19 de outubro de 2017

Capítulo 9

Adrian

EU ESTAVA SENDO MANDÃO, MAS NEM LIGUEI.
A verdade era que ninguém ligou também. Talvez tivessem entendido o que estava em jogo. Talvez conseguissem sentir minha urgência. Fosse o que fosse, o tempo estava passando diante dos meus olhos e eu não perderia aquela chance por nada.
— Tragam um médico — ordenei. — Ou uma enfermeira. Qualquer pessoa que consiga tirar sangue de maneira segura. — Não precisei especificar que era um médico Moroi. Isso ficou subentendido, mas a pessoa era uma incógnita. Alguns Moroi viviam juntos em comunidades isoladas. Outros tentavam se esconder dos Strigoi morando em áreas humanas altamente povoadas. O importante era encontrar alguém dessa segunda categoria com treinamento médico que estivesse perto.
Dimitri saiu do quarto imediatamente, já discando no celular e, mais uma vez, admirei sua eficiência altruísta.
Charlotte e Olive trocaram olhares assustados.
— O que está acontecendo? — Charlotte perguntou, incisiva. — Por que vão tirar sangue dela?
— É melhor ter um bom motivo — Olive exclamou, firme. — Ou vou sair daqui agora mesmo. — Ela estremeceu. — Já vi sangue demais nos últimos três meses.
Sorri e minha tensão diminuiu um pouco. As duas irmãs tinham um fervor admirável, e também achei graça na convicção de Olive de que conseguiria sair andando dali. Além do fato de a restauração ter um impacto físico gigantesco, ela nunca conseguiria passar por um daqueles guardiões.
— Seu sangue pode salvar muitas vidas. — Reconsiderei minha escolha de palavras. Um Strigoi, ao descobrir que não podia transformar uma vítima, poderia simplesmente matá-la. — Ou, enfim, almas. Nenhum Strigoi vai poder transformar você de novo.
A petulância de Olive vacilou.
— Você… você está falando sério? Porque realmente preferiria morrer a passar por aquilo de novo. — Ela cerrou os olhos, o que não impediu algumas lágrimas de cair. — Foi horrível…
— Eu sei — eu disse, enquanto Charlotte abraçava a irmã. Só que, na verdade, não sabia. Não fazia ideia do inferno que devia ter sido. — Mas você está imune agora. E vamos tentar descobrir se podemos usar o que Charlotte fez por você para ajudar outras pessoas.
Charlotte tirou a cabeça do peito da irmã.
— Posso fazer alguma coisa pra ajudar?
— Acho que sua parte acabou, mas a ajudinha de uma usuária de espírito não vai fazer mal. Quando conseguir usar o espírito de novo — acrescentei.
Ela me encarou com seus raros olhos cinzentos.
— Consegui reunir o bastante pra ver o quanto você estava usando naquela hora. Não consigo usar tanto assim.
Balançou a cabeça e ignorei o olhar curioso que Rose me lançou.
— Não é verdade. Para salvar sua irmã, deve ter usado pelo menos a mesma quantia.
Dimitri voltou alguns segundos depois.
— Tem uma enfermeira a caminho. Vai levar mais ou menos uma hora. — Pela primeira vez desde que nos conhecíamos, ele olhou para mim com respeito. — Vai dar?
— Tem que dar — eu disse, sentindo novamente o espírito que irradiava ao redor de Olive.
Perderíamos um pouco, mas eu tinha quase certeza de que ainda teríamos um resquício. Enquanto isso, eu precisava planejar. Sonya sempre tivera a esperança de que, estudando a magia no sangue, conseguiríamos replicar aquele feitiço. Eu não sabia se era possível. Considerando a maneira como o espírito brilhava ao redor de Olive agora, não conseguia ver nada claro que me permitisse lançá-lo da mesma forma. Talvez eu simplesmente não tivesse a mesma habilidade. Fiquei pensando se não poderia ser algo tão simples como usar o espírito do mesmo modo que Charlotte havia feito para restaurar Olive. Se era esse o segredo, tínhamos alguns problemas. Um era que o feitiço exigia uma estaca prateada no coração. O outro era que lançá-lo deixava o usuário de espírito esgotado.
Definitivamente não estávamos em posição de produzir uma vacina mágica em massa.
Por falar em vacina… fiquei me perguntando se não seria tão fácil quanto parecia. Será que poderíamos simplesmente injetar o sangue de Olive em outra pessoa? Ou fazer uma tatuagem com ele?
O lado biológico da questão não era comigo. Isso exigia alguém como Sydney.
Pensar nela me fez desejar que estivesse ali. Olhei meu celular e encontrei uma mensagem sobre poesia que me fez sorrir. Tentei pensar em uma resposta inteligente e acabei indo com a verdade nua e crua: Preciso de você. Em todos os sentidos.
