3 de outubro de 2017

Capítulo 9

AQUELES QUE SOUBESSEM O QUE PROCURAR conseguiriam identificar um Moroi instantaneamente pelo semblante pálido e pela silhueta alta e magra. Para a maioria dos humanos, essas características se destacavam, mas não eram o suficiente para desmascarar um vampiro. Os humanos simplesmente consideravam aqueles traços atraentes e inusitados, assim como Lia considerava Jill o arquétipo da beleza etérea de passarela.
Eu não queria pensar em termos de estereótipos, mas depois de um rápido exame da palidez, do rosto longo, do olhar severo e do cabelo grisalho do sr. Ivashkov, me perguntei se as pessoas não o tomavam como um vampiro com mais frequência. Não, vampiro não era o termo adequado, concluí. Ele parecia mais um agente funerário.
— Pai — Adrian disse, rígido. — É sempre um prazer.
— Para alguns de nós, sim. — O pai dele me examinou e vi seus olhos se fixarem na minha bochecha. Ele estendeu a mão, que eu apertei, orgulhosa pelo fato de cumprimentar um vampiro não ser mais um grande acontecimento para mim. — Nathan Ivashkov.
— Sydney Sage — falei. — É um prazer conhecer o senhor.
— Conheci Sage enquanto estava vadiando por aí — Adrian explicou. — Como não tenho carro, ela fez o favor de me dar uma carona de Los Angeles para cá.
Nathan me observou, perplexo.
— É uma viagem longa.
Não tão longa quanto de Palm Springs, mas imaginei que seria mais seguro — e crível — fazê-lo pensar que Adrian estava em Los Angeles.
— Não é incômodo nenhum, senhor — eu disse. Virei para Adrian. — Vou trabalhar um pouco. Você me manda uma mensagem quando estiver pronto para ir?
— Trabalhar? — ele perguntou, enojado. — Ah, Sage. Vá pôr um biquíni e aproveitar a piscina enquanto está por aqui.
Nathan olhou de mim para ele, incrédulo.
— Você a fez dirigir até aqui e agora vai deixá-la esperando a seu bel-prazer?
— Sério — eu disse. — Não é incô...
— Ela é uma alquimista — Nathan continuou —, não sua motorista. Existe uma grande diferença. — Na verdade, havia dias em Amberwood em que eu não tinha tanta certeza disso. — Venha, srta. Sage. Se você já perdeu o dia trazendo meu filho para cá, o mínimo que posso fazer por você é pagar seu almoço.
Lancei um olhar de pânico para Adrian. Não por medo de ficar sozinha com os Moroi — fazia tempo que já me acostumara a situações como aquela. O que eu não estava certa era se Adrian realmente queria me ter por perto durante seu encontro familiar. Aquilo não era parte do plano. Além do mais, eu também não tinha certeza se queria estar presente naquela reunião.
— Pai... — Adrian arriscou.
— Eu insisto — Nathan disse, ríspido. — Preste atenção e aprenda um pouco de cortesia.
Ele deu as costas e começou a se afastar, supondo que o seguiríamos. Foi o que fizemos.
— Talvez eu deva inventar um motivo para sair? — murmurei para Adrian.
— Não depois que ele usou a voz do “eu insisto” — ele respondeu num sussurro.
Por um momento, ao avistar o restaurante magnífico no terraço e sua vista para o oceano ensolarado, pensei que iria conseguir aguentar a família Ivashkov. Sentar sob aquele calor, diante daquela magnificência, valeria o drama familiar. Mas, então, Nathan passou reto pelas portas do terraço e nos guiou até o elevador. Resignados, nós o seguimos. Ele nos levou até o térreo, a um bar chamado O Saca-Rolhas. Era um lugar escuro e sem janelas, com vigas de madeira baixas e poltronas de couro preto. Barris de carvalho ladeavam as paredes e a luz era filtrada por lâmpadas de vidro vermelho. Fora o garçom solitário, o bar estava vazio, o que não era nenhuma surpresa àquela hora do dia.
