8 de outubro de 2017

Quatorze - Nada acontece. É um milagre

TUDO NA MAIS completa paz.
Eu nunca tinha apreciado essa expressão até vivenciá-la em primeira mão.
Os dois dias seguintes foram chocante e perversamente parados. O céu permaneceu sem nuvens, e os ventos, suaves e frescos. O mar se estendia em todas as direções como seda verde, me lembrando das fotos que minha mãe me mostrava do artista favorito dela, um cara chamado Christo, que trabalhava ao ar livre e envolvia florestas, prédios e ilhas inteiras em tecido fino. Parecia que Christo havia transformado o Oceano Atlântico em uma enorme instalação de arte.
Bananão avançava alegremente. Nossos remos amarelos trabalhavam sozinhos. A vela mudava de direção conforme necessário. Quando falei para a tripulação que estávamos indo para Jórvík, Mestiço grunhiu com infelicidade, mas não quis contar o que sabia sobre o lugar. Pelo menos o navio parecia entender para onde estávamos indo. Na segunda tarde, me vi no convés ao lado de Mallory Keen, que parecia mais insatisfeita do que o habitual.
— Ainda não entendo por que Blitz e Hearth tiveram que ir embora — resmungou ela.
Eu tinha a leve desconfiança de que a srta. Keen estava interessada em Blitzen, mas não tinha coragem suficiente para perguntar. Cada vez que Blitz ia a Valhala, eu pegava Mallory observando sua barba imaculada e suas roupas perfeitas, depois olhando para Mestiço Gunderson como se questionando por que seu namorado/ex-namorado/renamorado/ex-namorado não podia se vestir tão bem.
— Njord jurou que era necessário — respondi, apesar de ter feito pouca coisa além de me preocupar com Blitz e Hearth. — Algo a ver com otimizar nosso tempo.
— Humf. — Mallory apontou para o horizonte. — Mas aqui estamos nós, navegando e navegando. Seu avô não podia ter levado a gente até Jórvík de uma vez? Teria sido mais útil.
Mestiço Gunderson passou com um esfregão e um balde.
— Útil — murmurou ele. — Diferentemente de algumas pessoas.
— Cala a boca e esfrega! — disparou Mallory. — Quanto a você, Magnus, eu avisei sobre morder a isca de Loki. E o que você fez? Foi lá e se voluntariou para um vitupério. Você é tão burro quanto aquele berserker!
Com isso, ela subiu no alto do mastro, o lugar mais solitário do navio, e ficou encarando o mar com a testa franzida.
Mestiço resmungou enquanto esfregava o convés:
— Megera irlandesa. Não dê atenção a ela, Magnus.
Eu queria que não tivéssemos que fazer nossa viagem com os dois brigando. Nem com Sam fazendo jejum por causa do ramadã. Nem com Alex tentando ensinar a ela como resistir ao controle de Loki. Pensando bem, eu queria que não tivéssemos que fazer aquela viagem e pronto.
— Qual é a história de Mallory com Loki? — perguntei. — Ela parece…
Eu não sabia bem que palavra usar: preocupada? Ressentida? Homicida?
Mestiço deu de ombros, fazendo as tatuagens de serpente ondularem nas costas. Ele olhou para o alto do mastro, como se pensando em mais xingamentos para Mallory.
— Não posso contar uma história que não é minha. Mas morder a isca para fazer uma coisa de que mais tarde vai se arrepender… Mallory entende o que é isso. Foi assim que ela morreu.
Pensei nos meus primeiros dias em Valhala, quando Mestiço pegou no pé de Mallory por ter tentado desarmar um carro-bomba com a cara. Tinha alguma peça faltando nessa história. Afinal, ela foi corajosa o bastante para chamar a atenção de uma valquíria.
— Magnus, você tem que entender — disse Mestiço —, nós dois estamos indo para os lugares onde morremos. Pode ser diferente pra você. Você morreu em Boston e ficou em Boston. Não está morto há tempo suficiente para ver o mundo mudar ao seu redor. Mas para nós? Mallory não tem vontade nenhuma de ver a Irlanda de novo, mesmo que seja apenas a costa. E eu… eu nunca quis voltar a Jórvík.
Senti uma pontada de culpa.
— Cara, sinto muito mesmo. Foi lá que você morreu?
— Ah. Não o lugar exato, mas perto. Eu ajudei a conquistar a cidade com Ivar, o Sem-Ossos. Serviu de local de acampamento. Mal podia ser considerada uma cidade, na época. Só espero que não tenha mais vatnavaettir no rio. — Ele estremeceu. — Isso seria péssimo.
Eu não tinha ideia do que era vatnavaettir, mas se Mestiço Gunderson considerava ruim, eu não queria conhecer.
Mais tarde, conversei com T.J., que estava na proa olhando as ondas, tomando café e comendo seus biscoitos. Por que ele gostava daquelas coisas eu não sabia dizer. Era como um grande cream cracker sem sal feito com cimento em vez de farinha.
