8 de outubro de 2017

Onze - Minha espada leva a gente para (pausa dramática) a era disco

QUANDO EU ERA apenas um mortal comum, não sabia realmente muito sobre combates.
Tinha a vaga ideia de que exércitos formavam filas, tocavam trompetes de guerra e marchavam para matarem uns aos outros de forma ordenada. Se eu pensasse em combate viking, visualizava algum cara gritando PAREDE DE ESCUDOS! e um bando de caras louros e cabeludos calmamente juntando os escudos em um padrão geométrico bonito como um poliedro ou, sei lá, um Megazord dos Power Rangers.
Uma batalha de verdade não tinha nada a ver com isso. Ao menos, não as versões de que eu participei. Estava mais para o cruzamento entre dança interpretativa, luta livre e quebra-pau de talk show diurno da TV.
As nove gigantas do mar se lançaram contra nós com um uivo de alegria coletivo. Meus amigos estavam prontos. Mallory Keen pulou nas costas de Onda Ávida e enfiou as facas nos ombros da giganta. Mestiço Gunderson segurou duas canecas de hidromel e bateu na cara de Hefring e na barriga de Udr. T.J. perdeu um tempo valioso tentando carregar o rifle. Antes que pudesse disparar, a linda Himinglaeva virou uma onda enorme e o jogou do outro lado do salão.
Hearthstone usou uma runa que eu nunca tinha visto:


Acertou Bigli, quer dizer, Bylgja, com um brilho forte, liquefazendo-a em uma poça grande e irritada.
A lança de luz de Sam cintilou na mão dela. Ela voou para o alto, para fora do alcance das gigantas, e começou a acertar as irmãs com arcos de puro brilho de valquíria.
Enquanto isso, Blitzen só aumentava o caos, distraindo as nove irmãs com críticas ferinas de estilo, como:
— Sua barra está curta demais! Tem um fio puxado na sua meia-calça! Esse lenço não combina com seu vestido!
Kolga e Blod vieram para cima de mim. Eu me enfiei corajosamente embaixo da mesa e tentei escapar engatinhando, mas Blod me puxou pela perna.
— Ah, não — rosnou ela, os dentes pingando vermelho. — Vou arrancar sua alma do corpo, Magnus Chase!
Mas um gorila caiu em cima dela, derrubou-a no chão e arrancou sua cara. (Soou nojento, mas na verdade, quando o gorila arrancou a cara de Blod, a cabeça toda da giganta simplesmente se dissolveu em água salgada, encharcando o chão de algas.)
O gorila me encarou, os olhos de cores diferentes, um castanho, e o outro, mel. Ele grunhiu para mim com impaciência, como quem diz: Levanta logo, idiota! Lute!
O gorila se virou para enfrentar Kolga.
Eu cambaleei para trás. Explosões mágicas, raios de luz, machados, espadas e insultos sobre moda voavam para todo lado, recebidos por explosões de água salgada, estilhaços de gelo e pedaços de gelatina cor de sangue.
Meus instintos me diziam que as gigantas seriam bem mais poderosas se combinassem as forças, como fizeram quando afundaram nosso navio. Nós só estávamos vivos porque as irmãs tinham se concentrado em matar cada uma o próprio alvo. Tínhamos sido bem-sucedidos em sermos individualmente irritantes. Se as nove gigantas começassem a cantar aquela música esquisita de novo, trabalhando em equipe, seria nosso fim.
Mesmo lutando com cada uma separadamente, nós estávamos encrencados. Toda vez que uma giganta era vaporizada ou reduzida a uma poça, ela se reformava na mesma hora. Estávamos em menor número. E por melhor que meus amigos lutassem, as gigantas tinham a vantagem do terreno… e também da imortalidade, que era um toque frutado bem grande.
Nós tínhamos que encontrar um jeito de pegar o barco e sair dali, voltar para a superfície e ir para bem longe. Para isso, precisaríamos de uma distração, então decidi chamar meu especialista.
Eu tirei a pedra de runa do cordão.
Jacques surgiu em forma de espada.
— Oi! Sabe, eu estava pensando na Contracorrente. Quem precisa dela, né? Tem muitas outras espadas no arsenal e… OPA! Estamos no palácio de Aegir? Incrível! Que hidromel ele está servindo hoje?
— Socorro! — gritei quando Blod surgiu na minha frente, o rosto no lugar, as garras pingando sangue.
— Claro! — disse Jacques, animado. — Mas, cara, o Hidromel de Abóbora com Especiarias da Oktoberfest de Aegir é de beber de joelhos!
Ele foi até Cabelo Vermelho de Sangue e se colocou entre minha agressora e eu.
— Ei, moça! — chamou Jacques. — Quer dançar?
— Não! — rosnou Blod.
Ela tentou contorná-lo, mas Jacques era ágil. Ele ia de um lado para outro, apontando a lâmina para a giganta e cantando “Funkytown”.
Blod pareceu não querer ou não conseguir se desviar da lâmina mágica de Jacques, o que me deu alguns segundos para recuperar o fôlego enquanto minha espada dançava discoteca.
— Magnus! — Samirah passou voando três metros acima de mim. — Prepare o navio!
Meu coração despencou. Percebi que meus amigos estavam distraindo as gigantas para mim, na esperança de eu conseguir deixar nosso navio pronto para navegar novamente. Pobres amigos iludidos.
Eu fui correndo até o Bananão.
O navio estava caído de lado, o mastro atravessando a parede de água. A corrente lá fora devia ser forte, porque estava empurrando o barco de leve, a quilha deixando marcas no chão de algas.
Toquei no casco. Felizmente, o barco reagiu e voltou à forma de lenço. Se conseguisse reunir todos os meus amigos, talvez pudéssemos atravessar a parede de água juntos e conjurar o navio enquanto a corrente nos carregasse para longe dali. Talvez o navio, por ser mágico, nos levasse de volta à superfície. Talvez não nos afogássemos nem fôssemos esmagados pela pressão da água.
Eram muitas hipóteses. Mesmo que nós conseguíssemos, as nove filhas de Aegir já tinham nos sugado para debaixo d’água uma vez. Eu não via por que não poderiam fazer isso de novo. De alguma forma, tinha que impedir que elas nos seguissem.
Eu observei a batalha. Hearthstone passou correndo por mim, jogando runas nas gigantas em seu encalço. A runa parecia funcionar melhor do que as outras. Cada vez que acertava uma giganta, ela virava uma poça por vários segundos. Não era muito, mas era alguma coisa.
Olhei para as paredes do salão e tive uma ideia.
— Hearth! — gritei.
Xinguei minha própria burrice. Alguma hora, eu superaria o hábito de gritar para chamar a atenção do meu amigo surdo. Corri atrás dele, desviando de Onda Ávida, que Mallory Keen estava guiando pela sala com os cabos das adagas como se fosse um robô de combate.
Segurei a manga de Hearth para chamar sua atenção. A runa, sinalizei. Qual é?
L-A-G-A-Z, soletrou ele. Água. Ou… Ele fez um gesto que eu nunca tinha visto: uma das mãos na horizontal, os dedos da outra mão balançando abaixo dela. Captei a ideia: pingar, vazar. Ou talvez liquefazer.
Você consegue fazer isso com a parede?, perguntei. Ou com o teto?
A boca de Hearth se curvou, formando o que para ele era um sorriso diabólico. Ele assentiu.
Espere meu sinal, sinalizei.
Onda Arremessadora surgiu entre nós, urrando, e Hearthstone voltou para o meio da confusão.