Era verdade. Crises como aquela eram especialidade dela, não minha. Guardei o celular no bolso e tentei ignorar a saudade que sentia. Se Sydney estivesse ali, não ficaria distraída. Eu não podia fazer diferente. Acredito em você.
— Preciso de um pouco de prata — eu disse, sem dirigir as palavras a ninguém em particular. — O ideal seria uma cápsula forjada especialmente para conter um frasco de sangue, mas, como imagino que nenhum de vocês seja um ourives, aceito qualquer coisa.
Infelizmente, não tinha nada na casa. Nem as meninas tinham joias. Rose se voltou para um dos guardiões como se fosse um general no campo de batalha.
— Encontre uma joalheria — ela ordenou. — E traga um pouco de prata.
— Anéis masculinos grandes, se encontrar — acrescentei. — Acho que cinco ou seis vão funcionar para um frasco.
— Só um frasco? — Olive perguntou. Aquele ardor de antes voltou. — Pode tirar o quanto precisar. Faço qualquer coisa pra pôr um fim nisso.
— Vá com calma, campeã — eu disse. — Não vamos drenar você logo depois de ter literalmente mudado de vida. Além disso, nem sei se o sangue vai reter a magia quando o extrairmos. — Ao ver o olhar confuso de todos, percebi que ainda não tinha explicado minha ideia. — O corpo dela está transbordando de espírito. Não sei se é isso que cria a imunidade, mas é a melhor pista que temos. Acontece que o espírito está escapando rápido e por isso precisamos correr.
O faz-tudo de Rose saiu correndo. Sem nada para fazer além de esperar, ela se recostou em Dimitri e soltou um suspiro. Neil, para a minha surpresa, começou a elogiar a determinação e a coragem de Olive.
Eu estava inquieto demais para ficar parado e fui até a varanda, pela primeira vez em muito tempo desejando um cigarro — não só por causa do nervosismo, mas também porque fumar suavizaria a força do espírito. Em vez disso, me contentei em andar de um lado para o outro e checar o celular obsessivamente para ver se Sydney havia enviado alguma mensagem.
— Esperando uma ligação? — Charlotte apareceu no batente, novamente envolvida no cobertor.
Guardei o celular.
— Só torcendo para receber uma mensagem.
— Namorada?
— Amiga — eu disse, presunçoso. — Tenho várias “amigas” assim.
Ela se recostou na porta, iluminada pelas luzes de dentro em meio à escuridão da noite.
— Ouvi dizer. Não reconheci você quando o vi pela primeira vez.
— Deveria ter reconhecido?
Ela deu de ombros.
— Você e sua família são famosos.
Não pedi que ela explicasse. Ela poderia estar falando da tia Tatiana… ou da minha mãe, que estava trancafiada em alguma prisão. Nunca me disseram onde e, quando tentei visitá-la em sonho, ela tinha me mandado embora com tanta veemência que obedeci. Não sabia ao certo se tinha surtado por causa do sonho de espírito ou se só estava envergonhada pelo fato de eu a ver naquele estado. Eu me apegava à esperança de que seria mais bem recebido pessoalmente, mas uma visita não parecia provável tão cedo.
Com todas as complicações na minha vida, eu evitava pensar nela e me contentava em escrever cartas que nunca enviava. Nem Sydney sabia disso.
— Bom — eu disse, assumindo o ar arrogante que todos esperavam de mim —, não é nenhuma surpresa. Meu charme e beleza são famosos, especialmente entre as mulheres.
— Aposto que sim — Charlotte disse, com um sorriso triste. — Mas você não é como eu imaginava. Obrigada por ajudar Olive.
— Agradeça a si mesma por isso. Não fiz nada.
— Pelo contrário, está ajudando minha irmã a superar isso mentalmente. Quer dizer, a gente não teve chance de conversar muito, mas dá pra ver. Conheço Olive e sei como foi traumático pra ela.
Balancei a cabeça.
— Não conheço sua irmã e até eu consigo ver que foi traumático. Também conheço algumas pessoas que passaram pela mesma coisa.
Charlotte ficou em silêncio por um bom tempo.
— Elas superaram? — ela perguntou baixinho.
Pensei no olhar perturbado que às vezes ainda via em Dimitri e Sonya.
— Não. Mas aprenderam a seguir em frente. Olive também vai aprender.
— Sabe como aconteceu? — Charlotte apertou o cobertor com mais força quando uma brisa fria agitou seu cabelo encaracolado. — Ela estava protegendo nosso pai. Nunca passou pela cabeça dele nos deixar crescer separadas, sabe. Ele e minha mãe se separaram, e depois ele se casou com a mãe de Olive. Ela é uma dampira, óbvio. Quer dizer, era. Faleceu faz alguns anos.
