8 de outubro de 2017

Dezessete - Somos atacados por umas pedras

CASO ESTEJAM QUERENDO saber, a Velha York não se parece em nada com Nova York.
Parece mais velha.
Magnus Chase, mestre da descrição. De nada, pessoal.
Mestiço não ficou animado de voltar para seu antigo local de acampamento.
— Nenhuma cidade viking de respeito deveria ficar tão longe do mar — resmungou ele. — Não sei por que Ivar, o Sem-Ossos, quis vir para este lugar. Nós perdemos a manhã inteira só para chegar até aqui, quarenta quilômetros rio Ouse acima.
— Rio Onze? — perguntei.
— Ouse — corrigiu T.J., abrindo um sorriso. — Tipo “use” só que com um “O” na frente. Eu li sobre ele em um guia de viagens!
Estremeci. Que nome péssimo. Também achei perturbador que T.J. tivesse pesquisado tanto sobre a Inglaterra. Por outro lado, cento e cinquenta anos era bastante tempo para ficar em Valhala, e a biblioteca do hotel era impressionante.
Olhei para bombordo. Água verde suja envolvia nosso casco, a chuva pontilhando a superfície. A correnteza parecia viva demais, desperta demais. Por mais que Percy Jackson tivesse me treinado, eu não queria cair lá.
— Você também sente, não é? — Mestiço ergueu o machado como se estivesse pronto para partir para cima do Ouse. — Os vatnavaettir.
Mestiço disse a palavra como se a achasse verdadeiramente horrível, como covardia ou aparador de barba.
— O que são? — perguntei.
— E eles têm um nome mais pronunciável? — acrescentou Alex.
— São espíritos da natureza — explicou Mallory. — Nós temos lendas similares na Irlanda. Chamamos de each-uisge, cavalos d’água.
Mestiço fez um ruído de deboche.
— Os irlandeses têm lendas similares porque roubaram dos nórdicos.
— Mentira — rosnou Mallory. — Os celtas estiveram na Irlanda muito antes de vocês, vikings grosseirões, invadirem.
— Grosseirões? O reino viking de Dublin era o único que merece ser citado na sua ilha infeliz!
— Então… — Samirah se meteu entre os pombinhos. — Por que esses cavalos d’água são perigosos?
Mestiço franziu a testa.
— Bom, eles podem formar um bando e, se forem provocados, destruir nosso navio. Imagino que tenham se segurado até agora porque nunca se depararam com um barco amarelo antes. Além disso, se alguém for idiota o bastante para tocar neles…
— Eles grudam na pele — explicou Mallory —, arrastam a pessoa para o fundo do rio e a afogam.
As palavras dela fizeram meu estômago se contrair. Uma vez, fiquei grudado em uma águia mágica que me levou em um passeio de demolição pelos telhados de Boston. A ideia de ser arrastado para o fundo do Ouse pareceu ainda menos divertida.
Alex passou os braços em volta de Mallory e de Mestiço.
— Então tá. Parece que vocês dois são especialistas em cavalos d’água. Deviam ficar a bordo e defender o Bananão enquanto o restante de nós vai caçar gigantes!
— Hã — falei. — Eu posso transformar o navio em lenço…
— Nada disso! — retrucou Mestiço. — Não tenho desejo nenhum de botar o pé em Jórvík de novo. Eu nem seria útil. O lugar mudou muito em mil e duzentos anos. Vou ficar no navio, mas não preciso da ajuda de Mallory para defendê-lo.
— Ah, é? — Mallory olhou para ele com raiva, as mãos nos cabos das facas. — E por acaso você conhece canções em gaélico para acalmar os cavalos d’água? Eu não vou deixar este navio aos seus cuidados.
— Bom, e eu não vou deixar aos seus!
