove mundos ardem em chamas. Esse é o plano de Loki.
— Ah.
— Enfim! — disse Njord com alegria. — Boa sorte!
Meu avô explodiu em uma névoa marinha fina, borrifando meu rosto com água salgada.


7 comentários:

  1. esse foi o melhor discurso motivacional dos nove mundos

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  2. "Deixe MEU elfo em paz!" sério gente, qual a relação dessea dois afinal de contas??? Eu sou eu que tô vendo chifre em cabaça de cavalo???

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    1. Ai, acho que vocês veem demais! Kkkk seria o mesmo se ele tivesse dito "Deixe meu amigo em paz!" Tem o pronome possessivo ali também

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  3. De qualquer forma, eles são muito "shippaveis", tenho grandes esperanças sobre eles.

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  4. Damon Herondale(filho de Zeus)14 de outubro de 2017 20:35

    " Neto, você tem muito pouco tempo até que o navio de Loki esteja pronto para zarpar"
    Tudo culpa do Aquecimento Global, de novo

    Eu acho que essa pedra de amolar ta na casa do pai do Hearth em Álfheim, pq ele disse que era "seu fardo"

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  5. Eles não são namorados? Eu sempre pensei que fossem... Fazem um casal tão fofo! Vou sofrer uma decepção muito grande se eles não forem um casal fofo...

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Boa leitura :)