9 de outubro de 2017

Quarenta - Recebo uma ligação a cobrar de Hel

DISPARAMOS PELO CÉU como coisas que disparam pelo céu. O vento açoitou meu rosto. A neve me cegou. O frio era tão intenso que achei que fosse congelar.
Pois é, o hidromel da poesia não estava funcionando mesmo.
De repente, a gravidade agiu. Eu odeio a gravidade.
Meus esquis rasparam e chiaram na neve compactada. Eu não esquiava havia muito tempo. Também nunca tinha feito isso despencando em uma ladeira de quarenta e cinco graus de inclinação em temperaturas abaixo de zero e no meio de uma nevasca.
Meus olhos congelaram. O frio queimou minhas bochechas. De alguma forma, consegui não sair rolando. Toda vez que me desequilibrava um pouco, meus esquis se corrigiam sozinhos e eu me mantinha de pé.
De relance, vi Sam voando à minha direita, seus esquis quase dois metros acima do chão. Trapaceira. Hearthstone passou disparado à minha esquerda, sinalizando Seguindo pela esquerda, o que não ajudou muito.
Na minha frente, Blitzen caiu do céu, gritando a plenos pulmões. Ele bateu na neve e imediatamente executou uma série impressionante de slaloms, movimentos em oito e saltos triplos. Ou ele esquiava bem melhor do que dissera ou seus esquis mágicos tinham um senso de humor cruel.
Meus joelhos e tornozelos ardiam pelo esforço. O vento penetrava nas minhas roupas superpesadas feitas por gigantes. Na minha cabeça, a qualquer minuto eu tropeçaria de uma forma que minhas habilidades mágicas não conseguiriam compensar. Eu bateria numa pedra, quebraria o pescoço e acabaria esparramado na neve como um… Deixem pra lá. Não vou nem tentar terminar essa.
De repente, a ladeira ficou plana. A nevasca passou. Nossa velocidade diminuiu e nós oito paramos suavemente, como se tivéssemos acabado de percorrer um circuito para crianças em um parque de diversões. (Opa, fiz uma analogia! Talvez fosse minha habilidade mediana com descrições voltando!)
Os esquis saíram dos nossos pés por vontade própria. Alex foi a primeira a se mover. Ela correu e se escondeu atrás de uma formação rochosa baixa no meio da neve. Achei que fazia sentido, já que ela era o alvo mais colorido em dez quilômetros quadrados. O restante de nós se juntou a ela. Nossos esquis sem esquiadores deram meia-volta e dispararam montanha acima.
— Nossa rota de fuga já era. — Alex olhou para mim pela primeira vez desde a noite anterior. — É melhor você começar a se sentir poético logo, Chase. Porque seu tempo está se esgotando.
Espiei por cima das pedras e entendi o que ela queria dizer. A algumas centenas de metros, por um véu fino de neve, a água em tom cinza-alumínio se estendia até o horizonte. Na margem próxima, erguendo-se da baía gelada, via-se a forma escura de Naglfar, o navio dos mortos. Era tão grande que, se eu não soubesse que era uma embarcação, talvez tivesse pensado se tratar de outra montanha, como a fortaleza de Skadi. A vela principal levaria vários dias para ser escalada. O casco enorme devia ter deslocado água suficiente para encher o Grand Canyon. O convés e as pranchas estavam infestados do que pareciam ser formigas furiosas, mas eu tinha a sensação de que, chegando mais perto, as formas revelariam ser gigantes e zumbis, milhares e milhares deles.
Antes, eu só tinha visto o navio em sonhos. Agora, percebia como nossa situação era desesperadora: oito pessoas enfrentando um exército criado para destruir mundos inteiros, e nossa única esperança repousava em eu encontrar Loki e começar a xingá-lo pra valer.
O absurdo da situação poderia ter me deixado sem esperança. Mas só me deixou com raiva.
Eu não me sentia exatamente poético, mas sentia uma ardência na garganta, o desejo de dizer a Loki exatamente o que eu pensava dele. Algumas metáforas criativas surgiram na minha mente.
— Estou pronto — respondi, torcendo para estar certo. — Como vamos encontrar Loki sem morrer?
— Ataque direto? — sugeriu T.J.
— Hã…
— Estou brincando — disse T.J. — Obviamente, uma situação dessas pede uma distração. A maior parte do grupo devia encontrar um jeito de chegar à proa e atacar. Provocamos uma confusão, atraímos o máximo de malvados que pudermos para longe das pranchas, damos uma chance de Magnus subir a bordo e desafiar Loki.
