8 de outubro de 2017

Dezoito - Eu enrolo massinha até morrer

NÃO OUVIMOS HERÓIS dizerem isso com frequência.
Rápido, Garoto Maravilha! Para o estúdio de cerâmica!
Mas o tom de Alex não deixou dúvida de que se tratava de uma questão de vida ou morte. Acabou que a oficina de cerâmica mais próxima, um lugar chamado Earthery, ficava na minha rua favorita, Shambles. Não encarei isso como um bom presságio. Enquanto T.J. e eu esperávamos do lado de fora, Alex passou alguns minutos conversando com o proprietário, que finalmente saiu, sorrindo e segurando uma pilha de cédulas coloridas de dinheiro.
— Divirtam-se, rapazes! — disse ele enquanto se apressava pela rua. — Que maravilha! Obrigado!
— Obrigado! — T.J. acenou. — E valeu por não se envolver na nossa Guerra Civil!
Entramos e vimos Alex avaliando o material: mesas de trabalho, tornos, prateleiras de metal repletas de peças de cerâmica inacabadas, potes cheios de ferramentas, um armário com pedaços de argila molhada em sacos plásticos. No fundo do estúdio, uma porta levava a um pequeno banheiro e outra ao que parecia ser um depósito.
— Pode ser que dê certo — murmurou Alex. — Talvez…
— Você comprou este lugar? — perguntei.
— Não seja bobo. Só paguei ao dono por vinte e quatro horas de uso exclusivo. Paguei bem.
— Em libras — observei. — Onde você conseguiu tanta grana?
Ela deu de ombros, a atenção voltada para a quantidade de sacos de argila disponíveis.
— Isso se chama estar preparado, Chase. Eu percebi que viajaríamos pelo Reino Unido e pela Escandinávia. Então trouxe euros, coroas suecas, coroas norueguesas e libras. Cortesia da minha família. E por cortesia quero dizer que roubei.
Eu me lembrei do sonho que tive com Alex na frente da casa dela, do jeito agressivo com que falou Eu não quero seu dinheiro. Talvez ela quisesse dizer que só queria nos termos dela. Eu respeitava isso. Mas mesmo assim não fazia ideia de como tinha conseguido tantas moedas diferentes.
— Pare de olhar de boca aberta e me ajude — ordenou ela.
— Eu não… eu não estava de boca aberta.
— Nós precisamos juntar essas mesas — disse ela. — T.J., vá ver se tem mais argila lá nos fundos. Precisamos de bem mais.
— Deixa comigo!
T.J. correu para o depósito.
Alex e eu juntamos as mesas, formando uma superfície de trabalho grande o bastante para jogar pingue-pongue. T.J. trouxe sacos de argila em quantidade adequada para fazer uma picape de cerâmica.
Alex olhou para a matéria-prima e para os tornos. Bateu com a unha nos dentes, nervosa.
— Não temos tempo suficiente — murmurou ela. — Secar, polir, assar…
— Alex — interrompi. — Se você quer nossa ajuda, vai ter que explicar o que vamos fazer.
T.J. se afastou de mim para o caso de Alex pegar o garrote.
Ela só me olhou de cara feia.
— Você saberia o que estou fazendo se tivesse feito comigo as aulas de cerâmica básica em Valhala, como pedi.
— Eu… já tinha um compromisso.
Na verdade, não gostei da ideia de fazer cerâmica até a morte, principalmente se envolvia ser jogado em um forno quente.
— Gigantes da pedra têm uma tradição chamada tveirvigi — explicou Alex. — Combate duplo.
— É como o combate individual, einvigi — acrescentou T.J. — Só que com tveir em vez de ein.
— Fascinante — falei.
— Pois é! Eu li em um…
— Não diga guia de viagem.
T.J. baixou o olhar.
Alex pegou uma caixa com variadas ferramentas de madeira.
— Sinceramente, Chase, não temos tempo para atualizar você. T.J. vai lutar com Hrungnir. Eu vou fazer um guerreiro de cerâmica que vai lutar com o guerreiro de cerâmica do gigante. Você vai ficar trazendo água ou vai curar ou vai fazer o que for preciso. É bem simples.
Eu olhei para os sacos de argila.
— Um guerreiro de cerâmica. De cerâmica mágica?
— Cerâmica normal — repetiu Alex, como se fosse óbvio. — T.J., você pode começar cortando essas placas? Preciso de fatias de dois centímetros e meio, umas sessenta ou setenta.
— Claro! Posso usar seu garrote?
Alex riu alto e por bastante tempo.
— De jeito nenhum. Deve ter um naquele pote cinza.