— Pessoal! — Samirah ergueu as mãos como uma juíza de boxe. Ela nunca gostou muito de xingar, mas tive a sensação de que estava lutando novamente com a regra de não falar palavrão do ramadã. Engraçado como isso funciona: assim que dizem que não podemos fazer uma coisa, sentimos um desejo absurdo de fazer. — Se vocês dois insistem em ficar a bordo — disse ela —, eu também vou ficar. Sou boa com cavalos. Posso voar se ficar encrencada. E, em um piscar de olhos — ela mexeu o pulso, fazendo a lança de luz aparecer —, posso explodir qualquer coisa que nos atacar. Ou posso explodir vocês dois se não se comportarem.
Mestiço e Mallory pareceram igualmente infelizes com essa decisão, o que significava que era um bom meio-termo.
— Você ouviu a moça — disse Alex. — O grupo em terra vai ser formado por mim, T.J. e Cara Louro.
— Excelente! — T.J. esfregou as mãos. — Mal posso esperar para agradecer aos britânicos!

* * *

T.J. não estava brincando.
Enquanto andávamos pelas ruas estreitas de York, debaixo de uma garoa fria e cinzenta, ele cumprimentava todo mundo que via e tentava apertar a mão das pessoas.
— Oi! — disse ele. — Sou de Boston. Obrigado por não apoiar a Confederação!
As reações dos moradores variavam de “Hã?” a “Sai pra lá!” a algumas expressões tão elaboradas que eu me perguntava se aquelas pessoas eram descendentes de Mestiço Gunderson.
T.J. não se deixou abater. Continuou andando, acenando e apontando.
— O que vocês precisarem! — oferecia ele. — Eu devo uma a vocês. — Ele sorriu para mim. — Amei este lugar. As pessoas são tão simpáticas.
— Aham. — Observei os telhados baixos, pensando que, se havia um gigante na cidade, eu deveria conseguir vê-lo. — Se você fosse um jötunn em York, onde estaria escondido?
Alex parou na frente de várias placas de rua. Com o cabelo verde aparecendo embaixo do capuz da capa de chuva amarela, ela parecia a garota-propaganda de uma marca de peixe frito.
— Talvez a gente possa começar aqui. — Ela apontou para a placa do alto. — O Centro Viking de Jórvík.
Parecia um plano tão bom quanto qualquer outro, principalmente porque não conseguimos pensar em mais nada.
Nós seguimos as placas, serpenteando pelas ruas estreitas e sinuosas com casas de tijolos, pubs e lojas. Podia ser o bairro North End de Boston, só que York era uma mistura histórica ainda maior. Tijolos vitorianos dividiam espaço com pedras medievais, que davam lugar a mansões elisabetanas, que ficavam ao lado de um salão de bronzeamento artificial que oferecia vinte minutos por cinco libras.
Vimos muitas pessoas no caminho. O trânsito estava leve. Eu me perguntei se era feriado ou se os moradores teriam ouvido falar do navio viking amarelo invadindo pelo rio Ouse e fugido para as colinas.
Eu decidi que era melhor assim. Se houvesse mais ingleses para cumprimentar, T.J. teria nos atrasado.
Seguimos por uma rua chamada Shambles, que significa bagunça, o que me pareceu uma boa descrição, mas uma péssima propaganda. A rua em si tinha a largura ideal para uma bicicleta passar, supondo que o ciclista fosse magro. As casas ocupavam a calçada em ângulos doidos, como em uma casa de espelhos de parque de diversões, e cada andar era um pouco maior do que o de baixo, dando a impressão de que o bairro inteiro ia desabar se déssemos um passo em falso. Mal consegui respirar até sairmos em uma avenida mais ampla.
Por fim, as placas nos levaram a uma área comercial, onde um prédio baixo de tijolos estava coberto de faixas verdes: VIKINGS! HISTÓRIA VIVA! EMOÇÃO! UMA EXPERIÊNCIA TOTALMENTE INTERATIVA!
Tudo isso pareceu ótimo, exceto pela placa na entrada: FECHADO.
— Ah. — T.J. testou a maçaneta. — Devemos invadir?
Eu não via de que isso adiantaria. O lugar era um museu para turistas, obviamente. Por melhor que a experiência interativa fosse, seria uma decepção depois de morar em Valhala. Eu também não precisava de parafernália viking da loja de souvenirs. Meu pingente de runa/espada falante era suficiente.
