13 de outubro de 2017

Capítulo 9

COMO JILL HAVIA DITO, Adrian estava mais do que disposto a partir para a caça naquela tarde. Tanto que, quando finalmente falei com ele, se ofereceu para me buscar quando as aulas terminassem para maximizar nosso tempo. Não vi problema, já que isso significava que eu viajaria no Mustang. Claro que preferiria ir dirigindo, mas teria de servir.
— Quando você vai dar um nome pro seu carro? — perguntei quando já estávamos na estrada para Los Angeles.
— É um objeto inanimado — ele respondeu. — Nomes são para pessoas e bichinhos de estimação.
Fiz carinho no painel do Mustang.
— Não ouve o que ele está dizendo. — Depois me voltei para Adrian. — As pessoas vivem dando nome para barcos.
— Também não entendo isso, mas talvez compreendesse se meu velho me arranjasse a grana para um iate particular. — Ele me lançou um olhar rápido e divertido antes de voltar a atenção para a estrada. — Como uma pessoa fria e lógica como você pode ser tão obcecada com algo fútil desse jeito?
Não sabia que parte me incomodava mais: ser chamada de fria ou de obcecada.
— Só estou dando o devido respeito a uma linda máquina.
— Você deu um nome de café pro seu carro. Isso é sinal de respeito?
— Do mais alto respeito — respondi.
Ele deu uma risada incrédula.
— Certo, então. Você dá o nome. Aceito o que você quiser.
— Sério? — perguntei, um tanto atordoada. De fato eu estivera importunando Adrian para que desse um nome ao carro, mas não sabia se queria esse tipo de responsabilidade nas mãos. — É uma decisão muito importante.
— Uma questão de vida ou morte — ele disse, inexpressivo. — Melhor escolher com cuidado.
— Sim, mas você é a “mente criativa” aqui!
— É bom você ir treinando.
Fiquei em silêncio durante a maior parte da viagem, desorientada com a seriedade do dilema que tinha à frente. O que o nome deveria refletir? A cor amarela brilhante? As linhas curvilíneas? O motor potente? Era uma tarefa avassaladora.
Adrian me tirou dos meus pensamentos quando começamos a nos aproximar dos bairros residenciais nos arredores de Los Angeles.
— Não vamos entrar na cidade, vamos?
— Hein? — Eu estava dividida entre Vento Estival e Pó de Ouro. — Ah, não. Vamos para o norte. Pegue a próxima saída.
A sra. Santos tinha me falado sobre dois bairros conhecidos por suas casas de estilo vitoriano. Eu havia feito uma vasta pesquisa sobre os dois na internet, chegando a olhar imagens de satélite. Por fim, escolhi um que se parecia mais com o da minha visão e cruzei os dedos para que tivesse a mesma sorte que tivera ao procurar o apartamento de Marcus. O universo definitivamente estava me devendo alguns favores.
Infelizmente, as coisas não pareceram tão promissoras quando enfim chegamos ao endereço que eu tinha anotado. Era uma área residencial calma, cheia de casas naquele estilo característico, mas nenhuma igual à que eu tinha visto através do feitiço. Percorremos a rua de cima a baixo enquanto eu examinava os dois lados, torcendo para que pudesse ter deixado alguma casa passar despercebida.
— Argh — eu disse, me afundando no banco. Sem sorte. Pelo jeito, o universo tinha me deixado na mão dessa vez. — Vamos ter que olhar o outro lugar, mas, sério, não parecia o lugar certo.
— Bom, não vai doer se... — Adrian fez uma curva abrupta, entrando numa travessa que quase passara despercebida. Levei um tranco quando o carro bateu na guia.
— O que você está fazendo? Cuidado com os pneus!
— Veja. — Ele fez outra curva, entrando na rua paralela. A maioria das casas era de estilo contemporâneo... mas um quarteirão tinha outras casas vitorianas.
Perdi o fôlego.
— Ali!
Adrian parou o carro do outro lado da rua, em frente à casa da minha visão. Era igualzinha, desde a varanda coberta até os arbustos de hortênsia. E, agora, sob a luz do dia, eu conseguia ler a placa no jardim: POUSADA DO VELHO MUNDO. Letras menores identificavam a casa como um lugar histórico.