— Um homem corajoso — comentei. Os Moroi costumavam manter suas amantes dampiras escondidas.
— Ele é incrível. Mas não é da realeza. Quando Olive estava na escola, descobriu que nunca teria como proteger meu pai quando virasse guardiã. Falaram para ela que teria que ir para onde a mandassem depois de formada, pra proteger alguém da família real. — Charlotte riu com a lembrança. — Ela não ficou nada feliz.
Lembrei do rosto de Olive, determinado mesmo naquele estado enfraquecido.
— Imagino.
— Então ela largou a escola e virou a guardiã extraoficial do meu pai. Ele não gostou que ela abandonasse os estudos. Mas respeitou os motivos dela e a deixou fazer o que queria, desde que frequentasse um curso supletivo para humanos. Estava tudo bem até que… — Ela perdeu a fala.
— Strigoi? — adivinhei.
— Ele foi atacado numa viagem de negócios. Olive os distraiu para que meu pai pudesse escapar. Ele fugiu. Ela não. Por muito tempo achei que estivesse morta e, quando descobri que não, li tudo que consegui sobre Dimitri Belikov e Sonya Karp. Chamei meu amigo James para ajudar… e aqui estamos nós.
— Foi muito corajoso — eu disse. Tinha sido incrivelmente perigoso também, mas quem era eu para julgar? Não tinha dúvida de que correria o mesmo risco para salvar alguém que amava. Afinal, tinha trazido Jill de volta à vida.
O guardião que tinha ido procurar prata voltou mais tarde, pouco antes da enfermeira. Ninguém se deu ao trabalho de contar a ela o que estava acontecendo — estávamos todos agitados demais. Ela olhou nervosa de um lado para o outro quando entrou no quarto de Olive e então começou a trabalhar em silêncio. Foi uma coisa bem simples para tanta confusão. Ela levou um minuto para tirar o sangue. Então tampou o frasco e o ergueu, sem saber o que fazer com ele. Peguei o sangue das mãos dela e o observei com atenção. O espírito ainda emanava lá dentro, mas estava perdendo a força.
Praguejei e peguei os anéis de prata. Nosso mensageiro tinha feito um bom trabalho. Os anéis eram grossos, lisos e grandes o bastante para ficar ao redor do frasco. Mas eu nunca havia encantado prata antes e tinha uma noção bem vaga do assunto, com base nas explicações de Lissa. Sentir todos os olhares voltados para mim só piorava as coisas. A sensação do metal na minha mão era fria e o espírito me preencheu enquanto eu tentava enviá-lo para um dos anéis. Minha ideia era criar um tipo de compulsão que prendesse o espírito no sangue. Faria com que as duas variantes de magia batessem uma contra a outra, algo que eu nem sabia se era possível. Levantei os olhos para a enfermeira.
— Você não é usuária de terra, é?
— Não — ela respondeu. — Ar.
O oposto do que eu precisava. Usuários de espírito faziam compulsão melhor que qualquer outro tipo de Moroi, mas os usuários de terra tinham uma afinidade com metais e outras coisas que habitavam o solo. Prata aceitava magia com facilidade, mas seria bom ter uma ajudinha, e me arrependi de não ter pedido para que chamassem um usuário de terra. Agora era tarde.
— Aqui. — Charlotte veio até mim e pousou a mão sobre o anel que eu segurava. Senti a magia dela crescer. Não era quase nada comparada à minha, mas ajudou a guiar meu feitiço para o anel. Minha força vacilou enquanto eu a encarava, surpreso.
— Você já fez feitiços antes.
— Alguns.
Imitei o que ela fez e consegui infundir o espírito na prata. Fiz o mesmo com os outros quatro anéis e, embora continuasse repetindo para mim mesmo que Sydney acreditava em mim, também me lembrei da preocupação nos olhos dela, de seus avisos sobre como o uso contínuo do espírito faria mal à minha cabeça. E eu não estava simplesmente usando o espírito. Eu estava mergulhando nele. Entre “olhar” dentro do sangue de Olive e fazer aquele feitiço agora, sentia como se eu mesmo fosse feito de espírito.
Era avassalador, mas o que mais poderia fazer? Todos estavam contando comigo e, quando terminei, mal conseguia ficar em pé. Encostei a mão no assento de uma cadeira para me equilibrar e entreguei os anéis para Dimitri.
— Coloque em torno do frasco.
Os anéis eram um pouco mais largos, então ele acomodou o frasco numa caixinha acolchoada de algodão para que não deslizassem. Um silêncio tenso tomou conta do quarto e ele me devolveu a caixa.
Usei o que sobrava da minha força para analisar o espírito no sangue. A magia ainda estava lá e eu tinha quase certeza de que não estava mais vazando. Olhei para Charlotte em busca de confirmação, mas ela balançou a cabeça.
