23 de outubro de 2017

Capítulo 9

Sydney

COMO ADRIAN PÔDE NÃO VIR ME PROCURAR? Será que o gás tinha bagunçado meu organismo?
Sabia que ele nunca desistiria de mim. Continuaria me procurando. Devia ter um bom motivo para não ter visitado meus sonhos naquela noite.
O problema era que também não visitou na noite seguinte. Nem na outra.
As coisas tinham ficado piores quando Emma me encheu de perguntas na manhã depois de eu ter desativado o gás, querendo saber se havia conseguido a ajuda que prometera. Junto com ela, veio Amelia, que, descobri, havia criado uma distração. Aparentemente, nossos quartos eram monitorados a partir de um único centro de controle cheio de telas. Seguindo as instruções de Emma, Amelia havia encenado uma discussão com sua colega de quarto, dizendo coisas incriminadoras que chamaram a atenção da equipe de vigilância. Ela tinha agido de maneira especialmente rebelde, atraindo toda a atenção das pessoas que monitoravam os quartos, de modo que elas não vissem o que eu estava fazendo.
— Preciso de um bom tempo de sono para o plano funcionar — eu disse a elas, depois de explicar que não havia dado certo. — Levei um tempo pra dormir ontem, então talvez tenha sido muito curto. Hoje vai funcionar melhor.
Amelia e Emma pareceram decepcionadas, mas esperançosas. Acreditavam em mim. Mal me conheciam, mas estavam convencidas de que eu tinha um jeito de ajudá-las.
Passaram-se cinco dias depois disso.
Agora, os olhares de esperança tinham sido substituídos por olhares de raiva.
Eu não sabia qual era o problema. Não sabia por que Adrian não viera. O pânico tomou conta de mim, e fiquei com medo de que alguma coisa houvesse acontecido com ele e que ele não pudesse mais visitar sonhos. Talvez ainda estivesse sob o medicamento... mas não, tinha certeza de que pararia de tomar o remédio para me procurar. Será que o remédio havia causado um dano permanente à capacidade dele de usar o espírito? Não tive como refletir muito sobre isso porque minha vida na reeducação definitivamente piorou.
Emma e especialmente Amelia, que tinha sido mandada para a purgação pelo que fizera, se sentiram enganadas. Não contaram a ninguém o que tinha acontecido, para não se incriminarem, mas deixaram claro por meio de sinais para os outros que eu estava excluída. Ignoraram minha insistência de que em breve conseguiria ajuda e não demorou para que eu voltasse a comer sozinha no refeitório. Os outros, que haviam começado a ser mais simpáticos comigo, retomaram os velhos hábitos com força total, e tudo que eu fazia era observado minuciosamente e relatado para os superiores — que me mandaram para a purgação mais duas vezes naquela semana.
Só Duncan continuou meu amigo, do jeito dele, mas até a nossa amizade foi um pouco prejudicada.
— Eu te avisei — ele disse na aula de artes, certo dia. — Avisei pra não fazer besteira. Não sei o que você fez, mas definitivamente acabou com todo o progresso que estava conseguindo.
— Tive que tentar — eu disse. — Precisava correr o risco. Sei que vai valer a pena.
— Sabe? — ele perguntou com uma voz triste que demonstrava que já tinha visto tentativas como essa muitas vezes.
— Sim — eu disse, decidida. — Vai valer a pena.
Ele abriu um sorriso e voltou para sua pintura, mas pude ver que achava que eu estava mentindo. O pior era que eu não sabia se ele tinha razão.
Todo esse tempo, mantive a esperança de entrar em contato com Adrian no mundo dos sonhos. Não entendia por que isso ainda não havia acontecido, mas não duvidei nem por um segundo do amor dele nem de que ele estava procurando por mim. Se alguma coisa realmente estava interferindo nos nossos sonhos, eu tinha certeza de que ele encontraria uma solução.
Uma semana depois de ter desativado o gás, minha situação mudou radicalmente quando uma novata se juntou a nós.