— Bom, aqui vamos nós. — Adrian estava visivelmente satisfeito com sua descoberta, apesar do dano aos seus pneus. — Talvez a irmã de Jackie esteja hospedada aqui.
— Escolha peculiar para uma base de operações mágicas abomináveis — comentei.
— Não sei, não. Já que não tem nenhum castelo mal-assombrado no bairro, por que não uma pousada?
Respirei fundo.
— Certo. Vamos investigar. Tem certeza de que consegue confundir a mente das pessoas que me virem?
— Fácil — ele respondeu. — Seria ainda mais fácil se você estivesse usando a peruca.
— Ai, caramba. Esqueci. — Abaixei e peguei uma peruca castanha na altura dos ombros que a sra. Terwilliger havia me dado. Mesmo com a magia de Adrian, queríamos tomar cuidados extras. Embora fosse bom que as pessoas recebessem visitas de uma loira de quem não conseguiriam se lembrar direito, seria ainda melhor se recebessem visitas de uma morena de quem não conseguiriam se lembrar direito.
Coloquei a peruca, torcendo para que ninguém tivesse visto minha transformação. Levantei a cabeça.
— Está boa?
O rosto de Adrian mostrou aprovação.
— Está linda. Você parece ainda mais nerd do que eu achava possível.
Saímos do carro, e fiquei pensando se realmente queria parecer nerd. Muita gente já me achava sem graça. O cabelo loiro talvez fosse a única coisa interessante em mim.
Então pensei por um minuto na minha experiência recente de subir uma escada de incêndio, invadir um apartamento e sair no braço com um fugitivo. Sem mencionar que estava caçando uma bruxa perversa e poderosa ao lado de um vampiro capaz de controlar a mente das pessoas.
Bom, talvez eu não fosse tão sem graça assim.
Entramos num saguão pequeno e bonitinho, onde havia uma mesa ornamentada e uma sala de espera com móveis de vime. Coelhos empalhados em roupas de festa enfeitavam as prateleiras, e pinturas a óleo da rainha Vitória estavam penduradas nas paredes. Pelo jeito, os donos levavam o estilo da casa bem a sério, embora eu não soubesse exatamente qual era a relação com os coelhos.
Uma menina da minha idade estava sentada atrás da mesa e levantou os olhos de uma revista, surpresa. Ela tinha cabelo curto platinado e óculos de aro grosso. Dezenas de colares estavam pendurados em seu pescoço, formando um conjunto espalhafatoso que contrariava meu senso estético minimalista. Contas rosa-shocking, uma estrela verde reluzente, um medalhão de ouro e diamante, uma chapa de identificação... era de dar nó na cabeça. Pior ainda: ela estava mascando chiclete bem alto.
— Oi — ela disse. — Posso ajudar?
Tínhamos todo um discurso planejado, mas Adrian imediatamente fugiu do roteiro.
— Sim — ele disse, passando o braço ao meu redor. — Estávamos procurando um lugar para dar uma fugidinha no fim de semana, e uma amiga nossa jurou que esta pousada é a melhor em questão de romance. — Ele me puxou para mais perto. — Nosso aniversário de namoro está chegando. Estamos juntos faz um ano, mas, cara, passou tão rápido.
— É verdade — eu disse, tentando não deixar o queixo cair. Forcei um sorriso e torci para que estivesse parecendo contente.
A menina olhou de mim para ele, sua expressão cada vez mais gentil.
— Que fofo. Parabéns.
— Podemos dar uma olhada nas acomodações? — Adrian perguntou. — Quer dizer, se tiver algum quarto vago.
— Claro — ela disse, levantando. Ela cuspiu o chiclete numa lata de lixo e foi até nós. — Sou Alicia. Meus tios sãos os donos daqui.
— Taylor — eu disse, apertando a mão dela.
— Jet — Adrian disse. Quase soltei um resmungo. Por algum motivo inexplicável, “Jet Steele” era um pseudônimo que Adrian adorava usar. Mas no ensaio naquele dia, tínhamos decidido que ele se chamaria Brian.
Alicia olhou para nós de novo, com uma ruguinha na testa que logo desapareceu. Imaginei que fosse a compulsão de Adrian, confundindo um pouco as percepções dela sobre nós.
