8 de outubro de 2017

Dezesseis - Homem de cuspe vs. serra elétrica. Adivinhem quem ganhou?

EU ESTAVA AO lado de quatro deuses no cume de uma colina, próximo das ruínas de uma cabana de sapê. Odin apoiava-se em um cajado grosso de carvalho, os elos da cota de malha cintilando embaixo da capa azul de viagem. Uma lança estava presa nas costas. Havia uma espada pendurada na cintura. Seu único olho brilhava por baixo do chapéu azul de abas largas. Com a barba grisalha, o tapa-olho e as armas variadas, ele parecia um homem incapaz de decidir se ia para uma festa de Halloween de bruxo ou de pirata.
Ao lado dele encontrava-se Heimdall, o guardião da ponte Bifrost. Os smartphones ainda não deviam ter sido inventados, porque ele não estava tirando fotos a cada cinco segundos. O deus usava uma armadura branca de lã grossa, com duas espadas cruzadas presas nas costas. Gjallar, a Trombeta do Juízo Final, estava pendurada no cinto, o que não me pareceu muito seguro. Qualquer um poderia ter surgido por trás dele, soprado a trombeta e começado o Ragnarök de bobeira.
O terceiro deus, Frey, meu pai, estava ajoelhado ao lado das cinzas de uma fogueira. Ele usava uma calça jeans surrada e uma camisa de flanela, apesar de eu não entender como aquelas roupas já podiam ter sido inventadas. Talvez Frey, na verdade, tivesse sido o primeiro criador de tendências dos nove mundos. O cabelo louro caía até os ombros. A barba volumosa brilhava à luz do sol. Se houvesse justiça no mundo, Thor, o deus do trovão, teria esta aparência: louro, bonito e majestoso, e não a máquina de peido ruiva e musculosa que eu tivera o desprazer de conhecer.
O quarto deus eu não conhecia, mas reconheci da demonstração holográfica de Njord: Kvásir, o tratado de paz ambulante entre os aesires e vanires. Ele era um homem bonito considerando que se originou de cuspe divino. O cabelo e a barba, ambos pretos e encaracolados, balançavam na brisa. Estava envolto em um manto comprido, o que lhe dava um ar de mestre Jedi. Ele se ajoelhou ao lado do meu pai, os dedos pairando acima dos restos queimados da fogueira.
Odin se inclinou na direção dele.
— O que você acha, Kvásir?
Aquela pergunta por si só me mostrou quanto os deuses respeitavam Kvásir. Normalmente, Odin não pedia a opinião de ninguém. Ele só dava respostas, normalmente na forma de enigmas ou apresentações de Power Point.
Kvásir tocou nas cinzas.
— É uma fogueira de Loki, com certeza. Ele esteve aqui recentemente. Ainda está na região.
Heimdall observou o horizonte.
— Não o vejo em um raio de oitocentos quilômetros, a não ser que… Não, é um irlandês com um belo corte de cabelo.
— Nós temos que capturar Loki — resmungou Odin. — Aquele vitupério foi a gota d’água. Ele precisa ser preso e punido!
— Uma rede — anunciou Kvásir.
Frey franziu a testa.
— Como assim?
— Está vendo? Loki decidiu queimar as provas. — Kvásir mostrou um padrão de linhas cruzadas em meio às cinzas que mal dava para identificar. — Ele estava tentando prever nossos atos, considerando todas as formas pelas quais poderíamos capturá-lo. Ele teceu uma rede e, logo em seguida, a queimou.
Kvásir se levantou.
— Cavalheiros, Loki se disfarçou de peixe. Nós precisamos de uma rede!
Os outros pareceram impressionados, como quem diz: Como você fez isso, sr. Holmes?
Achei que Kvásir ia gritar Elementar, meus caros!, mas ele disse apenas:
— Para o rio mais próximo!
E saiu andando, os outros deuses correndo atrás dele.
Meu sonho mudou. Tive vislumbres da vida de Kvásir enquanto viajava pelos nove mundos, oferecendo conselhos sobre tudo, desde a melhor época para o cultivo a como preencher corretamente a declaração de imposto de renda. Todos os mortais o amavam. Em todas as cidades, castelos e vilarejos ele era recebido como herói.
