8 de outubro de 2017

Seis - Eu tenho um pesadelo com unhas do pé

GOSTO DOS RIOS como gosto dos meus inimigos: lentos, largos e preguiçosos.
Eu raramente consigo aquilo de que gosto.
Nosso barco disparou pelas corredeiras em meio à escuridão quase total. Meus amigos corriam pelo convés, agarrando cordas e tropeçando nos remos. O barco era jogado de um lado para outro, me fazendo sentir como se estivesse surfando em um pêndulo. Mallory segurou o leme com toda a força, tentando nos manter no meio da corrente.
— Não fique aí parado! — gritou ela para mim. — Ajude!
Aquele velho ditado é verdade: nenhum treinamento náutico sobrevive ao primeiro contato com a água.
Tenho quase certeza de que isso é um velho ditado.
Tudo que aprendi com Percy Jackson evaporou do meu cérebro. Esqueci o que era bombordo e estibordo, proa e popa. Esqueci como desencorajar ataques de tubarão e como cair da forma certa do mastro. Saí pulando pelo convés gritando “Estou ajudando! Estou ajudando!”, sem ter ideia do que deveria fazer.
Nós oscilamos e sacudimos pelo túnel em velocidades impossíveis, nosso mastro dobrado quase tocando o teto. A ponta dos remos arranhou as paredes de pedra, criando fagulhas amarelas que faziam com que parecesse que fadas estavam patinando ao nosso lado.
T.J. passou correndo por mim, indo na direção da proa e quase me empalando com a baioneta.
— Magnus, segura a corda! — gritou ele, indicando praticamente todas as cordas do navio.
Segurei o cordame mais próximo e puxei com o máximo de força que consegui, torcendo para ter pegado a corda certa, ou pelo menos torcendo para parecer útil mesmo fazendo a coisa errada.
O barco caiu por uma série de cachoeiras. Meus dentes transmitiram várias mensagens em código Morse. Ondas geladas açoitavam os escudos nas amuradas. De repente, o túnel se alargou, e batemos de lado em uma pedra que apareceu do nada. O barco começou a girar. Nós despencamos por uma cachoeira para a morte certa, e quando o ar virou uma névoa fria ao nosso redor… tudo ficou escuro.
Que momento fantástico para ter uma visão!
Eu me vi de pé no convés de um navio diferente.
Ao longe, penhascos glaciais contornavam uma baía larga coberta de gelo. O ar estava tão frio que uma camada de gelo começou a se formar nas mangas do meu casaco. Sob meus pés, em vez de tábuas de madeira, havia uma superfície irregular em tons de cinza e preto brilhante, como o casco de um tatu. O navio todo, uma embarcação viking do tamanho de um porta-aviões, era feito do mesmo material. Infelizmente, eu já sabia o que era: as unhas cortadas dos mortos desonrados, bilhões e bilhões de unhas de zumbis nojentos, tudo reunido por magia do mal para criar Naglfar, conhecido também como o navio dos mortos.
Acima de mim, velas cinzentas tremulavam no vento congelante. Arrastando-se pelo convés havia milhares de esqueletos humanos ressecados vestidos com armaduras enferrujadas: draugrs, zumbis vikings. Gigantes andavam entre eles, berrando ordens e os chutando para que entrassem em formação. Pelo canto do olho, tive vislumbres de seres escuros: sombras sem corpo que podiam ser lobos, serpentes ou esqueletos de cavalos feitos de fumaça.
— Vejam quem está aqui! — disse uma voz alegre.
De pé na minha frente, com o uniforme branco de almirante da marinha, estava o próprio Loki. O cabelo da cor de folhas do outono saía pelas laterais do quepe. As íris intensas cintilavam como anéis de âmbar líquido, sufocando as pobres pupilas presas. Apesar do rosto cheio de marcas por causa dos séculos em que veneno de cobra ficou pingando entre seus olhos, apesar dos lábios retorcidos e cheios de cicatrizes que muito tempo antes tinham sido costurados por um anão furioso, Loki sorriu de forma tão calorosa e simpática que precisei me esforçar para não retribuir.
