8 de outubro de 2017

Três - Eu herdo um lobo morto e umas cuecas

— ISSO É NOVIDADE — disse Alex.
A porta da frente da casa de tijolinhos tinha sido arrombada; a tranca, arrancada da parede. No saguão, caído sobre o tapete oriental, havia a carcaça de um lobo.
Estremeci.
Não dava para golpear com um machado em nenhum lugar dos nove mundos sem acertar algum tipo de lobo: Fenrir, os lobos de Odin, os lobos de Loki, lobisomens, lobos maus e lobos autônomos microempreendedores que matariam qualquer um pelo preço certo.
O lobo morto no saguão do tio Randolph parecia um dos que tinham atacado minha mãe dois anos antes, na noite em que ela morreu. Fiapos de luminescência azul se agarravam ao pelo preto desgrenhado, a boca estava contorcida em um rosnar permanente. No topo da cabeça, cauterizada na pele, havia uma runa viking, mas o pelo em volta estava tão queimado que eu não conseguia identificar o símbolo. Meu amigo Hearthstone talvez soubesse dizer.
Alex contornou a carcaça do tamanho de um pônei. Chutou as costelas do lobo. A criatura permaneceu prestativamente morta.
— O corpo ainda não se dissolveu — observou ele. — Normalmente, monstros se desintegram logo depois que morrem. Ainda dá para sentir o cheiro de pelo queimado. Deve ter sido recente.
— Acha que a runa era algum tipo de armadilha?
Alex deu um sorrisinho.
— Acho que seu tio sabia uma ou duas coisinhas sobre magia. O lobo pisou no tapete, a runa disparou e BAM!
Eu me lembrei de todas as vezes que, quando era sem-teto, invadi a casa do tio Randolph quando ele não estava para roubar comida, vasculhar o escritório dele ou só para irritar. Eu nunca levei um bam. Sempre considerei Randolph um fracasso em segurança doméstica. Naquele momento, comecei a ficar enjoado ao me perguntar se podia ter acabado morto no capacho com uma runa queimada na testa.
Teria sido essa armadilha o motivo para o testamento de Randolph ter sido tão específico sobre Annabeth e eu precisarmos visitar a propriedade antes de tomarmos posse? Randolph teria tentado se vingar do além?
— Você acha que é seguro explorar o restante da casa? — perguntei.
— Acho que não — disse Alex, animado. — Vamos nessa.
Não encontramos mais nenhum lobo morto no primeiro andar. Nenhuma runa explodiu na nossa cara. A coisa mais horrenda que descobrimos foi a geladeira do tio Randolph, na qual iogurte e leite de soja vencidos e cenouras mofadas estavam prestes a se tornar uma sociedade pré-industrial. Randolph nem deixou chocolate na despensa para mim, o maldito.
No segundo andar, nada tinha mudado. No escritório do meu tio, o sol entrava pelo vitral, projetando uma luz vermelha e laranja pelas estantes e artefatos vikings expostos. Em um dos cantos, uma grande runa entalhada com a cara vermelha e rosnante de um lobo (naturalmente). Mapas caindo aos pedaços e pergaminhos amarelados e desbotados cobriam a escrivaninha de Randolph. Passei os olhos pelos documentos em busca de alguma novidade, alguma coisa importante, mas não vi nada que já não tivesse visto em minha última visita.
Eu me lembrei das palavras no testamento de Randolph, que Annabeth tinha enviado para mim.
É urgente, declarara Randolph, que meu amado sobrinho Magnus examine meus pertences mundanos o mais rápido possível. É necessário que ele dê especial atenção aos papéis.
Eu não sabia por que ele havia colocado tais frases no testamento. Nas gavetas, não encontrei nenhuma carta endereçada a mim, nenhum pedido de desculpas sincero dizendo Querido Magnus, sinto muito por ter mandado matá-lo, depois traído você ao ficar do lado de Loki, esfaqueado seu amigo Blitzen e então quase ter matado você de novo.
Ele não deixou nem a senha do wi-fi da mansão.
Olhei pela janela do escritório. Do outro lado da rua, no Commonwealth Mall, as pessoas passeavam com os cachorros, jogavam frisbee e curtiam o dia de sol. A estátua de Leif Erikson continuava em seu pedestal, ostentando com orgulho o sutiã de metal, observando o tráfego na rua Charlesgate e provavelmente se perguntando por que não estava na Escandinávia.
— Então… — Alex se aproximou de mim. — Você vai herdar isso tudo?
Ao longo da nossa caminhada até lá, contei para ele o básico sobre o testamento do tio Randolph, mas Alex ainda parecia incrédulo, quase ofendido.
— Randolph deixou a casa para Annabeth e para mim — falei. — Só que, tecnicamente, eu estou morto, o que quer dizer que é tudo de Annabeth. Os advogados de Randolph fizeram contato com o pai de Annabeth, que contou para ela, que contou para mim. Ela pediu que eu desse uma olhada e — eu dei de ombros — decidisse o que fazer com este lugar.