T.J. saiu emburrado para procurar um cortador normal.
— E você — Alex se virou para mim — vai fazer rolinhos.
— Rolinhos.
— Eu sei que você consegue enrolar argila. É igual fazer cobrinha de massinha.
Eu me perguntei como ela conhecia meu segredo mais sombrio: eu gostava de massinha quando criança. (E quando digo criança, quero dizer até uns onze anos.) Ressentido, admiti que isso estava no meu escopo de talentos.
— E você?
— A parte mais difícil é usar o torno — explicou ela. — Os componentes mais importantes têm que ser amaciados.
Quando ela disse amaciados, eu sabia que estava falando de dar forma à argila no torno e não de amaciar alguém na base da pancada, se bem que com Alex nunca dava para ter certeza.
— Tudo bem, rapazes — disse ela. — Mãos à obra.
Depois de algumas horas fazendo rolinhos, meus ombros começaram a doer. Minha camisa estava grudada na pele de suor. Quando fechei os olhos, cobras de argila surgiram no interior das minhas pálpebras.
Meu único alívio era levantar para mudar a estação do radinho do proprietário sempre que Alex ou T.J. não gostavam de uma música. T.J. preferia música militar, mas as rádios inglesas tocavam uma quantidade absurdamente pequena de música de bandas marciais. Alex gostava de rock japonês, também em pouca quantidade nas rádios AM/FM. Por motivos que não sou capaz de explicar, os dois chegaram a um consenso em Duran Duran.
De tempos em tempos, eu levava para Alex refrigerantes do frigobar do proprietário. O favorito dela era Tizer sabor cereja. Eu não gostei, mas Alex ficou viciada. Tanto que os lábios dela ficaram vermelhos como os de um vampiro, o que achei perturbador e estranhamente fascinante ao mesmo tempo.
Enquanto isso, T.J. corria de um lado para outro entre o corte de argila e o forno, que ele estava esquentando para um dia épico de fogaréu. Ele parecia ter prazer especial em fazer buracos mais ou menos da grossura de um lápis nas placas de argila para não racharem quando entrassem no forno. Fez isso cantarolando “Hungry Like the Wolf”, o que, considerando minha história pessoal com lobos, não era minha música favorita. T.J. parecia alegre para um cara que logo pela manhã travaria um duelo com um gigante da pedra de seis metros de altura. Decidi não lembrar a ele que, se morresse ali na Inglaterra, continuaria morto, por mais simpáticos que os ingleses fossem.
Eu tinha colocado minha mesa de trabalho o mais perto possível do torno de Alex para poder conversar com ela. Normalmente esperava para fazer uma pergunta quando ela estivesse posicionando um novo pedaço de argila. Com as duas mãos ocupadas, tinha menos chance de ela bater.
— Você já fez isso antes? — perguntei. — Já fez um sujeito de cerâmica?
Ela olhou para mim, o rosto salpicado de porcelana branca.
— Tentei algumas vezes. Nada grande assim. Mas a minha família… — Ela mexeu na argila, modelando até formar algo parecido com uma colmeia. — Como Hrungnir disse, nós temos as habilidades necessárias.
— Sua família.
Tentei imaginar Loki sentado a uma mesa, fazendo cobrinhas de massinha.
— Os Fierro. — Alex me lançou um olhar cauteloso. — Você realmente não sabe? Nunca ouviu falar da Fierro Cerâmicas?
— Hã… deveria?
Ela sorriu, como se achasse minha ignorância revigorante.
— Se você entendesse alguma coisa sobre utensílios de cozinha ou decoração de interiores, talvez. Era uma marca famosa uns dez anos atrás. Mas tudo bem. Não estou falando daquelas porcarias industrializadas que meu pai vende hoje em dia. Estou falando da arte do meu avô. Ele começou o negócio quando emigrou de Tlatilco.
— Tlatilco. — Eu tentei identificar o lugar. — Fica perto da I-95?
Alex riu.
— Não tem motivo para você já ter ouvido falar. É um lugarzinho no México. Atualmente é só um bairro da Cidade do México. De acordo com meu avô, nossa família faz cerâmica desde antes dos astecas. Tlatilco era uma cultura superantiga.