— É uma boa notícia pra você — Duncan me disse no corredor. — Ela vai atrair toda a atenção por um tempo, então não seja simpática demais com ela.
Era um conselho difícil de seguir, ainda mais quando a via sentada sozinha no refeitório no café da manhã. Um olhar de Duncan me mandou para minha mesa, relutante, onde me senti boba e covarde por deixar que tanto eu como a menina nova ficássemos sofrendo em silêncio.
O nome dela era Renee e ela tinha mais ou menos a minha idade, talvez um ano a menos. Parecia uma pessoa com quem eu me daria bem, já que, como eu, fora mandada para a purgação no primeiro dia de aula por questionar o professor.
Porém, ao contrário de mim, quando voltou da purgação pálida e passando mal, não se deixou intimidar. De certo modo, admirei sua atitude. Ela ainda estava abatida por causa do tempo na solitária, mas havia uma faísca rebelde em seus olhos, que mostravam uma força e uma coragem promissoras. Ela seria uma boa aliada, pensei. Quando comentei isso com Duncan na aula de artes, ele me cortou rápido:
— Não por enquanto — murmurou. — Ela é muito nova, chama muita atenção. E também não está facilitando as coisas pra si mesma.
Nisso ele estava certo. Embora houvesse aprendido rápido a não contestar os professores, Renee não fingiu arrependimento nem agiu como se tivesse a intenção de acreditar no que os alquimistas estavam dizendo. Ela parecia gostar de ser excluída pelos outros, tanto que me ignorava quando eu criava coragem para lhe dar um sorriso nos corredores. Mantinha a cara fechada durante as aulas, olhando com ódio e rebeldia para alunos e instrutores.
— Estou meio surpreso por ela ter sido tirada do período de reflexão — Duncan acrescentou. — Alguém fez besteira.
— Por isso mesmo ela precisa de uma amiga mais do que nunca — insisti. — Precisa que alguém fale pra ela: “Olhe, você está certa em se sentir assim, mas precisa ficar na sua por um tempo”. Senão, vão mandá-la de volta.
Ele balançou a cabeça em advertência.
— Não faça isso. Não se envolva nessa história, ainda mais porque a chegada dela significa que você vai subir de nível logo. Além disso, eles não vão mandá-la de volta para aquela cela.
Havia um tom sinistro em sua voz que ele se recusou a explicar e, contra a vontade, mantive distância durante o resto do dia. Na manhã seguinte, ainda sem contato com Adrian, resolvi sentar com Renee em vez de ceder à pressão dos outros. Esse plano foi adiado quando um dos meninos que costumavam sentar com Duncan me chamou para ficar com eles. Fiquei parada com a bandeja na mão, sem saber o que fazer, olhando da mesa de Renee para a de Duncan. Ir até ela parecia a coisa certa, mas como poderia recusar a primeira chance de conversar com os outros em tanto tempo? Resistindo aos meus instintos, sentei na mesa de Duncan, prometendo a mim mesma que falaria com Renee depois.
Não houve depois.
Pelo jeito, depois de um dia deixando o ressentimento ferver dentro dela, Renee não conseguiu aguentar e explodiu no terceiro período, dando um discurso ainda mais longo que o do dia anterior sobre as mentiras preconceituosas do instrutor. Os seguranças a levaram embora e fiquei com pena dela por ter que passar pela purgação dois dias seguidos, tão pouco tempo depois da solitária. Duncan me olhou enquanto ela era levada, com uma cara de eu avisei.
Quando chegou a hora do almoço, eu estava esperando uma mudança de última hora no cardápio para incluir uma das comidas preferidas de Renee e aumentar ainda mais o sofrimento do castigo. O cardápio, porém, listava a mesma coisa que de manhã e me perguntei se ela tinha se livrado dessa ou se tiras de frango já eram sua comida favorita. Mas, quando Renee entrou no refeitório, muito tempo depois de começarmos a comer, esqueci todo e qualquer pensamento sobre o cardápio.
