8 de outubro de 2017

Doze - O cara com belos pés

NÃO HÁ NADA melhor do que explodir das profundezas do oceano em um navio viking mágico!
Mentira. É horrível. Muito.
Meus olhos pareciam uvas que tinham sido lagaz-adas. Meus ouvidos estalaram com tanta força que achei que tinha levado um tiro na nuca. Desorientado e trêmulo, agarrei a amurada quando o Bananão atingiu as ondas – WHOOOSH! – e deslocou meu maxilar.
A vela se abriu sozinha. Os remos destravaram, mergulharam na água e começaram a remar sozinhos. Navegamos sob o céu estrelado, o mar calmo e cintilante, nenhuma terra à vista em qualquer direção.
— O navio… está seguindo por conta própria — observei.
Ao meu lado, Njord apareceu do nada, sem aparentar estar abalado por ter sido pego no meio do desabamento do salão de Aegir.
O deus riu.
— Bom, sim, Magnus, claro que o navio está seguindo por conta própria. Vocês estavam tentando remar à moda antiga?
Eu ignorei meus amigos me olhando de cara feia.
— Hum, talvez.
— Você só precisa mandar o navio levar você para onde quer ir — explicou Njord. — Não precisa de mais nada.
Pensei em todo o tempo que passei com Percy Jackson, aprendendo sobre bolinas e mastros só para acabar descobrindo que os deuses vikings inventaram um aplicativo que dirigia barcos. Aposto que o navio até usaria mágica para me ajudar, se eu precisasse cair do mastro.
— Magnus — Alex cuspiu uma bola de cabelo de giganta do mar que estava na boca dele. Ops. Dela. Eu não tinha certeza do que aconteceu, mas estava quase certo de que Alex havia mudado de gênero. — Você não vai nos apresentar para o seu novo amigo?
— Certo — concordou. — Pessoal, esse é o pai do Frey. Quer dizer, Njord.
Blitz fez cara feia e murmurou baixinho:
— Eu devia ter imaginado.
Mestiço Gunderson arregalou os olhos.
— Njord? Deus dos navios? Njord?
Em seguida, o berserker se virou e vomitou por cima da amurada.
T.J. deu um passo à frente e levantou as mãos em um gesto de Viemos em paz.
— Mestiço não estava fazendo um comentário crítico, grande Njord. Nós apreciamos sua ajuda! É que ele bateu a cabeça com força.
Njord sorriu.
— Não tem problema nenhum. Vocês todos deviam descansar um pouco. Eu fiz o que podia para aliviar o enjoo provocado pela descompressão, mas vocês vão se sentir mal por um ou dois dias. E, olha, tem sangue escorrendo do seu nariz. Ah, e das suas orelhas também.
Percebi que ele estava falando com todo mundo. Estávamos vazando como Blódughadda, mas pelo menos meus amigos pareciam inteiros.
— Então, Njord — disse Mallory, limpando o nariz. — Antes de descansarmos, você tem certeza de que aquelas nove gigantas não vão aparecer de novo a qualquer momento e nos destruir?
— Não, não — prometeu ele. — Vocês estão sob minha proteção e seguros no momento! Agora será que poderiam me dar um tempo para conversar com meu neto?
Alex tirou um último fio de cabelo de giganta da língua.
— Tudo bem, pai do Frey. Ah, e a propósito, pessoal, meus pronomes são ela dela agora, ok? É um novo dia!
(Viva pra mim porque acertei.)
Samirah deu um passo à frente, os punhos fechados. O hijab molhado estava grudado na cabeça como um polvo muito carinhoso.
— Magnus, lá no salão de jantar… Você percebe o que aceitou fazer? Tem alguma ideia…?
Njord levantou a mão.
— Minha querida, que tal deixar que eu discuta isso com ele? O amanhecer está chegando. Você não deveria fazer sua refeição suhur?
Sam olhou para o leste, onde as estrelas começavam a sumir. Ela cerrou os dentes.
— Acho que você está certo, apesar de eu não estar com muita fome. Alguém quer me acompanhar?
T.J. pendurou o rifle no ombro.
— Sam, quando o assunto é comida, eu sempre estou pronto. Vamos lá embaixo ver se a cozinha ainda está inteira. Mais alguém?
— Claro. — Mallory olhou para o deus do mar. Por algum motivo, pareceu fascinada pelos pés descalços dele. — Vamos dar a Magnus um momento família.
Alex foi atrás dela, se esforçando para ajudar Mestiço Gunderson a andar. Talvez fosse minha imaginação, mas antes de descer a escada, ela me olhou com cara de Você está bem?. Ou talvez só estivesse se perguntando por que eu era tão esquisito, como sempre.