— Pessoal — disse Alex, a voz tensa —, aquela parede se mexeu?
Segui o olhar dela. Do outro lado da praça, havia ruínas de blocos de pedra calcária que podia ter sido parte de um castelo ou do antigo muro da cidade. Pelo menos foi o que pensei até a pilha de pedras se mexer.
Eu já tinha visto Samirah sair de debaixo do hijab de camuflagem algumas vezes. Parecia que ela tinha saído de um tronco de árvore ou de uma parede branca ou da vitrine do Dunkin’ Donuts. A visão das pedras me deu a mesma sensação de vertigem.
Minha mente precisou reprocessar o que eu estava vendo: não um pedaço de muro em ruínas, mas um gigante de seis metros de altura cuja aparência imitava perfeitamente a pedra calcária. A pele áspera era marrom e bege e cheia de bolinhas como a do monstro-de-gila. Havia pedregulhos grudados na barba e no cabelo comprido e desgrenhado. Ele usava uma túnica e uma calça de tecido grosso, o que apenas complementava o visual de muro da fortaleza.
Eu não fazia ideia de por que ele estava encostado no mercado. Cochilando? Mendigando? Gigantes mendigavam?
Ele fixou os olhos âmbar em nós, a única parte dele que parecia viva.
— Ora, ora — ribombou o gigante. — Estou esperando há séculos que vikings apareçam no Centro Viking. Mal posso esperar para matar vocês!
— Boa ideia, Alex — balbuciei. — Vamos seguir as placas até o Centro Viking. Viva.
Pela primeira vez, ela não teve resposta mordaz. Só olhou para o gigante, a boca aberta, o capuz da capa de chuva escorregando para trás.
O rifle de T.J. tremia nas mãos dele como vara verde.
Eu não me sentia muito mais corajoso. Claro que já tinha visto gigantes mais altos. Já tinha visto gigantes na forma de águia, gigantes do fogo, gigantes bêbados e gigantes usando camisas ridículas de boliche. Mas nunca vira um gigante da pedra aparecer bem na minha frente e declarar com alegria que queria me matar.
De pé, os ombros ficavam na altura dos telhados das casas de dois andares à nossa volta. Os poucos pedestres simplesmente o contornavam como se ele fosse uma construção inconveniente.
Ele puxou o poste mais próximo e o arrancou do chão junto com um pedaço da calçada. Só quando o apoiou no ombro foi que percebi que era a arma dele: um martelo com a cabeça do tamanho de uma piscininha de plástico.
— Os vikings já foram mais sociáveis — ribombou ele. — Pensei que eles voltariam ao centro comunitário para julgamentos por combate. Ou pelo menos para jogar bingo! Mas vocês são os primeiros que vejo em… — Ele inclinou a cabeça descabelada, um gesto que pareceu uma avalanche de sheepdogs. — Por quanto tempo eu fiquei sentado aqui? Devo ter cochilado! Ah, bom. Digam seus nomes, guerreiros. Eu gostaria de saber quem vou matar.
Nesse momento, eu teria gritado: Reivindico direitos de convidados! Mas, infelizmente, não estávamos dentro da casa do gigante. Eu duvidava de que direitos de convidados se aplicassem a uma rua pública em uma cidade humana.
— Você é o gigante Hrungnir? — perguntei, torcendo para parecer mais confiante do que desesperado. — Sou Magnus Chase. Estes são Thomas Jefferson Jr. e Alex Fierro. Nós viemos negociar com você!
O colosso de pedra descabelado olhou de um lado para outro.
— Claro que sou Hrungnir! Você está vendo algum outro gigante da pedra por aqui? Infelizmente, matar vocês não é negociável, pequeno einherji, mas podemos discutir os detalhes, se quiser.
Engoli em seco.
— Como você sabia que somos einherjar?
Hrungnir sorriu, os dentes pareciam as muralhas de um castelo.
— Vocês têm cheiro de einherjar! Agora, vamos lá. O que vocês queriam negociar? Uma morte rápida? Morte por esmagamento? Talvez uma linda morte sendo pisoteados e depois serem raspados da sola do meu sapato!