— Venham comigo. Temos alguns quartos vagos que vocês podem dar uma olhada. — Depois de mais um olhar confuso para nós, ela se dirigiu para a escada.
— Não é ótimo, querida? — Adrian perguntou alto enquanto subíamos a escada rangente. — Sei que você adora coelhos. Você não tinha um quando era criança? Qual era o nome dele mesmo? Pulinho?
— Isso — respondi, resistindo à vontade de dar um soco no braço dele. Pulinho? Sério? — Melhor coelho do mundo.
— Que legal — Alicia disse. — Então vou mostrar a vocês primeiro a Suíte Coelhinho.
A Suíte Coelhinho tinha mais coelhos empalhados e bem-vestidos como parte da decoração. A colcha que cobria a cama de casal também tinha uma borda de coelhos e corações alternados. Havia vários livros sobre a lareira, incluindo As aventuras de Pedro Coelho e Coelho corre. Até aquele momento, nunca pensara o quão absurdo um quarto temático poderia ser.
— Uau — Adrian disse. Ele sentou na cama e testou a maciez do colchão, aprovando com a cabeça. — É incrível. O que você acha, florzinha?
— Estou sem palavras — respondi honestamente.
Ele deu um tapinha no lugar ao lado dele.
— Quer experimentar?
Respondi com um olhar e fiquei aliviada quando ele levantou. Adrian e camas acendiam sentimentos contraditórios dentro de mim.
Depois disso, Alicia nos mostrou a Suíte Glória-da-manhã, a Suíte Veludo e a Suíte Londres, todas competindo para superar umas às outras em questão de breguice. No entanto, apesar da artimanha absurda de Adrian, o tour me deu a oportunidade de anotar mentalmente o nome das outras portas no corredor. Seguimos Alicia até o andar de baixo.
— Não podemos ver a Suíte Safira ou a Suíte Príncipe Alberto? — perguntei.
Alicia fez que não.
— Sinto muito, estão ocupadas. Posso dar um folheto com algumas fotos se vocês quiserem.
Adrian me abraçou outra vez.
— Docinho, não era na Suíte Príncipe Alberto que a Veronica estava? Ela não está mais aqui, está?
— Não sei — respondi. Essa parte, pelo menos, era parecida com o que tínhamos ensaiado. Olhei para Alicia. — Você não pode nos dizer, né? Se nossa amiga Veronica está aqui? Ela é muito bonita, tem cabelo preto e longo...
— Ah, sim — Alicia disse, sorrindo. — Claro que me lembro dela. Ela estava na Suíte Veludo, mas fechou a conta ontem.
Resisti à vontade de dar um chute na mesa. Tão perto. Tínhamos perdido Veronica por um único dia! Sim, o universo estava definitivamente contra mim. Eu não poderia lançar o feitiço de clarividência até a próxima lua cheia, que seria dali a um mês.
— Ah, que pena — Adrian disse, ainda com aquele sorriso simpático. — Acho que só vamos encontrar Veronica no Natal mesmo. Obrigado pela ajuda.
— Vocês não querem reservar um quarto? — Alicia perguntou, esperançosa.
— Ligamos pra você depois — respondi. Não queria correr o risco de deixar Adrian reservar um e depois dizer que fazia parte do disfarce. — Vamos dar uma olhada em outros lugares. A gente não quer tomar nenhuma decisão precipitada pro nosso aniversário de um ano.
— Mas — Adrian disse, dando uma piscadinha para ela — estou com um bom pressentimento sobre a Suíte Coelhinho.
Alicia nos levou até a saída e arregalou os olhos quando viu o Mustang.
— Uau, que carro lindo!
— É fantástico — eu disse.
— É o nosso bebê... quer dizer, até termos um bebê de verdade. Você não acha que ele precisa de um nome? — Adrian perguntou. — Estou tentando convencer a Taylor. — Mais uma vez tive de lutar contra a vontade de dar um soco nele.
— Ah, claro — Alicia disse. — Esse tipo de carro... é a realeza dos automóveis.
— Viu só? — Adrian me encarou, triunfante. — E olhe que a Alicia é especialista em realeza. Você não viu todos aqueles quadros?
