8 de outubro de 2017

Nove - Viro vegetariano por uma hora

SABE AQUELE MOMENTO constrangedor em que você troca olhares com dois amigos pendurados em gaiolas na cozinha de um gigante? E aí um deles reconhece você e começa a gritar seu nome, mas você não quer que seu nome seja gritado?
Blitzen cambaleou para ficar de pé, segurou as grades da gaiola e berrou:
— MAG…
— … NÍFICO! — eu gritei mais alto. — Que belos exemplares!
Eu corri na direção das gaiolas, com Sam e Alex logo atrás.
Aegir franziu a testa.
— Filhas, cuidem dos nossos convidados!
Ele fez um gesto amplo e depreciativo na direção de Mallory e T.J., que ainda tentavam impedir nosso berserker semiconsciente de cair de cara no chão de alga. Então o deus do mar nos seguiu para a cozinha.
Os eletrodomésticos tinham o dobro do tamanho humano. Só os botões do fogão seriam ótimos pratos de jantar. Hearthstone e Blitzen, parecendo ilesos, porém humilhados, estavam pendurados acima do cooktop de quatro bocas, as gaiolas batendo em um azulejo em que BUON APPETITO! estava pintado de vermelho em uma caligrafia cursiva rebuscada.
Hearthstone vestia sua roupa preta de couro de sempre, o cachecol listrado o único detalhe colorido. O rosto pálido e o cabelo louro platinado dificultavam saber se estava anêmico, apavorado ou apenas constrangido pelo azulejo BUON APPETITO!
Blitzen ajeitou o blazer azul-marinho e verificou se a camisa de seda malva estava para dentro da calça jeans. O lenço e a gravata combinando pareciam um pouco tortos, mas o cara tinha uma aparência ótima para um prisioneiro que estava no cardápio. O cabelo e a barba pretos encaracolados estavam bem aparados. A pele escura combinava belissimamente com as barras de ferro da gaiola.
No mínimo, Aegir deveria ter um pouco de empatia por um cara tão bem-vestido quanto ele.
Fui rápido ao usar linguagem de sinais para avisá-los: Não digam meu nome. A-E-G-I-R vai me matar.
Eu soletrei o nome do deus porque não sabia que sinal podíamos usar para ele. Carrancudo, Cara da Cerveja ou H de hipster eram escolhas lógicas.
O deus apareceu do meu lado.
— Eles são mesmo exemplares magníficos — concordou. — Sempre tentamos ter à mão algum alimento fresco, capturado no dia, para o caso de convidados aparecerem.
— Certo! Muito inteligente — falei. — Mas vocês costumam comer anões e elfos? Eu não achava que deuses…
— Deuses? — Aegir soltou uma gargalhada. — Bem, aí está seu erro, pequeno mortal. Eu não sou um daqueles deuses aesires ou vanires sem-gracinha! Sou uma deidade jötunn, cem por cento gigante!
Eu não ouvia o termo sem-gracinha desde a aula de educação física do terceiro ano do fundamental com o treinador Wicket, mas, se não me falhava a memória, não era um elogio.
— Então… vocês comem elfos e anões?
— Às vezes. — Aegir pareceu ficar na defensiva. — Ocasionalmente algum troll ou humano, embora eu imponha um limite em relação ao consumo de hobgoblins. Eles são muito nojentos. Por que a pergunta? — Ele estreitou os olhos. — Você tem restrições alimentares?
Sam, mais uma vez, pensou rápido.
— Na verdade, tenho! Sou muçulmana.
Aegir fez uma careta.
— Entendi. Peço desculpas. Acho que anões não são halal. Já não tenho tanta certeza quanto aos elfos.
— Também não — disse Sam. — Na verdade, estamos no ramadã, o que quer dizer que preciso fazer minha primeira refeição com anões e elfos, em vez de comê-los ou estar na companhia de alguém que coma. É estritamente proibido.
Eu tinha quase certeza de que ela estava inventando isso, mas como eu ia saber? Acho que ela estava contando com que Aegir tivesse ainda menos informações a respeito de restrições do Alcorão do que eu.