Ela apertou os polegares no centro da colmeia, abrindo as laterais da nova cerâmica. Ainda parecia meio mágico para mim o jeito como ela dava forma a um vaso delicado e perfeitamente simétrico usando apenas pressão e movimento giratório. Nas poucas vezes que tentei usar um torno eu quase quebrei os dedos e consegui transformar um pedaço de argila em um pedaço de argila um pouco mais feio.
— Quem sabe o que é verdade? — continuou Alex. — São só histórias de família. Lendas. Mas meu abuelo levava a sério. Quando se mudou para Boston, ele continuou fazendo as coisas do jeito tradicional. Mesmo que estivesse fazendo só um prato ou uma caneca, ele criava cada peça à mão, com muito orgulho e atenção aos detalhes.
— Blitzen gostaria disso.
Alex se afastou e olhou para a cerâmica.
— É, meu avô teria dado um bom anão. Depois, meu pai assumiu os negócios e decidiu ir para o lado comercial. Ele se vendeu. Começou a produzir linhas de pratos de cerâmica em massa, fez negócio com redes de lojas de decoração. Ganhou milhões antes de as pessoas começarem a perceber que a qualidade estava despencando.
Relembrei as palavras amargas do pai dela no meu sonho: Você tinha tanto potencial. Entendia o ofício quase tão bem quanto seu avô.
— Ele queria que você desse continuidade aos negócios da família.
Ela me observou, sem dúvida questionando como adivinhei. Quase mencionei o sonho, mas Alex realmente não gostava de gente dentro da cabeça dela, mesmo sem querer. E eu não gostava quando gritavam comigo.
— Meu pai é um idiota — disse ela. — Ele não entendia como eu podia gostar de cerâmica, mas não querer ganhar dinheiro com isso. E não gostava que eu ouvisse as ideias malucas do meu avô.
— Como assim?
Na mesa de trabalho, T.J. continuava fazendo buracos nas placas de argila com uma cavilha, criando diferentes desenhos, como estrelas e espirais.
— Isso até que é divertido — admitiu ele. — É terapêutico!
Os lábios vermelhos-refrigerante de Alex se curvaram nos cantos.
— Meu abuelo fazia cerâmica para viver, mas seu verdadeiro interesse era nas esculturas dos nossos ancestrais. Ele queria entender a parte da espiritualidade. Não era fácil. Quer dizer… depois de tantos séculos, tentar entender uma herança enterrada debaixo de tantas outras coisas: olmecas, astecas, espanhóis, mexicanos. Como saber o que é verdadeiro? Como reivindicar isso para si?
Tive a sensação de que as perguntas eram retóricas e não exigiam respostas, o que achei ótimo. Eu não conseguia pensar direito com T.J. cantarolando “Rio”, do Duran Duran, e fazendo carinhas sorridentes na argila.
— Mas seu avô conseguiu — eu supus.
— Ele achava que sim. — Alex girou o torno de novo, passando uma esponja pelas laterais da escultura. — Eu também. Meu pai… — A expressão dela ficou amarga. — Bem, ele gostava de botar a culpa pelo… você sabe, pelo jeito que eu sou… em Loki. Ele não gostou nem um pouco quando passei a me afirmar pelo lado Fierro da família.
Meu cérebro parecia minhas mãos: com uma camada de argila por cima sugando toda a umidade.
— Desculpa, não entendi. O que isso tem a ver com guerreiros mágicos de cerâmica?
— Você vai ver. Pode pegar o celular aqui no meu bolso e ligar para a Sam? Conte tudo pra ela. E fique quieto para eu poder me concentrar.
Mesmo com ordens dela, tirar uma coisa do bolso da calça de Alex enquanto ela estava vestindo a tal calça parecia um bom jeito de acabar morto. Eu consegui, tendo só alguns pequenos ataques de pânico, e descobri que o celular tinha pacote de dados no Reino Unido. Algo que ela devia ter providenciado na mesma ocasião em que resolveu a questão do roubo do dinheiro.
Mandei uma mensagem para Samirah e contei tudo.
Alguns minutos depois, o celular vibrou com a resposta dela. OK. Boa sorte. Lutando. GTG.
Eu me perguntei se o GTG naquele contexto queria dizer got to goGunderson trucidando a garota ou gigantes torturando Gunderson. Decidi pensar de forma otimista e escolhi a primeira opção, em que ela quis dizer que precisava ir e não podia mais falar.
