9 de outubro de 2017

Quarenta e um - Eu peço um tempo

A PRANCHA ERA feita de unhas do pé.
Se isso não for suficiente para deixar vocês com nojo, nenhuma quantidade de hidromel de Kvásir vai me ajudar a fornecer uma descrição suficientemente nojenta. Apesar de a rampa ter quinze metros de largura, a quantidade de indivíduos andando nela era tanta que tivemos dificuldade de achar uma brecha. Calculamos nossa subida atrás de uma tropa de zumbis, mas quase fui pisoteado por um gigante carregando um feixe de lanças.
Uma vez alcançado o topo, desviamos para o lado, seguindo rente à amurada.
Ao vivo, o navio era ainda mais horrível do que nos meus sonhos. O convés parecia se estender ao infinito, uma colcha de retalhos cintilante de placas de unhas amarelas, pretas e cinzentas, como a carapaça de alguma criatura pré-histórica. Centenas de gigantes iam de um lado para outro, parecendo quase de tamanho humano se comparados à embarcação: gigantes da pedra, gigantes das montanhas, gigantes do gelo, gigantes das colinas e alguns sujeitos vestidos com tanto bom gosto que só podiam ser gigantes das metrópoles, todos enrolando cordas, empilhando armas e gritando uns com os outros em uma variedade de dialetos jötunn.
Os mortos-vivos não eram tão diligentes. Ocupando boa parte do amplo convés, estavam em posição de sentido em fileiras brancas e azuis, dezenas de milhares deles, como se à espera de uma inspeção. Alguns estavam montados em cavalos zumbis. Outros tinham cachorros ou lobos zumbis. Alguns até tinham aves de rapina zumbis empoleiradas nos braços de esqueleto. Todos pareciam perfeitamente satisfeitos de permanecer em silêncio até receberem ordens. Muitos esperaram séculos pela batalha final. Eu achava que, na opinião deles, aguardar um pouco mais não faria mal.
Os gigantes se esforçavam para evitar contato com os mortos-vivos. Contornavam as legiões com cuidado, xingando-os por estarem no caminho, mas sem tocar neles e nem os ameaçar diretamente. Imaginei que me sentiria da mesma forma se estivesse dividindo um navio com uma horda de roedores estranhamente bem-comportados e carregando armamento pesado.
Procurei Loki no convés. Não vi ninguém com uniforme branco de almirante, mas isso não queria dizer nada. No meio de tanta gente, ele podia estar em qualquer lugar, disfarçado de qualquer um. Ou no convés inferior, se refastelando com um tranquilo café da manhã pré-Ragnarök. Meu plano de andar diretamente até ele sem obstáculos e dizer Oi, cabeça de mamão. Eu te desafio a um duelo de xingamentos estava indo por água abaixo.
Na coberta de proa, a uns oitocentos metros, talvez, um gigante andava de um lado para outro, balançando um machado e gritando ordens. Ele estava muito longe para eu conseguir entender as palavras, mas reconheci do meu sonho a forma corcunda e magra e o elaborado escudo de ossos de costela. Era Hrym, o capitão do navio. A voz dele se espalhava pela agitação de ondas se quebrando e gigantes resmungando.
— PREPAREM TUDO, SEUS COVARDES MOLENGAS! A PASSAGEM ESTÁ ABERTA! SE NÃO ANDAREM MAIS RÁPIDO, VOU DAR VOCÊS PARA GARM COMER!
Então, em algum lugar atrás do capitão, perto da proa, uma explosão sacudiu o navio. Gritando, gigantes soltando fumaça voaram pelo ar como acrobatas disparados por canhões.
— ESTAMOS SENDO ATACADOS! — gritou alguém. — PEGUEM ELES!
Nossos amigos tinham chegado.
Eu não conseguia vê-los, mas, no meio da confusão, ouvi os sons metálicos de uma corneta. Só pude concluir que T.J. tinha encontrado o instrumento embaixo da munição, dos óculos de atirador de elite e dos biscoitos duros.
Acima do capitão Hrym, uma runa dourada ardia no céu:


Thurisaz, sinal da destruição, mas também símbolo do deus Thor.
Hearthstone não podia ter escolhido uma runa melhor para disseminar medo e confusão em um bando de gigantes. Raios explodiram da runa em todas as direções, fritando gigantes e mortos-vivos.
Mais gigantes ocuparam o convés superior. Não que eles tivessem muita escolha. O navio estava tão lotado de tropas que as multidões forçaram as linhas para a frente, quisessem eles avançar ou não. Uma avalanche de corpos bloqueou rampas e escadas. Um grupo empurrou o capitão Hrym e o carregou enquanto ele balançava o machado acima da cabeça e gritava, em vão.
A maior parte da legião de mortos-vivos permaneceu em posição, mas até eles viraram a cabeça na direção do caos, como se ligeiramente curiosos.
Ao meu lado, Sam murmurou:
— É agora ou nunca.
Alex soltou minha mão. Ouvi o som do garrote dela sendo puxado pelos passadores da calça jeans.
Nós seguimos em frente, tocando ocasionalmente nos ombros uns dos outros para nos orientar. Eu me abaixei quando um gigante passou voando por cima de mim. Seguimos no meio de uma legião de cavalaria zumbi, as lanças brilhando com luz gelada, os olhos brancos e mortos dos cavalos encarando o nada.
Ouvi um grito de guerra que parecia ter vindo de Mestiço Gunderson. Eu esperava que ele não tivesse tirado a camisa, como costumava fazer em combate. Senão ele podia pegar uma gripe enquanto lutávamos até a morte.
Outra runa explodiu sobre a proa:


Isa, gelo, que devia ter sido fácil de usar em Niflheim. Uma onda de gelo bateu no lado esquerdo de Naglfar, transformando um monte de gigantes em esculturas congeladas.
Na luz cinzenta da manhã, percebi o brilho de um pequeno objeto de bronze voando na direção do capitão Hrym e achei que um dos meus amigos tinha jogado uma granada nele. Mas, em vez de explodir, a “granada” foi aumentando à medida que caía, se expandindo a um tamanho impossivelmente grande, até que o capitão e mais de dez amigos gigantes próximos desapareceram debaixo de um pato do tamanho de uma loja Starbucks.
Perto da amurada a estibordo, outro pato de bronze cresceu no ar, empurrando um batalhão de zumbis em direção ao mar. Gigantes gritaram e deram início ao caos, como acontecia quando gigantescos patos metálicos choviam do céu.
— Expande-Patos — comentei. — Blitz se superou.
— Continue — disse Alex. — Estamos perto agora.
Talvez não devêssemos ter falado. Na fila mais próxima de guerreiros zumbis, um lorde com braçadeiras douradas virou o elmo de lobo na nossa direção. Um rosnado percorreu sua caixa torácica.
Ele disse alguma coisa em uma língua que eu não conhecia, sua voz úmida e oca como água pingando em um caixão. Seus homens puxaram espadas enferrujadas das bainhas mofadas e se viraram para nós.
Lancei um olhar para Sam e Alex. As duas estavam visíveis, então concluí que eu também devia estar. Como uma piada de mau gosto — o tipo de proteção mágica que se esperaria do sr. Alderman —, nosso disfarce othala acabou no centro do convés principal do navio, na frente de uma legião de mortos-vivos.
Fomos cercados por zumbis. A maioria dos gigantes ainda corria para lidar com nossos amigos, mas alguns repararam em nós e, gritando de fúria, juntaram-se ao exército assassino.
— Bom, Sam — disse Alex. — Foi bom conhecer você.
— E eu? — perguntei.
— O júri ainda está deliberando.
Ela virou uma onça-parda e pulou no lorde draugr, arrancando a cabeça dele. Então foi se deslocando entre os soldados, mudando de forma sem esforço, passando de lobo para humana para águia, cada forma mais mortal do que a anterior.
Sam empunhou sua lança de valquíria. Emitindo uma luz ardente, ela explodiu os mortos-vivos, queimando dezenas de uma vez só. Porém, centenas de outros se aproximaram, espadas e lanças em riste.
Eu puxei Jacques e gritei:
— Lute!
— TÁ BOM! — gritou ele em resposta, parecendo tão assustado quanto eu.
Jacques passou ao meu redor, fazendo o melhor possível para me proteger, mas me vi com o problema recorrente de todos os filhos de Frey. Os einherjar têm um lema: Matem o curandeiro primeiro.
Essa filosofia militar foi aperfeiçoada por guerreiros vikings experientes que, quando em Valhala, aprenderam a jogar videogames. A ideia era simples: mirava-se em qualquer cara nas linhas inimigas que pudesse curar os ferimentos dos seus oponentes e fazer com que voltassem ao combate. Se matasse o curandeiro, o resto morria mais rápido. Além do mais, o curandeiro devia ser frágil e medroso e fácil de eliminar.
Evidentemente, gigantes e zumbis também conheciam essa dica de expert. Talvez jogassem os mesmos videogames que os einherjar enquanto esperavam o Juízo Final. Sabe-se lá como, fui identificado como curandeiro; portanto, eles ignoraram Alex e Sam e vieram na minha direção. Flechas passaram voando pelos meus ouvidos. Lanças cutucaram minha barriga. Machados foram arremessados entre as minhas pernas. O espaço era pequeno demais para tantos combatentes. A maioria das armas dos draugrs encontravam alvos draugrs, mas eu achava que aquele pessoal não estava muito preocupado com o alvo naquele fogo cruzado.
Fiz o que pude para parecer destemido. Com minha força einherji, dei um soco na cavidade peitoral do zumbi mais próximo, o que foi como dar um soco através de uma bacia de gelo-seco. Quando ele caiu, peguei a espada que ele empunhava e empalei o colega zumbi mais próximo.
— Quem precisa de curandeiro agora? — gritei.
Por uns dez segundos, pareceu que estávamos nos saindo bem. Outra runa explodiu. Outro Expande-Pato deflagrou a destruição nas linhas inimigas. Da proa veio o ruído alto da Springfield 1861 de T.J. Ouvi Mallory xingando em gaélico.
Mestiço Gunderson gritou:
— SOU MESTIÇO, DE FLÄM!
A que um gigante meio burro respondeu:
— Fläm? Aquele lugar é um buraco!
— ARRRRGGGHH! — O uivo de fúria de Mestiço sacudiu o barco, seguido do som do machado dele cortando fileiras de corpos.
Alex e Sam lutaram como demônios gêmeos; a lança ardente de Sam e o garrote afiado de Alex cortavam os mortos-vivos com a mesma velocidade. Mas com tantos inimigos nos cercando, era só questão de tempo até que um golpe nos acertasse. O cabo de uma lança atingiu a lateral da minha cabeça e eu caí de joelhos.
— Magnus! — gritou Jacques.
Vi o machado de um zumbi se aproximar do meu rosto e vi que Jacques não teria tempo para impedir. Com toda a destreza poética de um bebedor de hidromel de Kvásir, eu pensei: Mas que droga.
Só que uma coisa aconteceu e essa coisa não foi a minha morte.
Uma pressão furiosa cresceu dentro do meu estômago, uma certeza de que toda aquela luta deveria parar, de que precisava parar, se pretendíamos completar nossa missão. Rugi ainda mais alto do que Mestiço Gunderson.
Uma luz dourada explodiu de dentro para fora em todas as direções, se espalhando pelo convés do navio, arrancando espadas das mãos de seus donos, mudando a direção de projéteis em rota e os enviando para o mar, arrancando as lanças e os escudos e machados de batalhões inteiros.
Eu cambaleei.
A luta tinha parado. Todas as armas ao alcance da minha voz tinham sido arrancadas violentamente de deus donos. Até Jacques havia voado para algum lugar a estibordo, e achei que ouviria bastante a respeito disso, caso eu sobrevivesse. Todo mundo no navio, fosse amigo ou inimigo, tinha sido desarmado pela Paz de Frey, um poder que eu só conseguira invocar uma vez.
Gigantes desconfiados e zumbis confusos se afastaram de mim. Alex e Sam vieram correndo na minha direção.
Minha cabeça latejava. Minha visão oscilava. Eu tinha perdido um dos molares e minha boca estava cheia de sangue.
A Paz de Frey era um truque bem legal. Chamava mesmo a atenção da galera. Mas não era uma solução permanente. Nada impediria nossos inimigos de simplesmente recuperaram suas armas e voltarem ao projeto de matança do curandeiro.
Mas antes do momento de surpresa pelas mãos vazias passar, uma voz familiar falou em algum lugar à minha esquerda.
— Ora, ora, Magnus. Isso foi bem dramático!
Os draugrs se afastaram e revelaram Loki, em seu impecável uniforme branco de almirante, o cabelo da cor das folhas de outono, os lábios cheios de cicatrizes retorcidos em um sorriso, os olhos brilhando com humor malicioso.
Atrás dele estava Sigyn, sua fiel esposa sofredora, que passara séculos recolhendo veneno de serpente em uma tigela para impedir que ele pingasse no rosto de Loki, um dever que não era assegurado pelos tradicionais votos de casamento. A expressão em seu rosto pálido e magro era impossível de interpretar, embora lágrimas vermelho-sangue ainda escorressem de seus olhos. Pensei ter notado uma leve tensão nos lábios, como se Sigyn estivesse decepcionada por me ver outra vez.
— Loki… — Eu cuspi sangue. Mal conseguia fazer minha boca trabalhar. — Eu te desafio a um vitupério.
Ele ficou me encarando como se estivesse esperando que eu completasse a frase. Talvez que eu acrescentasse: Um vitupério… com outro cara que é bom de insultos e bem mais intimidador do que eu.
Ao nosso redor, as fileiras infinitas de guerreiros pareciam prender a respiração, apesar de zumbis não respirarem.
Njord, Frigga, Skadi… todos me garantiram que Loki teria que aceitar meu desafio. Era a tradição. A honra exigia isso. Eu podia ter machucado a boca, estar com a cabeça zumbindo e não ter garantia nenhuma de que o hidromel de Kvásir elaboraria poesia com minhas cordas vocais, mas agora eu ao menos teria minha chance de derrotar o trapaceiro em uma batalha de palavras.
Loki ergueu o rosto para o céu frio e cinzento e riu.
— Agradeço o convite, Magnus Chase — disse ele. — Mas acho que vou só matar você mesmo.


