8 de outubro de 2017

Dez - Podemos falar sobre hidromel?

SUPERNORMAL. ALGUÉM DIZ toque frutado e meu nome pipoca na mente.
Pare com isso, pessoal. Eu mereço um pouco de respeito.
As filhas de Aegir ficaram de pé. Algumas pegaram facas, garfos ou guardanapos com os quais nos furar, cutucar ou estrangular.
Aegir gritou:
— Magnus Chase? Que história é essa?
Meus amigos e eu não movemos um músculo. Todos nós sabíamos como funcionavam os direitos dos convidados. Talvez ainda conseguíssemos escapar de uma briga usando a lábia, mas quando sacássemos as armas, deixaríamos de ser considerados convidados e passaríamos a ser o prato do dia. Estando contra uma família inteira de deidades jötunn, na casa deles, eu não gostava das nossas chances.
— Espere! — falei o mais calmamente que consegui tendo uma mulher chamada Cabelo Vermelho de Sangue segurando uma faca ao meu lado. — Nós ainda somos convidados à sua mesa. Não violamos nenhuma regra.
Vi o vapor saindo por baixo da aba do chapéu fedora de Aegir. Os óculos de aro dourado ficaram embaçados. Embaixo do braço, o barril de hidromel começou a rachar como uma noz em um quebra-nozes.
— Você mentiu para mim — rosnou Aegir. — Disse que não era Magnus Chase!
— Você vai quebrar seu barril — avisei.
Isso chamou a atenção dele. Aegir levou o barril para a frente do corpo e o abraçou como se fosse um bebê.
— Direitos de convidados não se aplicam! Eu dei a você um lugar à minha mesa com base na sua má-fé!
— Eu nunca disse que não era Magnus Chase — lembrei a ele. — Além do mais, suas filhas também nos trouxeram aqui porque falamos sobre hidromel.
Kolga rosnou.
— E porque vocês têm um navio amarelo horrendo.
Eu me perguntei se todo mundo conseguia ver meu coração batendo embaixo da camiseta, tamanho era meu nervosismo.
— Certo, mas também hidromel. Nós viemos falar sobre hidromel!
— Viemos? — perguntou Mestiço.
Mallory pareceu querer bater nele, mas havia uma giganta do mar bloqueando o caminho.
— Claro que viemos, seu bobão!
— Então, sabe — continuei —, não foi má-fé. Pode ter fé de que foi por uma boa causa!
As filhas de Aegir murmuraram baixinho, incapazes de contrariar minha lógica impecável.
Aegir apertou o barril contra o peito.
— O que exatamente vocês têm a dizer sobre hidromel?
— Que bom que você perguntou!
E percebi que não tinha resposta.
Mais uma vez, Samirah veio ao resgate.
— Nós vamos explicar! — prometeu ela. — Mas as melhores histórias são contadas durante o jantar, acompanhadas por um bom hidromel, não são?
Aegir acariciou o barril com afeto.
— Um aperitivo com toque frutado.
— Exatamente — concordou Sam. — Vamos então desjejuar juntos. Se não estiver completamente satisfeito com nossas explicações no final do jantar, pode nos matar.
— Pode? — perguntou T.J. — Quer dizer… claro. Pode, sim.
À minha direita, as unhas em forma de garras de Blod pingavam água salgada vermelha. À minha esquerda, uma chuva de granizo em miniatura se formava em volta de Kolga. Espalhadas entre meus amigos, as outras sete filhas rosnavam como diabos-da-tasmânia.
Blitzen colocou as mãos no colete de cota de malha. Depois de ser perfurado pela espada Skofnung alguns meses antes, ele ficou meio sensível a ataques de faca. Os olhos de Hearthstone iam de um rosto a outro, tentando acompanhar a conversa. Ler os lábios de uma pessoa já era bem difícil. Tentar ler um salão inteiro era praticamente impossível.
Mallory Keen segurou a caneca de hidromel, pronta para imprimir o desenho decorativo na cara da giganta mais próxima. Mestiço franzia a testa com expressão sonolenta, a essa altura sem dúvida convencido de que tudo aquilo não passava de um sonho. T.J. tentou não chamar a atenção enquanto enfiava a mão na bolsa de munição, e Alex Fierro só ficou calmamente sentado, bebendo o hidromel de pêssego tipo lambic. Alex não precisava se preparar para batalhas. Eu já tinha presenciado a velocidade com que sacava seu garrote.
O deus do mar Aegir era quem dava as cartas. Ele só precisava dizer “Matem todos” e estaríamos fritos. Lutaríamos corajosamente, sem dúvida. Mas morreríamos.
