8 de outubro de 2017

Quinze - Macaco!

PERCEBI MEU PROBLEMA imediatamente.
Eu não devia ter apresentado Alex para Percy Jackson. Parece que ela aprendeu bastante com os métodos implacáveis de treinamento dele. Talvez Alex não conseguisse conjurar animais marinhos, mas podia virar um. E isso talvez fosse até pior.
Nós começamos com Samirah e Alex lutando uma com a outra… no convés, na água, no ar. Meu trabalho era gritar animais aleatórios de uma pilha de cartões que Alex tinha feito. Eu gritava “MACACO!”, e Sam tinha que se transformar em macaco no meio do combate, enquanto Alex constantemente mudava de forma, de humana para animal para humana de novo, dando seu melhor para vencer Sam.
Sempre que Alex estava em forma humana, ela fazia provocações como:
— Vamos lá, al-Abbas! Você chama isso de mico-leão-dourado? Se esforce!
Depois de uma hora daquele combate à la Imagem & Ação, o rosto de Samirah estava brilhante de suor. Ela tinha tirado o hijab e prendido o cabelo castanho comprido para poder lutar melhor. (Ela nos considerava parte da família, então não tinha problema ficar sem o hijab quando necessário.) Sam se apoiou na amurada para descansar. Eu quase ofereci água, mas aí lembrei que ela estava de jejum.
— Acho que a gente deveria descansar até a noite — sugeri. — Depois que escurecer, você pode comer e beber. Isso deve estar te matando.
— Eu estou bem. — Sam não mentia muito bem, mas forçou um sorriso. — Obrigada.
Alex andou pelo convés consultando a prancheta. Uma prancheta, como se ela estivesse almejando ser gerente-assistente no Hotel Valhala ou algo parecido. Estava usando calça jeans skinny verde e uma blusa rosa, a parte da frente bordada com lantejoulas em um gesto de mão obsceno. O cabelo tinha começado a crescer, as raízes pretas fazendo-a parecer ainda mais imponente, como um leão com juba volumosa.
— Muito bem, Magnus, agora é sua vez — anunciou ela. — Pegue Jacques e se prepare para a batalha.
Jacques ficou feliz em ajudar.
— Hora do combate? Legal! — Ele flutuou em círculos em volta de mim. — Com quem a gente vai lutar?
— Com a Sam.
Jacques hesitou.
— Mas eu gosto da Sam.
— A gente só está treinando — expliquei. — Tente matar ela sem matar ela de verdade.
— Ufa! Tudo bem. Posso fazer isso.
Alex tinha um apito. Não havia limites para a crueldade dela. Jacques e eu lutamos contra Sam: Jacques atacando com a lâmina, obviamente; eu com um esfregão, que duvidei de que tivesse despertado pavor no coração de Sam.
Sam desviou e pulou e tentou nos acertar com o machado, a lâmina enrolada em uma das velas do barco. Sam tinha que mudar de forma sempre que Alex apitava, coisa que ela fazia em intervalos aleatórios sem dar bola para a situação de Sam. Acho que a ideia era condicionar Samirah a mudar de forma em qualquer momento e qualquer lugar que fosse necessário, sem hesitar.
Jacques estava se segurando, percebi. Só acertou Sam duas vezes. Eu tive menos sucesso com meu esfregão. Fazer manobras de combate no convés de um navio viking era uma das muitas habilidades importantes que eu não tinha. Eu tropeçava nos remos. Ficava enrolado nas cordas. Duas vezes, bati a cabeça no mastro e caí direto no mar. Normal para mim, em outras palavras.
Sam não tinha esse tipo de dificuldade. Ela me deixou todo roxo e dolorido. A única vez em que acertei um golpe foi quando Alex apitou em um momento particularmente ruim. No meio do pulo, Sam virou uma arara e voou de bico no cabo do meu esfregão. Ela piou, voltou à forma humana e caiu sentada no convés, uma nuvem de penas azuis e vermelhas voando em torno dela.
— Desculpa. — Fiquei cheio de vergonha. — Nunca bati em uma arara.
Apesar do nariz sangrando, Sam riu.
— Tudo bem. Vamos tentar de novo.
Nós lutamos até ficarmos exaustos. Alex disse que nosso treino estava encerrado, e nós três nos encostamos na amurada de escudos.
— Ufa! — Jacques parou ao meu lado. — Estou exausto!
Como toda energia que ele gastava sairia de mim assim que eu o segurasse, decidi deixar Jacques ficar na forma de espada por mais um tempo. Eu só estava pronto para entrar em coma depois do almoço.
Mas pelo menos eu podia almoçar.
Olhei para Samirah.
— Essa coisa de ramadã… eu não sei como você consegue.
Ela ergueu a sobrancelha.
— Você quer dizer por que eu faço?
— Isso também. Você tem mesmo que aguentar o jejum por um mês inteiro?
— Tenho, Magnus — disse ela. — Talvez você fique surpreso de saber que o mês do ramadã dura um mês.
— Fico feliz de você não ter perdido o senso de humor.
Ela secou o rosto com uma toalha, coisa que aparentemente não era proibida.
— Eu já passei da metade do mês. Não é tão ruim. — Ela franziu a testa. — Claro, se todos nós morrermos antes do fim do ramadã, será bem irritante.
— É — concordou Alex. — Loki bota fogo nos nove mundos enquanto você está de jejum e não pode nem tomar um gole d’água? Ui.
