8 de outubro de 2017

Cinco - Eu me despeço de Erik, de Erik, de Erik e também de Erik

REZA A LENDA que Valhala tem quinhentos e quarenta portões, convenientemente distribuídos por todos os nove mundos para facilitar o acesso. Mas nenhuma lenda menciona que uma dessas entradas fica na Forever 21 da rua Newbury, atrás de uma arara na seção feminina de roupas de ginástica.
Não era a entrada que eu gostava de usar normalmente, mas era a mais próxima da mansão do tio Randolph. Ninguém em Valhala sabia me explicar por que havia um portal na Forever 21. Alguns especulavam que remonta à época em que o prédio não era uma loja. Achei que a localização podia ser uma das piadinhas de Odin, pois muitos de seus einherjar teriam literalmente vinte e um anos para sempre, ou dezesseis, ou dezessete.
Meu amigo anão Blitzen odiava aquela entrada. Toda vez que eu mencionava a Forever 21, ele começava a resmungar que as roupas dele eram bem melhores. Algo a ver com bainhas. Sei lá.
Cruzei a seção de lingerie e recebi um olhar atravessado da vendedora, depois pulei na arara de roupas de ginástica e saí do outro lado em uma das salas de jogos do Hotel Valhala. Estava rolando um torneio de bilhar, no qual os vikings usam lanças em vez de tacos. (Dica: nunca fique atrás de um viking quando ele for dar uma tacada.) Erik, o Verde, do 135º andar, me cumprimentou com alegria. (Até onde sei, setenta e dois por cento da população masculina de Valhala se chama Erik.)
— Salve, Magnus Chase! — Ele apontou para o meu ombro. — Tem uma calça de lycra bem aí.
— Ah, valeu.
Soltei a calça legging que tinha ficado grudada na minha camiseta e joguei no cesto marcado DEVOLVER P/ AS ARARAS.
Então saí em busca dos meus amigos.
Andar pelo Hotel Valhala nunca era chato. Ao menos não para mim, e os einherjar que já estavam ali centenas de anos a mais do que eu diziam a mesma coisa. Graças ao poder de Odin, ou à magia das Nornas, ou talvez só ao fato de termos uma IKEA viking, a decoração mudava constantemente, embora sempre houvesse muitas lanças e escudos e talvez mais desenhos de lobo do que eu gostaria.
Até encontrar os elevadores exigia navegar por corredores que tinham mudado de tamanho e de direção desde a manhã, passando por aposentos que eu nunca tinha visto. Em uma sala enorme com paredes de carvalho, guerreiros brincavam de curling usando remos como vassouras e escudos de combate como pedras. Muitos estavam com talas nas pernas, braços em tipoias e ataduras na cabeça, porque, é claro, os einherjar praticavam curling até a morte.
O saguão principal estava com um carpete novo de um tom intenso de vinho, uma ótima cor para esconder manchas de sangue. As paredes agora tinham tapeçarias exibindo valquírias voando para a batalha contra gigantes do fogo. Era um lindo trabalho, embora a proximidade de tantas tochas me deixasse um pouco nervoso. Valhala era meio negligente em relação a protocolos de segurança. Eu não gostava de morrer queimado. (Era uma das mortes que eu mais detestava, junto com engasgar com balinhas de menta depois de uma refeição no salão de jantar.)
Peguei o elevador para o décimo nono andar. Infelizmente, a música ambiente não tinha mudado. Eu já estava a ponto de conseguir cantar junto com Frank Sinatra em norueguês. Ainda bem que meu quarto ficava em um andar baixo. Morar nos cento e tanto teria me deixado… bem, maluco.
No andar dezenove, tudo estava estranhamente quieto. Não ouvi o som de um jogo de videogame violento vindo do quarto de Thomas Jefferson Jr. (Soldados mortos da Guerra Civil amam videogames quase tanto quanto amam atacar colina acima.) Não vi sinal de que Mallory Keen tivesse praticado lançamento de facas no corredor. A porta do quarto de Mestiço Gunderson estava aberta e, lá dentro, um bando de corvos voando pela biblioteca e pela coleção de armas tirava o pó de livros e machados. O homenzarrão em si não estava em lugar nenhum.
Meu quarto tinha sido arrumado recentemente. A cama estava feita. No átrio central, as árvores tinham sido podadas, e a grama, aparada. (Eu não conseguia entender como os corvos usavam o cortador de grama.) Na mesa de centro, um bilhete com a caligrafia elegante de T.J. dizia:

Estamos na doca 23, subnível 6. Encontramos você lá!