A faísca rebelde em seus olhos tinha desaparecido. Não havia absolutamente nenhum brilho neles enquanto ela olhava ao redor, confusa, parecendo nunca ter visto aquele lugar, nem nenhum outro refeitório, na vida. A expressão em seu rosto também era vazia, quase boquiaberta. Ela ficou parada no corredor, sem entrar nem pegar comida, e ninguém se deu ao trabalho de ajudá-la.
Ao meu lado, uma detenta chamada Elsa prendeu a respiração.
— Pensei que isso poderia acontecer.
— O quê? — perguntei, totalmente desnorteada. — Foi uma purgação pesada?
— Pior — ela disse. — Retoque da tatuagem.
Lembrei das minhas próprias experiências, sem entender como um retoque poderia ser pior que uma purgação, já que todos tínhamos passado por um antes de chegar ali.
— Ela não foi retocada quando saiu da solitária?
— Um retoque padrão — disse outro dos meus colegas de mesa, o rapaz chamado Jonah. — Óbvio que não foi suficiente, então eles deram uma dose gigante... talvez um pouco demais. Acontece de vez em quando. A pessoa entende a mensagem, mas fica meio atordoada e esquece como fazer coisas básicas por um tempo.
Uma sensação de pavor tomou conta de mim. Era isso que eu temia, o motivo por que tinha me esforçado para criar uma tinta que combatesse os efeitos da compulsão dos alquimistas. Já vira aquele olhar sem vida antes — em Keith. Quando saíra da reeducação, ele estava agindo feito um zumbi, incapaz de qualquer coisa além de repetir a retórica que os alquimistas haviam enfiado em sua cabeça. Pelo menos, àquela altura, Keith conseguia lidar com as tarefas do cotidiano. Será que ficara confuso daquele jeito no começo? Era terrível de ver. E ainda mais terrível era o fato de que ninguém estava fazendo nada para ajudar.
Levantei do banco de repente, ignorando a surpresa de Duncan atrás de mim.
Fui rápido até Renee e a peguei pelo braço, guiando-a para dentro do refeitório.
— Entre — eu disse, me concentrando nela para ignorar o fato de que todos estavam olhando para mim. — Quer comida?
Renee olhou para o nada por alguns segundos, então se voltou para mim lentamente.
— Não sei. Acha que devia querer?
— Você está com fome? — perguntei.
Ela franziu ligeiramente a testa.
— Acha que estou? Se não acha, então...
Eu a levei até a janelinha de Baxter.
— Acho que você tem que sentir o que quiser — eu disse, com firmeza. Ela não falou nada para o cozinheiro quando chegamos na frente dele e, como sempre, ele não ajudou muito, então sobrou para mim. — Renee precisa do almoço dela.
Baxter não respondeu imediatamente e quase achei que talvez não iria se mexer a menos que ela mesma pedisse a comida. Nesse caso, poderíamos ficar paradas ali por um bom tempo. Mas, depois de alguns segundos de indecisão, ele se virou e começou a montar uma bandeja com tiras de frango para ela. Levei a bandeja para uma mesa vazia e puxei uma cadeira, apontando para que ela sentasse. Ela pareceu reagir bem ao comando, mesmo que tácito, mas não fez nada depois que sentei à sua frente.
— Pode comer se quiser — eu disse. Como ela não teve reação, mudei a frase. — Coma o frango, Renee.
Obedecendo, ela pegou uma tira de frango e começou a comer enquanto eu olhava com uma sensação de pavor. Pavor e ódio. Os alquimistas achavam mesmo que aquilo era melhor do que alguém questionando sua autoridade? Mesmo que os efeitos mais graves passassem com o tempo, era repugnante que eles fossem capazes de fazer aquilo com um ser humano. Quando descobrira que estava protegida do retoque, pensara que pelo menos nesse sentido estava livre. E era verdade: eu estava. Mas todos ao meu redor, amigos ou inimigos, corriam o risco de ficar como Renee se os alquimistas exagerassem no retoque. Não importava se esse efeito extremo era raro. Mesmo que só acontecesse uma vez, já era demais.
