9 de outubro de 2017

Quarenta e sete - Muitas surpresas, e algumas até que são boas

FOI UMA TÍPICA viagem de volta para casa.
Passear em carrinhos de golfe, tentar lembrar onde estacionamos nosso navio de guerra, navegar para a foz traiçoeira de um rio desconhecido, ser sugado por corredeiras que nos jogaram nos túneis sob Valhala, pular de um navio em movimento e ver o Bananão desaparecer na escuridão, sem dúvida indo buscar o próximo grupo sortudo de aventureiros a caminho da glória, da morte e de gambiarras para adiar o Ragnarök.
Os outros einherjar nos receberam como heróis e fomos para o salão de banquetes para uma grande comemoração. Lá, descobrimos que Helgi tinha planejado uma surpresa especial para Samirah, graças a uma dica do próprio Odin. Junto à nossa mesa de sempre, parecendo muito confuso, com um crachá proclamando VISITANTE MORTAL! NÃO MATAR!, estava Amir Fadlan.
Ele piscou várias vezes quando viu Sam.
— Eu… eu estou tão confuso. Você é real?
Samirah colocou as mãos no rosto. Seus olhos se encheram de lágrimas.
— Ah. Eu sou real. Quero tanto abraçar você agora.
Alex indicou a multidão chegando para jantar.
— Melhor não. Como somos todos família estendida aqui, você tem vários milhares de acompanhantes homens armados presentes.
Percebi que Alex estava se incluindo nesse grupo. Em algum ponto da viagem para casa, ele passou a ser um garoto.
— Isso é… — Amir olhou ao redor, impressionado. — Sam, é aqui que você trabalha?
Sam fez um som que ficou entre uma gargalhada e um soluço alegre.
— É, meu amor. É, sim. E hoje é Eid al-Fitr, não é?
Amir assentiu.
— Nossas famílias estão planejando um jantar. Agora. Eu não sabia se você estaria livre para…
— Sim! — Samirah se virou para mim. — Você pode dar minhas desculpas aos lordes?
— Não precisa pedir desculpas — garanti a ela. — Isso quer dizer que o ramadã acabou?
— Sim!
Eu sorri.
— Em algum momento desta semana, vou levar você para almoçar. Vamos comer no sol e rir muito.
— Combinado! — Ela abriu os braços. — Abraço no ar.
— Abraço no ar — concordei.
Alex deu um sorrisinho.
— Parece que os dois pombinhos vão precisar de mim para servir de acompanhante, então, se me derem licença.
Eu não queria que ele fosse embora, mas não tinha muita escolha. Sam, Amir e Alex foram comemorar Eid e comer uma quantidade absurda de comida deliciosa.
Para o restante de nós, a noite se resumiu a beber hidromel, levar tapinhas nas costas alguns milhares de vezes e ouvir os lordes fazendo discursos sobre como éramos incríveis, mesmo que os heróis fossem bem melhores antigamente. Acima de nós, nos galhos da árvore Laeradr, esquilos e vombates e pequenos cervos corriam de um lado para outro, como sempre. As valquírias voavam para cá e para lá servindo comida e hidromel.
Perto do final do banquete, Thomas Jefferson Jr. tentou nos ensinar algumas das antigas músicas de marcha da Quinquagésima Quarta de Massachusetts. Mestiço Gunderson e Mallory Keen alternadamente jogavam pratos um no outro e percorriam os corredores entre as mesas se beijando, enquanto os outros vikings riam deles. Meu coração ficou feliz de vê-los juntos novamente… apesar de também me sentir um pouco vazio.
Blitzen e Hearthstone se tornaram presenças tão constantes em Valhala que Helgi anunciou que os dois ganharam status de hóspedes de honra, livres para irem e virem quando quisessem, embora tenha feito questão de lembrar que eles não tinham quarto, acesso ao frigobar e nem nenhum tipo de imortalidade, então deveriam tomar cuidado e evitar projéteis. Blitz e Hearth receberam elmos grandes com os dizeres EINHERJI HONORÁRIO, o que não pareceu deixá-los muito felizes.