11 comentários:

  1. Sério!!! Tanta coisa de beber aquilo é comer aquilo para no final dizer dizer: Não obrigado, tenho muita preguiça para isso por isso vou só matar você.

    Só podem estar brincando comigo!!!😫

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    1. Isso é bem a cara do Erick mesmo kkkkkk

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    2. Isso é bem a cara do Erick mesmo kkkkkk

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  2. Ca@#$&*, depois de tudo que eles passaram, loki simplismente diz "nao, vou apenas matar vcs"

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  3. Se eu não consegui parar de rir até agora? Mas é claro! Isso foi simplesmente genial, não sei como não percebi antes. Njord, Skadi e Frigga garantiram que Loki aceitaria o desafio pela honra, porque é um valor muito apreciado por eles - mas Loki não tem honra. É, acho que isso não vai acabar bem.

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  4. DEPOIS DELES QUASE SEREM MORTOS POR 20.0000000 SERES E DEUSES,LOKI ME VIRA E FALA"Nao mto obrigado vou apenas matar vc"
    ISSO JAEH ZUACAO

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  5. A Honra dos ladrões não cobre gigantes ao que parece

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  6. Kkkkk,
    Bem Loki isso.

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  7. "Mas, em vez de explodir, a “granada” foi aumentando à medida que caía, se expandindo a um tamanho impossivelmente grande, até que o capitão e mais de dez amigos gigantes próximos desapareceram debaixo de um pato do tamanho de uma loja Starbucks."

    PATOSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSS

    MEUS DEUSES LOKI!!!! QUE DECEPÇÃO

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Boa leitura :)