Isso deixou só Blitz e Hearth no convés, um arrumando a roupa do outro. O cachecol de Hearth ficara enrolado no braço como uma tipoia. A gravata de Blitz tinha se envolvido na cabeça dele como um turbante elaborado. Eles estavam tentando se ajudar ao mesmo tempo que um empurrava o outro, e com isso não chegavam a lugar nenhum.
— Anão e elfo. — O tom de Njord foi relaxado, mas meus amigos pararam na mesma hora o que estavam fazendo e olharam para o deus. — Fiquem conosco. Precisamos conversar.
Hearthstone pareceu satisfeito, mas Blitz fez uma careta ainda pior. Nós nos sentamos na proa, que era o único lugar onde não seríamos atingidos pelos remos que funcionavam sozinhos ou pelo botaló, nem estrangulados pelos cordames mágicos.
Njord se sentou de costas para a amurada, as pernas bem abertas. Mexeu os dedos dos pés como se quisesse que ficassem bem bronzeados. Isso não deixou muito espaço para o restante de nós, mas como Njord era um deus e tinha nos salvado, achei que ele merecia o espaço extra.
Blitz e Hearth se sentaram lado a lado em frente ao deus. Eu me agachei junto à proa, embora sempre ficasse meio enjoado sentado de costas em um veículo em movimento. Esperava que não fosse me tornar o segundo tripulante a vomitar na presença do deus.
— Bem — disse Njord —, está uma noite muito agradável.
Sentia como se minha cabeça tivesse sido esmagada por um torno. Eu estava encharcado de hidromel e água salgada. Mal tinha tocado no meu prato vegetariano e meu estômago parecia devorar a si mesmo. Gotas de sangue pingavam do nariz no meu colo. Fora isso, sim, era realmente uma noite agradável.
Em algum momento na subida, Jacques voltou à forma de pingente. Estava pendurado no cordão, vibrando sobre meu peito como se cantarolasse: Elogie os pés dele.
Devo ter imaginado ou entendido errado. Talvez Jacques quisesse dizer: Elogie os anéis dele.
— Ah, obrigado de novo pela ajuda, vovô.
Njord sorriu.
— Pode me chamar de Njord. Vovô faz eu me sentir velho!
Supus que ele estava vivo havia dois ou três mil anos, mas não queria insultá-lo.
— Certo. Desculpa. Então, foi Frey que te mandou ou calhou de você estar por perto?
— Ah, eu escuto todas as orações feitas no mar.
Njord balançou os dedos dos pés. Era imaginação minha ou ele estava se exibindo intencionalmente? Tinha que admitir que os pés dele eram bem cuidados. Sem calos. Nem uma mancha de sujeira. As unhas estavam aparadas e lixadas à perfeição. Não havia pele sobrando nem pelos de hobbit. Mas, mesmo assim…
— Fiquei feliz em ajudar — continuou Njord. — Aegir e eu nos conhecemos há um tempão. Ele, Ran e as filhas dele representam a força destruidora da natureza, o poder primitivo do mar, blá-blá-blá. Enquanto eu…
— Você é o deus da pescaria — afirmou Blitzen.
Njord franziu a testa.
— De outras coisas também, sr. Anão.
— Por favor, me chame de Blitz — pediu ele. — Sr. Anão era o meu pai.
Hearthstone grunhiu com impaciência, como costumava fazer quando Blitzen estava prestes a ser morto por uma deidade.
Njord é o deus de muitas coisas, sinalizou ele. Da navegação. Da construção de navios.
— Exatamente! — disse Njord, aparentemente sem dificuldade nenhuma com a linguagem de sinais. — Do comércio, da pescaria, da navegação, qualquer ocupação que envolva o mar. Até da agricultura, pois as marés e as tempestades afetam o crescimento da lavoura! Aegir é o lado ruim e brutal do oceano. Eu sou o cara para quem você reza quando quer que o mar te ajude!
— Humf, sei — disse Blitz.
Eu não sabia por que Blitz estava sendo antagônico. Mas aí lembrei que o pai dele, Bilì, tinha morrido enquanto verificava as correntes que prendiam o lobo Fenrir. A roupa rasgada e cortada de Bilì tinha ido parar na costa de Nídavellir. Nada de viagem segura para casa, no caso dele. Então por que Blitzen consideraria o mar qualquer outra coisa além de cruel?
Eu queria que Blitz soubesse que eu entendia, que lamentava, mas ele manteve o olhar firme no convés.
— Enfim — disse Njord —, Aegir e a família dele são meus, hã, concorrentes há séculos. Eles tentam afogar mortais; eu tento salvá-los. Eles destroem navios; eu construo navios melhores. Não somos propriamente inimigos, mas sempre deixamos o outro com o pé atrás!
Ele enfatizou a palavra pé e esticou os dele mais um pouco. Aquilo estava ficando estranho.
A voz de Jacques zumbiu na minha cabeça com mais força. Elogie os pés dele.
— Você tem lindos pés, vov… er, Njord.