— Que pena. — Nosso anfitrião suspirou. — E quanto aos demais?
— Eu sou vegetariano — respondi na lata, o que não era verdade, mas, ei, falafel não tinha carne.
Olhei para Blitz e Hearth. Vi quatro polegares entusiasmados para cima.
— E eu tenho cabelo verde. — Alex abriu as mãos como quem diz: O que se pode fazer? — Infelizmente, comer anões e elfos é contra minha crença. Mas agradeço o convite.
Aegir fez cara de decepção, como se estivéssemos testando os limites de sua hospitalidade culinária. Ele olhou para Blitzen e Hearthstone, agora encostados casualmente nas grades das gaiolas tentando parecer o mais não halal possível.
— Já era a carne do dia — resmungou Aegir. — Mas nós sempre fazemos o melhor para agradar os convidados. Eldir!
Ele gritou essa última palavra tão alto que eu pulei e bati a cabeça no cabo da porta do forno.
Uma porta lateral se abriu, e um velho saiu da copa, arrastando os pés em uma nuvem de fumaça. Vestia um traje branco de chef, completo até o chapéu, mas as roupas pareciam em processo de combustão. Chamas dançavam pelas mangas e pelo avental. Saía fumaça da gola, como se o peito estivesse fervendo. Fagulhas piscavam nas sobrancelhas e barba grisalhas. O sujeito parecia ter uns seiscentos anos, e sua expressão era tão amarga que ele parecia ter passado aquele tempo todo sentindo cheiros horríveis.
— Que foi? — disse ele com rispidez. — Eu estava preparando minha salmoura élfica!
— Vamos precisar de alguma coisa diferente para o jantar — ordenou Aegir. — Nada de elfo. Nada de anão.
— O quê? — resmungou Eldir.
— Nossos convidados têm restrições alimentares: halal, vegetariano, adequado a cabelo verde.
— E é ramadã — acrescentou Sam. — Você vai precisar libertar esses prisioneiros para que possam desjejuar ao meu lado.
— Humf — disse Eldir. — Esperam que eu (resmungo, resmungo) em pouco tempo (resmungo, resmungo) cardápio adequado a cabelo verde. Pode ser que tenha hambúrguer de alga no freezer.
Ele voltou para a copa, ainda reclamando e fumegando.
— Sem querer ser grosseiro — comentei para Aegir —, mas seu chef está pegando fogo?
— Ah, Eldir está assim há séculos. Desde que meu outro servo, Fimafeng, foi morto por Loki, Eldir passou a ter o dobro de trabalho e isso o deixou fervendo de raiva!
Uma pequena bolha de esperança se formou no meu peito.
— Morto por Loki, você disse?
— É! — Aegir franziu a testa. — Você deve ter ouvido falar de como aquele patife destruiu meu salão.
Olhei para Sam e Alex como quem diz: Ei, pessoal, Aegir também é inimigo de Loki!
Então lembrei que Sam e Alex eram filhos de Loki. Aegir podia não gostar dos meus amigos tanto quanto não gostava de Magnus Chase.
— Lorde Aegir — chamou Sam. — A vez em que Loki destruiu seu salão… isso foi no banquete dos deuses?
— Sim, sim — respondeu Aegir. — Foi um desastre! Os sites de fofoca fizeram a festa!
Eu quase conseguia ver a mente de Sam trabalhando. Se ela fosse Eldir, estaria soltando vapor pelas beiradas do hijab.
— Eu me lembro dessa história — disse Sam, segurando o braço de Alex. — Preciso fazer minhas orações. Alex vai me ajudar.
Alex piscou.
— Vou?
— Lorde Aegir — continuou Sam —, posso usar um canto do seu salão para fazer rapidamente as minhas preces?
O deus do mar alisou o colete.
— Bem, acho que sim.
— Obrigada!
Sam e Alex saíram da cozinha. Eu esperava que estivessem prestes a formular um plano engenhoso para nos tirar com vida do salão de Aegir. Se Sam estivesse realmente indo fazer uma oração… bem, torci para que já tivesse experiência em rezas muçulmanas no lar de um deus nórdico (desculpe, deidade jötunn). Fiquei com medo de que o paradoxo religioso fizesse o local ruir. Aegir ficou me encarando. A cozinha foi tomada por aquele silêncio constrangedor de quando você tenta servir anão e elfo a um vegetariano.
