8 de outubro de 2017

Dois - Sanduíches de falafel com Ragnarök

COMEMOS NO CONVÉS superior, na popa. (Vejam como eu conheço os termos náuticos.)
Depois de uma manhã difícil e cheia de fracassos, eu sentia que merecia meus bolinhos de grão-de-bico fritos com pão árabe, meu iogurte com fatias de pepino frio e meus kebabs de cordeiro muito apimentados. Annabeth tinha organizado o piquenique. Ela me conhecia muito bem.
Minhas roupas secaram rapidamente ao sol. Era gostoso sentir a brisa morna no rosto. Barcos a vela percorriam seus caminhos pelo porto e aviões cruzavam o céu azul, indo do aeroporto Logan para Nova York, Califórnia, Europa. Um certo ar de impaciência parecia pairar sobre toda a cidade de Boston, como uma sala de aula um minuto antes de o sinal bater, todos prontos para sair dali e aproveitar o verão.
Quanto a mim, tudo que eu queria era ficar em paz.
Contracorrente e Jacques estavam apoiados ali perto, em uma corda enrolada, os cabos encostados na borda do costado da embarcação. Contracorrente agia como um típico objeto inanimado, mas Jacques ia chegando mais perto, falando com ela, a lâmina brilhando no mesmo tom de bronze escuro da dela. Felizmente, Jacques estava acostumado com conversas unilaterais. Ele fazia piadas e elogios. Citava gente famosa sem parar.
— Sabe, certa vez eu estava em uma taverna com Thor Odin
Se Contracorrente ficou impressionada, não deixou transparecer.
Percy fez uma bolinha com o papel que embrulhava o falafel. Além de respirar debaixo d’água, o cara também tinha a capacidade de engolir qualquer comida em segundos sem engasgar.
— E então — disse ele —, quando é que vocês partem?
Alex ergueu a sobrancelha para mim como quem diz: É, Magnus, quando é que a gente parte?
Eu havia passado as duas últimas semanas tentando evitar esse assunto com Fierro, embora não tivesse tido muita sorte.
— Em breve — respondi. — Não sabemos exatamente para onde vamos, nem quanto tempo vamos demorar para chegar lá…
— História da minha vida — comentou Percy.
— … mas temos que encontrar o grande e horrendo navio da morte de Loki antes que ele parta no solstício de verão. Sabemos que está ancorado em algum lugar na fronteira entre Niflheim e Jötunheim. Estimamos que vá levar duas semanas para navegarmos essa distância.
— Isso quer dizer que já devíamos ter partido — disse Alex. — Nós temos que ir embora até o final da semana, prontos ou não.
Vi o reflexo do meu rosto preocupado nas lentes escuras dos óculos de sol dele. Nós dois sabíamos que estávamos tão longe de “estar prontos” quanto estávamos de Niflheim.
Annabeth cruzou as pernas. O cabelo louro e comprido estava preso em um rabo de cavalo. FACULDADE DE DESIGN AMBIENTAL, UC BERKELEY estava escrito em letras amarelas em sua camiseta azul-escura.
— Heróis nunca estão prontos, não é? — disse ela. — A gente só tenta fazer o melhor possível.
Percy assentiu.
— É. Normalmente, dá certo. Ainda não morremos.
— Embora você não pare de tentar.
Annabeth deu uma cotovelada leve em Percy, que respondeu passando o braço pelos ombros dela. Ela se aninhou no seu peito, e Percy beijou as mechas louras do topo da cabeça dela.
Essa demonstração de afeto me fez sentir um aperto no peito.
Era bom ver minha prima tão feliz, mas ao mesmo tempo isso me lembrava quantas coisas estavam em jogo caso eu não conseguisse impedir Loki. Alex e eu já tínhamos morrido. Nós nunca envelheceríamos. Moraríamos em Valhala até o dia do Juízo Final (a não ser que morrêssemos fora do hotel antes disso). A melhor vida que poderíamos esperar era treinar para o Ragnarök, adiar a batalha inevitável o máximo de séculos possível e, um dia, marchar de Valhala com o exército de Odin e ter uma morte gloriosa enquanto os nove mundos queimavam à nossa volta. Divertido.
Mas Annabeth e Percy tinham chance de levar uma vida normal. Ambos já haviam concluído o ensino médio, a época mais perigosa para os semideuses gregos, segundo Annabeth. No outono, os dois iriam para a faculdade na Costa Oeste. Se conseguissem sobreviver a isso, tinham boas chances de sobreviver à vida adulta. Conseguiriam viver no mundo mortal sem serem atacados por monstros a cada cinco minutos.
A não ser que meus amigos e eu não conseguíssemos impedir Loki, e nesse caso o mundo (todos os mundos) terminaria em poucas semanas. Mas, sabe como é… sem pressão.
Coloquei meu sanduíche de lado. Nem falafel conseguia me animar.
— E quanto a vocês? — perguntei. — Vão voltar direto para Nova York hoje?
— Aham — disse Percy. — Vou ficar de babá hoje à noite. Mal posso esperar!
— Ah, é. Você vai tomar conta da sua irmãzinha.
Mais uma vida importante na balança, pensei.
Mas consegui abrir um sorriso.
— Parabéns, cara. Qual é o nome dela?
— Estelle. Era o nome da minha avó. Hã, do lado materno, claro. Não de Poseidon.
— Eu gostei — disse Alex. — Clássico e elegante. Estelle Jackson.
