8 de outubro de 2017

Oito - No salão do hipster carrancudo

DESPENCAR PARA O fundo do mar já era bem ruim.
Eu não precisava da cantoria.
À medida que nosso navio despencava em queda livre pelo olho de um ciclone de água salgada, as nove donzelas gigantes rodopiavam à nossa volta, entrando e saindo do turbilhão como se estivessem se afogando repetidas vezes. Os rostos se contorciam de raiva e euforia. O cabelo comprido das gigantas nos chicoteava como gelo. A cada vez que emergiam, elas berravam e gritavam, mas não eram ruídos aleatórios. Os uivos tinham um certo tom, como um coral de cantos de baleia tocando em meio a uma microfonia pesada.
Captei alguns trechos da letra: hidromel fervente… filhas das ondas… morte, morte, morte! Lembrou a primeira vez que Mestiço Gunderson botou black metal norueguês para eu ouvir. Depois de alguns momentos, passou pela minha cabeça: Eita, calma lá. Isso era para ser música!
Sam e eu passamos os braços pelo cordame. T.J. ficou empoleirado no alto do mastro, gritando como se estivesse montado no pônei de carrossel mais apavorante do mundo. Mestiço lutava com o leme, apesar de eu não ver de que isso serviria durante a queda. Abaixo do convés, ouvi Mallory e Alex sendo jogados de um lado para outro, PLAFT, PLOFT, PLUFT, um par de dados humanos.
O navio girou. Com um grito de desespero, T.J. perdeu a pegada no leme e caiu no turbilhão. Sam voou atrás dele. Agradeci aos céus pelos poderes de voo das valquírias. Ela segurou T.J. pela cintura e ziguezagueou de volta para o navio com ele, desviando das mãos ansiosas das gigantas do mar e dos vários volumes de bagagem usados como lastro que estávamos perdendo. Assim que ela chegou ao convés: BLOOOOSH!
Nosso navio caiu com um splash e submergiu completamente.
O maior choque foi o calor. Eu estava esperando uma morte gelada, mas a sensação era de ter mergulhado em uma banheira escaldante. Minhas costas se arquearam. Meus músculos se contraíram. Consegui não ingerir nenhum líquido, mas, quando pisquei para tentar enxergar em que direção ficava a superfície, a água estava com uma estranha cor dourada enevoada.
Isso não pode ser bom, pensei.
O convés sacudiu embaixo de mim. O Bananão irrompeu na superfície de… de onde quer que estivéssemos. A tempestade tinha sumido. As nove gigantas não estavam em parte alguma. Nosso navio balançava e estalava na plácida água dourada que borbulhava em volta do casco, exalando um aroma como de especiarias exóticas, flores e doces. Em todas as direções elevavam-se penhascos marrons íngremes, formando um anel perfeito de quase um quilômetro de diâmetro. Meu primeiro pensamento foi que tínhamos sido largados no meio de um lago vulcânico.
Nosso navio parecia estar inteiro, ao menos. A vela amarela balançava no mastro, toda molhada. O cordame brilhava e soltava fumaça.
Samirah e T.J. se levantaram primeiro. Escorregaram e cambalearam na popa, onde Mestiço Gunderson estava caído por cima do leme, sangue pingando de um corte feio na testa.
Por um momento, pensei: Ah, Mestiço morre assim o tempo todo. Mas aí lembrei que não estávamos mais em Valhala. Onde quer que estivéssemos, se morrêssemos ali, não haveria volta.
— Ele está vivo! — anunciou Sam. — Apagado, mas vivo.
Meus ouvidos ainda ecoavam aquela estranha melodia. Lentos, meus pensamentos se arrastavam. Eu me perguntei por que T.J. e Sam estavam olhando para mim.
E então, me dei conta: Ah, é. Eu tenho poderes de cura.
Corri até lá para ajudar. Canalizei o poder de Frey para curar o ferimento da cabeça de Gunderson enquanto Mallory e Alex, ambos machucados e sangrando, surgiam cambaleantes da parte inferior do barco.
— O que os idiotas estão aprontando aqui? — perguntou Mallory.
Como se em resposta, uma nuvem de tempestade surgiu, obscurecendo metade do céu. Uma voz trovejou lá de cima:
— O QUE VOCÊS ESTÃO FAZENDO NO MEU CALDEIRÃO?
A nuvem de tempestade se aproximou, e eu percebi que tinha o formato de um rosto, um que não parecia feliz por nos ver.
Nos meus encontros anteriores com gigantes, aprendi que o único jeito de entender seu imenso tamanho era me concentrando em uma coisa de cada vez: um nariz do tamanho de um petroleiro, uma barba densa e grande como uma floresta de sequoias, óculos com aros dourados que pareciam aqueles círculos misteriosos que surgem nas plantações. E, na cabeça do gigante, o que achei ser a tempestade chegando na verdade era a aba do maior chapéu fedora do universo.