Certo dia, depois de preencher um formulário particularmente difícil de imposto de renda para uma família de gigantes, ele estava na estrada para Midgard quando foi parado por um par de anões; sujeitinhos franzinos, peludos e cheios de verrugas com sorrisos maliciosos. Infelizmente, eu os reconheci: os irmãos Fjalar e Gjalar. Uma vez, eles me venderam um passeio de barco só de ida. De acordo com Blitzen, eles também eram ilustres ladrões e assassinos.
— Olá! — disse Fjalar do alto de uma rocha. — Você deve ser o famoso Kvásir!
Ao lado dele, Gjalar acenou com entusiasmo.
— Que sorte! Nós ouvimos muitos elogios sobre você!
Kvásir, o ser mais inteligente já criado, deveria ter tido sabedoria suficiente para dizer Sinto muito, não estou interessado em comprar nada e continuar andando.
Infelizmente, Kvásir também era gentil, então ele apenas levantou a mão em cumprimento.
— Oi, bons anões! Sou mesmo Kvásir. Como posso ajudar?
Fjalar e Gjalar trocaram olhares, como se não conseguissem acreditar na sorte.
— Hã, bom, você pode ser nosso convidado para o jantar!
Gjalar indicou uma colina próxima, onde a entrada de uma caverna estava protegida por uma cortina de couro meio rasgada.
— Nós não estamos interessados em assassinar você — prometeu Fjalar.
— Nem em roubar suas coisas. Muito menos em drenar seu sangue, que deve ter propriedades mágicas incríveis. Nós só queremos oferecer nossa hospitalidade!
— Agradeço imensamente — disse Kvásir. — Mas sou esperado em Midgard hoje. Muitos humanos precisam da minha ajuda.
— Ah, entendi — comentou Fjalar. — Você gosta de… ajudar. — Ele falou isso da forma como alguém diria Você gosta de carne crua. — Bom, na verdade, nós estamos tendo uma dificuldade enorme de, hã, fazer nosso fluxo de caixa.
Kvásir franziu a testa em solidariedade.
— Entendi. Pode ser mesmo difícil.
— Sim! — Gjalar uniu as mãos. — Você pode nos ajudar, ó, Sábio?
Foi como aquela parte em todos os filmes de terror em que a plateia grita: Não faça isso! Mas a compaixão de Kvásir superou toda a sua sabedoria.
— Muito bem — disse o deus. — Me mostrem todos os recibos!
Ele seguiu os anões para a caverna.
Eu queria correr atrás dele, avisar o que ia acontecer, mas meus pés ficaram grudados no chão. Dentro da caverna, Kvásir começou a gritar. Alguns momentos depois, ouvi o som de uma serra elétrica, depois um líquido sendo derramado em um grande caldeirão. Se eu fosse capaz de vomitar dormindo, teria vomitado.
A cena mudou uma última vez.
Eu me vi no jardim de uma mansão de três andares, em uma fileira de casas coloniais de frente para um parque. Devia ser Salém ou Lexington, uma daquelas cidades sossegadas pré-revolucionárias perto de Boston. Colunas pintadas de branco ladeavam a entrada da casa. Arbustos de madressilva exalavam um perfume doce. Uma bandeira americana tremulava na varanda. A cena era tão bucólica que poderia ser Álfaheim se a luz do sol fosse um pouco mais intensa.
A porta da frente se abriu, e uma figura magra rolou pelos degraus de tijolo como se tivesse sido jogada.
Alex Fierro parecia ter uns quatorze anos, talvez dois ou três anos a menos de quando a conheci. Um filete de sangue escorria de sua têmpora esquerda. Ela engatinhou pela calçada, as palmas das mãos raladas da queda deixando manchas de sangue no cimento como uma pintura com esponja.
Ela não parecia assustada, e sim amarga e fervendo de raiva, com lágrimas de frustação nos olhos.
Na porta da casa, um homem de meia-idade apareceu: cabelo curto e preto com fios grisalhos, calça preta sem vincos, sapatos pretos engraxados, uma camisa branca tão engomada e imaculada que meus olhos doeram. Imaginei Blitzen dizendo: Você precisa de um toque de cor, meu amigo!