Conforme a tarde avançava, as mesas dos fundos foram ficando cheias de quadrados de porcelana que pareciam placas de armadura. Alex me ensinou a moldar os cilindros que serviriam de braços e pernas juntando os rolinhos. Os esforços dela no torno de cerâmica produziram pés, mãos e uma cabeça, todos em formato de vasos e decorados meticulosamente com runas vikings.
Ela passou horas trabalhando nos rostos; eram dois, lado a lado, como a obra de arte que o pai dela estilhaçou no meu sonho. O rosto da esquerda tinha pálpebras pesadas, olhos desconfiados, um bigode curvo de vilão de desenho animado e uma boca enorme fazendo careta. O rosto da direita era sorridente, tinha buracos ocos no lugar dos olhos e a língua para fora. Vendo os dois rostos juntos, não consegui deixar de pensar nos olhos de cores diferentes de Alex.
À noite, colocamos todas as peças do guerreiro de cerâmica em nossa mesa quádrupla, criando um Frankenstein de dois metros e meio, ainda meio desmontado.
— Bem. — T.J. enxugou a testa. — Essa coisa me daria medo se eu tivesse que enfrentá-la em batalha.
— Concordo — falei. — Por falar nisso, por que os dois rostos?
— É uma máscara. Meus ancestrais de Tlatilco faziam muitas figuras com duas faces ou um rosto com duas metades — explicou Alex. — Ninguém sabe exatamente por quê. Meu avô achava que representavam dois espíritos em um único corpo.
— Como meu velho amigo lenape Mãe William! — exclamou T.J. — Acho que as culturas no México também tinham argrs! — Ele se corrigiu rapidamente: — Digo, indivíduos trans, de gênero fluido.
Argr, o termo viking para alguém que muda de gênero, significava literalmente não másculo, que não era um termo aprovado por Alex.
Eu observei a máscara.
— Não me surpreende que o conceito de dualidade nesse tipo de arte chame a sua atenção. Seu avô… ele entendia quem você era.
— Entendia — concordou Alex — e respeitava. Quando ele morreu, meu pai se esforçou para desacreditar as ideias do meu abuelo, destruir a arte dele e me transformar em uma boa empresária. Eu não permiti.
Ela massageou a nuca, talvez tocando inconscientemente na tatuagem de oito feita de serpentes. Alex tinha aceitado sua habilidade de metamorfa e se recusava a deixar Loki estragar isso. Fez o mesmo com a cerâmica, apesar de seu pai ter transformado o negócio da família em algo que ela desprezava.
— Alex — falei —, quanto mais descubro sobre você, mais eu te admiro.
Pela expressão em seu rosto, Alex pareceu achar graça e ficar exasperada ao mesmo tempo, como se eu fosse um cachorrinho fofo que tinha acabado de fazer xixi no tapete.
— Guarde a admiração até eu poder dar vida a essa coisa. Esse é o verdadeiro truque. Enquanto isso, nós todos precisamos de um pouco de ar fresco. — Ela jogou outro bolo de dinheiro para mim. — Vamos jantar. Você paga.


9 comentários:

  1. Concordo com o magnus quanto mais descubro sobre o/a Alex mais gosto dele/dela (passei dois livros achando que os fierro eram italianos e agora o tio rick diz que eles são mexicanos? )

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    1. O Valdez tbm não era mexicano?

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    1. Finalmente um nome decente pra esse ship!!! Malex gostei e aprovei.

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    2. Eu achava que o shipp era FierroChase, mas Malex é mais legal

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  3. Tanto que os lábios dela ficaram vermelhos como os de um vampiro, o que achei perturbador e estranhamente fascinante ao mesmo tempo.


    Por favor Senhor Chase, concentre-se em fazer o Golem e cuidaremos dessa sua paixonite num futuro próximo

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    1. num futuro muito proximo ~moon face~

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    2. Espero que num futuro super próximo!!!

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  4. Como eu shippo Malex!!! Melhor-shipp-EVERRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRR

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Boa leitura :)