9 de outubro de 2017

Quarenta e cinco - Se vocês entenderem o que acontece neste capítulo, me contem, porque eu não faço a menor ideia

TRÊS DIAS É muito tempo para navegar com uma noz do mal.
Depois que os cavalos d’água nos deixaram (“Eles ficaram entediados”, explicou Sam, o que era bem melhor do que nos afogar), eu ativei o Bananão e todo mundo subiu a bordo. Hearthstone conseguiu conjurar a runa de fogo kenaz, o que nos salvou da morte por congelamento. Seguimos para oeste, confiando que nosso navio mágico nos levaria aonde precisávamos ir.
Nas primeiras doze horas, mais ou menos, funcionamos à base de pura adrenalina e pavor. Colocamos roupas secas. Eu curei o pé de Mallory. Comemos. Não falamos muito. Grunhíamos e apontávamos para as coisas de que precisávamos. Ninguém dormiu. Sam entoou suas orações, o que foi incrível, considerando que o restante de nós provavelmente não seria capaz de formar frases completas.
Finalmente, quando o sol cinzento se pôs e o mundo ainda não tinha terminado, começamos a acreditar que Naglfar de fato não zarparia atrás de nós. Loki não sairia de sua diminuta prisão. O Ragnarök não começaria, ao menos não naquele verão. Havíamos sobrevivido.
Mallory segurava a noz. Recusava-se a soltá-la. Ela se encolheu na proa, examinando o mar com os olhos estreitos, seu cabelo ruivo balançando ao vento. Passada uma hora, Mestiço Gunderson se sentou ao lado dela e Mallory não o matou. Ele murmurou para ela por muito tempo, palavras que não tentei ouvir. Mallory começou a chorar, expelindo alguma coisa de dentro de si que parecia quase tão amarga quanto o veneno de Loki. Mestiço a abraçou, não parecendo exatamente feliz, mas satisfeito.
No dia seguinte, Blitzen e Hearthstone entraram em um modo superprotetor, garantindo que todos estivessem aquecidos, alimentados e que ninguém ficasse sozinho se não quisesse. Hearth passou muito tempo ouvindo T.J. falar sobre guerra e escravidão e o que constituía um desafio honrado. Hearth era ótimo ouvinte.
Blitz ficou com Alex Fierro a tarde toda, mostrando a ela como fazer um colete usando cota de malha. Eu não sabia se Alex precisava mesmo de um colete de cota de malha, mas o trabalho pareceu acalmar os dois. Depois das orações noturnas, Samirah se aproximou de mim e me ofereceu uma tâmara. Ficamos mordiscando nossas frutas e observando as estranhas constelações de Jötunheim piscarem acima de nós.
— Você foi incrível — disse Sam.
Absorvi a frase. Samirah não era de fazer elogios, tanto quanto Mallory não era de ficar pedindo desculpas.
— Bom, não foi poesia — falei, por fim. — Estava mais para puro pânico.
— Talvez não faça muita diferença — disse Sam. — Além do mais, aceite o elogio, Chase.
— Tudo bem. Obrigado.
Eu fiquei ao lado dela olhando o horizonte. Foi bom só estar ali, ao lado de uma amiga, apreciando as estrelas sem medo de morrer nos cinco minutos seguintes.
— Você também foi ótima. Enfrentou e venceu Loki.
Sam sorriu.
— É. Tive muitos agradecimentos a fazer nas orações de hoje.
Assenti. Fiquei me perguntando se também deveria agradecer a alguém, fora meus amigos no barco, claro. A Sigyn, talvez, pelo apoio silencioso, pela resistência passiva contra o marido. Se os deuses colocassem Loki de volta na caverna, fiquei pensando se Sigyn voltaria a ficar com ele.
Talvez o tio Randolph também merecesse um agradecimento por deixar os recados sobre o hidromel de Kvásir. Ele tentou fazer a coisa certa no final, por mais que tivesse me traído de forma monumental.
Pensar em Randolph me fez lembrar as vozes de Helheim, provocando para que eu me juntasse a elas na escuridão. Bloqueei essa lembrança. Ainda não me sentia forte o bastante para enfrentá-la.
Sam apontou para Alex, que experimentava o colete novo.
— Você devia ir falar com ela, Magnus. Aquilo que você soltou durante o vitupério foi meio que uma bomba.
— Você está falando da… Ah.
O constrangimento criou um nó no meu estômago, um nó que parecia tentar se esconder atrás do meu pulmão direito. Eu tinha anunciado, na frente dos meus oito amigos mais próximos e de milhares de inimigos, quanto tinha gostado do beijo de Alex.
Sam riu.
— Ela provavelmente não vai ficar com muita raiva. Anda. Acaba logo com isso.
Para Sam, era fácil falar. Ela sabia exatamente qual era sua posição no relacionamento com Amir. Estava noiva e feliz e nunca precisou se preocupar com beijos secretos embaixo de cobertores porque era uma boa muçulmana e jamais faria uma coisa dessas. Eu não era uma boa muçulmana.
Fui até Alex. Ao me ver chegando, Blitzen assentiu com nervosismo e fugiu.
— O que você acha, Magnus?
Alex abriu os braços, exibindo a nova peça cintilante.
— Legal — falei. — Quer dizer, não é todo mundo que fica bem de colete xadrez de cota de malha, mas ficou legal.
— Não é xadrez — disse Alex. — Está mais para a cuadros, como diamantes. Quadriculado.
— Certo.
— Então… — Ela cruzou os braços e suspirou, me examinando como quem diz: O que vamos fazer com você? Era um olhar que recebia de professores, treinadores, assistentes sociais, policiais e alguns parentes próximos. — Aquela sua declaração em Naglfar… foi muito repentina, Magnus.
— Eu… hã. É. Eu não estava pensando direito.
— Obviamente. De onde veio aquilo?
— Bom, você me beijou.
— Mas você não pode surpreender uma pessoa assim. De repente, sou a coisa mais incrível que já aconteceu na sua vida?
— Eu… eu não disse exatamente… — Obriguei-me a parar. — Olha, se você quiser que eu volte atrás…
Eu não conseguia formar um pensamento completo. E não via um jeito de sair da conversa com minha dignidade intacta. Eu me perguntei se estava sofrendo de sintomas de abstinência do hidromel de Kvásir, pagando o preço pelo meu ótimo desempenho em Naglfar.
— Vou precisar de um tempo — disse Alex. — Estou lisonjeada, mas isso é tudo muito repentino…
— Hã.
— Não saio com qualquer einherji de rostinho bonito e corte de cabelo legal.
— Não. Claro. Rostinho bonito?
— Agradeço a proposta. De verdade. Mas vamos fazer uma pausa aqui, e eu volto a fazer contato. — Ela levantou as mãos. — Um pouco de espaço, Chase.
Ela saiu andando e olhou para trás uma vez com um sorrisinho que me fez encolher os dedos dos pés dentro das meias de lã.
Hearthstone surgiu ao meu lado, a expressão inescrutável, como sempre. O lenço dele, por motivos desconhecidos, tinha mudado para a cuadros, quadriculado vermelho e branco. Nós observamos Alex se afastar.
— O que acabou de acontecer? — perguntei a ele.
Não há palavras para isso em linguagem de sinais, disse ele.