— Beba o leite — mandei, quando percebi que ela tinha terminado o frango e estava só encarando o prato vazio. Ela estava na metade da caixinha quando tocou o sinal. — É hora de ir, Renee. Esse som significa que a gente vai para outro lugar.
Ela levantou junto comigo e, quando ergui os olhos, vi dois seguranças de Sheridan se aproximando.
— Você precisa vir com a gente — um deles disse para mim.
Estava prestes a obedecer quando vi a expressão desamparada de Renee. Ignorando os chamados da escolta, virei para ela e disse:
— Siga os outros e faça tudo que eles fizerem. Está vendo como estão guardando as bandejas agora? Faça isso e depois vá com eles para a próxima aula. — Um dos guardas me puxou pelo braço para que eu me mexesse, mas resisti até ver Renee obedecer e se juntar aos demais com sua bandeja. Só então deixei que a dupla me levasse embora, e eles não pareceram nada contentes com esse pequeno ato de rebeldia.
Eles me levaram até o elevador e então descemos um andar, para o piso onde acontecia a purgação. Me perguntei se não ter terminado o almoço tornaria a experiência mais ou menos desagradável. Porém, para minha surpresa, passamos reto pela porta de sempre e continuamos até o fim do corredor, onde eu nunca havia estado. Passamos por armários marcados respectivamente como materiais de cozinha e de escritório, e depois continuamos até portas sem identificação, o que devia ser um mau sinal. Foi uma dessas que eles abriram.
Essa nova sala era igual às de purgação, exceto pelo fato de que a cadeira tinha braços esquisitos. Eram maiores do que aqueles com que eu estava acostumada, mas também tinham amarras, o que era o importante. Talvez fosse um novo modelo do lugar de onde eles compravam equipamentos de tortura. Sheridan estava na sala esperando por nós, segurando um pequeno controle remoto. Os guardas me amarraram na cadeira e, ao sinal dela, nos deixaram a sós.
— Olá, Sydney — ela disse. — Devo dizer que estou decepcionada por vê-la criando problemas.
— Está? Passei pela purgação algumas vezes esta semana — respondi, pensando em como os outros tinham me incriminado nos últimos dias.
Sheridan fez um sinal de desprezo.
— Aquilo? Nós duas sabemos que eram apenas joguinhos feitos pelos outros. Na verdade, você estava indo muito bem... até agora.
Uma centelha da raiva antiga se reacendeu. Sheridan e as outras autoridades sabiam muito bem quando alguém realmente saía da linha e quando só estava sendo vítima dos outros. E não se importavam.
Engoli a raiva e assumi uma expressão respeitosa.
— O que fiz exatamente?
— Você entende o que aconteceu com Renee hoje, Sydney?
— Ouvi dizer que ela foi retocada — respondi, com cuidado.
— Os outros te falaram.
— Sim.
— E também te falaram pra não ajudar Renee quando ela voltou?
Hesitei.
— Não explicitamente. Mas deixaram claro com suas ações que não iriam ajudá-la.
— E você não achou que devia fazer como eles? — ela perguntou.
— Desculpe — eu disse —, mas pensei que devia seguir as suas instruções, não as dos meus colegas. Como nem a senhora nem os outros instrutores me falaram para não ajudar Renee, não achei que estivesse fazendo algo errado. Pelo contrário, achei que ajudar outro ser humano era a coisa certa. Peço desculpas se entendi mal.
Ela me examinou por um longo tempo, me encarando sem piscar.
— Você diz todas as coisas certas, mas não tenho certeza se está sendo sincera. Enfim. Vamos começar.
Ela apertou o botão e a tela ligou, mostrando uma foto típica de algumas Moroi alegres.
— O que você vê, Sydney?
Franzi a testa, percebendo que ela tinha esquecido de injetar a droga que causava náusea. Mas eu é que não iria lembrá-la disso.
— Moroi, senhora.
— Errado. Você vê criaturas do mal.
Não soube o que responder, então não disse nada.
— Você vê criaturas do mal — ela repetiu.
Aquela nova tática me deixou sem ação.
— Não sei. Talvez sejam. Eu precisaria saber mais sobre essas Moroi em particular.