Eu olhei para T.J., que balançou a cabeça vigorosamente. O sapato não!
Alex ainda não tinha se movido. Eu só sabia que ela estava viva porque piscou para tirar a chuva dos olhos.
— Ó, Grande e Bege Hrungnir — falei —, nós procuramos a localização do hidromel de Kvásir!
Hrungnir franziu a testa, as sobrancelhas pedregosas se erguendo, os lábios de tijolos formando um arco.
— Ora, ora. Estão dando uma de Odin, é? O velho truque de Bolverk?
— Hã… talvez.
— Eu poderia dar essa informação. Eu estava com Baugi e Suttung quando eles guardaram o hidromel no novo esconderijo — disse o gigante depois de rir.
— Certo. — Acrescentei silenciosamente Baugi Suttung à minha lista mental de “coisas que não faço a menor ideia do que sejam”. — Foi sobre isso que viemos negociar. A localização do hidromel!
Percebi que já tinha dito isso.
— Qual é seu preço, ó, Poderoso Ser Bege?
Hrungnir coçou a barba, fazendo com que pedras e poeira caíssem na frente da túnica.
— Para eu considerar essa troca, suas mortes teriam que ser muito divertidas. — Ele olhou T.J., depois a mim e, por fim, seus olhos encontraram Alex Fierro. —Ah. Você tem cheiro de argila! Tem as habilidades necessárias, não tem?
Eu olhei para Alex.
— Habilidades necessárias?
— Tenho, sim — concordou Alex.
— Excelente! — trovejou Hrungnir. — Faz séculos que os gigantes da pedra não encontram um oponente digno para um duelo tradicional dois contra dois! Uma luta até a morte! Vamos marcar para amanhã ao amanhecer?
— Opa, calma aí — falei. — Nós não podemos fazer uma competição de cura?
— Ou jogar bingo — propôs T.J. — Bingo é legal.
— Não! — gritou Hrungnir. — Meu nome significa brigão, pequeno einherji. Você não vai roubar uma boa luta de mim! Nós vamos seguir as antigas regras de combate. Eu contra… Hum…
Eu não queria me oferecer, mas tinha visto Jacques acabar com gigantes maiores do que aquele cara. Levantei a mão.
— Tudo bem, eu…
— Não, você é magrelo demais. — Hrungnir apontou para T.J. — Eu te desafio!
— E eu ACEITO! — gritou T.J.
E piscou, como se pensando Valeu mesmo, pai.
— Que bom — disse o gigante. — E meu segundo vai lutar com o segundo de vocês, que vai ser feito por ela!
Alex cambaleou para trás como se tivesse sido empurrada.
— Eu… não posso. Eu nunca…
— Ou eu posso matar os três agora — disparou Hrungnir. — Aí vocês não vão ter chance de encontrar o hidromel de Kvásir.
Minha boca parecia tão cheia de poeira quanto a barba do gigante.
— Alex, do que ele está falando? O que você tem que fazer?
Pela expressão temerosa nos olhos dela, percebi que ela entendia a exigência de Hrungnir. Eu só a tinha visto nervosa assim uma vez: no primeiro dia em Valhala, quando achou que fosse ficar presa no mesmo gênero por toda a eternidade.
— Eu… — Ela umedeceu os lábios. — Tudo bem. Eu faço.
— É assim que se fala! — exclamou Hrungnir. — Quanto ao lourinho aqui, acho que ele pode ser o garoto que traz água. Bom, vou lá fazer meu segundo. Vocês deviam fazer o mesmo. Vamos nos encontrar amanhã ao amanhecer em Konungsgurtha!
O gigante se virou e saiu andando pelas ruas de York, os pedestres saindo do caminho como se ele fosse um ônibus desgovernado.
Eu me virei para Alex.
— O que você acabou de aceitar fazer?
O contraste entre os olhos heterocromáticos pareceu ainda maior do que o habitual, como se o mel e o castanho estivessem se separando, se acumulando à esquerda e à direita.
— Precisamos encontrar um estúdio de cerâmica — disse ela. — E rápido.


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Boa leitura :)