— Veio me visitar? — perguntou ele. — Incrível!
Eu tentei gritar com ele. Queria repreendê-lo por ter matado meu tio, por torturar meus amigos, por arruinar minha vida e provocar seis meses inteiros de indigestão, mas minha garganta parecia estar cheia de cimento.
— Ficou sem palavras? — Loki riu. — Tudo bem, porque eu tenho muito a dizer pra você. Primeiro, um aviso: eu realmente pensaria duas vezes antes de seguir os planos de Randolph. — Seu rosto foi tomado por falsa solidariedade. — Infelizmente, o pobre homem ficou meio senil pouco antes de morrer. Apenas um louco daria atenção a ele!
Senti vontade de estrangular Loki, mas minhas mãos estavam estranhamente pesadas. Olhei para baixo e vi que minhas unhas estavam crescendo em velocidade nada natural, se esticando na direção do convés como uma raiz procurando o solo. Meus pés pareciam grandes demais para os sapatos. Percebi que minhas unhas dos pés também estavam crescendo, empurrando as meias, tentando fugir do confinamento das botas.
— O que mais? — Loki bateu com o dedo no queixo. — Ah, sim! Olhe!
Ele indicou a baía além das hordas de zumbis se arrastando, movimentando o braço como se revelasse um fabuloso prêmio que eu tinha acabado de ganhar. No horizonte enevoado, um dos penhascos glaciais tinha começado a se desfazer, soltando pedaços enormes de gelo na água. O som chegou aos meus ouvidos meio segundo depois: um rugido abafado como um trovão.
— Legal, né? — Loki sorriu. — O gelo está derretendo bem mais rápido do que imaginava. Eu amo o aquecimento global! Nós vamos poder partir antes do fim da semana, então, na verdade, você já está atrasado. Eu daria meia-volta e retornaria para Valhala, se fosse você. Afinal, só tem alguns dias para se divertir antes de o Ragnarök chegar. Podia muito bem fazer uma das fabulosas aulas de yoga!
Minhas unhas rebeldes chegaram ao convés. Penetraram na superfície cinza brilhante, me puxando para baixo, me obrigando a me curvar. As unhas dos meus pés arrebentaram os sapatos. Fiquei imobilizado enquanto as unhas de homens mortos começaram a crescer como árvores na minha direção, curvando-se com ansiedade em volta dos meus cadarços, envolvendo meus tornozelos.
Loki abriu um sorriso gentil, como se estivesse observando um bebê dando os primeiros passos.
— Sim, é uma semana maravilhosa para o Juízo Final. Mas, se você insiste em me desafiar… — Ele suspirou e balançou a cabeça como quem diz: Esses jovens malucos e suas missões. — Que tal me fazer o favor de deixar meus filhos de fora? Pobres Sam e Alex. Já sofreram o bastante. Se você gosta deles… Bom, essa missão vai destruir os dois. Disso você pode ter certeza. Eles não fazem ideia do que vão enfrentar!
Eu caí de joelhos. Não conseguia mais diferenciar onde as minhas unhas acabavam e o navio começava. Galhos irregulares de queratina cinza e preta apertavam meus tornozelos e pulsos, me prendendo ao convés, envolvendo meu corpo, me puxando para baixo, para o cerne do navio.
— Se cuida, Magnus! — gritou Loki. — De uma forma ou de outra, nos encontraremos em breve!
Uma mão calejada apertou meu ombro e me acordou.
— Magnus! — gritou Mestiço Gunderson. — Acorda, cara! Pega um remo!