— Não consigo ver o que você está vendo.
— Melhor que isso, impossível. — Devolvi a caixa para Dimitri. — Entregue para Sonya na corte o mais rápido possível. Ela é nossa melhor chance para descobrir isso agora. Acho que consegui estabilizar o espírito, mas não sei por quanto tempo. — Enquanto os outros corriam para fazer os planos da viagem, senti o quarto balançar. Precisava sair dali, mas não queria demonstrar fraqueza na frente de todas aquelas pessoas que haviam depositado tantas esperanças em mim. Finalmente, pedi ajuda para a única pessoa que não me julgaria, tocando no braço de Charlotte. — A gente pode conversar sobre, hum, coisas de espírito?
— Claro. — Ela disse algumas palavras tranquilizadoras para Olive e deixou Neil fazendo companhia para a irmã. Charlotte saiu do quarto comigo e me olhou com preocupação. — Sobre o que queria conversar?
— Nada — eu disse, entredentes. — Só preciso que encontre um lugar para eu deitar porque me recuso a desmaiar na frente de Rose e Belikov.
Ela arregalou os olhos, mas não perdeu tempo e me levou até seu quarto. Em outras circunstâncias, talvez eu tivesse a nobreza de dizer que não poderia ficar com a cama dela. Mas a exaustão venceu o cavalheirismo. Caí com tudo na cama estreita e, pela primeira vez na vida, não tive dificuldade para dormir.
Acordei com a luz do sol matinal entrando pela janela. Sentando-me de supetão, olhei ao redor, sem saber direito onde estava. Aos poucos, fui me lembrando. Parte das minhas forças voltou, mas eu ainda me sentia cansado. Rose estava sentada perto com uma humana que trazia as mordidas no pescoço e o olhar entorpecido que denunciavam os fornecedores.
— Café da manhã — Rose disse.
Não perdi tempo com formalidades e enfiei os dentes no pescoço da mulher. O barato me pegou de surpresa. Eu andava tão saciado com Dorothy nos últimos tempos que tinha passado a beber sangue com tranquilidade, como se fosse um copo de leite. Agora, fraco e exausto, senti como meu corpo precisava do sangue de outras pessoas. Era algo tão essencial para os Moroi quanto o ar e a água e, enquanto bebia, sedento, tive certeza que nunca havia experimentado nada tão doce e puro.
A fornecedora relaxou contente na cadeira quando terminei, à deriva em um mar de endorfinas.
— Que bom que também foi bom pra você — eu disse a ela, me acomodando nos travesseiros. Respirei, satisfeito, enquanto a energia do sangue continuava a circular pelo meu corpo. — Então, quais as novidades, dampirinha?
Os olhos escuros de Rose me observaram com ironia.
— Você dormiu por dez horas. Dimitri foi embora com Charlotte, Olive e os outros guardiões. Sonya está a caminho da corte, então, se tudo der certo, vão se encontrar em breve. Só sobramos eu, você e Neil.
— Acha que Charlotte e Olive estão bem pra viajar? — perguntei.
— Elas estavam bem melhor hoje de manhã. E não queríamos perder tempo, caso Sonya ainda consiga encontrar alguma coisa.
Joguei as pernas ao lado da cama e me levantei, contente por ver o mundo estável de novo.
— Também não quero perder tempo. Preciso voltar para Palm Springs. — Voltar para Sydney. — Obrigado por ficar.
Rose assentiu e também se levantou.
— Obrigada por tudo o que você fez. Não entendo muito dessas coisas, mas Charlotte entende e ficou muito impressionada.
— Ossos do ofício — eu disse, torcendo para que ela acreditasse em mim. Eu sabia muito bem que tinha usado espírito demais. E também sabia que haveria um preço.
Um sorriso malicioso passou pelos lábios de Rose.
— Acho que Charlotte gostou de você. Talvez possa procurar por ela da próxima vez que estiver na corte. Faria bem pra você sossegar o facho. — Era um comentário perigoso, considerando nosso passado, mas não me incomodava mais.
— Como assim? E decepcionar todas as outras mulheres do mundo? Não sou tão cruel quanto você pensa.
Ela segurou meu braço quando eu estava prestes a ir para a sala encontrar Neil.
— Adrian, falando sério… muito obrigada, de verdade. Desculpe pelo que eu disse ontem. Você mudou. E… combina com você.
— Tudo combina comigo — respondi.
Isso tirou o ar sério dela.
— Tudo vira piada com você. Isso nunca vai mudar.
Então, para minha surpresa, ela me abraçou. Mais uma vez, fiquei imune ao gesto. Não que não tenha sentido nada, mas não experimentei a dor ou a saudade de uma ex-namorada. O abraço era um gesto de amizade.