— Espere um segundo…
— Concordo com o garoto da União — disse Mallory.
— Isso mesmo. — Mestiço brandiu seu machado. — Machado está com sede de sangue jötunn!
— Esperem! Isso é suicídio.
— Que nada — retrucou Blitz. — Garoto, nós já conversamos sobre isso e temos um plano. Eu trouxe algumas cordas de anão. Mallory tem ganchos. Hearth tem as runas. Com sorte, vamos conseguir escalar a proa daquele navio e começar o caos.
Ele deu um tapinha em uma das bolsas de suprimentos que tinha trazido do Bananão.
— Não se preocupe, tenho algumas surpresas guardadas para os guerreiros mortos-vivos. Você sobe pela prancha traseira, encontra Loki e exige um duelo. Nessa hora, a luta deve parar. Nós vamos ficar bem.
— É — disse Mestiço. — Aí vamos lá olhar você vencer aquele meinfretr nos insultos.
— E eu vou jogar uma noz nele — concluiu Mallory. — Nos dê uns trinta minutos para nos prepararmos. Sam, Alex… cuidem bem do nosso garoto.
— Cuidaremos — disse Sam.
Nem Alex reclamou. Percebi que não conseguiria convencer meus amigos a desistir daquele plano. Eles se uniram para maximizar minhas chances, independentemente de quão perigoso a situação pudesse se mostrar para eles.
— Pessoal…
Hearth sinalizou: O tempo está se esgotando. Aqui. Para você. Da bolsinha, ele tirou a runa othala, a mesma pedra que removeremos do monte de pedras do poço de Andiron. Quando colocada na palma da minha mão, trouxe de volta o cheiro de carne podre de réptil e de brownies queimados.
— Obrigado — falei —, mas… por que essa runa em particular?
Não quer dizer só herança, sinalizou Hearth. Othala simboliza ajuda em uma jornada. Use quando estivermos longe. Deve proteger você.
— Como?
Ele deu de ombros. Não me pergunte. Sou apenas o mago.
— Muito bem, então — disse T.J. — Alex, Sam, Magnus… vemos vocês no navio.
Antes que eu pudesse protestar ou mesmo agradecer, o restante do grupo se afastou pela neve. Desapareceram rapidamente na paisagem com suas vestes brancas de jötunn.
Eu me virei para Alex e Sam.
— Há quanto tempo vocês estavam planejando isso?
Apesar dos lábios rachados e sangrando, Alex sorriu.
— Pelo mesmo tempo que você não tinha a menor noção. Portanto, tem um tempo.
— É melhor a gente ir — disse Sam. — Vamos experimentar sua runa?
Olhei para othala. Conjecturei se havia ligação entre herança e ajuda em uma jornada. Não consegui pensar em nenhuma. Eu não gostava de onde aquela runa tinha vindo e nem o que representava, mas achava que fazia sentido eu ter que usá-la. Nós a conquistamos com muita dor e sofrimento, da mesma forma que conquistamos o hidromel.
— É só jogar para o alto? — perguntei.
— Imagino que Hearth diria… — Alex continuou em linguagem de sinais: É, seu idiota.
Eu tinha quase certeza de que não era isso que Hearth diria.
Joguei a runa. Othala se dissolveu em um sopro de neve. Torci para que reaparecesse no saco de runas de Hearth em um ou dois dias, como acontecia depois que ele usava uma. Eu realmente não queria ter que comprar uma peça de reposição para ele.
— Não aconteceu nada — comentei. Em seguida, olhei para os lados. Alex e Sam tinham desaparecido. — Ah, deuses, eu vaporizei vocês!
Tentei me levantar de detrás das pedras, mas mãos invisíveis me seguraram dos dois lados e me puxaram para baixo.
— Eu estou bem aqui — disse Alex. — Sam?
— Aqui — confirmou Sam. — Parece que a runa nos deixou invisíveis. Consigo me ver, mas não vejo vocês.
Olhei para baixo. Sam estava certa. Eu conseguia enxergar a mim mesmo direitinho, mas o único sinal das minhas duas amigas eram as marcas dos pés na neve.
Fiquei pensando o motivo pelo qual othala tinha escolhido a invisibilidade. Estaria usando minha experiência pessoal, já que invisível era como eu me sentia quando era sem-teto? Ou talvez a magia fosse definida pela experiência familiar de Hearthstone. Imaginei que ele devia ter desejado ser invisível para o pai durante boa parte da infância. Fosse qual fosse o caso, eu não pretendia desperdiçar a oportunidade.
— Vamos logo.
— Deem as mãos — ordenou Alex.