— Obrigada pela ajuda — eu disse, empurrando-o para a frente. — Depois a gente entra em contato.
Entramos no carro e, depois de dar tchau para Alicia, Adrian deu partida no motor. Fiquei olhando para a frente sem reação enquanto nos afastávamos.
— Assim como na Suíte Coelhinho, estou sem palavras para descrever o que acabou de acontecer. O que foi aquilo? Aniversário de namoro? Jet?
— Jet combina mais comigo do que Brian — ele argumentou. — E era uma história muito melhor do que alegar que íamos fazer uma visita surpresa no aniversário da nossa “amiga” Veronica.
— Isso eu não sei. Mas conseguimos a informação de que precisávamos... e não é nada boa.
Adrian ficou sério.
— Tem certeza? Talvez Veronica tenha deixado a região. Talvez você e as outras meninas não estejam mais correndo perigo.
— É, seria bom... tirando o detalhe de que outra garota em algum outro canto sofreria em nosso lugar e não teríamos como impedir. — Tirei da bolsa a lista que a sra. Terwilliger tinha me dado. — Um desses endereços é em Pasadena. Não custa nada dar uma passada lá no caminho e avisar a garota.
A menina que procurávamos se chamava Wendy Stone. Ela estudava no Instituto de Tecnologia da Califórnia, o que parecia uma estranha vocação para uma bruxa aprendiz. Claro, a sra. Terwilliger havia me dito que essas meninas não estudavam magia, e supus que o fato de não terem mentoras sugeria que pudessem, na verdade, ser resistentes a suas habilidades inatas... um pouco como eu.
Wendy morava num prédio perto do campus que foi fácil de achar. Era ocupado em sua maioria por estudantes, mas parecia um palácio perto do prédio de Marcus. Enquanto passávamos por jovens com mochilas nas costas conversando sobre suas aulas, senti uma pontada de tristeza que não experimentava havia muito tempo. Me tornar uma alquimista significava que eu não podia frequentar a universidade. Era um sonho que eu tinha fazia tempo, embora me matricular em Amberwood tivesse diminuído um pouco essa tristeza. Agora, no meio daquele alvoroço universitário, uma onda de inveja surgiu dentro de mim. Como seria levar esse tipo de vida? Devotar seus dias unicamente à busca por conhecimento, sem nenhuma intriga ou perigo? Até mesmo Adrian, com seu curso de arte de meio período, conseguia ter algum tipo de experiência acadêmica.
— Não fique triste — ele disse quando chegamos ao andar de Wendy. — Você ainda pode entrar na faculdade um dia.
Olhei para ele, assombrada.
— Como sabe o que eu estava pensando?
— Conheço você — ele disse simplesmente, sem nenhuma ironia. — Sua aura está triste, então imaginei que estar no campus de uma faculdade tinha algo a ver com isso.
Não consegui encará-lo e virei o rosto.
— Não gosto disso.
— Do quê? De alguém saber o que realmente importa na sua vida?
Sim, era exatamente isso. Mas por que me incomodava? Porque esse alguém era Adrian, me dei conta. Por que um vampiro me entendia tão bem? Por que não um dos meus amigos? Por que não um dos meus amigos humanos?
— Você pode ser Jet se quiser — eu disse bruscamente, tentando tomar as rédeas da situação e esconder meus sentimentos conturbados. Afinal, não era hora de terapia. — Mas não vamos posar de casal de novo.
— Tem certeza? — ele perguntou. Seu tom ficou descontraído outra vez, e ele voltou a ser o velho Adrian que eu conhecia. — Porque tenho vários outros apelidos carinhosos para usar. Quindinzinho. Bombonzinho. Pudinzinho de pão.
— Por que todos eles são comidas calóricas? — perguntei. Não queria estimulá-lo, mas a pergunta escapou antes que eu pudesse impedir. — E pudim de pão não é muito romântico.
Tínhamos chegado à porta de Wendy.
— Quer que eu chame você de aipo, então? — ele perguntou. — Não inspira a mesma sensação quente e carinhosa.
— Quero que me chame de Sydney. — Bati na porta. — Quer dizer, Taylor.
