9 de outubro de 2017

Quarenta e dois - Eu começo por baixo

SAM ATACOU. ACHO que foi quem ficou menos surpresa de Loki ter sido canalha a ponto de recusar meu desafio.
Porém, antes que a lança pudesse acertar o peito do pai dela, uma voz alta rugiu:
— PARE!
Sam parou.
Minha mente ainda estava confusa. Por um segundo, achei que Loki tinha gritado a ordem e que Sam havia sido obrigada a obedecer. Que todo o treinamento de Sam, o jejum e a confiança, tinham sido por nada.
Mas percebi que Loki não deu ordem nenhuma. Na verdade, parecia bem irritado. Sam parara por vontade própria. Multidões de draugrs e gigantes abriram caminho enquanto o capitão Hrym mancava na nossa direção. Ele não carregava o machado. O escudo intrincado feito de ossos de costela estava amassado como se tivesse sido bicado por um pato muito grande. O rosto envelhecido não era mais bonito de perto. Fios de uma barba branca como gelo estavam pendurados no queixo. Os olhos azuis e pálidos cintilavam no fundo das órbitas como se estivessem derretendo até o cérebro. A boca coriácea dificultava saber se ele estava fazendo careta para nós ou prestes a cuspir uma semente de melancia. E o cheiro: eeeeeca. As peles brancas mofadas de Hrym me deixaram nostálgico pelo armário com cheio de “velho” do tio Randolph.
— Quem propôs um desafio? — perguntou Hrym.
— Fui eu — respondi. — Um vitupério contra Loki, a não ser que ele esteja com medo de me enfrentar.
A plateia murmurou:
— Ooooohhhhh…
Loki rosnou.
— Ah, por favor. Você não vai conseguir me fazer morder a isca, Magnus Chase. Hrym, nós não temos tempo para isso. O gelo derreteu. O caminho está livre. Vamos esmagar esses invasores e zarpar!
— Espere um minutinho! — interveio Hrym. — Este navio é meu! Eu sou o capitão!
Loki suspirou. Tirou o quepe de almirante e deu um soco na parte de dentro, em uma tentativa óbvia de tentar controlar a raiva.
— Meu querido amigo. — Ele sorriu para o capitão. — Nós já discutimos por isso. Nós dividimos o comando de Naglfar.
— Suas tropas — explicou Hrym. — Meu navio. E quando discordamos, toda desavença precisa ser resolvida por Surt.
— Surt? — Engoli mais sangue. Não fiquei animado de ouvir o nome do gigante do fogo de que eu menos gostava, o sujeito que abriu um buraco no meu peito e derrubou meu cadáver em chamas da ponte Longfellow. — Surt também está aqui?
Loki riu com deboche.
— Um gigante do fogo em Niflheim? Nada provável. Sabe, meu jovem e burro einherji, tecnicamente Surt é dono deste navio, mas só porque Naglfar está registrado em Muspellheim. Mais incentivos fiscais por lá.
— Essa não é a questão! — gritou Hrym. — Como Surt não está aqui, o comando é meu!
— Não — retrucou Loki chegando ao limite da paciência. — O comando é nosso. E eu digo que nossas tropas têm que partir!
— E eu digo que um desafio proferido da maneira apropriada tem que ser aceito! São as regras. A não ser que você seja covarde, como o garoto alega.
Loki riu.
— Covarde? Acha que estou com medo de enfrentar uma criança? Ah, faça-me o favor! Ele não é ninguém.
— Então tá — falei. — Mostre para nós como anda a sua lábia… a não ser que tenha sido corroída junto com o resto da sua cara.
— Ooooohhhhh! — exclamou a plateia.
Alex ergueu a sobrancelha para mim. A expressão dela parecia dizer: Até que não foi tão ruim quanto eu esperava.
Loki olhou para o céu.
— Pai Fárbauti, mãe Laufey, por que eu? Meus talentos serão desperdiçados com essa plateia!
Hrym se virou para mim.
— Você e seus aliados aceitam um cessar-fogo até o vitupério acabar?
Alex respondeu:
— Magnus é nosso competidor, não nosso líder. Mas, sim, nós vamos interromper o ataque.
— Até os patos? — perguntou Hrym seriamente.
Alex franziu a testa como se fosse realmente um pedido muito sério.
— Muito bem. Até os patos.
— Então está acertado! — gritou Hrym. — Loki, você foi desafiado! Pelos antigos costumes, deve aceitar!
Loki engoliu o insulto que ia lançar ao capitão, provavelmente porque Hrym tinha o dobro do tamanho dele.
— Certo. Vou insultar Magnus Chase até não restar mais nada dele além de uma pocinha sob meu sapato. Aí vamos zarpar! Samirah, querida, segure meu chapéu.
Ele jogou o quepe de almirante. Samirah deixou que caísse aos seus pés. Ela sorriu para ele friamente.
— Segure o próprio chapéu, pai.
— Ooooohhhhh! — disse a plateia.