— Oi — cumprimentei.
Ele parecia distraído.
— Ah, oi, Magnus. — Ele me ofereceu um biscoito de cimento. — Quer um?
— Não, obrigado. Acho que vou precisar dos meus dentes mais tarde.
Ele assentiu como se não tivesse entendido a piada.
Desde que contei para a tripulação sobre minha conversa com Njord, T.J. ficou quieto e retraído, o mais perto que ele já tinha chegado de pensativo. Ele molhou o biscoito no café.
— Eu sempre quis visitar a Inglaterra. Só nunca imaginei que fosse acontecer depois de eu estar morto, no meio de uma missão para impedir o Ragnarök, em um navio de guerra amarelo.
— Inglaterra?
— É pra lá que estamos indo. Você não sabia?
Quando pensava na Inglaterra, o que não acontecia com frequência, eu pensava nos Beatles, em Mary Poppins e em homens usando chapéus-coco, carregando guarda-chuvas e bebendo chá. Não pensava em hordas de vikings e nem em lugares chamados Jórvík. Mas aí lembrei que, quando conheci Mestiço Gunderson, ele me contou que morreu durante uma invasão à Ânglia Oriental, que era um reino na Inglaterra uns mil e duzentos anos atrás. Os vikings gostavam mesmo de dar um passeio.
T.J. se apoiou na amurada. Ao luar, uma fina linha âmbar se destacou no pescoço dele: resquícios de uma bala minié que o acertou de raspão na primeira batalha dele como soldado do exército da União. Eu achava estranho que fosse possível morrer, chegar a Valhala, ressuscitar diariamente por cento e cinquenta anos e continuar com uma pequena cicatriz da sua vida mortal.
— Na guerra — disse ele —, nós tínhamos medo de que a Grã-Bretanha se declarasse a favor dos rebeldes. Os britânicos tinham abolido a escravatura bem antes de nós, da União, mas eles precisavam do algodão do sul para abastecer a indústria têxtil. O fato de o Reino Unido ter permanecido neutro e não ter ajudado os estados do sul foi crucial para a vitória do norte na guerra. Por isso sempre gostei muito dos britânicos. Eu sonhava em ir lá um dia e agradecer em pessoa.
Tentei notar sarcasmo ou ironia no tom dele. T.J. era filho de uma escrava liberta. Ele lutou e morreu por um país que manteve sua família acorrentada por gerações. Até carregava o nome de um escravocrata bem famoso. Mas T.J. dizia nós quando se referia à União. Ainda usava o uniforme com orgulho depois de mais de um século. Sonhava em atravessar o oceano para agradecer aos britânicos só porque fizeram o favor de ficarem neutros.
— Como você consegue sempre ver o lado bom de tudo? — perguntei, impressionado. — Você é tão… positivo.
T.J. riu e quase engasgou com o biscoito.
— Magnus, amigo, se você tivesse me visto logo depois que cheguei a Valhala… Não. Aqueles primeiros anos foram difíceis. Os soldados da União não foram os únicos a irem para Valhala. Vários rebeldes morreram com espadas em punho. Valquírias não ligam para o lado da guerra em que você luta, nem se sua causa é justa. Ligam só para bravura e honra. — Ah. Notei um toque de reprovação na voz dele. — Nos dois primeiros anos que fui einherji, vi alguns rostos familiares entrarem no salão de jantar…
— Como você morreu? — perguntei. — A história real.
Ele passou o dedo na borda da caneca.
— Já contei. Atacando Fort Wagner, na Carolina do Sul.
— Mas essa não é a história inteira, não é? Alguns dias atrás você me alertou sobre aceitar desafios. Falou como se já tivesse passado por isso.
Eu observei a linha do maxilar de T.J., a tensão acumulada ali. Talvez fosse por isso que ele gostava tanto do biscoito duro. Mastigá-lo fazia ele trincar os dentes.
— Um tenente da Confederação me escolheu — disse ele, por fim. — Mas não tenho ideia do motivo. Nosso regimento aguardava a ordem para atacar as ameias. O inimigo estava poupando munição. Nenhum dos dois lados podia se mexer.
Ele olhou para mim.
— Aí um oficial rebelde se levantou nas linhas inimigas. Apontou com a espada bem para mim, como se me conhecesse, e gritou: “Você aí, criou…” Bom, já deu para perceber do que ele me chamou. “Venha lutar comigo homem a homem!”
— O que teria sido suicídio.
— Prefiro encarar como uma exibição incrível de coragem.
— Você quer dizer que foi?
A caneca tremeu nas mãos dele. O pedaço de biscoito afundado no café começou a se dissolver e se expandir como uma esponja, líquido marrom encharcando o amido branco.
