9 de outubro de 2017

Quarenta e seis - Eu ganho um roupão fofinho

NA MARGEM ABANDONADA, que tinha o calçadão mais longo do universo, havia milhares de quiosques vazios e quilômetros de organizadores de filas, com placas apontando para um lado e para outro:

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Nossa doca exibia uma placa vermelha grande com uma ave estilizada e um número cinco grande. Embaixo estava escrito: LEMBRE-SE, VOCÊ ESTACIONOU EM CORVO CINCO! TENHA UM ÓTIMO RAGNARÖK! Eu achava que nossa vaga de estacionamento poderia ter sido pior. Nós poderíamos ter ido parar em Coelhinho Doze ou Furão Um.
Reconheci muitos dos deuses em nosso grupo de boas-vindas. Frigga estava com o vestido branco-nuvem e o elmo brilhante de guerra, a bolsa de tricô embaixo do braço. Ela sorriu com gentileza para Mallory.
— Minha filha, eu sabia que você conseguiria!
Não tive certeza se ela quis dizer isso por ter previsto o futuro ou por ter acreditado, mas achei que foi legal de qualquer modo.
Heimdall, o guardião da ponte arco-íris, sorriu para mim, os olhos brancos como leite congelado.
— Eu vi vocês chegando a quase dez quilômetros de distância, Magnus. Esse barco amarelo. UAU.
Thor parecia ter acabado de acordar. O cabelo ruivo estava grudado em um dos lados da cabeça e o rosto marcado pelo travesseiro. Levava seu martelo, Mjölnir, pendurado no cinto que, por sua vez, estava preso à calça com uma corrente. Ele coçou o abdome peludo embaixo da camisa do Metallica e peidou com simpatia.
— Disseram que você insultou Loki até ele virar um homenzinho de cinco centímetros. Bom trabalho!
A esposa dele, Sif, com seu cabelo dourado esvoaçante, correu para abraçar Alex Fierro.
— Minha querida, você está linda. Esse colete é novo?
Um homenzarrão que eu nunca tinha visto, de pele negra, careca brilhante e armadura preta de couro ofereceu a mão esquerda para Thomas Jefferson Jr. O deus não tinha a mão direita e seu pulso estava protegido por uma cobertura dourada.
— Meu filho. Você se saiu bem.
O queixo de T.J. caiu.
— Pai?
— Segure minha mão.
— Eu…
— Eu desafio você a segurar minha mão — disse o deus Tyr.
— Eu aceito! — exclamou T.J., e se permitiu ser puxado para a doca.
Odin usava um terno de três peças em cota de malha cor de carvão que achei que tinha sido feito sob medida pelo próprio Blitzen. A barba do Pai de Todos estava bem aparada. O tapa-olho brilhava como aço inoxidável. Seus corvos, Pensamento e Memória, estavam empoleirados nos ombros dele, as penas pretas complementando lindamente o paletó.
— Hearthstone — disse ele —, parabéns pelo uso das runas, rapaz. Aqueles truques de visualização que eu ensinei devem ter mesmo valido a pena!
Hearth deu um sorriso sem graça.
Do fundo do grupo, dois outros deuses abriram caminho. Eu nunca os tinha visto juntos antes, mas agora era óbvio como os irmãos gêmeos eram parecidos. Freya, deusa do amor e da riqueza, resplandecia com seu vestido dourado, um aroma de rosas se espalhando em volta dela.
— Ah, Blitzen, meu lindo menino!
Ela chorou lágrimas de ouro vermelho, espalhando pela doca pedras preciosas estimadas em quarenta mil dólares enquanto abraçava o filho.
Ao lado dela estava meu pai, Frey, o deus do verão. Vestindo calça jeans surrada, camisa de flanela e botas e com o cabelo e a barba louros desgrenhados, parecia ter voltado de uma caminhada de três dias.
— Magnus — disse ele, como se tivéssemos nos visto cinco minutos antes.
— Oi, pai.
Ele esticou a mão com hesitação e me deu um tapinha no braço.
— Bom trabalho. De verdade.
Em forma de runa, Jacques vibrou e pulou até eu o tirar do cordão. Assumindo a forma de espada, ele brilhou em roxo de irritação.
— Olá, Jacques — disse ele, imitando a voz grave de Frey. — Como você está, velho amigo?
Frey fez uma careta.
— Olá, Sumarbrander. Não foi minha intenção ignorar você.
— Sei, sei. Bom, o Magnus aqui vai pedir a Bragi para escrever um poema épico sobre mim!
— Vai? — perguntou Frey, erguendo uma das sobrancelhas.
— Hã…
— Isso mesmo! — Jacques bufou. — Frey nunca pediu a Bragi para escrever um poema épico sobre mim! A única coisa que ele me deu foi um cartão idiota desses que já vem com a mensagem pronta no Dia da Espada.
Acrescentar às notas mentais: existia um Dia da Espada. Xinguei silenciosamente a indústria de cartões comemorativos.
Meu pai deu um sorriso um pouco triste.
— Você está certo, Jacques. Uma boa espada merece um bom amigo. — Frey apertou meu ombro. — E parece que você encontrou um.
Fiquei grato pelo sentimento caloroso. Por outro lado, temi que meu pai tivesse transformado em um decreto divino a minha promessa impensada de encontrar Bragi.
— Amigos! — chamou Odin. — Vamos nos recolher para nossa tenda de banquetes no campo de Vigrid! Reservei a tenda Lindwyrm Sete! Tenda Lindwyrm Sete. Se alguém se perder, é só seguir as setas roxas. Quando chegarmos lá — a expressão dele ficou séria —, vamos discutir o destino de todas as coisas vivas.