Quando a festa estava terminando, Blitzen deu um tapinha nas minhas costas, que já estava dolorida de todos os tapas que recebi naquela noite.
— Nós estamos indo, garoto. Precisamos dormir um pouco.
— Vocês têm certeza? — perguntei. — Todo mundo vai para a pós-festa. Vamos fazer um cabo de guerra em cima de um lago de chocolate.
Parece divertido, sinalizou Hearthstone. Mas nos vemos amanhã. Certo?
Eu sabia o que ele estava perguntando: eu estava mesmo falando sério sobre ir em frente com meu plano, o favor que pedi a Odin?
— Certo — prometi. — Amanhã.
Blitz sorriu.
— Você é um bom homem, Magnus. Vai ser incrível!
O cabo de guerra foi divertido, mas nosso lado perdeu. Acho que porque Hunding era nossa âncora e ele queria um banho de chocolate.
No fim da noite, exausto, feliz e encharcado de calda de chocolate, eu cambaleei de volta ao andar dezenove. Quando passei pela porta do quarto de Alex Fierro, parei por um momento e prestei atenção, mas não ouvi nada. Ele ainda devia estar no Eid al-Fitr com Sam e Amir. Eu esperava que a comemoração estivesse ótima. Eles mereciam.
Entrei no meu quarto. Parei no saguão, pingando chocolate no tapete. Por sorte, o hotel tinha um excelente serviço mágico de limpeza. Eu me lembrei da primeira vez em que entrei naquele quarto, o dia em que morri caindo da ponte Longfellow. Tinha ficado maravilhado com todos os serviços: a cozinha, a biblioteca, o sofá e a TV enorme, o saguão amplo com o céu estrelado cintilando por entre os galhos das árvores.
Agora, havia mais fotos sobre a lareira. Uma ou duas apareciam magicamente toda semana. Algumas eram fotos antigas da minha família: minha mãe, Annabeth, até tio Randolph, as filhas e a esposa em épocas mais felizes. Mas também havia fotos novas: eu com meus amigos do andar dezenove, uma foto que tirei com Blitz e Hearth quando ainda éramos sem-teto. Nós pegamos a câmera de alguém emprestada para fazer uma selfie em grupo. Como o Hotel Valhala conseguiu arrumar essa foto do nada, eu não sabia. Talvez Heimdall guardasse na nuvem todas as selfies já tiradas.
Pela primeira vez, percebi que entrar naquele quarto era como voltar para casa. Eu talvez não fosse viver no hotel para sempre. Na verdade, tinha acabado de almoçar naquela tarde no lugar onde provavelmente morreria de vez um dia. Ainda assim… ali parecia um bom lugar para pendurar minha espada.
Falando nela… tirei o cordão do pescoço, tomando cuidado para não acordar Jacques, e coloquei o pingente de runa na mesa de centro. Ele zumbiu alegremente no sono, provavelmente sonhando com Contracorrente, a espada de Percy, e todas as outras armas que amou. Como eu ia encontrar o deus Bragi e pedir que escrevesse um épico sobre Jacques, eu não tinha ideia, mas isso era problema para outro dia.
Eu havia acabado de tirar a camisa grudenta encharcada de chocolate quando uma voz atrás de mim disse:
— Talvez seja melhor você fechar a porta antes de começar a trocar de roupa.
Eu me virei.
Alex estava encostado na moldura da porta, os braços cruzados sobre o colete de cota de malha, os óculos rosa na ponta do nariz. Ele balançou a cabeça sem acreditar.
— Você perdeu uma competição de luta na lama?
— Hã. — Eu olhei para baixo. — É chocolate.
— Certo. Não vou perguntar.
— Como foi o Eid?
Alex deu de ombros.
— Foi bom, acho. Muita gente feliz comemorando. Muita comida e muita música. Parentes se abraçando. Não é exatamente o meu estilo.