— Quando se é filho de Tyr — explicou ele —, não dá para recusar um duelo. Se alguém disser Lute comigo, você luta. Cada músculo do meu corpo reagiu àquele desafio. Acredite, eu não queria lutar contra aquele… cara.
Ficou claro que ele estava pensando em outra palavra no lugar de cara.
— Mas eu não podia recusar. Então me levantei e ataquei as fortificações rebeldes sozinho. Mais tarde, depois que morri, soube que minha ação deflagrou a ofensiva que levou à queda de Fort Wagner. O restante do pessoal seguiu meu exemplo. Devem ter achado que eu estava tão maluco que era melhor me ajudarem. Mas eu só queria matar aquele tenente. E matei. Jeffrey Toussaint. Atirei uma vez no peito dele e cheguei perto o bastante para enfiar a baioneta na sua barriga. Claro que, àquela altura, os rebeldes já tinham atirado em mim umas trinta vezes. Eu caí no meio deles e morri sorrindo para um bando de Confederados zangados. Quando percebi, estava em Valhala.
— Pelas cuecas de Odin — murmurei, um xingamento que eu reservava para ocasiões especiais. — Espera… o tenente que você matou. Como você descobriu o nome dele?
T.J. deu um sorriso pesaroso.
Por fim, eu entendi.
— Ele acabou em Valhala também.
T.J. assentiu.
— Andar setenta e seis. Eu e o velho Jeffrey… nós passamos uns cinquenta anos nos matando sem parar, todos os dias. Eu estava com tanto ódio. Aquele homem era tudo que eu desprezava e vice-versa. Fiquei com medo de acabarmos como Hunding e Helgi: inimigos imortais, ainda trocando insultos milhares de anos depois.
— Mas não foi assim?
— É até engraçado. Eu cansei. Parei de procurar Jeffrey Toussaint no campo de batalha. Eu me dei conta de uma coisa: não dá para sentir ódio para sempre. Não vai afetar nem um pouco a pessoa que você odeia, mas vai te envenenar, com certeza.
Ele passou a mão na cicatriz da bala.
— Quanto a Jeffrey, ele parou de aparecer no salão de jantar. Nunca mais vi o cara. Isso aconteceu com muitos dos einherjar da Confederação. Eles não duraram. Trancaram-se nos quartos, nunca mais saíram. Acabaram desaparecendo. — T.J. deu de ombros. — Acho que era mais difícil para eles se ajustarem. Você acha que o mundo é de um jeito, depois descobre que na verdade é bem maior e mais estranho do que imaginava. Se não conseguir expandir seus horizontes, não vai se dar bem na pós-vida.
Eu me lembrei de estar com Amir Fadlan no telhado, sob a propaganda do Boston Citgo, segurando os ombros dele e desejando que sua mente mortal não se fraturasse sob o peso de ver a ponte Bifrost e os nove mundos.
— É — concordei. — Expandir os horizontes dói.
T.J. sorriu, mas eu não via mais como um sorriso fácil. Foi difícil de conquistar, tão corajoso quanto um soldado atacando sozinho as linhas inimigas.
— Você aceitou seu desafio, Magnus. Vai ter que encarar Loki cara a cara. Não dá para voltar atrás. Mas você não precisa atacar as fortificações sozinho. Nós vamos estar com você.
Ele deu um tapinha no meu ombro.
— Agora, se me der licença… — T.J. me entregou a mistura de café e biscoito duro como se fosse um presente fantástico. — Vou tirar uma soneca!
A maior parte da tripulação dormia sob o convés. Nós descobrimos que o Bananão oferecia quantos quartos nós precisássemos para ficar à vontade, independentemente do tamanho do casco. Eu não fazia ideia de como aquilo funcionava. Apesar de ser fã de Doctor Who, eu não estava com vontade de testar os limites da nossa TARDIS amarela. Preferia dormir no convés, observando as estrelas, lugar em que eu estava na nossa terceira manhã no mar quando Alex me acordou.
— Anda logo, Chase — ordenou ela. — Nós vamos testar as habilidades de Samirah. Vou ensinar a ela como resistir a Loki nem que isso acabe matando a gente. E quando digo “a gente”, quero dizer você.

5 comentários:

  1. Achei legal o Tio Rick expandir as histórias dos personagens. Fazem parecerem mais reais, eu acho, não aquele negócio superficial...

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    1. Siiiiiim. Personagens bem construídos são o verdadeiro motivo de sucessp de uma história. Às vezes a história é bem meeh, mas as personagens acabem cativando tanto que se consagram.

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    2. Sim! É muito bom saber da história dos outros também

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  2. Tio Rick é fã de Doctor Who!

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Boa leitura :)