* * *

Estão vendo? Não consigo nem fazer uma refeição com esses deuses sem discutir o destino de todas as coisas vivas.
O banquete foi montado no meio do campo de Vigrid, bem longe das docas, pois (de acordo com Samirah) Vigrid se estendia por quinhentos quilômetros em todas as direções. Felizmente, Odin tinha preparado uma pequena frota de carrinhos de golfe.
A paisagem era quase toda uma pradaria vermelha e dourada, com um rio, colina ou amontoado de árvores ocasionais, só para variar. O pavilhão em si era feito de couro curtido. As laterais estavam abertas, a lareira principal acesa e as mesas cobertas de comida. Aquilo me fez lembrar as fotos que vi em antigas revistas de viagem, com pessoas em banquetes luxuosos durante safáris na savana africana. Minha mãe amava revistas de viagem.
Os deuses se sentaram à mesa dos lordes, como era de se esperar. Valquírias iam de um lado para outro servindo todo mundo, mas se distraíram quando Samirah se aproximou para abraçá-las e contar as fofocas.
Quando todos estavam acomodados, e o hidromel, servido, Odin declarou com voz grave:
— Tragam a noz!
Mallory se levantou. Lançando um rápido olhar para Frigga, que assentiu de forma encorajadora, Mallory foi até um pedestal de pedra na frente da lareira. Colocou a noz ali e voltou para seu lugar.
Todos os deuses se inclinaram para a frente. Thor fez cara feia. Tyr entrelaçou os dedos da mão esquerda com os inexistentes da mão direita. Frey coçou a barba loura.
Freya fez beicinho.
— Embora elas sejam de fato uma ótima fonte de ácidos graxos e ômega 3, não gosto de nozes.
— Essa noz não tem valor nutricional, irmã — disse Frey. — Ela é o que está aprisionando Loki.
— Sim, eu sei. — Ela franziu a testa. — Eu só estava falando de um modo geral…
— Loki está bem preso? — perguntou Tyr. — Não vai pular para fora e me desafiar a um combate corpo a corpo?
O deus pareceu melancólico, como se estivesse sonhando com essa possibilidade.
— A noz é suficiente — disse Frigga. — Pelo menos até acorrentarmos Loki novamente.
— Bah! — Thor ergueu o martelo. — Por mim eu esmagava esse cara agora mesmo! Vai nos poupar muitos problemas.
— Querido — disse Sif —, já conversamos sobre isso.
— De fato — afirmou Odin, seus corvos grasnindo no espaldar do trono. — Meu nobre filho Thor, falamos sobre isso aproximadamente oito mil seiscentas e trinta vezes. Acho que você não está usando as estratégias de escuta ativa muito bem. Não podemos mudar nosso destino.
Thor bufou.
— Bom, de que adianta ser deus, então? Eu tenho um martelo perfeitamente bom e essa noz está implorando para ser esmagada! Por que não ESMAGAR ELA?
Pareceu um plano bem razoável para mim, mas não falei nada. Eu não tinha o hábito de discordar de Odin, o Pai de Todos, aquele que controlava minha pós-vida e meus privilégios de frigobar no Hotel Valhala.
— Talvez… — falei, morrendo de vergonha quando todos os olhares se voltaram para mim. — Sei lá… A gente pudesse pensar em um lugar mais seguro onde aprisioná-lo, pelo menos? Tipo, é só uma ideia, uma prisão de segurança máxima com guardas de verdade? E correntes que não sejam feitas dos intestinos dos filhos dele? Ou, sei lá, podemos simplesmente evitar essa coisa toda de intestino…
Odin riu, como se eu fosse um cachorrinho que tinha aprendido um truque novo.
— Magnus Chase, você e seus amigos agiram com bravura e nobreza, mas agora precisam deixar essa questão com os deuses. Não podemos mudar a punição de Loki de maneira significativa. Só podemos restaurá-la para que a grande sequência de eventos levando ao Ragnarök seja mantida sob controle. Ao menos por enquanto.
— Humf. — Thor bebeu seu hidromel. — Estamos sempre adiando o Ragnarök. Por que não encarar logo de uma vez? Uma boa luta cairia bem!
— Bem, meu filho — disse Frigga —, nós estamos adiando o Ragnarök porque ele vai destruir o cosmos que conhecemos e porque a maioria de nós vai morrer. Inclusive você.