— Não sei… — refletiu Aegir. — Minha esposa disse para eu matar você se nossos caminhos se cruzassem. O combinado era afogar você lentamente, revivê-lo e então afogá-lo de novo.
É, parecia mesmo algo que Ran falaria.
— Grande lorde — disse Blitzen —, o senhor fez um juramento formal de matar Magnus Chase?
— Bom, não — admitiu Aegir. — Mas quando minha esposa pede…
— É preciso considerar os desejos de sua senhora, sem dúvida! — concordou Blitz. — Mas acho que também deveria pesar isso em relação aos direitos dos convidados, não é? E como ter certeza do que fazer se não tiver nos dado tempo para que possamos contar toda a história?
— Me deixe matar eles, pai! — rosnou a filha com as mãos excepcionalmente grandes. — Vou esmagá-los eles até que gritem!
— Silêncio, Onda Ávida — ordenou Aegir.
— Me deixe fazer as honras! — exclamou outra filha, jogando o prato no chão. — Vou jogar eles na boca de Jörmungand!
— Calma, Onda Arremessadora. — Aegir franziu a testa. — O anão tem razão. Estamos em um dilema…
Ele acariciou o barril. Eu esperava que dissesse: Meu barril de hidromel está irritado. E quando meu barril de hidromel fica irritado, EU fico irritado!
No entanto, ele deu apenas um suspiro.
— Seria uma vergonha desperdiçar um hidromel tão bom. Vamos comer e beber juntos. Vocês vão me contar a história, dando ênfase especial à sua relação com hidromel.
Ele fez sinal para as filhas se sentarem de novo.
— Mas estou avisando, Magnus Chase, que se eu decidir matar você, minha vingança será terrível. Sou uma deidade jötunn, uma das forças primordiais! Como meus irmãos Fogo e Ar, eu, o Mar, sou um poder furioso que não pode ser contido!
A porta da cozinha se abriu com força. Em uma nuvem de fumaça, Eldir apareceu, a barba ainda fumegando e o chapéu de chef agora em chamas. Carregava nos braços uma torre torta de pratos cobertos.
— Quem pediu a refeição sem glúten? — rosnou ele.
— Sem glúten? — perguntou Aegir. — Acho que não teve isso.
— É minha — respondeu Blod.
Ela reparou na minha expressão e fez uma careta.
— O que foi? Estou em uma dieta só de sangue.
— Sem problemas — balbuciei.
— Certo — disse Aegir, assumindo o comando dos pedidos. — A refeição halal… é de Samirah. A vegetariana é de Magnus Vai-Morrer-Em-Breve Chase. O prato de cabelo verde…
— Aqui — disse Alex, o que provavelmente foi desnecessário.
Mesmo em uma sala cheia de gigantas do mar, ele ainda era o único que tinha cabelo verde.
Os pratos foram distribuídos. O hidromel foi servido.
— Certo. Todos servidos? — perguntou Aegir, sentando-se ao trono.
— Sobrou um! — gritou Eldir. — A refeição budista.
— É minha — disse Aegir.
Não fique encarando, eu disse para mim mesmo quando a deidade primordial tirou a cobertura do prato de tofu com broto de feijão. Isso é completamente normal.
— Agora, onde eu estava? — continuou Aegir. — Ah, sim. Um poder furioso que não pode ser contido! Vou arrancar os membros de vocês um a um!
A ameaça teria sido mais assustadora se ele não estivesse balançando uma ervilha fresca cozida no vapor em nossa direção.
Alex tomou um gole da caneca.
— Posso só dizer que esse hidromel está excelente? Se não estou enganado, tem um toque frutado. Como você prepara?
Os olhos de Aegir se iluminaram.
— Você tem um paladar refinado! Bem, o segredo está na temperatura do mel.
Aegir começou a falar. Alex assentiu educadamente e fez mais perguntas. Percebi que ele estava tentando ganhar tempo, na esperança de prolongar o jantar enquanto pensávamos em coisas incríveis para dizer a respeito do hidromel. Mas eu estava sem ideias.
Olhei para o prato de Blod. Grande erro. Ela estava comendo uma coisa vermelha gelatinosa.
Virei para o outro lado. A refeição de Kolga era um prato de raspadinhas de gelo de cores diferentes, arrumados em leque como as penas de um pavão. Kolga reparou que eu estava olhando e rosnou, os dentes parecendo cubos de gelo afiados. A temperatura no ambiente caiu tão rápido que cristais de gelo se formaram nos meus ouvidos.
— O que você está olhando, Magnus Chase? Não vou te dar minhas raspadinhas!