A raiva ficou evidente no rosto de Loki. Eu quase conseguia ver as ideias fervendo na cabeça dele, todos os jeitos maravilhosos com os quais poderia nos torturar até a morte, mas ele não disse nada.
— UM VITUPÉRIO! — anunciou Hrym. — Até que acabe, que nenhum golpe seja dado! Que nenhum pato seja lançado! Permitam que os guerreiros inimigos se aproximem para assistir à competição!
Com alguns empurrões e xingamentos, nossos amigos atravessaram a multidão. Considerando tudo pelo que tinham passado, eles pareciam bem. Mestiço tirara mesmo a camisa. No peito, escrita com o que parecia ser sangue de gigante, estava a palavra FLÄM com um coração em volta.
O cano do rifle de T.J. soltava fumaça no frio, depois de tantos disparos. A baioneta pingava gosma de zumbi, e a corneta tinha sido retorcida em formato de pretzel de latão. (Eu não podia culpar nossos inimigos por fazerem isso.)
Hearthstone parecia ileso mas cansado, o que era compreensível depois de destruir tantos inimigos com gelo e raios. Ao lado dele estava Blitzen, e gigantes com dez vezes o tamanho do anão correram para longe dele. Alguns murmuraram, cheios de medo, o título mestre dos patos. Outros enfiaram as unhas no pescoço, que Blitzen tinha envolvido com gravatas apertadas de cota de malha. Gigantes morriam de medo de gravatas.
Mallory Keen estava pulando em uma perna só – aparentemente havia quebrado o mesmo pé que machucara na Noruega – mas pulava com ferocidade, como uma verdadeira guerreira filha de Frigga. Ela embainhou as facas e sinalizou para mim: Estou com a noz.
Se fôssemos espiões, esse seria um ótimo código para uma arma nuclear ou algo assim. Infelizmente, ela só queria dizer que estava com a noz. Era minha responsabilidade colocar Loki lá dentro. Eu me perguntei se Mallory conseguiria abri-la e sugá-lo lá para dentro sem que eu precisasse vencê-lo em uma batalha de insultos. Provavelmente não. Nada até o momento tinha sido fácil. E eu duvidava de que fosse começar agora.
Por fim, Jacques voltou flutuando até mim, resmungando:
— Paz de Frey, Magnus? Sério? Não foi legal, amigo.
E parou ao lado de Samirah para ver o que ia acontecer.
A plateia formou um círculo de uns dez metros de diâmetro em volta de Loki e de mim. Cercado por gigantes, senti como se estivesse no fundo de um poço. No silêncio repentino, eu conseguia ouvir o ribombar dos trovões ao longe, o estalo de gelo glacial derretendo, o tremor e o chiado dos cabos de aço de Naglfar esticados, o navio pronto para zarpar.
Minha cabeça latejava. Minha boca sangrava. O buraco onde meu dente ficava começou a doer, e eu não estava me sentindo nada poético.
Loki sorriu. Ele abriu os braços como se fosse me dar um abraço de boas-vindas.
— Bem, Magnus, olhe só pra você: participando de vitupérios como um adulto! Ou seja lá como vocês chamam um einherji que não envelhece, mas está aprendendo a não ser um bebê tão chorão. Se você não fosse um serzinho tão inútil, eu talvez ficasse impressionado!
As palavras machucaram. Literalmente. Pareceram explodir nos meus canais auditivos como ácido, gotejando pelos meus ouvidos e escorrendo até minha garganta. Tentei responder, mas Loki enfiou o rosto cheio de cicatrizes na frente do meu.
— Pequeno filho de Frey — continuou ele. — Entrando em uma batalha que não pode vencer, sem ideia, sem plano, só com um pouco de hidromel na barriga! Você achou mesmo que isso compensaria sua total falta de habilidade? Mas até que faz sentido. Você está tão acostumado a contar com seus amigos para lutarem por você. Agora, é sua vez! Que triste! Um otário sem talento! Você sabe o que você é, Magnus Chase? Quer mesmo saber?
A plateia riu e se empurrou. Eu não ousei olhar para os meus amigos. Fui tomado de vergonha.
— O-olha quem fala — consegui dizer. — Você é um gigante se passando por deus ou um deus se passando por gigante? De que lado está, além do seu próprio?
— Não estou do lado de ninguém! — Loki riu. — Nós somos todos agentes independentes neste navio, não somos, pessoal? Cada um cuida de si!
Os gigantes rugiram. Os zumbis se mexeram e sibilaram, as auras azuis geladas crepitando nos crânios.
— Loki cuida de Loki. — Ele bateu com os dedos nas medalhas de almirante. — Não posso confiar em mais ninguém, posso?
A esposa dele, Sigyn, inclinou a cabeça de leve, mas Loki não pareceu reparar.