— Além do mais — acrescentou Heimdall —, só agora temos a capacidade de tirar selfies de qualidade com o celular. Dá para imaginar quanto a tecnologia vai melhorar daqui a alguns séculos? Mal posso esperar para fazer streaming do apocalipse em realidade virtual para meus milhões de seguidores na cyber-nuvem!
Com expressão pensativa, Tyr apontou para um bosque próximo de árvores douradas.
— Eu vou ser morto bem ali… por Garm, o cão de guarda de Hel, mas não antes de acertar a cabeça dele. Mal posso esperar por esse dia. Sonho com os dentes do bicho arrebentando minha barriga.
Todos assentiram com solidariedade, como quem diz: Sim, bons momentos!
Fiquei olhando para o horizonte. Eu também estava destinado a morrer ali durante o Ragnarök, supondo que isso não acontecesse em alguma missão perigosa antes do tempo. Eu não sabia o local exato, mas poderíamos muito bem estar almoçando no exato ponto onde eu seria empalado, ou onde Mestiço cairia com uma espada na barriga, ou Alex… Eu não conseguia pensar nisso. De repente, queria estar em qualquer lugar, menos ali.
Samirah tossiu para pedir atenção.
— Lorde Odin — disse ela —, quais são seus planos para Loki, então, considerando que as amarras originais foram cortadas?
Odin sorriu.
— Não se preocupe, minha corajosa valquíria. Loki será levado de volta à caverna da punição. Colocaremos novos encantamentos por lá para esconder a localização e impedir futuras invasões. Vamos refazer as correntes, cuidando para que fiquem mais fortes do que nunca. Os melhores anões ferreiros aceitaram a tarefa.
— Os melhores anões ferreiros? — perguntou Blitz.
Heimdall assentiu com entusiasmo.
— Fizemos um pacote de todas as quatro amarras com Eitri Júnior!
Blitz começou a xingar, mas Hearthstone colocou a mão sobre a boca do amigo. Achei que Blitzen ia se levantar e começar a lançar Expande-Patos em um surto de raiva.
— Entendi… — disse Samirah, obviamente nem um pouco empolgada com o plano de Odin.
— E Sigyn? — perguntei. — Vocês vão deixar que ela fique ao lado de Loki de novo, se quiser?
Odin franziu a testa.
— Eu não tinha pensado nisso.
— Não faria mal algum — acrescentei rapidamente. — Ela… ela tem boas intenções, eu acho. Tenho quase certeza de que não queria que ele fugisse.
Os deuses cochicharam entre si.
Alex lançou um olhar questionador para mim, sem dúvida querendo saber por que eu me importava tanto com a esposa de Loki. Eu mesmo não tinha certeza de por que achava isso importante. Se Sigyn quisesse ficar ao lado de Loki, fosse por compaixão ou qualquer outro motivo, eu pensava que era o mínimo que os deuses podiam fazer por ela. Principalmente considerando que tinham matado seus filhos e usado os intestinos como correntes para o pai deles.
Eu me lembrei do que Loki me dissera sobre o bem e o mal, deuses e gigantes. Ele tinha razão: eu não estava necessariamente sentado ao lado dos mocinhos. Estava apenas sentado com um dos lados da guerra final.
— Muito bem — decidiu Odin. — Sigyn pode ficar com Loki, se quiser. Alguma outra pergunta sobre a punição de Loki?
Percebi que muitos dos meus amigos queriam ficar de pé e dizer Sim. VOCÊ ESTÁ LOUCO?
Mas ninguém fez isso. Nenhum dos deuses fez objeções ou sacou armas.
— Tenho que dizer — comentou Freya — que esta é a melhor reunião divina que temos em séculos. — Ela sorriu para mim. — Evitamos reunir muitos de nós em um só lugar porque normalmente isso gera confusão.
— Na última vez foi o vitupério com Loki — resmungou Thor. — No salão de Aegir.
Na verdade, não gostei de ser lembrado de Aegir, mas isso me fez recordar uma promessa.
— Lorde Odin, eu… eu prometi levar a Aegir uma amostra do hidromel de Kvásir, como pagamento por ele não ter nos matado e nos deixado partir, mas…
— Não tema, Magnus Chase. Falarei com Aegir em seu nome. Posso até dar a ele uma pequena amostra do hidromel de Kvásir da minha reserva especial, supondo que ele me coloque na lista para degustar o hidromel de abóbora com especiarias que ele faz.