Eu me vi novamente no convés do nosso navio amarelo. Estávamos adernando para o lado em uma névoa fria e densa, a corrente nos puxando para a frente, onde o rio despencava em uma escuridão trovejante.
Eu engoli o cimento entalado na minha garganta.
— É outra cachoeira?
Mallory se sentou no banco ao meu lado.
— É, uma que vai nos jogar direto em Ginnungagap e nos matar. Está a fim de remar agora?
T.J. e Mestiço se sentaram no banco à nossa frente. Juntos, nós quatro remamos com toda a nossa força, guinando o barco para estibordo e nos levando para longe do precipício. Meus ombros queimavam. Os músculos das minhas costas berravam em protesto. Por fim, o som trovejante foi ficando mais baixo. A névoa desapareceu, e vi que estávamos no porto de Boston, não muito longe do Old Ironsides. À minha esquerda estavam as fileiras de casas de tijolos e os degraus da igreja de Charlestown.
T.J. se virou e sorriu.
— Viram? Não foi tão ruim!
— Claro — disse Mallory. — Tirando a parte em que quase caímos pela beirada do mundo e fomos vaporizados, é, foi ótimo.
Mestiço massageou os braços.
— Parece que acabei de carregar um elefante para o alto de Bunker Hill, mas fizemos um bom trabalho, pess… — Ele hesitou quando viu meu rosto. — Magnus? O que foi?
Eu estava olhando para minhas mãos trêmulas. Sentia como se minhas unhas ainda estivessem crescendo, tentando voltar para o navio dos mortos.
— Eu tive uma visãozinha — murmurei. — Preciso de um segundo.
Meus amigos trocaram olhares receosos. Todos sabiam que não existia visãozinha.
Mallory Keen se aproximou de mim.
— Gunderson, por que você não cuida do leme?
Mestiço franziu a testa.
— Eu não recebo ordens de…
Mallory fechou a cara para ele. Mestiço soltou um muxoxo e foi para o leme.
Ela me encarou, as íris verdes salpicadas de marrom e laranja como os ovos de um pássaro cardeal.
— Foi Loki que você viu?
Normalmente, eu não ficava tão perto de Mallory a não ser que ela estivesse arrancando um machado do meu peito no campo de batalha. Ela prezava seu espaço pessoal. Havia algo de perturbador no olhar dela, uma espécie de raiva descontrolada, como um fogo que pulava de telhado em telhado. Nunca se sabia o que queimaria e o que deixaria em paz.
— Foi.
Eu expliquei minha visão.
Mallory curvou o lábio com repulsa.
— Aquele trapaceiro… Ele está aparecendo nos pesadelos de todos nós ultimamente. Quando eu botar minhas mãos nele…
— Ei, Mallory — repreendeu T.J. — Sei que você quer vingança mais do que a maioria de nós, mas…
Ela o silenciou com um olhar intenso.
Eu me perguntei sobre o que T.J. estava falando. Eu ouvi dizer que Mallory tinha morrido tentando desarmar um carro-bomba na Irlanda, mas, fora isso, sabia bem pouco sobre seu passado. Loki teria sido responsável pela morte dela?
Ela agarrou meu pulso, os dedos calejados lembrando desconfortavelmente os galhos de queratina de Naglfar.
— Magnus, Loki está provocando você. Se tiver esse sonho de novo, não fale com ele. Não morda a isca.
— Que isca? — perguntei.
Atrás de nós, Mestiço gritou:
— Valquíria à esquerda!
Ele apontou para Charlestown. Uns quatrocentos metros à frente, identifiquei duas pessoas de pé na doca, uma de hijab verde, outra de cabelo verde.
Mallory franziu a testa para Gunderson.
— Precisa gritar tão alto, bobão?
— Esse é meu tom de voz normal, mulher!
— Sim, eu sei: alto e irritante.
— Se você não gosta…
— Magnus — interrompeu ela —, vamos conversar depois.
Ela foi até a escotilha do convés, por onde Mestiço tinha jogado o machado no meio da confusão. Pegou a arma e mostrou para Mestiço.
— Você vai poder ter isso de volta quando começar a se comportar.