* * *

Na nossa terceira manhã no mar, T.J. gritou da adriça:
— Ei! Terra!
Eu achava que a expressão era terra à vista. Mas talvez fizessem as coisas de um jeito diferente na Guerra Civil. Todos nós corremos para a proa do Bananão. Uma ampla faixa de terra plana, vermelha e dourada, se estendia no horizonte, como se navegássemos direto para o deserto do Saara.
— Aquilo não é Boston — observei.
— Não é nem Midgard. — Mestiço franziu a testa. — Se nosso navio seguiu as correntes que Naglfar seguiria, isso quer dizer…
— Estamos chegando a Vigrid — anunciou Mallory. — O Último Campo de Batalha. É o lugar onde todos vamos morrer um dia.
Estranhamente, ninguém gritou Façam este navio dar meia-volta!
Hipnotizados, simplesmente assistimos enquanto o Bananão nos levava na direção de uma das zilhões de docas que se projetavam nas ondas. Na extremidade do píer, um grupo de pessoas esperava: homens e mulheres, todos resplandecentes em suas armaduras cintilantes e capas coloridas. Os deuses tinham aparecido para nos receber.


5 comentários:

  1. — O que acabou de acontecer? — perguntei a ele.

    Não há palavras para isso em linguagem de sinais, disse ele.




    A palavra "mulheres" não resume?

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Só metade do tempo? Eu também não sei, e eu sei de muitas coisas...

      Excluir
    2. Acho que a palavra "mulheres" é pouco, pra/pro Alex tem que usar a palavra "Alex" é a unica palavra que descreve ele/ela bem.

      Excluir
  2. Os deuses tinham aparecido para nos receber.

    Vocês são brabos "mesmo"
    Kkkkkkk

    ResponderExcluir
  3. Eu não era uma boa muçulmana. Kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

    ~MIRELLE

    ResponderExcluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)