O modo como a voz dele ecoou na bacia, batendo nos penhascos em reverberações metálicas, me fez perceber que não estávamos em uma cratera vulcânica. Os penhascos eram as paredes de metal de um caldeirão enorme. O lago fumegante era algum tipo de caldo. E nós tínhamos acabado de nos tornar o ingrediente secreto.
Meus amigos estavam boquiabertos, tentando entender o que viam; todos, menos Mestiço Gunderson, que sabiamente permaneceu inconsciente.
Fui o primeiro a recuperar a fala. Odeio quando isso acontece.
— Oi — falei para o gigante.
Sou diplomático assim, sempre sei o cumprimento certo a dar.
O carrancudo enorme franziu a testa, me fazendo lembrar a aula de ciências do sexto ano sobre placas tectônicas. Ele olhou para os dois lados e gritou:
— Filhas! Venham aqui!
Mais rostos gigantescos apareceram ao redor do caldeirão: as nove mulheres do redemoinho, bem maiores agora, o cabelo de espuma flutuando em volta do rosto, os sorrisos um pouco maníacos demais, os olhos brilhando de empolgação ou fome. (Torci para não ser fome… Devia ser fome.)
— A gente pegou eles, pai! — gritou uma das mulheres (ou seria um grito se ela não fosse do tamanho do lado sul de Boston).
— Sim, mas por quê?
— Eles são amarelos! — respondeu outra giganta. — Nós reparamos neles na mesma hora! Com um navio dessa cor, achamos que eles mereciam se afogar!
Comecei mentalmente a compor uma lista de palavras que começavam com F: Frey. Fraterno. Falso. Feliz. Frito. Ferrado. E algumas outras.
— Além disso — disse uma terceira filha —, eles estavam conversando sobre hidromel! Nós sabíamos que você ia querer falar com eles, pai! É a sua palavra favorita!
— Opa, opa, opa! — Alex Fierro balançou as mãos como se estivesse pedindo tempo. — Ninguém estava conversando sobre hidromel. Foi um engano… — Ele hesitou e franziu a testa para mim. — Certo?
— Hã… — Eu apontei para Samirah, que recuou para longe do alcance do garrote de Alex. — Eu só estava explicando…
— NÃO IMPORTA! — trovejou o Carrancudo. — Vocês estão aqui agora, mas não posso deixar que fiquem no caldeirão. Estou preparando hidromel. Um barco viking pode estragar o sabor docinho!
Olhei para o líquido borbulhante ao nosso redor. De repente, fiquei feliz de não ter inspirado nada daquilo.
— Docinho? — perguntei.
— Nem vem, cara — rosnou Alex.
Acho que ele estava brincando, mas não quis perguntar.
Uma mão enorme surgiu acima de nós, e Carrancudo pegou nosso navio pelo mastro.
— Eles são pequenos demais para enxergar direito — reclamou ele. — Vamos mudar a escala das coisas.
Eu odiava quando gigantes mudavam as proporções da realidade. Na mesma hora, o mundo se condensou ao meu redor. Meu estômago implodiu. Meus ouvidos estalaram. Meus olhos se expandiram dolorosamente nas órbitas.
BUM! BAM! TUM!
Eu tropecei nos meus próprios pés e vi que estava de pé com meus amigos no meio de um salão viking enorme.
Em um canto, nosso navio estava tombado para o lado, com hidromel quente pingando do casco. O salão tinha dezenas de quilhas de barco servindo como colunas, subindo dezenas de metros e se curvando para dentro para formar as vigas de um teto pontudo. Em vez de tábuas ou gesso preenchendo o espaço onde ficariam as paredes, não havia nada além de água verde ondulando, contida ali por uma física que não fazia o menor sentido para mim.
Portas se enfileiravam ao longo das paredes líquidas, levando a outros aposentos submarinos, provavelmente. O piso era coberto por algas úmidas, o que me deixou feliz de estar usando botas.
A disposição do salão não era muito diferente do típico salão de festas viking. Uma mesa retangular de banquete dominava o espaço, com cadeiras feitas de coral vermelho entalhado dispostas dos dois lados e um trono elaborado na cabeceira, decorado com pérolas e maxilares de tubarão. Braseiros ardiam com chamas verdes fantasmagóricas, enchendo o salão com um odor parecido com alga torrada. Sobre o fogo da lareira principal estava o caldeirão no qual estávamos flutuando antes, embora agora parecesse bem menor; talvez só grande o bastante para cozinhar alguns bois. As laterais polidas de bronze tinham entalhes de ondas e rostos rosnando.