Ela desceu pela escada e desapareceu sob o deque.
— Ah, não, ela não fez isso!
Mestiço abandonou o posto e foi batendo os pés atrás dela.
O navio começou a adernar para estibordo. T.J. foi até lá e assumiu o leme com um suspiro.
— Esses dois escolheram uma péssima hora para terminar.
— Espera aí, o quê? — perguntei.
T.J. ergueu as sobrancelhas.
— Você não soube?
Mestiço e Mallory brigavam tanto que era difícil saber quando estavam com raiva e quando só estavam demonstrando afeto. Mas agora que estava pensando no assunto, eles estavam, sim, um pouco mais agressivos um com o outro nos últimos dias.
— Por que terminaram?
T.J. deu de ombros.
— A pós-vida é uma maratona, não uma corrida de velocidade. Relacionamentos longos são complicados quando se vive para sempre. Não é incomum que casais einherji terminem sessenta, setenta vezes ao longo de alguns séculos.
Tentei imaginar isso. Claro que nunca tinha tido um relacionamento, longo ou não, então… não consegui.
— E estamos presos em um navio com eles — observei —, enquanto os dois resolvem suas diferenças cercados de uma ampla variedade de armas.
— Eles são profissionais — disse T.J. — Tenho certeza de que vai ficar tudo bem.
TUM. Abaixo dos meus pés, o convés tremeu com o som de um machado acertando madeira.
— Certo… E aquilo que Mallory estava dizendo sobre Loki?
O sorriso de T.J. sumiu.
— Nós todos tivemos problemas com aquele trapaceiro.
Eu me perguntei quais tinham sido os de T.J. Eu morava no andar dezenove com meus amigos havia meses, mas estava começando a perceber como sabia pouco sobre o passado deles. Thomas Jefferson Jr., ex-integrante da quinquagésima quarta infantaria de Massachusetts, filho do deus da guerra, Tyr, e de uma escrava livre. T.J. nunca parecia ficar constrangido, nem quando era morto no campo de batalha ou quando tinha que ajudar Mestiço Gunderson com sonambulismo e zanzando pelos corredores pelado a voltar para o quarto.
T.J. tinha a disposição mais alegre dentre todas as pessoas mortas que eu conhecia, mas devia ter visto sua cota de horrores.
Eu me perguntei o que Loki usava para provocá-lo nos sonhos.
— Mallory disse que Loki estava me provocando. E que eu não deveria morder a isca.
T.J. flexionou os dedos, como se estivesse sentindo dores solidárias pelo pai, Tyr, cuja mão foi arrancada por uma mordida do lobo Fenrir.
— Mallory está certa. Alguns desafios não valem a pena, principalmente os vindos de Loki.
Eu franzi a testa. Loki também falou em desafiar. Não lutar. Não deter. Ele disse Se você insiste em me desafiar…
— T.J., seu pai não é o deus dos desafios pessoais, duelos e essas coisas?
— Exatamente. — A voz de T.J. estava dura e seca como os biscoitos que ele adorava comer. Ele apontou para o porto. — Olha só, Sam e Alex têm companhia.
Eu não tinha reparado antes, mas alguns metros atrás dos filhos de Loki, apoiado no capô do carro, de calça jeans e camisa azul-petróleo, estava meu fornecedor favorito de sanduíches frescos de falafel. Amir Fadlan, noivo de Samirah, tinha aparecido para se despedir.


4 comentários:

  1. to achando que o TJ vai morrer

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  2. Fala serio!!! Esses heróis fazem cada coisa quando o fim do mundo se aproxima... Eles tinha que termina o namoro bem antes de uma viagem pra salvar os mundos???!!! Povinho estranho viu!!! ¬.¬

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  3. A quantidade de comentários diminuiu, que bizarro...

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Boa leitura :)