O deus abriu um grande sorriso.
— Ah, essas coisas velhas? É gentileza sua. Sabia que já ganhei um concurso de beleza por causa dos meus pés? O prêmio foi minha esposa!
Olhei para Blitz e Hearth para ver se eu estava imaginando aquela conversa.
Por favor, sinalizou Hearth com zero entusiasmo. Nos conte a história.
— Bem, já que insistem. — Njord olhou para as estrelas, talvez relembrando seus dias de glória em concursos de beleza de pés. — A maior parte da história não é importante. Os deuses mataram um gigante, Thiazi. A filha dele, Skadi, exigiu vingança. Sangue. Mortes. Blá-blá-blá. Para impedir outra guerra e acabar com a discussão, Odin deixou Skadi se casar com um deus da escolha dela.
Blitzen fez cara de desprezo.
— E ela escolheu… você?
— Não! — Njord bateu palmas com prazer. — Ah, foi tão engraçado. Sabe, Odin deixou Skadi escolher o marido olhando apenas para os pés dos deuses!
— Por quê? — perguntei. — Por que não… narizes? Ou cotovelos?
Njord fez uma pausa.
— Nunca tinha pensado nisso. Não sei! Mas Skadi achou que o marido mais bonito teria os pés mais bonitos, certo? Então ficamos atrás de uma cortina, e ela andou junto à fila, procurando Balder, que era o deus que todo mundo achava incrível. — Ele revirou os olhos e disse só com movimentos labiais: Metido. — Mas eu tinha os pés mais bonitos de todos os deuses, Odin com certeza sabia disso. E Skadi me escolheu! Vocês tinham que ver a cara dela quando puxou a cortina e descobriu com quem ia ter que se casar!
Blitzen cruzou os braços.
— Então Odin usou você para enganar a pobre moça. Você foi um misto de prêmio com armadilha.
— Claro que não! — Njord pareceu mais surpreso do que zangado. — Foi uma ótima combinação!
— Tenho certeza de que foi — falei, ansioso para impedir Blitzen de ser transformado em bote ou qualquer outra punição que um deus da navegação pudesse infligir. — Vocês dois viveram felizes para sempre?
Njord relaxou as costas contra a amurada.
— Bem, não. Nós nos separamos pouco depois. Ela queria morar na montanha. Eu gostava da praia. Além disso, Skadi teve um caso com Odin. Então nos divorciamos. Mas essa não é a questão! No dia da competição meus pés estavam incríveis! Eles conquistaram a mão de Skadi, a linda giganta do gelo!
Fiquei tentado a perguntar se ele só ganhou a mão dela ou o restante também, mas concluí que não era uma boa ideia.
Blitzen olhou para mim e retorceu as mãos como se quisesse sinalizar alguma coisa feia a respeito de Njord, mas lembrou que o deus conseguia entender linguagem de sinais. Ele suspirou e encarou o colo.
Njord franziu a testa.
— O que houve, sr. Anão? Você não parece impressionado.
— Ah, ele está — garanti. — Só está sem palavras. Nós todos percebemos que… hã, seus pés são muito importantes para você.
Qual é seu segredo de beleza?, perguntou Hearthstone educadamente.
— Vários séculos de pé nas ondas — confidenciou Njord. — Isso alisou os dois até se tornarem essas obras de arte esculpidas que podem ver aqui. Isso e tratamentos regulares com parafina. — Ele mexeu os dedos com unhas brilhantes. — Eu estava na dúvida se devia lustrar ou não, mas acho que lustrar deixa esses fofinhos reluzentes!
Eu assenti e concordei que ele tinha dedos mindinhos bem reluzentes. Também desejei não ter uma família tão esquisita.
— Na verdade, Magnus — disse Njord —, esse era um dos motivos para eu querer me encontrar com você.
— Para me mostrar seus pés?
Ele riu.
— Não, bobinho. — Ao dizer isso, tenho certeza de que ele queria dizer “sim”. — Para te dar alguns conselhos.
— Sobre como lustrar as unhas dos pés? — perguntou Blitzen.
— Não! — Njord hesitou. — Se bem que eu poderia fazer isso. Tenho duas dicas que podem ajudar na sua missão para impedir Loki.
Gostamos de dicas, sinalizou Hearth.
— A primeira é o seguinte: para chegar ao navio dos mortos, vocês vão precisar passar pela fronteira entre Niflheim e Jötunheim, um território hostil. Mortais podem congelar em segundos. Se isso não matar vocês, os gigantes e draugrs matarão — explicou Njord.
Blitz resmungou:
— Não estou gostando dessa dica.
— Ah, mas existe um porto seguro — acrescentou Njord. — Ou pelo menos um porto potencialmente seguro. Ou pelo menos um porto em que vocês talvez não sejam mortos instantaneamente. Vocês precisam procurar o Lar do Trovão, a fortaleza da minha amada Skadi. Digam que fui eu que enviei vocês.