— A mim também — disse Thor.
— E a nós — disseram os outros deuses, erguendo as mãos.
Eu pisquei.
— Você… tem uma reserva especial do hidromel de Kvásir?
— É claro! — respondeu Odin.
Isso levantava algumas perguntas interessantes, entre elas: por que os deuses nos fizeram dar a volta ao mundo e arriscar a vida para pegar aquele hidromel dos gigantes quando Odin podia ter nos dado um gole? Essa simples solução não devia nem ter passado pela cabeça de Odin. Ele era o líder, não um membro da equipe.
Meu pai chamou minha atenção. Ele balançou a cabeça como quem diz: Não pergunte. Os aesires são estranhos.
— Muito bem! — Odin bateu com o punho na mesa. — Eu concordo com Freya. Essa reunião transcorreu surpreendentemente bem. Ficaremos com a noz. Quanto a vocês, heróis, serão enviados de volta para Valhala para aproveitarem um grande banquete em sua homenagem. Alguma outra questão antes de terminarmos?
— Lorde Odin — disse Frey —, meu filho e os amigos dele fizeram um grande serviço para nós. Não deveríamos… recompensá-los? Não é de praxe?
— Hum… — Odin assentiu. — Acho que você está certo. Eu poderia transformar todos vocês em einherjar em Valhala! Mas, ah, a maioria já é.
— E o restante de nós — acrescentou Sam rapidamente — gostaria de ficar vivo mais um pouco, lorde Odin, se não se importar.
— Então pronto! — concordou Odin. — Como recompensa, nossos heróis vivos vão continuar vivos! Eu também darei a cada um cinco exemplares autografados do meu novo livro, Heroísmo motivacional. Quanto aos einherjar, além do banquete comemorativo e dos livros, vou incluir como cortesia um roupão turco do Hotel Valhala para cada um! Que tal?
Odin pareceu tão satisfeito consigo mesmo que nenhum de nós teve coragem de reclamar. Nós só assentimos e sorrimos sem muito ânimo.
— Hum…, roupão turco — disse T.J.
— Hum…, ficar vivo — disse Blitz.
Ninguém mencionou os livros motivacionais autografados.
— Finalmente, Magnus Chase — continuou o Pai de Todos —, eu soube que foi você quem ficou cara a cara com Loki e levou o golpe dos insultos dele. Quer pedir algum favor especial aos deuses?
Engoli em seco. Olhei para os meus amigos, tentando avisar que não achava justo que eu recebesse tratamento especial. Derrotar Loki foi um esforço coletivo. Essa era a questão. Falar bonito sobre nossos méritos enquanto equipe foi o que fez Loki ser preso, não a minha habilidade em si. Além do mais, eu não tinha uma lista de favores a pedir guardada no bolso de trás da calça. Sou um cara de poucas necessidades. Sou feliz mesmo sem favores divinos.
Mas me lembrei do último ato de expiação do tio Randolph, tentando me avisar sobre o hidromel de Kvásir. Pensei em quanto a casa dele parecia triste e solitária agora e em como me senti feliz e tranquilo naquele terraço com Alex Fierro. Até me lembrei de um conselho que o anel de Andvari sussurrou em minha mente logo antes de eu devolver o tesouro para o peixe.
Othala. Herança. A runa mais difícil de entender.
— Na verdade, lorde Odin — falei —, tem um favor que eu gostaria de pedir.


4 comentários:

  1. Só uma perguntinha: se Odin tinha o hidromel o tempo todo, porque eles tiveram que se arriscar tanto para tomar o restinho dos gigantes? Aaaaaaff.

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    1. Damon Herondale(filho de Zeus)16 de outubro de 2017 01:43

      "Meu pai chamou minha atenção. Ele balançou a cabeça como quem diz: Não pergunte. Os aesires são estranhos."

      Não viu isso?

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  2. OK, se eu tivesse continuado a ler antes de postar o comentário, saberia que Magnus faz a mesma pergunta. Mas é sempre bom ressaltar isso, os deuses são muito... Arrrrg.

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    1. Concordo, eles são piores que crianças mimadas

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Boa leitura :)