Fomos todos para o aeroporto juntos, Rose rumo à Pensilvânia enquanto Neil e eu seguimos de volta a Palm Springs. Quando olhei o celular no portão de embarque, encontrei várias mensagens de Sydney, empolgada com uma descoberta sobre seu feitiço. Senti um calor no peito ao imaginar o rosto dela e aquele brilho em seus olhos quando fazia uma descoberta intelectual.
Escrevi: Nunca tive dúvidas. Acredita que eu também fiz uma descoberta com feitiços?
A resposta veio rápido. Claro que acredito. Quando você volta?
No começo da noite. Pode passar em casa?
Vou tentar. Precisamos comemorar.
Devo preparar o champanhe e o bolo?
Vai preparando a cama só.
Use o sutiã preto.
Não estava planejando usar sutiã.
— Nossa senhora — murmurei, recebendo um olhar surpreso de Neil.
Eu sinceramente duvidava que transaríamos durante uma dessas visitas furtivas, mas a simples insinuação do toque dela fazia com que o resto do mundo perdesse a importância. Senti o coração bater mais forte quando pensei naquele olhar que ela tinha em certos momentos, um olhar animal que não se interessava por livros e costumava vir antes da urgência dos seus lábios nos meus e o aperto de suas mãos nas minhas costas. Todos achavam que Sydney só sentia paixão por buscas intelectuais. Mal sabiam eles.
Pensar em Sydney me manteve bem durante o resto da viagem, fazendo até a conversa com Neil parecer suportável. Ele tinha ficado excepcionalmente tagarela, querendo saber como ajudar com a “vacina Strigoi”. Também não parou de falar da coragem das irmãs Sinclair, especialmente de Olive. Eu conseguia identificar uma paixonite a quilômetros de distância e assumi um ar mais sério para dizer a ele:
— Nunca vi coragem como a dela. Nem consigo imaginar. Você deve ser a única pessoa que entende esse tipo de bravura. Ela também consegue ver, sabe. Ficou claro pela maneira como falou com você.
Neil prendeu a respiração.
— Acha mesmo?
— Claro. Estava nos olhos dela. Vocês deviam manter contato. Vou pegar o telefone dela quando voltarmos. Acho que vai ajudar se ela tiver alguém com quem conversar.
Essa ideia, pelo menos, o manteve quieto e contente. Eu teria problemas com Jill por causa disso, mas continuava acreditando que ela acabaria me agradecendo quando fugisse com algum príncipe Moroi. Ou com Eddie. Qualquer um dos dois estava valendo.
Quando aterrissamos em Palm Springs, meio que tinha esperança de que Sydney estivesse lá para nos dar uma carona, mas, em vez disso, recebemos mensagens dizendo para pegarmos táxis até nossos respectivos lares. Também havia uma mensagem de Jill: Sei o que está fazendo com Neil. Você é malvado. Como vou ter um relacionamento saudável desse jeito?
Ficando com outra pessoa, respondi.
Depois de deixar a mala em casa, peguei meu próprio carro e fui para uma mercearia perto de casa. Andava como se estivesse nas nuvens, animado com o que tinha conseguido em Dallas e ansioso para rever Sydney. Não só pela chance de ver seu sutiã (ou de tirá-lo). Só queria estar perto dela. Eu me sentia sozinho na minha própria cabeça. Mesmo que tivesse Jill ou outros amigos, não havia ninguém além de Sydney com quem eu realmente me sentisse à vontade. Ela era a única pessoa que me via e ouvia de verdade.
Tive uma ideia súbita e decidi fazer alguma coisa naquela noite. Por que esperar até o aniversário dela? Como Sydney tinha dito, era uma ocasião especial. Ambos estávamos comemorando sucessos. Não sei por que, mas fiquei obcecado com a ideia de fazer crème brulée. Eu nunca tinha feito nenhum tipo de sobremesa, a não ser que abrir um pote de sorvete contasse. Mas crème brulée parecia elegante, eu estava apaixonado e me sentia invencível depois de realizar uma façanha com o espírito que poucas outras pessoas conseguiriam. Não devia ser muito difícil fazer uma sobremesa, não é?
Antes que eu pudesse responder a essa pergunta, uma pesquisa no celular me informou que eu precisava de muito mais equipamentos do que tinha na minha cozinha escassa. Quando finalmente cheguei no caixa com um minimaçarico, forminhas, creme, separador de ovos, panela de banho-maria e grãos de baunilha orgânicos, me deparei com um valor surpreendentemente alto, muito maior do que o que tinha no banco. Ou que meu cartão de crédito permitia, na verdade.
— Sinto muito — a caixa disse, devolvendo o cartão para mim. — Recusado.
Senti um frio na barriga.
— Pode tentar de novo?
Ela deu de ombros e passou mais uma vez, com o mesmo resultado.
— Recusado — repetiu.