A TV estava ligada no canal do Hotel Valhala, que exibia uma lista dos eventos da tarde: raquetebol, paintball-metralhadora (igual a paintball normal, só que com metralhadoras), aquarela, culinária italiana, amolação avançada de espadas e uma coisa chamada vitupério – tudo até a morte.
Olhei para a tela com melancolia. Nunca quis praticar aquarela até a morte, mas no momento estava tentado. Parecia bem mais fácil do que a viagem que eu estava prestes a fazer saindo da doca vinte e três, subnível seis.
Uma coisa de cada vez: tomei banho para tirar o cheiro do porto de Boston. Vesti roupas limpas. Peguei minha bolsa de viagem. Dentro dela: suprimentos de camping, algumas provisões básicas e, claro, algumas barras de chocolate. Por melhor que minha suíte do hotel fosse, eu não tinha muitas coisas pessoais; só alguns dos meus livros favoritos e umas fotos do meu passado que apareciam magicamente com o tempo, ocupando aos poucos a prateleira acima da lareira.
O hotel não era para ser um lar eterno. Nós, einherjar, podíamos ficar lá durante séculos, mas era só uma parada no caminho até o Ragnarök. O hotel todo irradiava uma sensação de transitoriedade e expectativa. Não fique muito à vontade, o lugar parecia dizer. Você pode ir embora a qualquer momento para sua morte definitiva no Juízo Final. Uhul!
Olhei meu reflexo no espelho. Eu não sabia por que me dava ao trabalho. Nunca liguei muito para aparências durante os dois anos que morei nas ruas, mas ultimamente Alex Fierro pegava no meu pé sem parar e isso me deixou acanhado em relação à minha imagem.
Além do mais, se você não se olha de tempos em tempos em Valhala, pode acabar andando por aí por horas com cocô de corvo no ombro, uma flecha na bunda ou uma calça legging em volta do pescoço.
Botas: ok. Calça jeans nova: ok. Camiseta verde do Hotel Valhala: ok. Casaco de penas, apropriado para expedições em água fria e cair de mastros: ok. Pingente de runa que podia virar uma espada mágica cujo coração estava partido: ok.
Depois de viver nas ruas, eu ainda não tinha me acostumado a estar com o rosto tão limpo. Nem com meu novo corte de cabelo, feito pela primeira vez por Blitz durante nossa incursão em Jötunheim. Desde então, toda vez que o cabelo começava a crescer, Alex cortava de novo, deixando minha franja longa o suficiente para cair nos olhos e a parte de trás na altura da gola da camisa. Eu estava acostumado a ficar com o cabelo bem mais desgrenhado e ondulado, mas Alex tinha uma alegria tão grande em assassinar meus cachos louros que era impossível dizer não. Está perfeito!, dizia Alex. Seu rosto ainda está meio escondido, mas pelo menos agora parece que você penteou o cabelo!
Coloquei o diário de Randolph na bolsa, junto com o último item no qual estava tentando não pensar: o lenço de seda que ganhei do meu pai.
Suspirei para o Magnus no espelho.
Bem, é melhor ir logo, senhor Magnus. Seus amigos esperam ansiosamente para rir da sua cara.