— Vou pegar hidromel na adega — disse ele. — Por favor, me diga que você e seus amigos não têm restrições quanto a hidromel.
— Acho que não temos! — respondi, porque não queria ver um jötunn adulto chorar.
— Graças às ondas. — Aegir tirou um chaveiro do bolso do colete e jogou para mim. — Destranque o jantar, quer dizer, os prisioneiros, por favor. Depois, fique…
Ele acenou vagamente para indicar o salão de jantar e saiu andando, me deixando a imaginar qual seria o fim daquela frase: à vontade, escondido, com medo.
Eu subi no fogão e soltei Blitz e Hearth das gaiolas. Tivemos uma reunião lacrimosa junto ao queimador frontal esquerdo.
— Garoto! — Blitzen me abraçou. — Eu sabia que você viria nos salvar!
— Hum, na verdade eu não sabia que vocês estavam aqui. — Usei linguagem de sinais ao mesmo tempo que falava, tentando facilitar para Hearthstone, embora não fizesse isso havia várias semanas e minhas mãos estivessem lentas. A gente perde a prática rápido. — Mas estou muito feliz de ter encontrado vocês.
Hearthstone estalou os dedos pedindo atenção. Eu também estou feliz, sinalizou ele. Depois bateu no saco de runas que trazia pendurado no cinto. Essas gaiolas idiotas eram à prova de magia. Blitzen chorou muito.
— Não chorei — protestou Blitzen, também usando linguagem de sinais. — Você chorou.
Não chorei, disse Hearthstone. Você chorou.
Àquela altura, a conversa por linguagem de sinais se deteriorou e um passou a cutucar o peito do outro.
— Pessoal — interrompi —, o que aconteceu? Como vocês vieram parar aqui?
— Longa história — disse Blitz. — Nós estávamos esperando vocês no farol, cuidando das nossas vidas.
Lutando contra uma serpente marinha, sinalizou Hearth.
— Sem fazer nada de errado — continuou Blitz.
Batendo na cabeça da serpente com pedras.
— Bem, ela estava ameaçando a gente! — disse Blitz. — Aí uma onda veio do nada e nos engoliu.
Uma onda com nove mulheres furiosas. A serpente era o bichinho de estimação delas.
— Como eu podia imaginar uma coisa dessas? — resmungou Blitz. — O bicho não parecia estar tentando brincar de pique-pega. Mas isso não importa, garoto. Nós descobrimos informações em nossa missão de reconhecimento, e não são boas…
— Convidados! — gritou Aegir do salão principal. — Venham! Juntem-se a nós para beber hidromel e comer!
Vamos voltar a esse assunto depois, sinalizou Hearthstone, cutucando Blitz no peito uma última vez.
Na época em que éramos três sujeitos sem-teto nas ruas de Boston, se alguém nos chamasse para jantar, iríamos correndo. Agora, fomos com relutância. Era uma refeição de graça para a qual eu não estava muito animado.
As nove filhas de Aegir se aproximaram com agitação, botando pratos e garfos e canecas na mesa. Aegir cantarolou enquanto mexia em uma prateleira cheia de barris de hidromel, cada um com rótulo de runas diferente. T.J., Mallory e Mestiço já estavam sentados, parecendo pouco à vontade nas cadeiras vermelhas de coral, com alguns assentos vazios entre eles. Mestiço Gunderson, mais ou menos consciente àquela altura, piscava e olhava ao redor como se esperasse despertar de um sonho.
No Bananão, Samirah terminou as orações. Enrolou o tapete, teve uma conversa breve e urgente com Alex e os dois vieram se juntar a nós. Se Sam tinha um plano brilhante, eu fiquei feliz de que não envolvesse Alex e ela virando golfinhos, gritando Até mais, otários! e fugindo sozinhos.