Quase pedi para passar mais uma vez, mas, no fundo, eu sabia que não faria diferença. Sentindo-me um idiota completo, abandonei as compras e saí da loja, sem saber o que fazer. O pânico começou a tomar conta de mim. Fiquei repetindo para mim mesmo que nem minha conta bancária nem meu cartão de crédito estavam zerados. Só não tinham o suficiente para pagar pelos equipamentos do crème brulée.
Mas quanto exatamente me restava? Tinha que descobrir. Só precisava sobreviver às duas semanas até meu próximo pagamento e, durante o trajeto agonizante de volta para casa, fiquei somando as despesas com que teria de lidar. Gasolina. Comida… a menos que Dorothy fornecesse para mim. Será que tinha pagado a luz? Não conseguia lembrar, mas sabia que a TV a cabo já estava paga — não que fizesse muita diferença se cortassem a luz.
Calma, Adrian, disse a mim mesmo. Você ainda tem dinheiro. E não vão cortar a luz se você atrasar um pouquinho.
Mas, quando cheguei em casa e verifiquei o saldo, vi que, mesmo não estando zerado, estava bem perto disso. O que eu iria fazer? Mal conseguiria sobreviver com as despesas diárias, quanto menos cuidar da tarefa cada vez mais próxima de dar um presente para Sydney. Sentei no chão perto dos vinis ainda empacotados e fiquei olhando para as caixas.
— Idiota, idiota — murmurei. — Sou um idiota.
A felicidade que estava sentindo por causa do triunfo no Texas evaporou. O desespero tomou conta de mim, com seus tentáculos subindo devagar pela minha pele. Depois do que eu tinha feito no dia anterior, era esperado que ficasse suscetível aos altos e baixos da magia. Já tinha sentido os altos naquele dia… agora os baixos tentavam vir, aproveitando perturbações como aquela e fazendo com que parecessem maiores do que eram. E então, de repente, ouvi a voz dela.
Por que está tão triste? Você não é idiota. Você é brilhante, meu menino lindo. Vai arranjar um jeito de sair dessa.
Conseguia ouvir a voz da tia Tatiana com tanta clareza que ela parecia estar do meu lado. Escondi o rosto nas mãos.
— Vai embora, tia. Não preciso acrescentar alucinações à minha lista cada vez maior de problemas.
Desde quando sou um problema?
— Desde que morreu e comecei a imaginar que estou ouvindo sua voz.
Quer dizer que não consegue ouvir, docinho?
— Sim! Quer dizer, não. É uma ilusão. Está tudo dentro da minha cabeça. — Esse era outro segredo que eu escondia de Sydney, o fato de que, nos meus momentos mais sombrios, eu vinha tendo conversas com minha tia morta. Era uma das coisas mais assustadoras que já haviam acontecido comigo, porque, embora certos atos pudessem ser chamados de malucos em tom de brincadeira, não havia dúvidas de que imaginar fantasmas era loucura de verdade. — Não quero falar com você.
Por quê? Sempre estive ao seu lado, não é verdade? Sempre cuidei de você.
— Sim — eu disse, entredentes. — Mas você morreu e eu preciso cuidar de…
Ergui a cabeça subitamente quando tive uma ideia. Levantei com um salto e corri até a cômoda, onde brilhavam as abotoaduras que a tia Tatiana havia me dado. Sydney tinha dito que eu ganharia uma fortuna se as vendesse, mas eu não precisava vender. Pelo menos não tecnicamente. Poderia levá-las até uma casa de penhores e pegar um empréstimo. Em duas semanas, teria como pagar. Eufórico com a revelação, apanhei as duas e já estava a caminho quando parei. Uma voz sábia dentro de mim me fez reconsiderar a logística. Depois de pensar um pouco, guardei uma delas e procurei uma pinça no meio da bagunça de coisas empilhadas por ali. Com um pouco de dificuldade, arranquei um dos rubis e o ergui contra a luz. Não havia necessidade de arriscar os outros. Um rubi era tudo de que eu precisava.
Mais do que o suficiente para aguentar as duas semanas seguintes. Na minha cabeça, ecoou o riso da tia Tatiana.
Viu? Estou sempre cuidando de você.
— Você não é real — eu disse, caminhando a passos largos até a porta da frente. — É o espírito que está fazendo isso com a minha cabeça. É só o efeito colateral de tudo que fiz com Olive.
Se não sou real, então por que me responde em voz alta?
Eu sabia que aquilo aconteceria, que não poderia sair ileso usando todo aquele espírito. Só não havia esperado que ficasse alternando entre aqueles altos e baixos ou que chegasse a ter longas conversas com minha tia morta. Precisava acabar com aquilo imediatamente. Não queria que a tia Tatiana ficasse falando comigo enquanto eu negociava com o penhorista e definitivamente não a queria por perto quando Sydney estivesse ali. Uma olhada no relógio me disse que ainda tinha um tempo até ela aparecer, o que me dava uma boa oportunidade para arrumar minhas finanças e apagar minha tia da cabeça.
