8 de outubro de 2017

Dezenove - Eu vou a um aquecimento zumbi

JANTAMOS OS TRADICIONAIS fish and chips em um lugar chamado Mr. Chippy. T.J. achou o nome hilário. Enquanto comíamos, ele ficava dizendo “MR. CHIPPY!” com uma voz alta e alegre, o que não teve graça para o cara da caixa registradora.
Depois, voltamos para o estúdio de cerâmica para passarmos a noite. T.J. sugeriu nos juntarmos ao restante da tripulação no navio, mas Alex insistiu que precisava ficar de olho no guerreiro de cerâmica.
Ela mandou uma mensagem para atualizar Sam.
A resposta de Sam: Beleza. Tudo bem por aqui. Lutando com cavalos d’água.
Lutando com cavalos d’água foi escrito com emojis: um punho, uma onda, um cavalo. Achei que Sam já devia ter lutado com tantos que decidiu abreviar.
— Você também arrumou um plano de dados internacional para ela — eu observei.
— Ah, sim — disse Alex. — Tenho que manter contato com a minha irmã.
Eu queria perguntar por que não fez o mesmo para mim, mas então lembrei que não tenho celular. A maioria dos einherjar não se dava ao trabalho. Primeiro, arrumar um número e pagar a conta era difícil quando se estava oficialmente morto. Além do mais, nenhum plano de dados cobria o resto dos nove mundos. E o sinal era horrível em Valhala. Acreditava que a culpa fosse dos telhados de escudos de ouro. Apesar disso tudo, Alex insistia em ter celular. Como ela conseguia isso eu não fazia ideia. Talvez Samirah a tivesse registrado em algum plano familiar do tipo viva&morta.
Assim que chegamos ao estúdio, Alex foi conferir o projeto. Eu não sabia se ficava aliviado ou decepcionado pelo guerreiro não ter se montado e ganhado vida ainda.
— Daqui a algumas horas eu checo novamente — disse ela. — Agora vou…
Ela cambaleou até a única poltrona confortável da sala, uma poltrona reclinável suja de argila do proprietário, apagou e começou a roncar. E como roncava! T.J. e eu decidimos dormir no depósito, onde estaríamos mais protegidos da versão Alex de um cortador de grama moribundo.
Improvisamos colchões com lonas. T.J. limpou o rifle e amolou a baioneta, seu ritual noturno. Eu me deitei e fiquei observando a chuva cair na claraboia. Havia um ponto no vidro pelo qual a chuva vazava, pingando sobre as prateleiras de metal e enchendo o aposento com um cheiro de ferrugem úmida, mas não me importei. Fiquei agradecido pelo barulho constante.
— O que vai acontecer amanhã? — perguntei a T.J. — Digo, exatamente o quê?
T.J. riu.
— Exatamente? Vou lutar com um gigante de seis metros de altura até um de nós morrer ou não poder lutar mais. Enquanto isso, o guerreiro de cerâmica do gigante vai lutar com o guerreiro de cerâmica de Alex até um deles virar pó. Alex, não sei, deve ficar lá torcendo pela criação dela, eu acho. Você me cura se puder.
— Isso é permitido?
T.J. deu de ombros.
— Até onde eu sei, qualquer coisa é permitida a você e Alex desde que não participem da luta.
— Não incomoda você que seu oponente seja pelo menos quatro metros mais alto?
T.J. empertigou as costas.
— Ei, eu não sou tão baixo assim! Tenho quase um metro e oitenta!
— Como você pode estar tão calmo?
Ele inspecionou a lâmina da baioneta, segurando perto do rosto de forma a parecer cortar sua face ao meio como uma máscara dupla.
— Eu já venci as probabilidades tantas vezes, Magnus. Na ilha James, Carolina do Sul, eu estava ao lado de um amigo meu, Joe Wilson, quando um atirador rebelde… — Ele fez uma arma com os dedos e puxou o gatilho. — Podia ter sido eu. Podia ter sido qualquer um de nós. Eu caí no chão, rolei e olhei para o céu, até que uma sensação de calma tomou conta de mim. Eu não senti mais medo.
— É, o nome disso é estado de choque.
Ele balançou a cabeça.
— Não, eu vi as valquírias, Magnus. Mulheres em cavalos alados circulando nosso regimento. Finalmente acreditei no que minha mãe sempre me contou, sobre meu pai ser Tyr. Aquelas histórias malucas sobre deuses nórdicos em Boston. Naquele momento, eu decidi… que tudo bem. O que quer que acontecesse, tanto faz. Se meu pai é o deus da coragem, seria melhor que eu o deixasse orgulhoso.