Surpreendente era Nathan ter nos conduzido até lá em vez de nos levar ao restaurante sofisticado a céu aberto. Ele vestia um terno caro, que parecia ter vindo direto de uma reunião de executivos em Manhattan. Por que teria ignorado um restaurante moderno e sofisticado em favor de um bar abafadiço, sombrio e...
Sombrio.
Quase soltei um gemido. Claro que o terraço não era uma boa opção — pelo menos não para um Moroi. Por mais que as condições parecessem encantadoras para mim, o sol vespertino teria transformado o almoço dos Ivashkov num suplício — ainda que nenhum dos dois parecesse estar planejando uma tarde agradável.
— Sr. Ivashkov — o garçom disse. — É um prazer recebê-lo novamente.
— Posso pedir para entregarem a comida aqui embaixo outra vez? — Nathan perguntou.
— Claro.
Outra vez. Provavelmente aquela caverna subterrânea era o local preferido de Nathan para comer desde que chegara a San Diego. Melancólica, pensei uma última vez no terraço e então entrei atrás de Nathan e Adrian.
Nathan escolheu uma mesa no canto para oito pessoas. Talvez ele gostasse de espaço. Ou talvez adorasse fingir que presidia alguma reunião corporativa. O garçom nos entregou os cardápios e anotou nossos pedidos para bebida. Escolhi um café e Adrian pediu um martíni, recebendo olhares de desaprovação tanto de mim como do pai.
— Mal deu meio-dia — Nathan falou.
— Eu sei — Adrian disse. — Também estou surpreso por ter aguentado tanto tempo.
Nathan ignorou o comentário e se dirigiu a mim.
— Você é muito jovem. Deve ter acabado de entrar para os alquimistas.
— Todos começamos cedo — concordei. — Estou trabalhando sozinha faz pouco mais de um ano.
— Isso é bem admirável. Denota grande responsabilidade e iniciativa. — Ele agradeceu ao garçom, que lhe serviu uma garrafa de água com gás. — Não é nenhum segredo o que os alquimistas pensam a respeito de nós mas, ao mesmo tempo, seu grupo nos faz muito bem. A eficiência de vocês é particularmente extraordinária. É uma pena que meu próprio povo não siga esse exemplo.
— E como vão as coisas entre os Moroi? — perguntei. — Com a rainha?
Nathan quase sorriu.
— Quer dizer que você não sabe?
Eu sabia... Ou melhor, sabia o que os alquimistas sabiam.
— É sempre diferente ouvir uma perspectiva interna.
Ele soltou um riso abafado. Sua risada tinha um som áspero, como se rir não fosse algo em que Nathan Ivashkov tivesse muita prática.
— A situação está melhor agora. Mas longe do ideal. Aquela menina é esperta, devo admitir. — Supus que “aquela menina” fosse Vasilisa Dragomir, jovem rainha dos Moroi e melhor amiga de Rose. — Tenho certeza de que ela gostaria de aprovar as leis dos dampiros e da hereditariedade, mas sabe que só causariam mais revolta em seus opositores. Então está encontrando meios de negociar sobre outras questões e já conquistou o apoio de alguns inimigos.
As leis da hereditariedade. Essas me interessavam em particular. Havia doze linhagens reais entre os Moroi; Vasilisa e Jill eram as últimas de sua linhagem. As leis Moroi diziam que um monarca precisava ter pelo menos um outro membro da família vivo; por isso Jill havia se tornado uma peça política tão importante. Até para os assassinos mais terríveis seria difícil matar uma rainha bem protegida. Mas eliminar sua meia-irmã causaria os mesmos resultados e invalidaria a regência de Vasilisa. Foi assim que Jill acabou indo para um esconderijo.
O raciocínio de Nathan seguiu na mesma linha:
— Ela também é inteligente por esconder a irmã bastarda. — Sabia que ele queria dizer “bastarda” no sentido de filha ilegítima, e não como um insulto; mesmo assim estremeci. — Dizem que vocês sabem alguma coisa a respeito disso. Mas suponho que você não vai me dar nenhuma “perspectiva interna”, não é mesmo?