Eu não tinha bebido minha dose diária e decidi que valia a pena tomá-la mais cedo para retomar o controle. Os termos do acordo só delimitavam “uma dose”, sem especificar a força da bebida. Por isso, quando encontrei uma garrafa antiga de Bacardi 151, a bebida mais forte que eu tinha, não achei que estava trapaceando, por mais que tivesse álcool para duas doses ali. Depois de um copo, saí porta afora.
E, novamente, tive um acesso de sensatez. A dose ainda não havia tido efeito, mas tive a prudência de ir andando para o centro em vez de dirigir. Era menos de quinze minutos de caminhada e, quando cheguei em frente à casa de penhores pela qual já tinha passado algumas vezes, estava alegre graças ao rum. No entanto, a avaliação do dono da loja não me deixou tão contente.
— Duzentos — ele disse.
— Você está louco — retruquei, pegando o rubi de volta. — Vale pelo menos o dobro disso. — Naquela hora, me ocorreu que, se eu não tivesse tomado o rum, teria controle total do espírito e poderia compelir o homem a me dar um preço mais alto. Me arrependi da ideia imediatamente. Até eu tinha princípios. Havia um motivo por que os Moroi proibiam o uso da compulsão.
O cara deu de ombros.
— Então faz um anúncio. Vende na internet. Mas, se quer dinheiro rápido, não vai conseguir mais do que isso.
Quase fui embora, mas o desespero me fez ficar. Duzentos era menos para pagar de volta depois e eu não precisava de muito mais para sobreviver durante duas semanas.
— Você não vai vender? — perguntei.
— Não se pagar os juros ou vier quitar o empréstimo. — Havia algo no olhar dele que dizia que a maioria das pessoas nunca voltava para pagar o empréstimo. Em alguns dos meus momentos mais sombrios, eu me afundava em autopiedade pensando em como minha vida era horrível. Mas, naquela hora, não pude deixar de pensar em como devia ser deprimente ver os fracos e oprimidos do mundo entrando para vender suas posses mais valiosas.
— Vou pagar de volta — eu disse. — Volto daqui a duas semanas, então cuide bem dele.
— Se é o que você diz — ele respondeu.
Entreguei a papelada preenchida para o homem. Ele me deu o dinheiro. E, assim, ao sair por aquela porta, senti que tinha tirado um peso das minhas costas. Tinha resolvido o problema. Estava no controle da minha vida de novo. Admito que pensar que o rubi da tia Tatiana estava nas mãos daquele velho imundo me fez hesitar e quase esperei que ela reclamasse. Mas o rum a manteve em silêncio e fiquei repetindo a mim mesmo que não havia feito nada de mal.
Não tentei repetir o experimento do crème brulée, mas comprei alguns pains au chocolat no caminho de volta para ter alguma coisa legal quando Sydney passasse em casa. Poderíamos comer à luz de velas e contar os acontecimentos dos últimos dias um para o outro. Custaram só sete dólares, então ninguém poderia questionar minha responsabilidade financeira.
Meu telefone tocou quando eu estava perto da porta e, para a minha surpresa, a tela mostrou o nome de Rowena.
— Ei, príncipe Encantado! Estou indo com uma galera para o Matchbox hoje. A entrada é a partir de dezoito anos, então você pode levar sua namorada imaginária.
— Ela vem aqui hoje para atividades bem pouco imaginárias — eu disse. — Faz dois dias que não a vejo.
— Coitadinho! Nem sei como aguentou tanto tempo. Mas sabe onde encontrar a gente se mudar de ideia.
Minha energia estava alta e comecei a pintar intensamente. Depois de um tempo, perdi o interesse e decidi passar o resto do dia limpando a casa de cima a baixo. Estava sentindo uma necessidade ardente de provar meu valor, não só para Sydney, mas para mim mesmo. Não queria sentir que estava perdido na vida. Queria ser responsável e estar no controle. Queria ser um namorado digno dela, e me dediquei mais à limpeza do que me dedicava desde… bom, nem lembrava quando, já que odiava limpar a casa. Mas, naquela noite, estava a mil. Nada poderia me deter e cheguei a ponto de esfregar os ladrilhos da cozinha com uma escova de dente. Estava agitado e eufórico, e não havia sinal do humor sombrio de antes… pelo menos até eu começar a tirar o pó da cômoda e ver as abotoaduras com um rubi a menos.
O espanador vacilou e fiquei olhando para o buraco aberto na armação de platina. De repente, senti como se um buraco igual tivesse surgido na minha alma.