— Você não precisa saber nada além do que eu disse. Elas são criaturas do mal.
— Se a senhora diz — afirmei, com cautela.
O rosto dela continuou tranquilo.
— Preciso que você diga isso. Repita: “Eu vejo criaturas do mal”.
Olhei para as Moroi na foto. Eram duas garotas, mais ou menos da minha idade, que poderiam ser irmãs. Elas estavam sorrindo e segurando casquinhas de sorvete. Nenhuma delas parecia má, a menos que pretendessem enfiar o sorvete na boca de uma criança diabética.
Enquanto eu refletia sobre isso, o braço direito da cadeira soltou um clique súbito. A parte de cima deslizou para trás, revelando um compartimento oco que estava cheio de um líquido translúcido.
— O que é isso? — perguntei.
— Você vê criaturas do mal? — Sheridan perguntou em vez de responder.
Devo ter demorado tempo demais para responder, pois Sheridan apertou um botão no controle remoto. As amarras que prendiam meu braço começaram a se mover repentinamente, abaixando meu braço. Elas pararam assim que a parte de baixo do meu braço tocou aquele líquido e então começaram a subir novamente.
Mas não foi preciso mais do que isso. Soltei um grito de dor e surpresa quando uma sensação ardente se espalhou pela pele que havia encostado na superfície do líquido. Não sei que substância química era aquela, mas a sensação era de ter encostado numa panela de água fervente, deixando minha pele em carne viva. Depois que o braço saiu do líquido, a dor começou a passar aos poucos.
— Agora — Sheridan disse, com a voz doce demais considerando o que tinha acabado de fazer. — Diga: “Eu vejo criaturas do mal”.
Ela nem me deu a chance de responder antes de repetir o procedimento, me deixando em contato com o líquido um pouco mais do que antes. No entanto, eu estava mais preparada e consegui morder o lábio para não gritar. A dor foi exatamente igual e suspirei aliviada quando, depois de alguns momentos, ela levantou meu braço e permitiu uma breve recuperação.
Não durou muito e logo ela disse:
— Agora diga...
Não deixei que ela terminasse.
— Eu vejo criaturas do mal — respondi rápido.
Seu rosto se iluminou de triunfo.
— Excelente. Agora vamos tentar uma diferente. — Apareceu uma nova imagem, mostrando um grupo de crianças Moroi. — O que você vê?
Aprendi rápido.
— Eu vejo criaturas do mal — respondi prontamente. Era ridículo, claro. Não havia nada de mau naqueles Moroi nem nas imagens seguintes que ela começou a me mostrar. Na solitária, havia prometido a mim mesma que faria os joguinhos deles para sair daquele lugar e, se ela queria que eu repetisse essa mentira como punição por ter ajudado Renee, faria isso com prazer.
Um casal Moroi, outras crianças, um senhor de idade... e assim por diante. Sheridan foi passando rosto após rosto, e eu respondia corretamente.
— Eu vejo criaturas do mal. Eu vejo criaturas do mal. Eu vejo...
Não consegui terminar a frase quando apareceram outros dois Moroi, dois Moroi que eu conhecia.
Adrian e Jill.
Não fazia ideia de onde ela tinha conseguido aquela foto, e não ligava para isso. Meu coração se apertou enquanto eu olhava para aqueles rostos sorridentes, rostos que amava e dos quais sentia uma falta terrível. Lembrara deles inúmeras vezes, mas isso não se comparava a ver a imagem em si. Observei todos os detalhes: a maneira como a luz se refletia no cabelo de Adrian, como os lábios de Jill se curvavam num sorriso tímido. Precisei conter a onda de sentimentos que brotou dentro de mim. Talvez Sheridan quisesse me punir mostrando aquela foto, mas a verdade é que pareceu mais uma recompensa... até ela falar de novo.
— O que você vê, Sydney?
Abri a boca, pronta para repetir aquela frase vazia, mas simplesmente não pude. Olhando para aqueles rostos queridos, seus olhos brilhando de felicidade... não consegui. Mesmo dizendo a mim mesma que era uma mentira, não era capaz de condenar Adrian e Jill.