— Pelo menos sou sincero! — continuou. — E, respondendo sua pergunta, eu sou um gigante! Mas a questão é a seguinte, Magnus: os aesires são apenas uma geração diferente de gigantes. Então, também são gigantes! Essa coisa de deuses contra gigantes é ridícula. Nós somos uma grande família infeliz. Isso é algo que você devia entender, seu humaninho disfuncional. Você diz que escolheu sua família. Diz que ganhou um novo grupo de irmãos e irmãs em Valhala. Que fofo. Pare de mentir para si mesmo! Ninguém nunca está livre dos laços de sangue. Você é igualzinho à sua família verdadeira. Tão fraco e deslumbrado pelo amor quanto Frey. E tão desesperado e covarde quanto o velho tio Randolph. E tão estupidamente otimista e morto quanto sua mãe. Pobre garoto. Você tem o pior dos dois lados, Frey e Chase. Você é ridículo!
A multidão riu. Eles pareceram crescer, me afundando nas suas sombras.
Loki se aproximou de mim, bem mais alto.
— Pare de mentir para si mesmo, Magnus. Você não é ninguém. É um erro, um dos muitos bastardos de Frey. Ele abandonou sua mãe, fingiu que você não existia até você recuperar a espada dele.
— Isso não é verdade.
— Mas é! Você sabe! Pelo menos eu reconheço meus filhos. Sam e Alex aqui me conhecem desde que eram crianças! Mas você? Você não é merecedor nem de um cartão de aniversário de Frey. E quem cortou seu cabelo?
Loki gargalhou alto.
— Ah, certo. Foi Alex que cortou, não foi? Você não achou que isso significasse alguma coisa, não é? Ela não liga para Magnus Chase. Só queria usar você. Ela puxou a mãe. Sinto tanto orgulho.
O rosto de Alex estava lívido, mas ela continuou em silêncio. Nenhum dos meus amigos se mexeu ou tentou se pronunciar. A luta era minha. Eles não podiam interferir.
Onde estava a magia do hidromel de Kvásir? Por que eu não conseguia proferir um insulto decente? Eu realmente achava que o hidromel podia compensar minha total falta de talento?
Espere aí… essas eram as palavras de Loki, enterradas no fundo do meu cérebro. Eu não podia deixar que ele me definisse.
— Você é mau — falei.
Até isso saiu com desânimo.
— Ah, que isso! — Loki sorriu. — Não me venha com esse papo de bom e mau. Esse nem é um conceito nórdico. Você é bom porque mata seus inimigos, mas seus inimigos são maus porque matam você? Que tipo de lógica deturpada é essa?
Ele se inclinou para mais perto. Loki estava definitivamente mais alto que eu agora. Minha cabeça mal chegava aos ombros dele.
— Um segredinho, Magnus: não existe bom e mau. O mundo é dividido entre pessoas capazes e incapazes. Eu sou capaz. E você… não.
Ele não me empurrou, não fisicamente, mas eu cambaleei para trás. Eu estava literalmente murchando sob as gargalhadas da plateia. Até Blitzen estava mais alto que eu agora. Atrás de Loki, Sigyn me observava com interesse, as lágrimas vermelhas cintilando nas bochechas.
— Own… — Loki fez beicinho. — O que você vai fazer agora, Magnus? Reclamar que sou cruel? Me criticar por assassinar e enganar? Vá em frente! Cante minhas maiores vitórias! Bem que você gostaria de ser tão capaz quanto eu. Você não sabe lutar. Não consegue pensar sob pressão. Não consegue nem se expressar na frente dos seus ditos amigos! Que chance tem contra mim?
Continuei a encolher. Mais algumas ofensas e eu ficaria com sessenta centímetros de altura. Em volta das minhas botas, o convés começou a se mover, unhas de mãos e pés se curvando para cima como plantas famintas.
— Vamos! Dê o seu melhor — desafiou Loki. — Não? Ainda sem palavras? Então acho que vou dizer o que acho mesmo de você!
Olhei para os rostos ávidos dos gigantes, para os rostos sombrios dos meus amigos, todos formando um círculo em volta de mim, e soube que aquele era um poço do qual eu nunca conseguiria sair.


5 comentários:

  1. cara essa plateia parece um bando de adolescentes kkkkkkk

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    1. Sim, eu lembrei da minha sala vendo eles

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  2. To pensando, no primeiro livro Loki deu a entender que Magnus iria se sentar no trono de Odin, e eu achei que seria pra encontrar Nagflar, mas isso não aconteceu

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    1. Sim, eu to curiosa para saber quando este dia ira chegar

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Boa leitura :)