* * *

— Lá está ele! — gritou Mestiço Gunderson, berserker extraordinário, sempre apontando o óbvio.
Mestiço veio correndo em minha direção como um caminhão afetuoso. O cabelo estava mais desgrenhado do que o meu já havia sido na vida. (Eu tinha quase certeza de que ele mesmo cortara. Usando um machado. No escuro.) Ele estava de camiseta, o que era incomum, mas os braços ainda eram uma paisagem selvagem de músculos e tatuagens. Nas costas carregava o machado chamado Machado, e seis facas presas na calça de couro.
Ele me envolveu em um abraço de urso e me levantou, talvez um teste para ter certeza de que minhas costelas não quebrariam sob pressão. Depois me devolveu ao chão e deu tapinhas nos meus ombros, aparentemente satisfeito.
— Pronto para uma missão? — berrou ele. — Porque eu estou pronto para uma missão!
Da beirada do cais, onde enrolava cordas, Mallory Keen gritou:
— Ah, cala a boca, bobão! Ainda acho que devíamos te usar de figura de proa.
O rosto de Mestiço ficou vermelho, mas ele manteve o olhar em mim.
— Estou tentando não matar ela, Magnus. De verdade. Mas é tão difícil. É melhor eu me ocupar, senão vou acabar fazendo algo de que vou me arrepender. Você está com o lenço?
— Hã, estou, mas…
— Bom homem. O tempo urge!
Ele andou até a doca e começou a separar seus suprimentos: bolsas de couro enormes, sem dúvida cheias de comida, armas e muitas calças de couro extras.
Eu observei a caverna. Na parede à esquerda, um rio corria pelo canal, emergindo de um túnel do tamanho perfeito para um trem de um lado e desaparecendo em um túnel idêntico do outro. O teto em arco era de madeira polida, o que amplificava o rugido da água e me fazia sentir como se estivéssemos dentro de um barril. Havia suprimentos e bagagens enfileirados no cais, esperando o navio no qual seriam carregados.
Na extremidade da doca, Thomas Jefferson Jr. estava absorto em uma conversa com o gerente do hotel, Helgi, e seu assistente, Hunding, os três analisando uma papelada em uma prancheta. Como tenho aversão a papeladas e a Helgi, andei até Mallory, que agora enfiava arpéus de ferro em um saco de aniagem.
Ela vestia peles pretas e jeans preto, seu cabelo ruivo preso em um coque apertado. Sob a luz das tochas, as sardas brilhavam alaranjadas. Como sempre, ela levava seu par de facas de confiança preso na cintura.
— Está tudo bem? — perguntei, porque estava na cara que não.
Mallory franziu as sobrancelhas.
— Não comece você também, senhor… — Ela me chamou de um termo gaélico que não reconheci, mas tinha certeza de que não significava querido amigo. — Estávamos esperando você e o barco.
— Onde estão Blitzen e Hearthstone?
Fazia várias semanas que eu não via meu amigo anão e meu amigo elfo, portanto mal podia esperar para que viessem a bordo conosco. (Uma das poucas coisas para a qual eu estava ansioso.)
Mallory grunhiu com impaciência.
— Nós vamos encontrar os dois no caminho.
Isso poderia significar que nossa parada seria em outra parte de Boston ou em outro mundo, mas Mallory não parecia estar com humor para entrar em detalhes. Ela olhou por cima do meu ombro e franziu a testa.
— E Alex e Samirah?
— Alex disse que eles vão nos encontrar depois.
— Muito bem, então. — Mallory balançou a mão para mim. — Vai assinar nossa partida.
— Assinar nossa partida?
— É… — Ela falou a palavra de forma bem arrastada só para demonstrar quanto achava que eu era lento. — Com Helgi. O gerente. Vai logo!
Como ela estava segurando um punhado de arpéus, fiz o que ela mandou.
T.J. estava com o pé apoiado em uma caixa de suprimentos, o rifle nas costas. Os botões de metal brilhavam em seu casaco do Exército da União. Ele me cumprimentou inclinando um pouquinho seu quepe da infantaria.
— Bem na hora, meu amigo!