Nosso anfitrião/captor, o papai gigante carrancudo, estava na nossa frente, os braços cruzados, a testa franzida. Agora, só tinha o dobro do tamanho de um humano. As barras da calça skinny verde-musgo terminavam em botas pretas de bico fino. O colete do terno estava abotoado por cima de uma camisa branca, as mangas puxadas até os cotovelos para revelar as várias tatuagens rúnicas entrelaçadas nos antebraços. Com o chapéu fedora e os óculos de aros dourados, ele parecia um freguês agitado preso na fila expressa de um mercadinho orgânico, atrás de um monte de gente com produtos demais quando tudo que ele queria era pagar pelo smoothie macrobiótico e dar o fora.
Às costas dele, em um semicírculo desorganizado, havia as nove garotas das ondas — que, graças aos deuses, não estavam cantando. Cada giganta era apavorante de um jeito diferente, mas todas brincavam e riam e se empurravam com o mesmo nível de empolgação, como fãs esperando o ídolo sair do camarim para poderem demonstrar seu amor e parti-lo em pedacinhos.
Eu relembrei meu encontro com a deusa do mar Ran, que descreveu o marido como um cara que gostava de fazer cerveja artesanal. Na época, a descrição foi estranha demais para entender. Depois, pareceu engraçada. Agora, parecia um pouco real demais, porque eu tinha quase certeza de que o deus hipster em questão estava de pé na minha frente.
— Você é Aegir — adivinhei. — O deus do mar.
Aegir grunhiu de um jeito que parecia querer dizer: Sou, e daí? Você estragou meu hidromel mesmo assim.
— E essas… — Eu engoli em seco. — Essas damas adoráveis são suas filhas?
— Claro — disse ele. — As Nove Gigantas das Ondas! São Himinglaeva, Hefring, Hrönn…
— Eu sou Hefring, pai — interrompeu a garota mais alta. — Ela é Hrönn.
— Certo — disse Aegir. — E Udr. E Bylgja…
— Bigli o quê? — perguntou Mallory, que estava se esforçando para segurar Mestiço, parcialmente consciente.
— É um prazer conhecer todas! — gritou Samirah antes que Aegir pudesse apresentar Cometa, Cupido e Rudolph. — Nós reivindicamos direitos de convidados!
Samirah era inteligente. Em lares jötunn refinados, reivindicar direitos de convidado podia salvar você de ser massacrado, ao menos por um tempo. Aegir pigarreou.
— Você acha que sou o quê, um selvagem? É claro que vocês têm direitos de convidados. Apesar de terem estragado meu hidromel e de terem um navio amarelo que é um verdadeiro insulto, vocês são meus convidados. Nós pelo menos temos que fazer uma refeição juntos antes de eu decidir o destino de vocês. A não ser que Magnus Chase esteja presente, é claro, porque senão eu teria que matar todos vocês imediatamente. Ele não está aqui, espero?
Ninguém respondeu, mas todos os meus amigos me olharam de cara feia, como quem diz: Caramba, Magnus.
— Só hipoteticamente… — falei. — Se Magnus Chase estivesse aqui, por que você mataria ele?
— Porque prometi à minha esposa, Ran! — gritou Aegir. — Por algum motivo, ela odeia esse cara!
As nove filhas assentiram vigorosamente, murmurando:
— Odeia mesmo. Muito. Aham, pra caramba.
— Ah. — Fiquei feliz de estar encharcado de hidromel. Talvez escondesse o suor brotando na minha testa. — E onde está sua adorável esposa?
— Não está aqui hoje — disse Aegir. — Está recolhendo lixo nas redes dela.
— Graças aos deuses! Quer dizer… graças aos deuses que podemos pelo menos passar um tempinho com o restante da sua família!
Aegir inclinou a cabeça.
— Sim… Bem, filhas, acho que vocês precisam botar mais lugares na mesa para nossos convidados. Vou falar com o chef para cozinhar aqueles prisioneiros suculentos!
Ele acenou para uma das portas laterais, que se abriu sozinha. Atrás dela ficava uma cozinha enorme. Quando vi o que estava suspenso acima do fogão, precisei de toda a minha força de vontade para não gritar como uma giganta das ondas. Pendurados em duas gaiolas extragrandes estavam nossos especialistas em reconhecimento de amplo espectro, Blitzen e Hearthstone.


4 comentários:

  1. As duas únicas pessoas mais azarados que o Magnus são Sawada Tsunayoshi e Leonardo Watch, entretanto os dois estão vivos

    ResponderExcluir
  2. Blitzen e Hearthstone são tão sortudos quanto o Magnus :v

    ResponderExcluir
  3. kkkkkkkk caraca! Blitzen e Hearthstone pendurados na gaiola, prontos pra serem devorados. aff, ainda bem que o Magnus viu.

    ResponderExcluir
  4. Acho que o Magnus nem vai poder conhecer todos os deuses nórdicos importantes, só os principais. Igual aos irmãos Kane.

    ResponderExcluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)