Eu não sabia qual seria minha reação. Estava feliz de ter um pai que sentia orgulho de mim por curar pessoas, gostar de estar na natureza e tolerar sua espada falante.
— Você já conheceu seu pai? — perguntei. — Foi ele quem deu essa baioneta pra você, não foi?
T.J. enrolou a lâmina no tecido de camurça como se a estivesse colocando para dormir.
— A baioneta estava me esperando quando cheguei em Valhala. Eu nunca vi Tyr cara a cara. — T.J. deu de ombros. — Mesmo assim, cada vez que aceito um desafio, eu me sinto mais próximo dele. Quanto mais perigoso, melhor.
— Deve estar se sentindo superpróximo dele agora — supus.
T.J. sorriu.
— É. Bons momentos.
Eu me perguntei como um deus podia ficar cento e cinquenta anos sem reconhecer um filho corajoso como T.J., mas meu amigo não era o único. Eu sabia de vários einherjar que não conheciam os pais. Falar com os filhos pelo Facetime não era prioridade para deidades nórdicas, talvez por terem centenas ou milhares de filhos. Ou talvez porque os deuses sejam uns cretinos.
T.J. se deitou no colchão de lona.
— Agora eu tenho que decidir como matar aquele gigante. Acho que um ataque frontal direto não vai dar certo.
Para um soldado da Guerra Civil, até que ele estava pensando fora da caixinha.
— E qual é seu plano? — perguntei.
— Não faço ideia! — Ele puxou o quepe do Exército da União sobre os olhos. — Talvez alguma coisa me ocorra nos sonhos. Boa noite, Magnus.
E então T.J. começou a roncar quase tão alto quanto Alex.
Não havia como escapar.
Fiquei deitado, me perguntando como Sam, Mestiço e Mallory estavam, a bordo do navio. Também questionei por que Blitzen e Hearthstone ainda não tinham voltado e por que estavam demorando cinco dias só para descobrir a localização de uma pedra de amolar. Njord tinha prometido que eu os veria de novo antes de as coisas realmente perigosas acontecerem. Eu deveria tê-lo feito jurar por seus pés imaculadamente cuidados.
Mas minha principal preocupação era com meu duelo iminente com Loki: uma competição de insultos com a deidade nórdica mais eloquente de todas. O que eu tinha na cabeça? Por mais mágico que fosse o hidromel de Kvásir, como isso poderia me ajudar a vencer Loki em seu próprio jogo?
Sem pressão, claro. Se eu perder serei reduzido a uma sombra de mim mesmo e aprisionado em Helheim enquanto todos os meus amigos morrem e o Ragnarök destrói os nove mundos. Talvez eu pudesse comprar um livro de insultos vikings na loja de souvenirs do Centro Viking.
T.J. seguiu roncando. Eu admirava a coragem e a positividade dele. Questionava se teria um décimo dessa presença de espírito quando tivesse que enfrentar Loki. Minha consciência respondeu NÃO! e começou a chorar compulsivamente.
Graças ao barulho da chuva, finalmente consegui dormir, mas meus sonhos não foram relaxantes nem tranquilizadores.
Eu me vi novamente em Naglfar, o navio dos mortos. Grupos de draugrs andavam de um lado para outro do convés, trapos e armaduras mofadas pendurados aos corpos, as lanças e espadas corroídas como fósforos queimados. Os espíritos dos guerreiros tremulavam dentro das caixas torácicas como chamas azuis agarrando-se aos restos da lenha. Milhares e milhares se arrastavam na direção do convés frontal, onde, penduradas nos mastros, faixas pintadas à mão oscilavam ao vento gelado: ANIMAÇÃO, GALERA! VAMOS NESSA, DRAUGR! RAGNARÖK AND ROLL! e outros slogans tão horrendos que só podiam ter sido escritos pelos mortos desonrados.
Não avistei Loki. Mas, de pé no leme, em uma plataforma feita de unhas de homens mortos, havia um gigante tão velho que eu quase achei que pudesse ser um dos mortos-vivos. Eu nunca o tinha visto, mas ouvira histórias sobre ele: Hrym, o capitão do navio. O nome queria dizer decrépito. Tinha braços nus dolorosamente magros. Fiapos de cabelo branco saíam de sua cabeça áspera como estalactites, me fazendo pensar em imagens de homens pré-históricos encontrados em geleiras derretendo. Pelos brancos e mofados cobriam seu corpo maltratado.