Helgi e Hunding trocaram olhares nervosos, como faziam sempre que Odin anunciava um de seus retiros motivacionais para a equipe.
— Magnus Chase — disse Helgi, puxando sua barba que mais parecia um animal atropelado. Vestia o terno listrado verde-escuro de sempre. Provavelmente ele achava que a roupa o fazia parecer um profissional do ramo de hotelaria, mas na verdade só fazia com que parecesse um viking usando um terno listrado. — Estávamos começando a ficar preocupados. A maré alta vai começar a qualquer minuto.
Olhei para a água que corria com violência pelo canal. Eu sabia que vários rios subterrâneos passavam por Valhala, mas não entendia como podiam estar sujeitos a marés. Também não compreendia como o nível da água ali podia aumentar sem inundar todo o aposento. Por outro lado, eu estava tendo uma conversa com dois vikings mortos e um soldado da Guerra Civil, então decidi deixar a lógica de lado.
— Desculpa. Eu estava…
Fiz um sinal vago, tentando indicar que estava lendo diários misteriosos, matando lobos e quebrando as pernas no porto de Boston.
T.J. praticamente vibrava de empolgação.
— Está com o barco? Mal posso esperar para ver!
— Hã, sim.
Eu comecei a remexer na bolsa, mas o lenço parecia ter ido parar lá no fundo.
Hunding retorceu as mãos. Os botões de seu uniforme de porteiro estavam nas casas erradas, como se ele tivesse se vestido às pressas de manhã.
— Você não perdeu, né? Eu avisei sobre deixar itens mágicos à vista no quarto! Mandei os corvos da limpeza não tocarem nele. “É um navio de guerra!”, eu disse. “Não um guardanapo!” Mas eles ficavam querendo levar para lavar junto com os lençóis. Se tiver sumido…
— A culpa vai ser sua — rosnou Helgi para o porteiro. — O andar dezenove está na sua área de serviço.
Hunding se encolheu. Ele e Helgi tinham uma desavença que durava vários séculos. O gerente inventava qualquer desculpa para fazer Hunding trabalhar turnos extras jogando lixo no incinerador ou lavando as tocas dos lindwyrms.
— Relaxem. — Peguei o tecido. — Estão vendo? Aqui está. E, Hunding, isto é para você. — Eu entreguei a ele uma das minhas barras de chocolate. — Obrigado por ficar de olho no meu quarto.
Os olhos do porteiro ficaram marejados.
— Garoto, você é o melhor. Pode deixar itens mágicos à vista no quarto quando quiser!
— Humf. — Helgi fechou a cara. — Muito bem, Magnus Chase, vou precisar que você assine a partida do grupo. — Ele empurrou a prancheta para mim. — Leia cuidadosamente e rubrique o pé de cada página.
Folheei umas doze páginas de linguagem densa e burocrática. Passei os olhos por frases como no caso de morte por ataque de esquilo o proprietário não será responsabilizado por desmembramento fora da área do hotel. Não me surpreendia meus amigos preferirem sair do hotel sem permissão. Os formulários de liberação eram brutais.
T.J. pigarreou.
— Então, Magnus, já que você está fazendo isso, posso montar o barco? Posso? Estou pronto para botar esse regimento a caminho!
Dava para perceber. Ele estava carregado de sacolas de munição, bolsas a tiracolo e cantis suficientes para uma marcha de trinta dias. Os olhos brilhavam tanto quanto a baioneta que carregava. Como T.J. costumava ser a voz da razão no andar dezenove, eu estava feliz que ele fosse junto, mesmo que ficasse um pouco empolgado demais com ataques diretos a exércitos inimigos.
— Pode. Claro que pode, cara.
— VIVA! — Ele puxou o lenço da minha mão e correu para o cais.
Eu assinei os formulários, tentando não dar atenção demais às cláusulas sobre arbitragem caso fôssemos incinerados pelo fogo de Muspelheim ou pulverizados por gigantes do gelo. Devolvi a prancheta a Helgi.
O gerente franziu a testa.
— Tem certeza de que leu tudo?
— Hã… tenho. Eu leio rápido.
Helgi segurou meu ombro.
