9 de outubro de 2017

Quarenta e quatro - Por que eles têm canhões? Eu quero canhões

EU NÃO ACEITEI as desculpas dele.
Nem meus amigos, que formaram um anel protetor ao meu redor e começaram a atacar as fileiras inimigas, seguindo lentamente para o lado direito do navio.
Ainda pulando em uma perna, Mallory Keen pegou sua noz do mal e guardou no bolso, depois exibiu sua habilidade com duas facas enfiando as lâminas na virilha do capitão Hrym.
Mestiço e T.J. lutaram como máquinas mortíferas. Eu não queria dar crédito a mim mesmo pela disposição de ambos, mas a forma com que destruíram as tropas foi admirável, quase como se estivessem determinados a serem tão bons quanto eu os descrevi, como se minhas palavras tivessem feito com que ficassem maiores ao mesmo tempo que fizeram Loki ficar menor.
— Venham comigo! — gritou Sam, sua lança de luz abrindo caminho para a direita.
Alex movia o garrote como um chicote, arrancando a cabeça de qualquer gigante que chegasse perto demais.
Fiquei com medo de Blitzen ser pisoteado na confusão, mas Hearthstone se ajoelhou e deixou o anão subir em seus ombros. Ok, isso era novidade. Eu não achava que Hearth tivesse força física para carregar Blitz, que era baixo mas corpulento, nem um pouco parecido com uma criancinha. Mas Hearth conseguiu, e pelo jeito como Blitz aceitou a carona sem questionar, tive a sensação de que eles já tinham feito isso antes.
Blitz jogou gravatas e Expande-Patos como serpentina no carnaval, espalhando terror nas linhas inimigas. Enquanto isso, Hearth arremessou uma runa familiar na direção da proa:


Ehwaz, a runa do cavalo, explodiu com luz dourada. De repente, flutuando no ar acima de nós, estava nosso velho amigo Stanley, o cavalo de oito patas.
Stanley observou a confusão, relinchou como quem diz: Aparecer no meio de uma cena de luta? Tranquilo. Em seguida, pulou na confusão, meio galopando, meio voando nos crânios de gigantes e causando caos generalizado.
Jacques, zumbindo com irritação, voou até mim.
— Eu tenho uma lâmina para cortar com você, Magnus.
— O quê?
Eu me abaixei quando uma lança voou por cima da minha cabeça.
— Você faz esse discurso lindo — disse Jacques. — E quem você deixa de fora? É sério?
Com o cabo, Jacques deu um soco tão forte em um gigante que o pobre coitado voou para trás, derrubando uma pequena cavalaria zumbi.
Engoli minha vergonha. Como pude ter me esquecido da minha espada? Jacques odiava ser esquecido.
— Jacques, você era minha arma secreta!
— Você disse isso sobre Alex!
— Hã, quer dizer, você era meu coringa! Eu estava guardando o melhor para, você sabe, poesia emergencial!
— Sei!
Ele cortou o amontoado mais próximo de draugrs como uma serra elétrica.
— Eu… Eu vou pedir a Bragi, o deus da poesia, para escrever pessoalmente um épico sobre você! — falei de repente, me arrependendo da promessa assim que a fiz. — Você é a melhor espada do mundo! Sem dúvida!
— Um épico, é? — Ele brilhou em um tom mais forte de vermelho, ou talvez fosse só sangue escorrendo pela lâmina. — Escrito por Bragi?
— Claro! Agora, vamos sair daqui. Quero que dê o seu melhor! Para descrever para Bragi depois, sabe como é.
— Humf. — Jacques se virou para um gigante da metrópole, transformando-o em pedacinhos. — Acho que posso fazer isso.
Ele começou a trabalhar, cortando nossos inimigos como um consumidor remexendo freneticamente as araras de roupas durante a Black Friday.
— Não, não, não! — gritou Jacques. — Eu não gosto de vocês! Saiam do meu caminho! Vocês são feios!
Em pouco tempo, nosso grupinho de heróis chegou à amurada. Infelizmente, a queda era de pelo menos uns cem metros, indo parar direto em águas geladas e cinzentas. Senti um nó no estômago. A queda tinha pelo menos o dobro da altura da que fracassei ao fazer do mastro principal de Old Ironsides.
— Nós vamos morrer se pularmos — observou Mallory.
A horda inimiga nos pressionou contra a amurada. Por mais que nos empenhássemos na luta, nossos inimigos nem precisariam mais nos acertar para nos matar. Só a multidão deles nos esmagaria ou nos empurraria na água.
Eu puxei o lenço amarelo.
— Posso conjurar Mikillgulr, como fizemos no salão de Aegir.
— Só que agora nós vamos para baixo — disse Alex. — Não vamos subir. E não tem Njord para nos proteger.
— Ela está certa! — gritou Blitz, jogando um punhado generoso de gravatas para seus admiradores. — Ainda que o navio não rache com o impacto, todos os nossos ossos vão se quebrar.
Sam espiou pela lateral.
— E mesmo que sobrevivêssemos, aquelas armas afundariam nosso navio.
— Armas? Que armas?
Segui o olhar dela. Eu não tinha reparado antes, provavelmente porque as portas estavam fechadas, mas a lateral do casco de Naglfar exibia fileiras de canhões.
— Isso não é justo. Vikings não tinham canhões. Como é que Naglfar tem canhões?
T.J. perfurou um zumbi com a baioneta.
— Vou fazer questão de registrar uma queixa no Comitê de Regras do Ragnarök. Mas agora, seja lá o que vamos fazer, precisa ser logo!
— Concordo! — gritou Mestiço, seu machado cortando um grupo de lobos-esqueleto.
— Eu tenho um plano — anunciou Sam. — Vocês não vão gostar.
— Adorei! — gritou Blitz. — Qual é?
— Pular — disse Sam.
Alex desviou de um dardo.
— Mas e aquela história de quebrar todos os ossos do corpo…?
— Não tenho tempo para explicar — retrucou Sam. — Pulem!
Quando uma valquíria te manda pular, você pula. Fui o primeiro a saltar pela amurada. Tentei me lembrar das lições de Percy – queda livre, braços e pernas abertos, flecha, bunda – apesar de saber que nada daquilo importaria da altura que pulamos.
Acertei a água com um grande splash. Eu já tinha morrido vezes suficientes para saber o que esperar: uma onda de dor sufocante e repentina seguida de escuridão total. Mas isso não aconteceu. Na verdade, voltei à superfície, ofegante e tremendo, mas totalmente ileso. Percebi que alguma coisa me empurrava para cima.
A água borbulhou e se agitou ao meu redor como se eu tivesse caído em uma banheira de hidromassagem. Entre minhas pernas, a correnteza parecia quase sólida, como se eu estivesse montado em uma criatura esculpida de água do mar. Diretamente à minha frente, uma cabeça surgiu nas ondas: um pescoço forte feito de água cinzenta, uma crina de espuma, um focinho majestoso cuspindo plumas de névoa gelada das narinas. Eu estava montado em um vatnavaettir, um cavalo d’água.
Meus amigos também caíram na água, cada um montado nas costas de um espírito de cavalo que os aguardava. Os vatnavaettir relincharam e pularam quando lanças choveram ao nosso redor.
— Vamos nessa! — Sam desceu com a lança de luz e se posicionou nas costas do cavalo d’água que liderava o bando. — Na direção da boca da baía!
Os cavalos dispararam para longe do navio dos mortos. Gigantes e draugrs gritaram de fúria. Lanças e flechas bateram na água. Canhões ribombaram. Balas explodiram perto o bastante para espirrar água em nós, mas os vatnavaettir eram mais rápidos e mais ágeis do que qualquer navio. Eles ziguezaguearam, disparando pela baía a uma velocidade incrível.
Jacques voou ao meu lado.
— Ei, Magnus, você viu aquela evisceração que eu fiz?
— Vi — respondi. — Foi incrível!
— E o jeito como cortei os membros daquele jötunn?
— Aham!
— Espero que você tenha feito anotações para o épico que Bragi vai escrever.
— Sem dúvida!
Fiz uma nota mental para começar a fazer mais notas mentais.
Uma figura equina diferente passou acima de nós: Stanley, o cavalo de oito patas, conferindo se estávamos todos bem. Ele relinchou como quem diz: Beleza, acho que acabamos por aqui, né? Tenham um ótimo dia!
Em seguida, disparou para as nuvens cinza como aço.
O cavalo d’água era surpreendentemente quente, como o animal vivo, o que impediu que minhas pernas congelassem completamente na água gelada. Ainda assim, eu me lembrava das histórias de Mallory e Mestiço sobre vatnavaettir arrastando suas vítimas para o fundo do mar. Como Samirah os estava controlando? Se o bando decidisse mergulhar, todos morreríamos.
Mas mesmo assim continuamos correndo em direção à abertura nas geleiras que ficavam na entrada da baía. Eu já conseguia ver a água começando a congelar de novo, os blocos de neve ficando mais densos e rígidos. O verão em Niflheim, que durava uns doze minutos, tinha chegado ao fim.
Atrás de nós, o estrondo dos canhões se espalhava sobre a água, mas Naglfar permaneceu no lugar. Como estávamos com seu almirante preso dentro de uma noz, eu torcia para que o navio fosse obrigado a ficar parado.
Disparamos para fora da baía e entramos no mar gelado, nossas montarias abrindo caminho em meio aos blocos de neve. Em seguida, nós nos direcionamos para o sul em direção à águas bem mais seguras e infestadas de monstros de Jötunheim.


3 comentários:

  1. Damon Herondale(filho de Zeus)16 de outubro de 2017 01:11

    A aparição do Stanley foi só pra ele estar presente no último livro 😟, o Magnus devia ter pelo menos montado nele

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  2. Não acredito q eu esqueci do Jacques tbm... Kkkkkkk

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  3. Mano, coitado do Jacques

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Boa leitura :)