A mesa de jantar parecia ter sido feita a partir do maior mastro do mundo cortado ao meio e disposto lado a lado. Acima, suspenso nas vigas por uma corrente de âncora, estava um candelabro de vidro marinho. Em vez de velas ou luz elétrica, as almas cintilantes dos mortos giravam em arandelas enormes. Só para criar um clima, eu acho.
Eu estava prestes a me sentar entre Blitz e Hearth quando percebi que havia plaquinhas indicando os lugares de cada um: ANÃO. HRÖNN. ELFO. HEFRING. LENÇO VERDE. Encontrei a minha do outro lado da mesa: CARA LOURO.
Que ótimo. Lugares marcados.
Duas filhas de Aegir se sentaram de cada um dos meus lados. De acordo com as plaquinhas, a moça à esquerda era Kolga. A da direita… Putz. Aparentemente ela se chamava Blódughadda. Eu me perguntei se tinha sido esse o som que a mãe dela fez, ainda meio anestesiada, ao dar à luz a filha número nove. Talvez desse para chamá-la apenas de Blod.
— Oi — falei.
Blod sorriu. Os dentes estavam manchados de vermelho. O cabelo ondulado estava salpicado de sangue.
— Oi. Foi um prazer arrastar vocês até aqui.
— Ah. Obrigado.
A irmã dela, Kolga, se inclinou para perto. Gelo começou a se formar no meu braço. O vestido que ela usava parecia ser trançado de fragmentos de gelo e neve derretida.
— Espero que a gente possa ficar com eles, irmã — disse ela. — Seriam ótimos espíritos torturados.
Blod riu. Seu hálito tinha aquele cheiro de carne moída que acabou de sair da geladeira.
— É mesmo! Perfeitos para nosso candelabro.
— Agradeço a proposta — disse a elas. — Mas na verdade nossa agenda está bem cheia.
— Nossa, como fui indelicada — comentou Blod. — Na sua língua, eu me chamo Cabelo Vermelho de Sangue. Minha irmã aqui é Onda Gelada. E você… Seu nome é… — Ela franziu a testa ao olhar para minha plaquinha. — Cara Louro?
Eu não via como isso podia ser pior do que Cabelo Vermelho de Sangue.
— Pode me chamar de Jimmy — falei. — Na sua língua se diz… Jimmy mesmo.
Blod não pareceu satisfeita com a explicação.
— Você não me é estranho… — Ela farejou meu rosto. — Por acaso já navegou pelas minhas águas vermelho-sangue em uma batalha naval?
— Tenho quase certeza de que não.
— Talvez minha mãe Ran tenha descrito você pra mim. Mas por que ela…?
— Convidados! — trovejou Aegir, e nunca fiquei tão feliz com uma interrupção. — Eis minha primeira fermentação da noite. É um hidromel de pêssego tipo lambic, um delicioso aperitivo. Agradeço os comentários depois que vocês provarem.
As nove filhas soltaram gritinhos de aprovação quando Aegir ergueu o barril de hidromel e caminhou ao redor da mesa servindo a todos.
— Vocês vão ver que tem um toque frutado — disse Aegir. — Com um leve sabor de…
— Magnus Chase! — gritou Blod, ficando de pé e apontando para mim. — Esse aí é o MAGNUS CHASE!


6 comentários:

  1. Boa sorte Magnus com esse problema aí!😁 Mais uma capítulo! Estou tão ansiosa!!!

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  2. Temos que fazer uma enquete: Quem é mais azarado, Percy Jackson ou Magnus Chase? Oh dúvida cruel.

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    Respostas
    1. Eu voto em Magnus, o Percey é muito azarado mas tem sua pontinha de sorte. Já o sr. Chase aki sei não em!!!

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  3. FERRO DE VEZ
    Carol duvida cruel msm
    Sobgostaria de entender qual eh kkkkkk

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  4. Damon Herondale(filho de Zeus)14 de outubro de 2017 18:40

    Ele devia ter pintado o cabelo
    Nunca vi um herói mais azarado que o Magnus, e eu já vi muitos, quase todos.

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Boa leitura :)