Sheridan não perdeu tempo. O dispositivo da cadeira enfiou meu braço no líquido, mais fundo que das outras vezes, deixando metade dele imersa. A sensação me pegou de surpresa e foi agravada por ela ter me deixado lá mais tempo que das outras vezes. O ácido misterioso queimou minha pele, pondo fogo em todos os meus nervos. Soltei um grito de dor e, mesmo depois de o dispositivo da cadeira levantar meu braço, eu ainda estava gemendo.
— O que você vê, Sydney?
Pisquei para conter as lágrimas e me foquei em Adrian e Jill. É só dizer, falei para mim mesma. Você precisa sair daqui. Precisa voltar pra perto deles. Ao mesmo tempo, me perguntei de repente: É assim que começa? Que fico igual ao Keith? Começaria dizendo a mim mesma que não tinha problema, desde que soubesse que era uma mentira dita para fugir da dor? Será que a mentira acabaria se tornando verdade?
Diante do meu silêncio, Sheridan abaixou meu braço mais uma vez, mergulhando-o ainda mais fundo do que antes.
— Diga — ela falou, sua voz desprovida de qualquer emoção humana. — Diga o que vê.
Um gemido lento escapou dos meus lábios, mas era só isso. Tentei me convencer a ser forte: Não vou dizer. Não vou trair Adrian e Jill, mesmo que sejam palavras vazias. Pensei que, se aguentasse a dor um pouco mais, Sheridan me daria um descanso temporário, mas, em vez disso, ela abaixou meu braço ainda mais, deixando-o completamente mergulhado no líquido.
Gritei ao sentir o ácido queimando a minha pele. Ao olhar para baixo, esperava ver a carne se desfazendo, mas o braço e a mão estavam apenas rosados. Qualquer que fosse aquele composto, era feito para parecer que estava machucando mais do que realmente estava.
— Diga o que está vendo, Sydney. Diga o que está vendo e tudo isso vai acabar.
Tentei lutar contra a dor, mas era impossível porque eu me sentia sendo queimada viva.
— Diga o que está vendo, Sydney.
Quanto mais tempo meu braço ficava submerso, mais a dor aumentava e, finalmente, me sentindo uma traidora ao olhar nos olhos daqueles que amava, disse de repente:
— Eu vejo criaturas do mal.
— Não ouvi — ela respondeu, mais calma. — Fale mais alto.
— Eu vejo criaturas do mal! — berrei.
Ela apertou o controle remoto, e meu braço foi erguido e libertado da tortura líquida.
Comecei a suspirar aliviada, mas então, de repente, sem uma palavra de aviso, ela abaixou o dispositivo mais uma vez. Soltei um grito, que durou mais uns dez segundos até ela erguer meu braço de novo.
— Por que fez isso? — exclamei. — Pensei que você...
— Esse é o problema — ela interrompeu. Depois de um comando silencioso, seus capangas voltaram e começaram a soltar minhas amarras. — Você pensou. Assim como pensou que podia ajudar Renee. A única coisa que precisa fazer aqui é obedecer. Entendeu?
Olhei para o meu braço, que estava num tom rosa escuro inflamado mas não mostrava tudo que havia sofrido. Depois, ergui os olhos novamente para Adrian e Jill, me sentindo culpada pela minha fraqueza.
— Sim, senhora.
— Excelente — Sheridan disse, deixando o controle remoto de lado. — Agora vá para a sua próxima aula.

4 comentários:

  1. Eles falam que os moroi são criaturas do maus mas, torturam as pessoas desse jeito isso parece meio hipócrita

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  2. Eu li essa parte ne segurando pra nao gritar....caralho ..senti a dor aqui..isso pq eles se vem como bonzinhos...um inscambal quero falar um monte de palavrao ..pra essa coisas..

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  3. Enquanto isso, o pobre coitado cachaceiro está se embebedando em festas...coitada da Sage...ela merecia um homem de verdade...

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Boa leitura :)