— Bom, Estelle Blofis, na verdade — corrigiu Percy. — Meu padrasto se chama Paul Blofis. Não posso fazer muito quanto ao sobrenome, mas minha irmãzinha é incrível. Tem cinco dedos em cada mão. Cinco em cada pé. Dois olhos. Baba muito.
— Igual ao irmão — comentou Annabeth.
Alex riu.
Eu conseguia imaginar Percy balançando a pequena Estelle nos braços, cantando “Aqui no mar”, de A pequena sereia. Isso me deixou ainda mais infeliz.
Eu precisava achar uma forma de proporcionar à pequena Estelle anos suficientes para que tivesse uma boa vida. Precisava encontrar o navio demoníaco de Loki, cheio de guerreiros zumbis, impedi-lo de zarpar e dar início ao Ragnarök. Depois, recapturar Loki e acorrentá-lo novamente para que não provocasse mais nenhuma maldade incendiária no mundo. (Ou pelo menos uma quantidade menor de maldades incendiárias no mundo.)
— Ei. — Alex jogou um pedaço de pão árabe em mim. — Para de fazer essa cara de enterro.
— Desculpa. — Tentei parecer mais alegre. Não era algo tão fácil quanto curar meu tornozelo com pura força de vontade. — Mal posso esperar para conhecer Estelle depois que voltarmos da missão. E agradeço a vocês por terem vindo até Boston. De verdade.
Percy olhou para Jacques, que ainda estava dando em cima de Contracorrente.
— Desculpa não ter conseguido ajudar mais. O mar é — ele deu de ombros — meio imprevisível.
Alex esticou as pernas.
— Pelo menos Magnus caiu bem melhor na segunda vez. Se o pior acontecer, eu sempre posso virar golfinho e salvar o pobre coitado.
Os cantos da boca de Percy estremeceram.
— Você consegue se transformar em golfinho?
— Eu sou filho de Loki. Quer ver?
— Não, eu acredito. — Percy olhou para o horizonte. — Tenho um amigo chamado Frank que é metamorfo. Ele também sabe virar golfinho. Ou um peixinho-dourado gigante.
Imaginar Alex Fierro em forma de carpa gigante cor-de-rosa e verde me fez estremecer.
— A gente vai dar um jeito. Temos uma boa equipe.
— Isso é importante — concordou Percy. — Provavelmente mais importante do que ter habilidades marinhas…
Ele se empertigou e franziu a testa.
Annabeth se desencostou dele.
— Ih… Conheço essa cara. Você teve uma ideia.
— Eu me lembrei de uma coisa que meu pai disse…
Percy se levantou. Andou até sua espada, interrompendo Jacques no meio de uma história fascinante sobre quando ele fez um bordado em uma gigantesca bolsa de boliche. Percy pegou Contracorrente e observou a lâmina.
— Ei, cara! — reclamou Jacques. — A gente estava batendo um papo ótimo aqui.
— Desculpa, Jacques. — Percy tirou a tampa da caneta do bolso e encostou na ponta da espada. Com um ruído baixinho, Contracorrente encolheu e virou caneta outra vez. — Poseidon e eu tivemos essa conversa sobre armas uma vez. Ele disse que todos os deuses do mar têm uma coisa em comum: são muito vaidosos e possessivos quando o assunto são seus objetos mágicos.
Annabeth revirou os olhos.
— Dá para falar isso de todos os deuses que já conhecemos.
— Verdade — admitiu Percy. — Mas é ainda pior quando se trata dos deuses do mar. Tritão dorme com o trompete de concha. Galateia passa a maior parte do tempo polindo a sela mágica de cavalo-marinho. E meu pai é superparanoico de perder o tridente.
Pensei no meu único encontro com uma deusa do mar nórdica. Não terminou muito bem. Ran prometeu acabar comigo se eu navegasse por suas águas de novo. E ela era mesmo obcecada por suas redes mágicas e pela coleção de lixo que carregava nelas. Graças a isso consegui enganá-la para que me devolvesse minha espada.
— Está dizendo que vou ter que usar os objetos deles contra eles — supus.
— Isso mesmo — disse Percy. — Além do mais, aquilo que você disse sobre ter uma boa equipe… ser filho de um deus do mar não foi o suficiente para me salvar em várias ocasiões, mesmo debaixo d’água. Uma vez, meu amigo Jason e eu fomos puxados para o fundo do mar Mediterrâneo por uma deusa da tempestade, Cimopoleia. Eu não consegui fazer nada. Jason me salvou ao propor criar cards colecionáveis e action figures dela.
Alex quase engasgou com o falafel.
— O quê?
— A questão — continuou Percy — é que mesmo não sabendo nada sobre o mar, ainda assim Jason me salvou. Foi meio constrangedor.
Annabeth deu um sorrisinho.
— Parece que sim. Eu nunca ouvi os detalhes dessa história.
As orelhas de Percy ficaram tão cor-de-rosa quando a calça de Alex.
— Talvez a gente esteja encarando isso do jeito errado. Eu estava tentando ensinar habilidades marinhas a você. Só que o mais importante é usar o que você tiver a mão: sua equipe, sua inteligência, os objetos mágicos do seu inimigo.
— E não dá para se planejar para coisas assim — concluí.
— Exatamente! — disse Percy. — Meu trabalho aqui está feito.
Annabeth franziu a testa.
— Mas, Percy, você está dizendo que o melhor plano é não ter plano. Como filha de Atena, não posso concordar com isso.
— É. E, falando por mim — disse Alex —, eu ainda gosto do meu plano de virar um mamífero marinho.
Percy ergueu as mãos.