Mas os pálidos olhos azuis estavam muito vivos. Hrym não podia ser tão frágil quanto parecia. Em uma das mãos, segurava um machado maior do que ele. Na outra havia um escudo feito do esterno de algum animal enorme cujo espaço entre as costelas fora preenchido com folhas de ferro.
— Soldados de Helheim! — gritou o gigante. — Vejam!
Ele indicou o outro lado da água cinzenta. No extremo oposto da baía, os penhascos glaciais desmoronavam cada vez mais rápido, o gelo estalando e provocando um som de artilharia distante ao cair no mar.
— Em breve o caminho vai estar livre! — gritou o gigante. — E aí partiremos em batalha! Morte aos deuses!
O grito soou em volta de mim: as vozes vazias e cheias de ódio dos mortos se juntando ao canto.
Misericordiosamente, meu sonho mudou. De repente eu estava em um campo de trigo recém-arado em um dia quente de sol. Ao longe, flores silvestres cobriam as colinas verdejantes. Mais além, cachoeiras brancas e leitosas caíam pelas laterais de montanhas pitorescas.
Parte do meu cérebro pensou: Finalmente um sonho agradável! Estou em um comercial de pão integral orgânico!
Mas um velho de vestes azuis veio andando na minha direção. As roupas estavam rasgadas e manchadas em virtude de uma longa viagem. Um chapéu de aba larga cobria seu rosto, mas eu via a barba grisalha e o sorriso cheio de segredos.
Quando chegou perto de mim, o homem ergueu o rosto e revelou um único olho que brilhava com malícia. A outra órbita era escura e vazia.
— Sou Bolverk — disse ele, embora eu obviamente soubesse que se tratava de Odin. Fora o disfarce nem um pouco criativo, quando se ouvia Odin fazer um discurso sobre as melhores práticas dos berserkir, era impossível esquecer sua voz. — Vim propor a você o melhor acordo da sua vida.
Então ele tirou de debaixo da capa um objeto do tamanho de um queijo redondo, coberto por um pano. Eu estava com medo de ser uma das coleções de CDs motivacionais de Odin, mas, aberto o embrulho, revelou-se uma pedra de amolar de quartzo cinza. A visão me fez lembrar o martelo de Hrungnir, só que menor e bem menos pesado.
Odin/Bolverk me ofereceu o objeto.
— Você vai pagar o preço?
De repente, ele tinha sumido. À minha frente estava um rosto tão grande que eu não conseguia identificar tudo à primeira vista: olhos verdes brilhantes com fendas verticais no lugar de pupilas, narinas encouraçadas de onde escorria muco. O fedor de ácido e carne podre fez meus pulmões arderem. A boca da criatura se abriu e revelou fileiras de dentes triangulares irregulares prontos para me retalhar e… imediatamente me sentei na cama de lona, gritando.
Acima de mim, uma suave luz cinza entrava pela claraboia. A chuva tinha passado. T.J. estava sentado à minha frente, comendo um bagel e usando óculos estranhos. Cada lente tinha um centro claro, envolto em um anel de vidro âmbar, fazendo T.J. parecer que tinha adquirido um segundo par de íris.
— Finalmente acordou! — comentou ele. — Teve pesadelos, é?
Meu corpo todo parecia tremer, como uma máquina de lavar antiga.
— O q-que está acontecendo? — perguntei. — Qual é a dos óculos?
Alex Fierro apareceu na porta.
— Um grito agudo assim só podia ser do Magnus. Ah, que bom que você acordou. — Ela jogou um saco de papel pardo com cheiro de alho na minha direção. — Vamos. O tempo está voando.
Alex nos conduziu ao estúdio, onde o sujeito de cerâmica com duas caras ainda estava em pedaços. Ela contornou a mesa, conferindo seu trabalho e assentindo com satisfação, apesar de eu não conseguir ver qualquer mudança desde a última vez.
— Ótimo! Ok. Está tudo certo.
Abri o saco de papel e franzi a testa.
— Você deixou um bagel de alho pra mim?
— O último a acordar fica com a sobra — disse Alex.