Ela segurou minha mão esquerda sem nenhuma afeição em particular, como se eu fosse um cajado. Sam não segurou minha outra mão, mas desconfiei de que não tivesse nada a ver com motivos religiosos. Ela simplesmente gostava da ideia de Alex e eu estarmos de mãos dadas. Eu quase conseguia ouvir Sam sorrindo.
— Tudo bem — disse ela. — Vamos.
Nós seguimos pela formação rochosa, na direção da margem. Fiquei preocupado em deixar pegadas, mas a neve e o vento logo apagaram os rastros da nossa passagem.
A temperatura e o vento estavam tão cortantes quanto no dia anterior, mas a sidra de Skadi devia estar funcionando. Respirar não dava a sensação de estar inalando vidro, e não precisei ficar checando o rosto a todo segundo para ter certeza de que meu nariz não tinha caído.
Em meio ao uivo do vento e ao estrondo das geleiras despencando na baía, outros sons chegaram a nós vindos do convés de Naglfar: correntes retinindo, vigas estalando, gigantes berrando ordens e as botas dos atrasados batendo apressadas no convés feito de unhas. O navio devia estar bem próximo de zarpar.
Estávamos a uns cem metros do porto quando Alex puxou minha mão.
— Para baixo, seu idiota!
Eu me abaixei, apesar de não entender como poderíamos nos esconder mais do que estando invisíveis.
Saindo do vento e da neve, passando a três metros de nós, uma tropa de soldados zumbis marchava na direção de Naglfar. Eu não os vi chegando, e Alex estava certa: era melhor não confiar na invisibilidade se a ideia era se manter escondido daqueles caras.
Suas armaduras de couro esfarrapado estavam cobertas de gelo. Os corpos não passavam de pedaços de carne agarrados aos ossos. Uma luz azul espectral tremeluzia dentro das caixas torácicas e dos crânios, me fazendo pensar em velas de aniversário em cima do pior bolo do mundo. Quando os mortos-vivos passaram, reparei que as solas das botas tinham pregos cravados, como travas de chuteira. Lembrei-me de uma coisa que Mestiço Gunderson tinha me dito uma vez: como o trajeto até Helheim era feito de gelo, os mortos desonrados eram enterrados com pregos nos sapatos para que não escorregassem ao longo do caminho. Agora, aquelas botas estavam levando seus donos de volta ao mundo dos vivos.
A mão de Alex tremeu na minha. Ou talvez quem estivesse tremendo fosse eu. Finalmente o grupo de soldados passou por nós, indo na direção do porto e do navio dos mortos.
Eu me levantei com inquietação.
— Que Alá nos defenda — murmurou Sam.
Torci desesperadamente para que, se o Todo-Poderoso existisse, Sam tivesse alguma influência sobre ele. Precisaríamos mesmo de alguém que nos defendesse.
— Nossos amigos vão enfrentar isso — disse Alex. — Temos que ir logo.
Ela estava certa de novo. A única coisa que me faria querer voltar a bordo de um navio com milhares de zumbis era saber que, se eu não fizesse isso, nossos amigos lutariam com eles sozinhos. E isso não ia rolar.
Pisei nos rastros deixados pelo exército morto e vozes sussurrantes imediatamente ecoaram na minha cabeça: Magnus. Magnus.
Uma dor perfurou meus olhos. Meus joelhos falharam. Eu conhecia aquelas vozes. Algumas eram duras e furiosas, outras gentis e delicadas. Todas ecoavam na minha mente, exigindo atenção. Uma delas era… uma delas era da minha mãe.
Eu tropecei.
— Ei — sussurrou Alex. — O que você…? Espera aí, o que é isso?
Ela também estava ouvindo as vozes? Eu me virei, tentando identificar de onde vinham. Não tinha visto antes, mas a uns quinze metros na direção da qual os zumbis tinham vindo, um buraco escuro e quadrado aparecera na neve: uma rampa que descia em direção ao nada.
Magnus, sussurrou a voz do tio Randolph. Sinto tanto, meu garoto. Você pode me perdoar? Venha. Quero ver você uma última vez.
Magnus, chamou uma voz que eu só tinha ouvido em sonhos: Caroline, esposa de Randolph. Por favor, perdoe seu tio. As intenções dele eram as melhores. Venha, querido. Quero conhecer você.
Você é nosso primo?, disse a voz de uma garotinha; Emma, a filha mais velha do tio Randolph. Meu pai também me deu uma runa othala. Quer ver?
O mais doloroso foi quando minha mãe disse Venha, Magnus! com o tom alegre que usava quando estava me encorajando a percorrer mais rápido a trilha para que compartilhássemos uma vista incrível. Só que agora havia uma frieza na voz dela, como se os pulmões estivessem cheios de fréon. Depressa!