— Só estou dizendo que o semideus mais poderoso da nossa geração está sentado aqui, e não sou eu. — Ele indicou Annabeth. — A Sabidinha aí não sabe se metamorfosear, respirar embaixo da água e nem falar com pégasos. Não sabe voar nem é superforte. Mas é inteligente pra caramba e boa em improvisação. É isso o que a torna mortífera. Não importa se ela está na terra, na água, no ar ou no Tártaro. Magnus, acho que, em vez de ter passado o fim de semana todo treinando comigo, você devia ter treinado com Annabeth.
Os olhos cinzentos e tempestuosos de Annabeth eram difíceis de interpretar. Por fim, ela disse:
— Tá, isso foi fofo.
Ela beijou a bochecha de Percy.
Alex assentiu.
— Nada mal, Cabeça de Alga.
— Não me venha com esse apelido também — murmurou Percy.
Um som alto, acho que de portas de armazém se abrindo, veio do píer. Vozes ecoaram nas laterais dos prédios.
— Essa é nossa deixa para ir embora — falei. — Este navio acabou de voltar da doca seca. Vão reabrir ao público esta noite com uma grande cerimônia.
— É — concordou Alex. — O glamour não vai camuflar nossa presença quando a tripulação toda estiver a bordo.
Percy ergueu a sobrancelha.
— Glamour? Você está falando da sua roupa?
Alex riu.
— Não. Glamour é uma magia ilusória. É a força que obscurece a visão dos mortais.
— Hã — disse Percy. — Nós chamamos isso de Névoa.
Annabeth deu um tapinha na cabeça de Percy.
— Seja lá qual for o nome, precisamos ir logo. Vem cá me ajudar a arrumar tudo.
Alcançamos o final da prancha de acesso no momento em que os primeiros marinheiros chegaram. Jacques flutuava à nossa frente, brilhando em cores diferentes e cantando “Walk Like a Man” com um falsete horrível. Alex mudou de forma, passando para guepardo e logo depois para flamingo. (Ele é um ótimo flamingo.)
Os marinheiros olharam para nosso grupo com expressões de confusão, mas ninguém perguntou o que estávamos fazendo ali.
Quando saímos do porto, Jacques se transformou em pingente de runa. Então caiu na minha mão, e eu o prendi no cordão. Não era do feitio dele calar a boca assim tão de repente. Talvez estivesse chateado porque o encontro com Contracorrente tinha sido interrompido muito bruscamente.
Enquanto andávamos pela rua Constitution, Percy se virou para mim.
— O que foi aquilo lá atrás? A metamorfose, a espada cantante? Vocês estavam querendo ser pegos?
— Claro que não — respondi. — Os mortais ficam ainda mais confusos quando veem objetos mágicos e estranhos. — Eu me senti bem por poder ensinar alguma coisa a ele. — Dá uma espécie de curto-circuito no cérebro deles, faz com que evitem a gente.
— Ah. — Annabeth balançou a cabeça. — Passamos todos esses anos sendo discretos quando poderíamos ter agido com naturalidade?
— Vocês deviam fazer isso sempre. — Alex andava ao meu lado, novamente em forma humana, embora ainda tivesse algumas penas de flamingo grudadas na cabeça. — Sejam esquisitos com orgulho, gente.
— Vou me lembrar disso — disse Percy.
— Lembra mesmo.
Paramos na esquina, onde o Toyota Prius de Percy estava estacionado diante de um parquímetro. Trocamos um aperto de mão e Annabeth me deu um abraço.
Minha prima segurou meus ombros. Observou meu rosto com olhos cinzentos e estreitos de preocupação.
— Se cuida, Magnus. Você vai ficar bem. É uma ordem.
— Sim, senhora — prometi. — Os Chase têm que permanecer unidos.
— Falando nisso… — Ela baixou a voz. — Você já foi lá?
Senti como se estivesse em queda livre outra vez, despencando para uma morte dolorosa.
— Ainda não — admiti. — Vou hoje. Prometo.
A última visão que tive de Percy e Annabeth foi quando o Prius dobrou a esquina na Primeira Avenida, enquanto Percy cantava junto com Led Zeppelin no rádio e Annabeth ria da voz desafinada dele.
Alex cruzou os braços.
— Se aqueles dois fossem mais fofos juntos, provocariam uma explosão nuclear de fofura e destruiriam a Costa Leste.
— Isso era para ser um elogio? — perguntei.
— Provavelmente o mais perto disso que você vai ouvir na vida. — Ele olhou para mim. — Você prometeu a Annabeth que iria aonde?
O gosto que eu tinha na boca era como se tivesse mastigado papel-alumínio.
— Na casa do meu tio. Tem uma coisa que eu preciso fazer por lá.
— Ahhh. — Alex assentiu. — Eu odeio aquele lugar.
Eu vinha adiando a tarefa havia semanas. Não queria ir sozinho. Também não queria pedir a nenhum dos meus outros amigos: Samirah, Hearthstone, Blitzen e nem o restante da galera do andar dezenove do Hotel Valhala. Aquilo era pessoal demais, doloroso demais. Mas Alex já tinha ido comigo à mansão Chase. A ideia de tê-lo como companhia não me incomodava. Na verdade, fiquei surpreso ao perceber quanto eu queria que ele fosse junto.
— Hã… — Eu pigarreei, me livrando dos restos de falafel e de água do mar da garganta. — Quer ir comigo a uma mansão sinistra vasculhar os pertences de um cara morto?
Alex abriu um sorriso.
— Achei que você nunca fosse me convidar.