— Não — eu disse para Pulinho, que estava sentado na cama, sem dúvida estranhando minha atividade frenética. — Não foi embora para sempre. Vou pegar de volta.
Poderia jurar que ouvi de novo a risada da tia Tatiana e corri até o armário de bebidas, atrás de outra dose. Claro, seria uma violação do acordo, mas aquelas eram circunstâncias especiais. Eu tinha direito a uma margem de tolerância para lutar contra os efeitos negativos do espírito… não tinha?
Não. Não era desculpa e me mantive fiel a Sydney. Não perderia o controle. Não podia. Estava tudo bem. Eu tinha dito a ela que seria forte, que não teria mais recaídas. E, para provar aquilo para mim mesmo, segui um impulso nobre e comecei a jogar minha coleção de bebidas pelo ralo. Vacilei um pouco diante do desperdício, mas fora isso estava orgulhoso. Agora não teria nenhuma tentação. Sydney ligou quando estava quase no fim.
— Bem na hora, Sage. Estou terminando de arrumar a casa.
Ela suspirou.
— Não posso ir aí hoje. Zoe enfiou na cabeça que quer ajuda com um banco de dados alquimista e ouviu a sra. Terwilliger falar de um encontro… com o Wolfe, acredita? Então não posso usá-la como justificativa. Desculpe.
Pelo menos ela não podia ver meu rosto.
— Tudo bem. Você tem que fazer suas coisas. E, assim, vou ter mais tempo pra escrever minha lista de maneiras de celebrar.
O riso dela pareceu aliviado.
— Em quantas já pensou?
— Alguém já contou o número de estrelas no céu ou grãos de areia na praia? É inútil.
— Ai, Adrian. — A ternura na voz dela agitou meu sangue e meu coração, e agravou ainda mais a dor da sua ausência. — Amanhã passo aí. Prometo.
— Eu ia dizer que vou contar os segundos, mas daria um número grande demais pra mim.
— Eu conto por nós dois. Te amo.
Aquelas palavras foram como uma faca em meu peito, ao mesmo tempo doces e cruéis. Desligamos e olhei para o apartamento impecável, com as últimas pinturas em estilo livre. No balcão da cozinha, Pulinho parecia me julgar com seus olhinhos dourados. O que eu faria agora? Até me envergonhava dessa pergunta, como se eu fosse uma criança que precisava de outras pessoas para cuidar dela. Mas as telas não me interessavam mais, e eu me sentia desperto e agitado. Teria que enfrentar mais uma noite de insônia.
Coloquei Supertramp para tocar na vitrola e me afundei na cama para ler O grande Gatsby. Mas não conseguia me concentrar. Estava inquieto demais, agitado demais pensando em Sydney e nas velhas perguntas sobre o rumo que minha vida estava tomando. Tínhamos nos metido num jogo perigoso que parecia não ter fim. Nada mais parecia ter sentido também. O que aconteceria depois que Jill saísse de Palm Springs? Eu iria atrás dela? Ficaria para terminar a faculdade? E depois? Rowena sempre fazia piadas sobre o fato de que não tínhamos muitas opções de carreira, mas ela não estava muito longe da verdade. Deixando o livro de lado, joguei um braço sobre os olhos e tentei acalmar as engrenagens do meu cérebro. Tia Tatiana voltou.
Por que está se preocupando com essas coisas? Não combina com você. Viva o momento.
— Vai embora — eu disse em voz alta. — Você não está aqui e não vou conversar com um fruto da minha imaginação. Não estou tão maluco assim. Além disso… preciso pensar no meu futuro com Sydney. Preciso pensar no meu próprio futuro.
Você vai dar um jeito, a maldita voz disse. Sempre dá. Seu sorriso e seu charme vão livrar você de qualquer problema. Não se preocupe.
Meu lado racional me lembrou que aquela conversa era imaginária, apenas um efeito do espírito. Mesmo assim, me peguei respondendo.
— Não. Não vou ficar pulando de momento em momento sem me preocupar com as consequências. Chega de decisões impulsivas. Passei dessa fase.
Então por que vendeu minhas abotoaduras?
Abri os olhos. Sentimentos indefiníveis fervilhavam dentro de mim e eu não sabia o que fazer, mas precisava fazer alguma coisa, senão explodiria. Precisava sair de dentro da minha cabeça. Precisava sair dali.
— Chega. Cansei disso. Cansei de você.
Levantei de um pulo e voltei para a sala para procurar o celular. Ele estava do lado das minhas pinturas a óleo descobertas. Liguei para Rowena.
— Ei — eu disse. — Vocês ainda estão aí?

4 comentários:

  1. Karina o capitulo dez não está abrindo,por favor concerta????Obrigada!!

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  2. Nossa, eu não sabia que o espírito deixasse a pessoa desse jeito, é muito angustiante!!!

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Boa leitura :)