— Sua amada? — perguntei. — Vocês não estão divorciados?
— Estamos.
— Mas ainda são amigos.
— Eu não a vejo há séculos. — Njord ficou com o olhar distante. — E nossa separação não se deu exatamente em bons termos. Mas preciso acreditar que ela ainda tenha algum afeto por mim. Procurem por ela. Se Skadi oferecer porto seguro a vocês por minha causa, isso vai significar que ela me perdoou.
E se ela não oferecer?, perguntou Hearth.
— Seria uma decepção.
Eu entendi que isso queria dizer: Vocês todos vão parar no freezer da Skadi.
Não gostei de ser a cobaia do meu avô para uma reconciliação com a ex-esposa. Por outro lado, um porto potencialmente seguro parecia melhor do que morrer congelado em vinte segundos.
Infelizmente, eu tinha a sensação de que ainda não tínhamos ouvido a pior dica “útil” de Njord. Esperei pelo outro lado da moeda, apesar de o deus não parecer ter moeda nenhuma.
— Qual é a segunda dica? — perguntei.
— Hum? — O foco de Njord voltou para mim. — Ah, sim. A lição da minha história sobre meus belos pés.
— Tinha uma lição? — Blitz pareceu genuinamente surpreso.
— É claro! — exclamou Njord. — A coisa mais inesperada pode ser a chave da vitória. Balder era o mais bonito dos deuses, mas, por causa dos meus pés, eu ganhei a garota.
— De quem você se separou e se divorciou depois — comentou Blitz.
— Você pode parar de ficar se prendendo a isso? — Njord revirou os olhos como quem diz: Esses anões de hoje em dia. — O que quero dizer, meu querido neto, é que você vai precisar usar meios inusitados para derrotar Loki. Você começou a perceber isso no salão de Aegir, não foi?
Eu não me lembrava de ter arrancado tufos de cabelo de giganta com os dentes, mas uma bola de cabelos parecia estar se formando na minha garganta.
— O vitupério. Vou ter que vencer Loki em uma competição… de insultos?
Novos fios grisalhos se espalharam como gelo pela barba de Njord.
— Um vitupério é bem mais do que uma simples série de xingamentos — avisou ele. — É um duelo de prestígio, poder, confiança. Eu estava presente no salão de Aegir quando Loki insultou os deuses. Ele nos envergonhou tanto… — Njord pareceu murchar, como se só de pensar no episódio o deixasse mais velho e mais fraco. — Palavras podem ser mais letais que lâminas, Magnus. E Loki é um mestre da retórica. Para vencê-lo, você precisa encontrar o poeta dentro de você. Apenas uma coisa pode lhe dar a chance de vencer Loki no seu próprio jogo.
— Hidromel — adivinhei. — O hidromel de Kvásir.
A resposta não me pareceu certa. Eu vivi nas ruas por tempo suficiente para ver como “hidromel” aprimorava as habilidades das pessoas. Fosse qual fosse o veneno: cerveja, vinho, vodca, uísque. As pessoas alegavam precisar disso para aguentar o dia. Chamavam de coragem líquida. Deixava-os mais engraçados, mais inteligentes, mais criativos. Só que não. Só os tornava menos capazes de perceber como estavam agindo de forma idiota e burra.
— Não é um simples hidromel — retrucou meu avô, lendo minha expressão. — O hidromel de Kvásir é o elixir mais valioso já criado. Encontrá-lo não vai ser fácil. — Ele se virou para Hearthstone e Blitzen. — Vocês já sabem, não é? Sabem que essa missão pode ser o fim de vocês dois.


6 comentários:

  1. Venha o próximo capítulo!!!

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  2. meu hearth não, socorro!

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  3. Órion/não, Halloween/Não! Órion!/HALLOWEEN12 de outubro de 2017 13:19

    Eu sempre quis saber por que esses anônimos não fazem como a K manda...

    Saia do meu computador!


    Saia você do meu planeta!


    Esse não é seu planeta, esse é meu computador


    Eu tenho minhas dúvidas cara do T.I.

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    Respostas
    1. Kkkkkk né, não custa nada.. Mas fazer o quê

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  4. Damon Herondale(filho de Zeus)14 de outubro de 2017 19:50

    Ele acabou de conhecer o avô e já vai conhecer a avó? Espero que Uller, filho de Sif e atual marido de Skadi, não esteja lá, vai deixar um clima da família mais estranho.

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Boa leitura :)