Na estante mais próxima, Alex pegou um porta-retratos com uma foto do tio Randolph com a esposa e as filhas. Eu não conheci Caroline, Emma e Aubrey. Elas morreram num naufrágio durante uma tempestade, anos antes. Mas eu as tinha visto nos meus pesadelos. Sabia que foram a moeda de troca que Loki usou para convencer meu tio, prometendo a Randolph que ele veria a família de novo se o ajudasse a escapar das correntes… E, de certa forma, Loki falou a verdade. Na última vez que vi tio Randolph, ele estava caindo em um abismo direto para Helheim, a terra dos mortos desonrados.
Alex virou o porta-retratos, esperando talvez encontrar um bilhete secreto no verso. Na última vez que fomos àquele escritório, encontramos um convite de casamento escondido assim; um convite que, por sinal, nos trouxe todo tipo de problema. Desta vez, não havia mensagem escondida, apenas papelão, uma visão que causava bem menos sofrimento do que os rostos sorridentes dos meus parentes mortos.
Alex colocou o porta-retratos de volta no lugar.
— Annabeth não liga para o que você vai fazer com a casa?
— Não. Ela já tem muita coisa na cabeça com a faculdade e, você sabe, as questões de semideusa. Só quer que eu avise se encontrar alguma coisa interessante: álbuns de fotos antigos, relíquias de família, esse tipo de coisa.
Alex franziu o nariz.
— Relíquias de família. — O rosto dele tinha a mesma expressão um pouco enojada e um pouco intrigada de quando chutou o lobo morto. — O que tem no andar de cima?
— Não sei direito. Quando eu era criança, nós não tínhamos permissão de ir além dos dois primeiros andares. E, nas poucas vezes que invadi a casa mais recentemente… — Dei de ombros. — Acho que nunca fui tão longe.
Alex me olhou por cima dos óculos, o olho castanho e o olho âmbar como luas díspares subindo no horizonte.
— Parece interessante. Vamos.
O terceiro andar abrigava dois quartos grandes. O da frente estava impecavelmente limpo, frio e impessoal. Tinha duas camas de solteiro. Uma cômoda. Paredes vazias. Talvez fosse um quarto de hóspedes, embora eu duvidasse de que Randolph recebesse muita gente. Ou talvez tivesse sido o quarto de Emma e Aubrey. Se foi, Randolph removera todos os vestígios de ambas, deixando um buraco vazio no meio da casa. Não ficamos muito tempo ali.
O segundo quarto devia ter sido o de Randolph. Tinha o cheiro da colônia de cravo antiquada que ele usava. Havia pilhas de livros mofados junto às paredes. Embalagens de chocolate enchiam a cesta de lixo. Randolph provavelmente comera o estoque todo antes de sair de casa para ajudar Loki a destruir o mundo.
Mas não dava para culpá-lo. É como eu sempre digo: Chocolate primeiro, destruir o mundo depois.
Alex pulou na cama de dossel, quicou e sorriu quando as molas rangeram.
— O que você está fazendo? — perguntei.
— Barulho. — Ele se inclinou e mexeu na gaveta da mesa de cabeceira de Randolph. — Vejamos. Pastilhas para tosse. Clipes de papel. Bolinhas de lenço de papel nas quais não vou tocar. E… — Ele assobiou. — Remédio para prisão de ventre! Magnus, tudo isso pertence a você!
— Você é uma pessoa estranha.
— Eu prefiro pessoa fabulosamente esquisita.
Nós vasculhamos o restante do quarto, apesar de eu não saber o que estava procurando. Especial atenção aos papéis, dizia o testamento de Randolph. Eu duvidava de que ele estivesse falando dos lenços amassados.
Annabeth não tinha conseguido arrancar muitas informações dos advogados de Randolph. Aparentemente nosso tio revisara o testamento pouco antes de morrer. Isso poderia significar que Randolph sabia que seu fim estava próximo, que ele sentiu uma pontada de culpa por ter me traído e então quis me deixar algum tipo de mensagem final. Ou que ele tinha revisado o testamento sob as ordens de Loki. Mas se tudo isso era uma armadilha para me atrair até a mansão, por que havia um lobo morto no saguão?
Não encontrei nenhum papel secreto no armário de Randolph. O banheiro não tinha nada de mais, exceto por uma coleção impressionante de frascos de Listerine pela metade. A gaveta de roupa íntima estava lotada de cuecas azul-marinho suficientes para vestir um esquadrão de Randolphs: todas estilo sunga, engomadas, passadas e dobradas. Algumas coisas desafiam qualquer explicação.