Eu tinha que pensar em uma forma de separar meus amigos das gigantas. Assim, poderíamos desabar parte do salão em cima das nove irmãs durante nossa fuga. Eu duvidava de que isso fosse machucar nossas inimigas, mas pelo menos poderia surpreendê-las e atrapalhar qualquer contra-ataque. O problema era que eu não sabia como interromper a luta. Duvidava de que pudesse soprar um apito e gritar “Falta!”.
Jacques voava de um lado para outro, perturbando gigantas com sua lâmina mortal e com sua interpretação mais mortal ainda de um clássico da discoteca dos anos 1970. Kolga espalhou gelo pelo tapete, fazendo Mestiço Gunderson escorregar. Bylgja lutava com T.J., uma espada vermelha de coral contra uma baioneta. Onda Ávida finalmente conseguiu tirar Mallory das costas. A giganta a teria partido ao meio, mas Blitzen jogou um prato bem na cara dela. (Uma das habilidades secretas de Blitz: ele dava um show no Ultimate Frisbee anão.)
Himinglaeva pulou atrás de Samirah. Ela conseguiu agarrar as pernas de Sam, mas Alex atacou com o garrote. A giganta perdeu de repente vários centímetros de cintura… Na verdade, a cintura toda. Ela tombou no chão, quase partida ao meio, e se dissolveu em espuma salgada.
Hearthstone chamou minha atenção. A runa?
Queria ter uma resposta. Meus amigos não podiam fazer a luta durar para sempre. Considerei conjurar a Paz de Frey (meu superpoder de arrancar as armas das mãos de todo mundo), mas as gigantas não estavam usando armas, e eu achava que meus amigos não iam gostar de serem desarmados.
Eu precisava de ajuda. Desesperadamente. Então, fiz uma coisa que não era fácil para mim. Olhei para o teto líquido e rezei com sinceridade, não de palhaçada.
— Certo… Frey, pai, por favor. Sei que fui meio ingrato mais cedo quando reclamei do navio amarelo. Mas estamos prestes a morrer aqui, então, se você puder enviar alguma ajuda, eu agradeceria. Amém. Com amor, Magnus. Magnus Chase, se você estiver em dúvida.
Fiz uma careta. Eu era péssimo em orações. Também não tinha certeza de que ajuda um deus do verão poderia me mandar no fundo da baía de Massachusetts.
— Oi — disse uma voz perto de mim.
O susto quase me fez atravessar o teto, o que não seria bom, considerando as circunstâncias.
De pé ao meu lado havia um homem com uns cinquenta e tantos anos, forte e queimado de sol como se tivesse trabalhado décadas como salva-vidas. Usava uma camisa polo azul-clara e um short cargo, e os pés estavam descalços. O cabelo fino e a barba curta eram cor de mel, com alguns fios brancos. Ele sorriu como se fôssemos velhos amigos, apesar de eu ter certeza de que nunca o tinha visto antes.
— Hã, oi?
Quando se mora em Valhala, a gente se acostuma com entidades estranhas aparecendo do nada. Mesmo assim, parecia um momento esquisito para um encontro casual.
— Eu sou seu avô — explicou ele.
— Ah… — O que eu poderia dizer? O homem não se parecia em nada com o vovô (nem com a vovó) Chase, mas imaginei que ele estava falando do outro lado da árvore genealógica. O lado vanir. Se eu ao menos conseguisse lembrar qual era o nome do pai de Frey, seria um sucesso. — Oi… vovô.
— Seu pai não pode fazer muita coisa no mar — explicou meu avô, o pai de Frey. — Mas eu posso. Estão precisando de uma mãozinha?
— Sim, bastante — respondi, o que talvez fosse idiotice.
Eu não tinha como ter certeza de que aquele cara era quem dizia ser, e aceitar ajuda de um ser poderoso sempre o deixava em dívida.
— Ótimo! — Ele deu um tapinha no meu braço. — Encontro você na superfície quando isso tudo acabar, tá?
Eu assenti.
— Aham.
Meu recém-descoberto avô entrou no meio da batalha.
— Oi, garotas! Como estão?
A luta parou de repente. As gigantas recuaram com cautela na direção da mesa de jantar. Meus amigos cambalearam e tropeçaram até onde eu estava. Blod mostrou os dentes manchados de vermelho.
— Njord, você não é bem-vindo aqui!
Njord! É esse o nome dele!
Vou tentar me lembrar de enviar um cartão para ele no Dia dos Avós. Será que essa data era importante para os vikings?
— Ah, pare com isso, Blódughadda — retrucou o deus, animado. — Um velho amigo não pode vir tomar uma caneca de hidromel? Vamos conversar como deidades do mar civilizadas.
— Esses mortais são nossos! — rosnou Onda Ávida. — Você não tem direito!
— Ah, mas eles estão sob minha proteção agora, sabe? O que quer dizer que voltamos ao nosso velho conflito de interesses.
As gigantas sibilaram e rosnaram. Claramente, as irmãs queriam fazer Njord em pedacinhos, mas estavam com medo de atacar.
— Além do mais — continuou o deus —, um dos meus amigos aqui tem um truque para mostrar. Não tem, Hearthstone?
Hearthstone olhou para mim. Eu assenti.
Hearth jogou a runa lagaz para cima, passando pelo candelabro das almas perdidas. Eu não via como poderia chegar ao teto trinta metros acima, mas a runa pareceu ir ficando mais leve e mais rápida conforme subia. Bateu nas vigas e explodiu em um dourado ardente, e o teto líquido desabou, enterrando as gigantas e Njord em um jato de um milhão de litros d’água.
— Agora! — gritei para os meus amigos.
Nós nos reunimos em um abraço grupal desesperado quando a onda nos acertou. Meu lenço se expandiu à nossa volta. O salão nos expulsou das profundezas do oceano como pasta de dente do tubo, e disparamos para a superfície em nosso navio de guerra amarelo.


3 comentários:

  1. Njord ganha o troféu de Deus Ex-Machina mais aleatório do Riordanverso

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  2. Agora fiquei em dúvida ser gosto de poseidon ou Njord.kkkkk Mentira será sempre poseidon😍😍

    ~MIRELLE

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  3. Njord e Poseidon tem uma coisa em comum: pescaria

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Boa leitura :)