— Não, não! Eu só queria saber, hã… de que lado vocês vão lutar no Ragnarök?
Ela sibilou.
— O mar vai engolir tudo.
Eu esperei para ver se ela ia entrar em detalhes, mas a frase parecia ter explicado seu plano de batalha inteiro.
— Certo. Fico feliz em saber que vocês vão ficar neutros.
— Neutros, não. Vamos ficar frios. Gelados, até.
— Ah… certo. Mas seu pai não é amigo de Loki.
— É claro que não! Depois daquele vitupério horrível? Loki desgraçou este salão, os deuses, meu pai e até o hidromel dele!
— Certo. O vitupério.
A palavra era familiar. Eu tinha quase certeza de que vira na TV em Valhala, mas não fazia ideia do que queria dizer.
— Suponho que você já tenha ouvido o nome Bolverk? — perguntei, tentando a sorte. — Ou o que ele pode ter a ver com hidromel?
Kolga fez uma cara de desprezo, como se eu fosse burro.
— Bolverk era o pseudônimo do ladrão de hidromel, claro.
— O ladrão de hidromel.
Parecia o título de um livro bem ruim.
— O que roubou o hidromel de Kvásir! — disse Kolga. — O único hidromel que meu pai não sabe preparar! Você é mesmo um sem noção. Estou louca para enfiar sua alma no candelabro.
Ela voltou a saborear as raspadinhas.
Kvásir. Ótimo. Eu perguntava sobre um nome que não conhecia e ouvia outro. No entanto, senti que estava chegando perto de uma coisa importante, a combinação das peças de um quebra-cabeça que explicaria o diário do tio Randolph, me revelaria o plano dele para vencer Loki e talvez até oferecesse uma solução baseada em hidromel para nos tirar daquele salão com vida.
Aegir continuou falando sobre preparação de hidromel, explicando a Alex as virtudes de nutrientes fermentados escalonados e dos hidrômetros. Num gesto heroico, Alex foi capaz de parecer interessado.
Consegui chamar a atenção de Hearthstone do outro lado da mesa. Eu perguntei em linguagem de sinais: O que é V-I-T-U-P-É-R-I-O?
Ele franziu a testa. Competição. Levantou o indicador e girou como se estivesse enfiando… Ah, sim. O símbolo de insultos.
E quem é K-V-Á-S-I-R?, perguntei.
Hearthstone afastou as mãos como se tivesse tocado em um fogão quente.
Então você sabe?
Sam bateu com os dedos na mesa para chamar minha atenção. As mãos voaram em gestos curtos e furiosos. Estou tentando te falar! Loki esteve aqui. Muito tempo atrás. Competição de insultos. Temos que prometer vingança a Aegir. Alex e eu achamos que há um hidromel que podemos usar…
Isso eu entendi, sinalizei para ela.
Por incrível que pareça, senti que tinha um plano. Embora não um com todos os detalhes. Nem mesmo a maioria dos detalhes. Era mais como se eu tivesse sido girado com uma venda nos olhos e alguém tivesse colocado uma vareta na minha mão e me posicionado mais ou menos na direção da piñata, dizendo Pode bater.
Mas era melhor do que nada.
— Grande Aegir! — Eu pulei na cadeira e subi na mesa antes que pudesse pensar no que estava fazendo. — Vou explicar para você por que não deveria nos matar e o que isso tem a ver com hidromel!
Um silêncio se espalhou pelo salão. Nove gigantas da tempestade olharam para mim como se considerando todas as formas diferentes com que poderiam me arremessar, esmagar, jogar ou congelar até a morte.
Pelo canto do olho, vi Alex sinalizando para mim: Seu zíper está aberto.
Com força de vontade sobre-humana, não olhei para baixo. Continuei concentrado em Aegir, em sua testa franzida e no broto de feijão pendurado na barba dele.
O deus do mar trovejou:
— Eu estava explicando como limpar um fermentador. É melhor que essa história seja boa.
— E é! — prometi, verificando o zíper discretamente e notando que não estava realmente aberto. — Nossa tripulação está navegando para que a justiça seja feita! Loki fugiu da sua prisão, mas nós pretendemos encontrar o navio dele, Naglfar, antes que possa partir no solstício de verão. Então recapturaremos Loki e o acorrentaremos de novo. Se nos ajudar, terá sua vingança por aquele vitupério horrível.
Uma nuvem de vapor saiu do chapéu fedora de Aegir como se alguém tivesse levantado a tampa de uma pipoqueira.
— Como ousa falar daquela desgraça?! — perguntou ele. — Aqui, na mesa onde aconteceu?