As vozes me dilaceraram, arrancaram pedacinhos da minha mente. Eu tinha dezesseis anos? Tinha doze ou dez? Estava em Niflheim ou em Blue Hills ou no barco do tio Randolph?
Alex soltou minha mão. Mal notei.
Eu segui na direção da caverna.
De algum lugar atrás de mim, Sam disse:
— Pessoal?
Ela parecia preocupada, à beira do pânico, mas a voz não soou mais real para mim do que os espíritos sussurrantes. Sam não podia me impedir. Não conseguia ver minhas pegadas no caminho pisoteado pelos soldados zumbis. Se eu corresse, poderia percorrer a trilha gelada e mergulhar em Helheim antes que meus amigos soubessem o que tinha acontecido. O pensamento me encheu de empolgação.
Minha família estava lá embaixo. Hel, a deusa dos mortos desonrados, me disse isso quando a encontrei em Bunker Hill. Ela prometeu que eu podia me juntar a eles. Talvez precisassem da minha ajuda.
Jacques pulsou e emitiu calor em meu pescoço. Por que ele estava fazendo isso?
À minha esquerda, Alex murmurou:
— Não. Não, eu não vou ouvir.
— Alex! — exclamou Sam. — Graças a Deus. Cadê o Magnus?
Por que Sam parecia tão preocupada? Eu tinha uma vaga lembrança de que estávamos em Niflheim por um motivo. Eu… eu não devia estar indo para Helheim agora. Isso provavelmente me mataria.
As vozes sussurrantes foram ficando mais altas, mais insistentes. Minha consciência lutou contra elas. Resisti à vontade de correr na direção da rampa escura.
Eu estava invisível por causa de othala, a runa da herança. Mas e se esse fosse o lado ruim da magia dela? Othala me permitia ouvir as vozes dos meus entes queridos mortos, me puxando para os seus domínios.
Alex encontrou minha mão de novo.
— Achei ele.
Lutei contra uma onda de irritação.
— Por quê?
— Eu sei — disse Alex num tom de voz surpreendentemente gentil. — Eu também estou ouvindo, mas você não pode segui-los.
Lentamente, a rampa escura se fechou e as vozes se silenciaram. O vento e a neve começaram a apagar os rastros dos zumbis.
— Vocês estão bem? — perguntou Sam, a voz um oitavo mais aguda do que o normal.
— Estou — respondi, me sentindo meio mal. — Sinto muito por isso.
— Não precisa pedir desculpa. — Alex apertou meus dedos. — Eu ouvi meu avô. Quase tinha esquecido como era a voz dele. E outras vozes. Adrian…
Ela engasgou com o nome.
Quase não ousei perguntar.
— Quem?
— Um amigo — disse ela, a palavra carregada com todos os tipos de significados possíveis. — Ele cometeu suicídio.
A mão dela ficou frouxa na minha, mas eu não a soltei. Fiquei tentado a projetar meu poder, a tentar curá-la, a compartilhar a onda de dor e lembranças que encheria minha cabeça com o passado de Alex. Mas não fiz isso. Não tinha sido convidado a entrar em sua mente.
Sam ficou silenciosa por uns dez segundos.
— Alex, sinto muito. Eu… eu não ouvi nada.
— Agradeça por isso — falei.
— É — concordou Alex.
Parte de mim ainda resistia à vontade de correr pela neve, me jogar e cravar as unhas no chão até que a rampa reabrisse. Eu tinha ouvido minha mãe. Mesmo que tivesse sido apenas um eco frio. Ou um truque. Uma piada cruel de Hel. Eu me virei para o mar. De repente, senti mais medo de ficar em terra firme do que de subir a bordo do navio dos mortos.
— Vamos. Nossos amigos estão contando com a gente.



6 comentários:

  1. Eu já vi um capítulo com o título parecido em algum lugar...

    ResponderExcluir
  2. — Um amigo — disse ela, a palavra carregada com todos os tipos de significados possíveis. — Ele cometeu suicídio.

    Fiquei tão triste com o jeito que ela falou e com as lembranças ruins que isso me desperta

    ResponderExcluir
  3. "Suas armaduras de couro esfarrapado estavam cobertas de gelo. Os corpos não passavam de pedaços de carne agarrados aos ossos. Uma luz azul espectral tremeluzia dentro das caixas torácicas e dos crânios"

    Corre que são os White Walkers!

    ResponderExcluir
  4. Porque tomo mundo tem que sofrer tanto no Riordanverso? Serio, eu não entendo.

    ResponderExcluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)