— Então boa sorte, Magnus Chase, filho de Frey. E lembre-se: você precisa impedir que Naglfar, o navio de Loki, parta no solstício de verão…
— Eu sei.
— … senão o Ragnarök terá início.
— Certo.
— E se isso acontecer, as reformas no salão de jantar não vão terminar nunca. Isso sem falar no andar quarenta e dois, que não vai ter internet banda larga tão cedo.
Eu assenti com tristeza. Ser responsável pela conexão de internet de um andar inteiro era uma pressão extra da qual eu não precisava.
— Nós vamos conseguir. Não se preocupe.
Helgi puxou novamente a barba.
— Mas, se você der início ao Ragnarök, será que pode voltar para cá o mais rápido possível ou mandar uma mensagem de texto?
— Tudo bem. Hã, mensagem de texto?
Até onde eu sabia, a equipe do hotel só usava corvos. Eles não sabiam usar celulares. Nenhum deles tinha um aparelho. Mas isso não os impedia de fingir que sabiam do que estavam falando.
— Nós vamos precisar que todo mundo comece a preencher a pesquisa de satisfação dos hóspedes antes de partirmos para o Juízo Final — explicou Helgi. — Para acelerar as mortes. Se você não conseguir voltar, pode preencher on-line. E, se não se importar de marcar excelente sempre que houver menção ao gerente, fico grato. Odin lê esses formulários.
— Mas, se vamos todos morrer mesmo…
— Bom homem. — Ele deu um tapinha no meu ombro. — Bem, tenha uma ótima… er, uma viagem bem-sucedida!
Ele colocou a prancheta embaixo do braço e saiu andando, provavelmente para inspecionar as reformas do salão de jantar.
Hunding suspirou.
— Esse homem não tem bom senso. Mas obrigado pelo chocolate, meu garoto. Eu só queria poder fazer mais por você.
Senti uma descarga de energia com uma ideia súbita. Durante o tempo que passei no hotel, Hunding se tornou minha melhor fonte de informações. Ele sabia tudo sobre todos (literalmente). Sabia todos os itens secretos do cardápio de serviço de quarto. Sabia como ir do saguão até o terraço de observação acima do bosque de Glasir sem ter que passar pelo amontoado de lojas de souvenirs. Ele era uma Vikingpédia ambulante.
Peguei o diário de Randolph e mostrei a ele a última página.
— Alguma ideia do que essa palavra quer dizer?
Eu apontei para mjöð.
Hunding riu.
— Quer dizer hidromel, claro!
— Hã. Então não tem nada a ver com vacas?
— Como é?
— Deixa pra lá. E esse nome aqui: Bolverk?
Hunding ficou tão surpreso que deixou a barra de chocolate cair.
— Bolverk? NÃO. Não, não, não. Que livro é esse, garoto? Por que você…?
— Aiii! — gritou Mestiço do porto. — Magnus, precisamos de você aqui agora!
O rio estava começando a se avolumar, lançando espuma e respingos na doca. T.J., balançando o lenço desesperadamente, gritou:
— Como isso aqui funciona? Como?
Não tinha passado pela minha cabeça que o navio dobrável, por ter sido presente do meu pai, talvez só funcionasse para mim. Eu corri para ajudar. Mallory e Mestiço reuniam os suprimentos às pressas.
— Temos no máximo um minuto até que a maré alta inunde a caverna inteira! — gritou Mestiço. — Navio, Magnus! Agora!
Peguei o lenço e tentei firmar minhas mãos trêmulas. Eu tinha praticado o truque de desdobrar o navio algumas vezes em águas calmas — uma vez sozinho e uma vez com Alex —, mas ainda não conseguia realmente acreditar que funcionaria. Definitivamente eu não estava ansioso para ver o resultado.
Joguei o lenço na direção da água. Assim que o tecido encostou na superfície, os cantos se desdobraram e se desdobraram e continuaram se desdobrando. Era como ver a construção de uma estrutura de Lego em um vídeo acelerado. No tempo que levamos para inspirar e expirar duas vezes, um navio viking surgiu ancorado no canal, a água turbulenta correndo em torno de sua popa.