— Certo.
— Deixei Sam e Amir em boa companhia com as famílias. Eles pareciam… Felizes não é suficiente. Satisfeitos? Eufóricos?
— Apaixonados? — sugeri. — Com a cabeça nas nuvens?
Alex me encarou.
— É. Serve.
Pinga. Pinga. Chocolate escorreu dos meus dedos de um jeito totalmente descolado e atraente.
— Enfim — disse Alex. — Eu estava pensando no que você disse.
Senti um nó na garganta. Eu me perguntei se tinha alergia a chocolate e estava morrendo de um jeito novo e interessante.
— No que eu disse? — balbuciei.
— Sobre a mansão — esclareceu ele. — Do que achou que eu estava falando?
— Não, claro. A mansão. Aham.
— Acho que topo — disse Alex. — Quando começamos?
— Ah, legal! Amanhã podemos fazer a visita inicial. Vou pegar as chaves. Depois, vamos esperar os advogados fazerem o trabalho deles. Talvez demore umas duas semanas…
— Perfeito. Agora, vá tomar um banho. Você está nojento. Vejo você no café da manhã.
— Certo.
Ele se virou para sair, mas hesitou.
— Mais uma coisa.
Alex andou até mim.
— Também andei pensando na sua declaração de amor eterno ou sei lá.
— Eu não… não foi…
Ele colocou as mãos nas laterais do meu rosto cheio de chocolate e me beijou.
Eu tive que me perguntar: era possível se dissolver em chocolate em um nível molecular e virar uma poça no tapete? Porque foi assim que me senti.
Tenho quase certeza de que Valhala teve que me ressuscitar várias vezes durante aquele beijo. Senão, não sei como eu ainda estava inteiro quando Alex finalmente se afastou.
Ele me observou de forma crítica, os olhos castanho e mel me avaliando.
Alex estava com um bigode e um cavanhaque de chocolate agora, e havia uma mancha marrom na frente do colete.
Vou ser sincero. Uma pequena parte do meu cérebro pensou: Alex é homem agora. Acabei de ser beijado por um cara. O que eu acho disso?
O resto do meu cérebro respondeu: Eu fui beijado por Alex Fierro e isso é incrível.
Na verdade, eu talvez tivesse feito uma coisa tipicamente constrangedora e idiota, como repetir a tal declaração de amor eterno, mas Alex me poupou.
— Ah. — Ele deu de ombros. — Vou continuar pensando nesse assunto. Depois te conto. Enquanto isso, vá mesmo tomar aquele banho.
Ele saiu, assobiando uma melodia que podia ser da música de Frank Sinatra do elevador, “Fly Me to the Moon”.
Sou ótimo em seguir ordens. Fui tomar banho.


10 comentários:

  1. Vou ser sincero. Uma pequena parte do meu cérebro pensou: Alex é homem agora. Acabei de ser beijado por um cara. O que eu acho disso?
    O resto do meu cérebro respondeu: Eu fui beijado por Alex Fierro e isso é incrível.

    melhor reaçao a beijo kkkkkk

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Malex 💜💜💜

      Excluir
    2. Com certeza é a melhor reação.

      Excluir
    3. Esse foi o melhor beijo da história

      Excluir
  2. Ok, uma das minhas 135 dúvidas sobre a sexualidade de Alex Fierro foi respondida

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Acho que nunca entenderemos completamente a sexualidade de Fierro, então teremos que criar uma nova sexualidade só para Alex.

      Excluir
  3. Ok, uma das minhas 135 dúvidas sobre a sexualidade de Alex Fierro foi respondida

    ~MIRELLE

    ResponderExcluir
  4. "Pinga. Pinga. Chocolate escorreu dos meus dedos de um jeito totalmente descolado e atraente."

    Totalmente aleatório, foi só o Alex aparecer na frente dele que ele já fica com essas paranoias.

    ResponderExcluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)