17 comentários:

  1. Vai não Percabety, fica mais um muitinho pra eu matar a saudade T_T T_T PQ esse capítulos são tão pequenos???

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  2. Que linda reflexao Percy!
    Percabeth
    é tão esquisito como o tempo passa e ver Percy e Annabeth crescendo

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  3. Ah Percy não deu nem para matar a saudade

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  4. Respostas
    1. não eu tambem shippo

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    2. Eu prefiro ele com a Sam, o par do(a) protagonista é sempre quem aparece desde o primeiro livro.
      Sei que Sam gosta do Amir, mas a Annabeth passou os 4 primeiros livros apaixonada pelo Luke.

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    3. Super shippo os dois

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  5. Sério. Um encontro de espadas? Normalmente daria guerra. Mas com Jacques... Não é melhor não falar.

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  6. Alguns vao querer me crucificar, mais seria melhor se percy nao aparecesse tanto, claro referencias sao bem legais de ver, mas é uma saga do magnus cara, esses dois capitulos parece que eu tava lendo pjo...

    se o tio rick queria juntar as historias poderia fazer como fez com as cronicas dos kane...
    É a minha opiniao

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    1. Damon Herondale(filho de Zeus)14 de outubro de 2017 12:36

      Aparentemente essa vai ser a única aparição dele no livro

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  7. Qual e tio Rick..... Mal deu tempo de ver percabeth e mata a saudade e eles ja foi.... Voce e mal. E.... So pra constar... Eu shippo muito fierro chase (nao achei ship melhor)

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  8. Alex e Magnus estão cada vez mais fofos juntos ❤

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  9. Alex e Magnus: MELHOR SHIPP

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  10. ''— Se aqueles dois fossem mais fofos juntos, provocariam uma explosão nuclear de fofura e destruiriam a Costa Leste.'' Só vdds kkkkk

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Boa leitura :)