— Vou ficar com um hálito horroroso.
— Mais horroroso — corrigiu Alex. — Mas tudo bem, não é? Porque eu não vou beijar você. Você vai beijar o Magnus, T.J.?
— Não estava nos meus planos.
T.J. colocou o restante do bagel na boca e sorriu.
— Eu… eu não falei nada sobre… — gaguejei. — Eu não quis dizer… — Meu rosto parecia coberto de formigas. — Deixa pra lá. T.J., por que você está com esses óculos, afinal?
Eu era ótimo em mudar o assunto da conversa quando estava constrangido. Era um dom.
T.J. balançou os óculos novos.
— Você ajudou a ativar minha memória, Magnus, quando falamos do atirador ontem à noite! Depois sonhei com Hrungnir e os olhos âmbar esquisitos dele e me vi rindo e atirando nele. Quando acordei, lembrei que tinha colocado os óculos na minha bolsa. Havia me esquecido completamente deles!
Parecia que T.J. tinha sonhos bem melhores do que eu, o que não era surpresa.
— São óculos de atirador de elite — explicou ele. — Era o que usávamos antes de inventarem as miras. Comprei este par em Valhala uns cem anos atrás, eu acho, então tenho quase certeza de que é mágico. Mal posso esperar para experimentar!
Eu duvidava de que Hrungnir fosse ficar parado enquanto T.J. atirava nele de uma distância segura. Também duvidava de que qualquer um de nós fosse rir muito hoje. Mas não queria estragar a animação pré-combate de T.J.
Eu me virei para o guerreiro de cerâmica.
— E em que pé estamos com nosso carinha da Pottery Barn? Por que ele ainda está em pedaços?
Alex abriu um sorriso.
— Pottery Barn? Sou contra grandes redes de lojas, mas o nome até que é legal! Só não vamos tirar conclusões sobre o gênero de Pottery Barn, ok?
— Ah. Tudo bem.
— Deseje-me sorte.
Ela respirou fundo e passou os dedos pelos dois rostos do guerreiro de cerâmica.
As peças estalaram e começaram a se unir como se estivessem magnetizadas. Pottery Barn se sentou e olhou para Alex. Ambas as faces ainda eram de argila dura, mas agora as caretas gêmeas pareciam mais irritadas, mais famintas. Os globos oculares da face direita brilhavam com uma luz dourada.
— Isso! — Alex suspirou de alívio. — Certo. Pottery Barn é não binário, como eu desconfiava. Eles preferem que se refiram aos dois no plural. E estão prontos para lutar.
Pottery Barn pularam da mesa. Os membros faziam barulho de pedra em cimento. Eles tinham uns dois metros e meio, o que era bem assustador para mim, mas eu me perguntei se tinham chance contra o guerreiro de cerâmica que Hrungnir criara.
Pottery Barn deviam ter sentido minha hesitação, porque viraram o rosto na minha direção e levantaram o punho direito, um vaso pesado de argila pintado de vermelho-sangue.
— Parem! — ordenou Alex. — Ele não é o inimigo!
Pottery Barn se viraram para Alex como se perguntando: Tem certeza?
— Talvez Pottery Barn não gostem de alho — especulou Alex. — Magnus, termina logo esse bagel e vamos botar o pé na estrada. Não podemos deixar nossos inimigos esperando!

6 comentários:

  1. Karina, a parte dos pronomes de Pottery está errada. "They" também é utilizado como pronome neutro em inglês. Uma tradução melhor seria "Prefere que usem pronomes neutros"

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    1. Infelizmente não existem tais pronomes no português, então mesmo que ela coloque isso vai ficar sem sentido nenhum

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    2. Não é uma questão de tradução, mas localização

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    3. Bem, "they" é plural também, então não errado, já que tratam Pottery Barn como duas pessoas

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    4. alem de q no livro impresso esta assim mesmo "plural" nao "neutro"

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  2. O Magnus ficou com vergonha, que fofo! Eu adoro o efeito que a/o Alex produz nele :3

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Boa leitura :)