O homem era bem parecido com Alex. O rosto era bonito da mesma forma angulosa, como um diamante que se pode admirar, mas não tocar sem se cortar. Ele não deveria ser assustador. Não era grande nem forte nem tinha aparência violenta. Vestia-se como um banqueiro. Mas havia algo de apavorante em seus dentes cerrados, na intensidade do olhar, na forma como os lábios tremiam, como se ele ainda não tivesse dominado as expressões humanas. Tive vontade de ficar entre ele e Alex, mas não consegui me mexer. Em uma das mãos, o homem segurava um objeto de cerâmica do tamanho de uma bola de futebol americano; algo ovoide marrom e branco. Vi que era um busto com dois rostos diferentes lado a lado.
— NORMAL! — O homem jogou a escultura de cerâmica na direção de Alex. Quebrou-se na calçada. — É só o que quero de você! Que seja normal! É pedir muito?
Alex finalmente conseguiu se levantar. Ela encarou o pai. Uma saia malva caía até a altura dos joelhos por cima de uma legging preta. A blusa verde sem mangas não a protegeu durante a queda. Os cotovelos pareciam ter sido esfolados por um batedor de carne. O cabelo estava mais comprido do que eu já tinha visto, um rabo de cavalo verde saindo das raízes pretas como uma chama da lareira de Aegir.
— Eu sou normal, pai. — Ela pronunciou a palavra como se fosse o insulto mais distorcido em que conseguiu pensar.
— Chega de ajuda. — O tom dele era duro e frio. — Chega de dinheiro.
— Eu não quero o seu dinheiro.
— Ah, ótimo! Porque ele vai todo para os meus verdadeiros filhos. — Ele cuspiu nos degraus. — Você tinha tanto potencial. Entendia o ofício quase tão bem quanto seu avô. E olhe só para você agora.
— A arte — corrigiu Alex.
— O quê?
— É uma arte, não um ofício.
O pai dela acenou com nojo para as peças quebradas de cerâmica.
— Isso não é arte. É lixo.
O sentimento estava claro, mesmo ele não precisando dizer em voz alta: Você também escolheu ser lixo.
Alex olhou com raiva para o pai. O ar entre eles se tornou seco e amargo. Cada um parecia estar esperando o outro fazer um gesto definitivo: pedir desculpas e ceder ou cortar os laços para sempre.
Alex não obteve a opção que queria.
O pai dela balançou a cabeça com consternação, como se não conseguisse acreditar que sua vida tinha chegado àquele ponto. Em seguida, se virou e entrou, batendo a porta.
Eu acordei com um baque.
— Que foi?!
— Relaxa, dorminhoco.
Alex Fierro estava de pé olhando para mim. Era a Alex do presente, usando uma capa de chuva de um amarelo tão forte que me perguntei se nosso navio tinha começado a assimilá-la. O som alto que me despertou do sonho foi ela largando um cantil cheio ao lado da minha cabeça. Ela jogou uma maçã no meu peito.
— Café da manhã — disse Alex. — E almoço também.
Esfreguei os olhos. Ainda conseguia ouvir a voz do pai dela e sentir o cheiro das madressilvas do jardim.
— Quanto tempo fiquei apagado?
— Umas dezesseis horas. Não aconteceu muita coisa, então deixamos você dormir. Mas agora, está na hora.
— De quê?
Eu me sentei no saco de dormir. Meus amigos andavam pelo convés, amarrando cordas e prendendo remos. Uma garoa gelada caía ao nosso redor. Nosso navio estava ancorado em uma margem de pedra, em um rio com casas de tijolo nas margens, não muito diferentes das de Boston.
— Bem-vindo a Jórvík. — Mestiço parecia infeliz. — Ou, como os mortais modernos chamam, York, na Inglaterra.


5 comentários:

  1. Damon Herondale(filho de Zeus)14 de outubro de 2017 21:18

    Kvásir me lembrou Osíris: um cara que foi iludido facilmente e isso causou sua morte

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    1. Não dá nem pra disser que Kvásir foi iludido por os filhos da P**A dos anões disseram o que iriam fazer com ele... mas ainda é meio triste, porque Kvásir parecia ter a inocência de uma boa criança, sem maldade alguma.

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  2. Muito tensa essa história da Alex. Triste 😭.

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  3. Serra elétrica. No tempo dos vikings. Okay, supernormal.

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Boa leitura :)