Mas claro que ninguém elogiou o casco lindamente entalhado, nem os elaborados escudos vikings nas amuradas, muito menos as cinco fileiras de remos, recolhidos e parados, prontos para o que desse e viesse. Ninguém notou como o mastro principal tinha dobradiças e estava dobrado para conseguir passar por aquele túnel baixo sem quebrar. Ninguém perdeu o fôlego diante da bela figura de dragão na proa, nem elogiou o fato de a embarcação ser bem maior e mais espaçosa do que um típico navio viking, tendo até uma área coberta sob o convés para não termos que dormir na chuva e na neve.
O primeiro comentário de Mallory Keen foi:
— Podemos conversar a respeito da cor?
T.J. franziu a testa.
— Por que ele é…
— Eu não sei! — respondi, deprimido. — Eu realmente não sei por que ele é amarelo!
Meu pai, Frey, tinha enviado o barco duas semanas antes com a promessa de que seria a embarcação perfeita para nossa viagem. O navio nos levaria aonde precisávamos ir. E nos protegeria nos mares mais traiçoeiros. Meus amigos ficaram animados. Confiaram em mim mesmo quando me recusei a dar a eles uma prévia do nosso navio mágico.
Mas por que, ah, por que meu pai tinha pintado o barco da cor da mais artificial das margarinas?
Tudo nele era de um tom amarelo-ovo de derreter os olhos: as cordas, os escudos, o casco, a vela, o leme, até o busto de dragão na frente. Até onde eu sabia, a parte de baixo do barco também era amarela, e com isso deixaríamos cegos todos os peixes em nosso caminho.
— Bem, não importa agora — disse Mestiço, fazendo uma carranca para mim como se importasse muito. — Levem tudo a bordo! Vamos, depressa!
Corrente acima, um rugido ecoou do túnel como um trem de carga se aproximando. O navio bateu na doca. Mestiço jogou nossos suprimentos no convés enquanto T.J. recolhia a âncora e Mallory e eu segurávamos as amarras com toda a nossa força de einherji.
Na hora que Mestiço jogou os últimos sacos no barco, uma parede de água explodiu do túnel atrás de nós.
— Vamos! — gritou T.J.
Pulamos a bordo no instante em que a onda bateu na popa, nos empurrando para a frente como o coice de uma mula gigante.
Olhei para a doca uma última vez. Hunding, o porteiro, estava com água na altura dos joelhos. De lá, segurando a barra de chocolate, ele olhava para mim enquanto disparávamos rumo à escuridão, seu rosto tomado de choque como se, depois de tantos séculos convivendo com mortos em Valhala, ele finalmente tivesse visto um fantasma de verdade.


9 comentários:

  1. Só eu que pensei no argo II quando ele disse que a figura de proa era um dragão?

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  2. Respostas
    1. Damon Herondale, filho de Zeus14 de outubro de 2017 15:42

      Até onde eu sei, "Bolverk" é um nome que Odin usou em um disfarce em Jotunheim
      Não entendi a reação do Hunding 😕

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  3. Imaginando jogar aquarela ate a morte kkkkkkkk

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  4. Carol n foi a unica nao kkkk
    Q Q SIGNIFICA BOLVERK

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    1. Bem, descobriremos nos próximos capítulos! Ou não hauehauah
      Não sei como Magnus consegue ignorar essas coisas

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  5. Posso chamar esse Navio de Argo III?! Tem um dragão tbm!

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    1. O Argo original não tinha um dragão, e o dragão do navio viking é diferente do Festus, ele é de madeira e é bem mais rústico, praticamente não lembra em nada o Dragão Feliz

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  6. Tantas coisas importantes acontecendo... e eu só consigo pensar no quanto esse povo é viciado em chocolate!

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Boa leitura :)