— Eu sei que Loki insultou você! — gritei. — E muito! Você e todos os seus convidados divinos sofreram insultos horríveis. Ele insultou até o seu hidromel! Mas nós podemos derrotá-lo e vingar você e sua casa. Eu… eu mesmo vou desafiar Loki!
Sam apoiou a cabeça nas mãos. Alex olhou para o teto e disse apenas com o movimento dos lábios: Uau. Não.
Meus outros amigos me olharam com perplexidade, como se eu tivesse tirado o pino de uma granada. (Eu fiz isso uma vez no campo de batalha de Valhala antes de entender direito como uma granada funcionava. Esse episódio não acabou bem nem para a granada nem para mim.)
Aegir demonstrou uma calma mortífera. Ele se inclinou para a frente, as lentes cintilando na armação dourada dos óculos.
— Você, Magnus Chase, desafiaria Loki em um vitupério?
— Sim. — Apesar das reações dos meus amigos, eu ainda tinha certeza de que era a resposta certa, apesar de não entender o que vitupério significava. — Vou insultar ele pra caramba.
Aegir acariciou a barba, encontrou o broto de feijão e o jogou longe.
— Como você conseguiria isso? Nem os deuses se equiparam a Loki em um vitupério! Você precisaria de uma arma secreta incrível para ter um toque de vantagem!
Talvez eu também precise de um toque frutado, pensei, porque essa era a outra coisa da qual eu tinha certeza, apesar de não entender completamente. Eu me levantei com a coluna bem ereta e anunciei usando a voz grave de quem aceita uma missão:
— Vou usar o hidromel do Kevin!
Alex se juntou a Samirah no clube de esconder a cara.
Aegir franziu a testa.
— Você quer dizer o hidromel de Kvásir?
— É! Isso!
— Impossível! — protestou Kolga, a boca tingida de seis cores diferentes por causa das raspadinhas de gelo. — Pai, não acredite neles!
— E tem mais, grande Aegir — insisti —, se nos deixar partir, nós até… hã, traremos pra você uma amostra do hidromel de Kvásir, o único hidromel que você não consegue preparar.
Meus amigos e as nove gigantas se viraram para Aegir, esperando a resposta dele.
Um leve sorriso se anunciava nos lábios do deus do mar. Ele parecia alguém que conseguira pular para a fila do caixa rápido que acabou de ser aberto no mercado para finalmente pedir o smoothie do momento.
— Bem, isso muda tudo — disse ele.
— Muda? — perguntei.
Aegir se levantou do trono.
— Eu adoraria ver Loki pagar pelo que fez, ainda mais em um vitupério. Também adoraria ter uma amostra do hidromel de Kvásir. E preferiria não matar vocês todos, pois concedi direitos de convidados.
— Ótimo! — exclamei. — Então você vai nos deixar ir?
— Infelizmente — continuou Aegir —, você ainda é Magnus Chase e minha esposa quer te ver morto. Se eu deixar você ir, ela vai ficar com muita raiva. Mas, se vocês escapassem, digamos, quando eu não estivesse olhando, e minhas filhas não conseguissem matar vocês durante a tentativa de fuga… Bem, acho que teríamos que considerar isso o desejo das Nornas!
Ele alisou o colete.
— Vou para a cozinha pegar mais hidromel! Espero que nada de desagradável aconteça enquanto eu estiver lá. Venha comigo, Eldir!
O cozinheiro lançou um último olhar fumegante na minha direção.
— Insulte Loki uma vez por Fimafeng, está bem?
Em seguida, seguiu o mestre até a cozinha.
Assim que a porta se fechou, as nove filhas de Aegir se levantaram das cadeiras e atacaram.


5 comentários:

  1. Magnus-vai-morrer-em-breve Chase kkk

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  2. "— Vou usar o hidromel do Kevin!
    Alex se juntou a Samirah no clube de esconder a cara."
    Kkkkk ri litros

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  3. Estou pressentindo um duelo de improvisação

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  4. Damon Herondale(filho de Zeus)14 de outubro de 2017 19:01

    Cara, agora ele realmente devia ter feito a aula de Vitupério Até A Morte em Valhala.

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    Respostas
    1. Com certeza. <(∆.∆)>

      Ass.: Mutta Chase Herondale

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Boa leitura :)