Sam deu um tapa no braço dela.
— Você tem que admitir, Fierro, eu estava mais concentrada hoje. O ramadã ajuda.
— Ah, talvez — disse Alex. — Ainda acho que você é louca de fazer jejum, mas não estou tão preocupada quanto antes.
— Sinto que minha mente está mais clara — comentou Sam. — Mais vazia, mas de um jeito bom. Não estou hesitando tanto. Vou estar pronta quando enfrentar Loki, inshallah.
Sam não usava muito esse termo, mas eu sabia que significava se Deus quiser. Embora obviamente a ajudasse, nunca inspirou muita confiança em mim. Eu vou me sair bem, inshallah era meio como dizer Vou me sair bem, supondo que eu não seja atropelado por um caminhão primeiro.
— Bom — continuou Alex —, nós só vamos saber o que vai acontecer quando você enfrentar o querido mãe-barra-pai. Mas estou levemente otimista. E você não matou Magnus, o que acho que foi bom.
— Obrigado — murmurei.
Até essa pequena consideração de Alex, a ideia de que minha morte pudesse ser ligeiramente desagradável para ela, me deu uma sensação calorosa no peito. Eu era patético.
No resto da tarde, ajudei no Bananão. Apesar da navegação automática, ainda havia muita coisa a fazer: lavar o convés, desembaraçar os cordames, impedir que Mallory e Mestiço se matassem. As tarefas me impediam de pensar muito no meu confronto iminente com Loki ou no que Blitz e Hearth poderiam estar fazendo. Eles já estavam longe havia três dias, e agora nós tínhamos menos de duas semanas até o solstício de verão, talvez menos tempo até o gelo derreter o suficiente para o navio de Loki zarpar. Quanto tempo Blitz e Hearth podiam demorar a encontrar uma pedra?
Naturalmente, a ideia de procurar uma pedra de amolar trouxe de volta lembranças ruins da minha última missão com Blitz e Hearth, quando estávamos tentando encontrar a pedra Skofnung. Tentei me convencer de que não havia conexão. Desta vez, não haveria luz do sol brutal de Álfaheim, nem nøkk violinistas do mal, nem pai elfo sádico e carrancudo.
Em pouco tempo, Hearth e Blitzen voltariam e nos informariam sobre uma série de novos obstáculos perigosos para enfrentarmos! Toda vez que uma onda quebrava no casco, eu via o borrifo do mar e torcia para se solidificar nos meus amigos. Mas eles não reapareceram.
Duas vezes durante a tarde, pequenas serpentes do mar com uns seis metros de comprimento passaram nadando por nós. Elas olharam o navio, mas não atacaram. Concluí que ou não gostavam de presas sabor banana ou ficaram com medo da cantoria de Jacques.
Minha espada me seguia pelo convés, alternando entre cantar sucessos do Abba (vikings são muito fãs de Abba) e me contar histórias sobre antigamente, quando ele e Frey passeavam pelos nove mundos espalhando luz do sol e felicidade e, de tempos em tempos, matando pessoas.
Conforme o dia avançava, aquilo se tornou um teste de resistência: eu queria que Jacques voltasse à forma de runa, o que me faria desmaiar pelo cansaço do nosso esforço conjunto, ou queria ficar ouvindo o cara cantar por mais tempo?
Por fim, perto do anoitecer, não consegui mais aguentar. Fui tropeçando até a popa do navio, onde tinha colocado meu saco de dormir. Eu me deitei, apreciando o som de Samirah fazendo sua oração noturna na proa, a poesia melódica suave e relaxante.
Pareceu estranho a Oração do Crepúsculo a bordo de um navio viking cheio de ateus e pagãos. Por outro lado, os ancestrais de Samirah enfrentavam vikings desde a Idade Média. Eu duvidava de que fosse a primeira vez que orações para Alá tinham sido ditas a bordo de um navio viking. O mundo, os mundos, eram bem mais interessantes por causa da mistura constante.
Fiz Jacques voltar para a forma de pingente e mal tive tempo de prendê-lo no pescoço antes de desmaiar.
Nos meus sonhos, testemunhei um assassinato.


6 comentários:

  1. — Bom — continuou Alex —, nós só vamos saber o que vai acontecer quando você enfrentar o querido mãe-barra-pai. Mas estou levemente otimista. E você não matou Magnus, o que acho que foi bom.
    — Obrigado — murmurei.
    Até essa pequena consideração de Alex, a ideia de que minha morte pudesse ser ligeiramente desagradável para ela, me deu uma sensação calorosa no peito. Eu era patético.

    Só eu que acho que magnus tá gostando da(ou de) alex.Agora a grande pergunta ele é gay,hetero ou bi?

    ~Milly

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    1. Este comentário foi removido pelo autor.

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    2. hahahahahahahaha não sabia da existência dessa sexualidade Karina-chan.

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    3. Pois é, só conheci depois do Magnus XD

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  2. kkkkkkkkk Alexsexual adorei!!

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Boa leitura :)