Uma menina sardenta com cabelo ruivo e encaracolado abriu a porta. Ela estreitou os olhos, desconfiada, quando nos viu.
— Pois não?
— Estamos procurando Wendy Stone — eu disse.
Ela fechou a cara.
— Vocês são do setor de graduação? Porque já disse que o cheque está a caminho.
— Não. — Abaixei a voz e me certifiquei de que não havia ninguém por perto. — Meu nome é Taylor. Estamos aqui pra falar com você sobre, hum, magia.
A transformação foi súbita e surpreendente. Ela passou de desconfiada e cautelosa a horrorizada e indignada.
— Não, não e não! Já falei mil vezes que não quero me envolver! Não acredito que vocês têm a coragem de aparecer na minha porta pra tentar me converter pro circo de horrores que é esse clã de vocês.
Ela tentou fechar a porta, mas Adrian conseguiu impedir com o pé. Muito másculo.
— Espere — ele disse. — Não é essa a questão. Sua vida pode estar em risco.
Wendy ficou incrédula.
— Vocês vão me ameaçar, ainda por cima?
— Não, não é nada desse tipo. Por favor — implorei. — Só nos escute por cinco minutos. Depois vamos embora e nunca mais importunaremos você.
Wendy hesitou e então finalmente fez que sim, resignada.
— Tá. Mas vou pegar meu spray de pimenta.
O apartamento dela era limpo e organizado, exceto por uma pilha de papéis e livros de engenharia espalhados pelo chão. Pelo jeito, tínhamos interrompido algum trabalho para a faculdade, o que trouxe minha tristeza de volta. Ela cumpriu sua promessa de pegar o spray de pimenta e então ficou parada na nossa frente com os braços cruzados.
— Falem — ordenou.
Mostrei a foto de Veronica.
— Já viu essa mulher?
— Não.
— Que bom. — Era mesmo bom? Ou será que significava que Veronica poderia ter marcado Wendy como futura vítima e estava esperando para dar o bote? — Ela é perigosa. Como posso dizer? Ela...
— Ela encontra garotas com dons para a magia e suga as almas delas — Adrian contribuiu, prestativo.
Wendy estremeceu.
— Desculpe, o que você disse?
— Não é exatamente assim — eu disse. — Mas é mais ou menos isso. Ela busca meninas com magia e rouba o poder delas.
— Mas eu não uso magia — Wendy argumentou. — Como disse pra vocês, não quero me envolver com isso. Tem uma bruxa em Anaheim que vive me dizendo que tenho potencial e que deveria virar aprendiz dela. Sempre digo não e nunca nem tentei um feitiço. Essa sugadora de almas não tem por que vir atrás de mim.
A sra. Terwilliger me avisara que algumas meninas poderiam dizer isso. Na verdade, dissera que a maioria usaria esse argumento.
— Não importa — eu disse. — Isso não vai impedi-la.
Agora Wendy estava horrorizada, e tinha motivos para isso. Minha reação fora parecida. Era frustrante saber que aquilo do qual você vinha tentando fugir poderia estar vindo atrás de você.
— Então o que devo fazer? — ela perguntou.
— Bom, fuja dela se possível. Se ela vier atrás de você... bom, não deixe ela entrar. Não fique sozinha com ela. — Era um conselho um tanto bobo. — Se a vir, avise aquela bruxa em Anaheim. Aliás... sei que não quer, mas, se eu fosse você, entraria em contato com aquela bruxa agora mesmo e pediria ajuda a ela. Seria bom aprender alguns feitiços defensivos também. Entendo que você não queira. Acredite em mim, entendo de verdade. Mas isso pode salvar sua vida. Além disso... — Estendi o amuleto de ágata. — Você precisa usar isso o tempo todo.
Wendy olhou para o amuleto como se fosse uma cobra venenosa.
— Isso é algum truque pra me fazer aprender magia de qualquer jeito? Virem aqui com essa historinha de que, se eu não aprender, podem sugar minha alma?
De novo tive que dar crédito a ela. Eu teria pensado exatamente a mesma coisa.
— Estamos falando a verdade — insisti. — Não tenho como provar... ou melhor, tenho sim. Me passe seu e-mail e vou mandar uma notícia sobre uma das vítimas.