No quarto andar, mais dois quartos vazios. Nada perigoso como lobos, runas explosivas ou cuecas de gente velha.
O último andar era uma biblioteca ainda maior do que a que havia no escritório de Randolph. Uma coleção desorganizada de romances ocupava as prateleiras. Havia uma copa num canto do aposento, com frigobar e chaleira elétrica e — MALDITO SEJA, RANDOLPH! — nenhum chocolate. As janelas tinham vista para os telhados de telhas verdes de Back Bay, e uma escada levava para o que eu supunha ser o terraço.
Uma poltrona de couro que parecia ser confortável estava virada para a lareira. No centro da moldura de mármore havia (é claro) uma cabeça de lobo rosnando. Na cornija, em um tripé, havia um chifre de bebida nórdico cuja borda de prata estava cheia de desenhos de runas e, preso a ele, uma tira de couro. Eu tinha visto milhares de chifres assim em Valhala, mas fiquei surpreso de encontrar um ali. Randolph nunca me pareceu do tipo que bebia hidromel. Talvez usasse para beber chá Earl Grey.
— Madre de Dios — disse Alex.
Olhei para ele. Era a primeira vez que eu o ouvia falar espanhol. Ele indicou uma das fotos na parede e abriu um sorriso malicioso.
— Por favor, diga que esse aqui é você.
Era uma foto da minha mãe com o cabelo curto de sempre e um sorriso radiante, vestindo calça jeans e camisa de flanela. Estava de pé no tronco oco de uma figueira, segurando um Magnus bebê virado para a câmera; meu cabelo era um tufo louro platinado, minha boca brilhava de baba e meus olhos cinzentos estavam arregalados como quem diz: O que é que eu estou fazendo aqui?
— Eu mesmo — admiti.
— Você era tão fofo! — Alex olhou para mim. — O que aconteceu?
— Ha, ha.
Olhei para a parede cheia de fotos. Fiquei surpreso por tio Randolph ter uma foto minha com a minha mãe à vista sempre que se sentasse na poltrona, quase como se realmente gostasse de nós.
Outra foto exibia os irmãos Chase quando crianças, Natalie, Frederick e Randolph, os três usando uniformes militares da Segunda Guerra Mundial, segurando rifles de mentira. Halloween, provavelmente. Ao lado havia uma foto dos meus avós: um casal de testa franzida e cabelos brancos vestindo as extravagantes roupas xadrez dos anos 1970, como se estivessem prontos para ir à igreja ou à discoteca dos cidadãos da terceira idade.
Preciso confessar: eu tinha dificuldade de identificar quem era meu avô e quem era minha avó. Eles morreram antes que eu pudesse conhecê-los, mas, pelas fotos, dava para ver que eram um daqueles casais que ao longo dos anos vão ficando parecidos a ponto de serem praticamente indistinguíveis. Tinham o mesmo cabelo branco em formato de capacete. Os mesmos óculos. Os mesmos bigodes pontudos. Na foto, alguns artefatos vikings, inclusive o chifre de hidromel que agora se via acima da lareira de Randolph, estavam pendurados na parede atrás deles. Eu não fazia ideia de que meus avós gostavam de coisas nórdicas também. Fiquei me perguntando se tinham viajado pelos nove mundos. Isso explicaria as expressões confusas e meio vesgas.
Alex avaliou os livros nas estantes.
— Algo de bom? — perguntei.
— O senhor dos anéis. Nada mal. Sylvia Plath. Legal. Ah, A mão esquerda da escuridão. Eu adoro esse livro. O resto… meh. A coleção dele tem homens brancos mortos demais para o meu gosto.
— Eu sou um homem branco morto — comentei.
Alex ergueu a sobrancelha.
— Aham, você é.
Eu não sabia que Alex gostava de ler. Fiquei tentado a perguntar se ele gostava de alguns dos meus livros favoritos: Scott Pilgrim ou Sandman. Eram dois livros fabulosamente esquisitos, mas talvez aquela não fosse a melhor hora para começarmos um clube do livro.
Procurei diários ou compartimentos escondidos nas estantes.
Alex subiu até o último lance de escada. Então olhou para cima e ficou tão verde quanto o cabelo.
— Ei, Magnus. Acho que talvez você devesse ver isso.
Eu me aproximei dele.
No alto da escada, uma escotilha abobadada de acrílico levava ao telhado.
E, do outro lado, andando de um lado para outro, havia outro lobo raivoso.


5 comentários:

  1. Quero saber quando Alex e Magnus vão ficar juntos??? Essa espera tá m matando!!!

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  2. São muitos capítulos mas um tanto curtos... não?

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  3. Calma mru povo.... Percabetg tamvem demorou muito pra acontecer..... Talvez mais alguns caps.......

    ~Filha da Sabedoria~

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Boa leitura :)