Wendy parecia prestes a usar o spray de pimenta.
— Acho que teria ouvido falar se alguma menina tivesse a alma sugada por magia.
— Não ficou exatamente óbvio para quem não conhece o mundo mágico. Deixe eu mandar pra você e aí você pode tomar suas próprias decisões. É o melhor que posso oferecer.
Relutante, ela aceitou e anotou o e-mail dela. Adrian deu um passo à frente para pegar o papel, mas ele devia ter se movido rápido demais, porque ela subitamente apontou a lata de spray de pimenta na direção dele.
— Para trás! — exclamou. No mesmo momento, pulei na frente dele, com medo de que levasse um monte de spray de pimenta na cara. Lancei o primeiro feitiço em que consegui pensar, um feitiço simples que criava um espetáculo de luzes coloridas e flamejantes, mas inofensivas. Um feitiço de escudo teria sido muito mais útil, mas eu ainda não tinha praticado nenhum. Era uma coisa a corrigir para o caso de nossas missões futuras envolverem mais spray de pimenta.
— Para trás você! — avisei.
Como eu esperava, o espetáculo luminoso foi assustador para uma pessoa avessa à magia como Wendy. Ela recuou até o outro lado do apartamento e, felizmente, não usou o spray.
— S-saiam — ela gaguejou, com o olhar apavorado.
— Por favor, tome as precauções — eu disse. Pus o amuleto no chão. — E, por favor, use isso. Vou mandar o artigo por e-mail.
— Saiam — ela repetiu, sem fazer nenhum movimento em direção ao amuleto.
Enquanto eu e Adrian saíamos do prédio e andávamos sob o sol, suspirei alto. Estava tão decepcionada que nem conseguia ficar triste com o ambiente da universidade.
— Não foi exatamente um sucesso — eu disse.
Ele pensou um pouco e então abriu um sorriso.
— Sei não, Sage. Você se colocou na mira do spray de pimenta pra me salvar. Acho que já está se apaixonando por mim.
— Eu... imaginei que seria uma pena estragar seu rostinho bonito — gaguejei. Na verdade, não tinha pensado em nada tão específico. Tudo o que sabia era que Adrian estava em perigo. Proteger Adrian havia sido instintivo.
— Enfim, aquele feitiço foi incrível.
Entreabri um sorriso.
— Era inofensivo e essa é a questão. Wendy não sabia disso. Veronica vai atrás dessas meninas porque elas não têm nenhuma proteção mágica, e exatamente por isso não conseguem se defender. Não acho que um spray de pimenta vá ajudar, mas talvez o artigo possa convencê-la. Ai, droga. Vou ter que criar um e-mail falso pra Taylor.
— Não se preocupe — Adrian disse. — Jet Steele já tem um que você pode usar.
Isso acabou me fazendo rir.
— Claro que tem. Pra falar com todas as meninas que você conhece pela internet, não é?
Adrian não fez nenhum comentário, nem afirmativo nem negativo, o que me incomodou mais do que deveria. Era para ser uma piada... mas e se não fosse? Se os boatos e algumas das minhas observações fossem verdade, Adrian tinha experiência com muitas mulheres. Muitas. Pensar nele com outras me deixou perturbada, muito mais do que deveria. Quantas meninas ele já tinha beijado com a mesma intensidade? Quantas já tinham estado na cama dele? Quantas tinham sentido as mãos dele em seu corpo? Ele não devia ter amado todas. Algumas, provavelmente a maioria, tinham sido meras conquistas, meninas de cujo rosto ele se esquecia na manhã seguinte. Até onde eu sabia, eu era apenas a conquista máxima para ele, um teste para suas habilidades. Seria difícil encontrar um desafio maior do que uma humana com problemas em relação a vampiros.
Mesmo assim, lembrando todas as coisas ditas e não ditas entre nós, tive quase certeza de que não era o caso. Por mais maluco que fosse esse envolvimento amoroso, ele me amava... ou acreditava amar. Eu não era uma conquista qualquer. Seria até melhor se fosse. Sem uma conexão emocional, ele acabaria desistindo e encontrando consolo facilmente nos braços de outra pessoa. Aquele seria um bom momento para sugerir isso, aliás.
Mas fiquei quieta.

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