Fiz que não e busquei manter o tom amigável.
— Desculpe, senhor. Minhas informações só vão até aí.
Depois de alguns segundos de silêncio, Nathan pigarreou e disse:
— Então, Adrian. O que você queria?
Adrian tomou um gole do martíni.
— Ah, você notou que estou aqui? Pensei que tinha vindo encontrar Sydney.
Afundei um pouco na cadeira. Aquela era exatamente a situação que eu queria evitar.
— Por que você responde toda e qualquer pergunta com alguma impertinência? — Nathan perguntou, cansado.
— Talvez a culpa seja das suas perguntas, pai.
Aquele bar não era grande o bastante para conter a tensão que crescia cada vez mais. Todos os meus instintos me diziam para fingir que eu era invisível, mas em vez disso me vi interrompendo os dois.
— Adrian está na faculdade — falei. — Assistindo a aulas de arte. Ele é muito talentoso.
Adrian me lançou um olhar intrigado, mas radiante. Algumas de suas obras eram realmente boas. Em outras, especialmente as que pintava quando ele estava bêbado, parecia que tinha derrubado tinta na tela sem querer. Já havia dito isso para ele diversas vezes.
Nathan não pareceu impressionado.
— Sim. Ele já tentou isso antes. Não durou muito.
— Mas agora o lugar e o tempo são outros — eu disse. — As coisas podem mudar. Pessoas podem mudar.
— Mas normalmente não mudam — Nathan opinou. O garçom voltou para anotar nossos pedidos, embora nenhum de nós sequer tivesse olhado o cardápio. — Vou pedir para todo mundo, tudo bem? — Nathan abriu o cardápio e o examinou rapidamente. — Traga um prato de cogumelos com alho na manteiga, o fondue de queijo de cabra, as vieiras enroladas em bacon e a salada Caesar com ostras fritas. O suficiente para três na salada, claro.
O garçom fez algumas anotações rápidas e foi embora antes que eu pudesse dizer qualquer coisa.
— Pegou pesado, hein, pai? — Adrian comentou. — Nem perguntou se a gente se importava que você escolhesse.
Nathan não parecia preocupado.
— Já comi aqui antes. Sei o que é bom. Confiem em mim, vocês vão gostar.
— Sage não vai comer nada disso.
Concluí que aquilo seria muito mais fácil se os dois simplesmente ignorassem a minha existência.
— Por que não? — Nathan perguntou, olhando-me com curiosidade. — Você é alérgica a frutos do mar?
— Ela só come comida saudável — Adrian disse. — Tudo o que você pediu pinga gordura.
— Um pouco de manteiga não vai fazer mal nenhum a ela. Vocês vão ver como estou certo. É tudo muito gostoso. Além do mais — Nathan acrescentou, interrompendo-se para beber um gole de água —, eu pedi uma salada para a mesa. Alface é saudável.
Nem tentei argumentar que nenhuma alface compensaria as ostras fritas ou o molho Caesar. De qualquer forma, eu não teria chance de abrir a boca, já que Adrian desembestou a falar e — notei com certa perplexidade — já tinha bebido metade do martíni.
— Viu? — ele disse, revoltado. — É exatamente assim que você age. Acha que sabe o que é melhor para todo mundo. Simplesmente segue em frente e toma todas as decisões, sem se importar em consultar alguém, porque tem total segurança de que está certo.
— Na minha vasta experiência — Nathan respondeu friamente —, costumo, sim, estar certo. Quando você tiver esse tipo de experiência, quando realmente puder dizer que tem autoridade em, bem, alguma coisa, então vou poder confiar em você para tomar decisões importantes.
— Isto é um almoço — Adrian rebateu. — Não é uma decisão de vida ou morte. Tudo o que estou dizendo é que você podia pelo menos ter feito algum esforço para incluir as outras pessoas. Obviamente, sua “vasta experiência” não se aplica a gentilezas comuns, não é?
Nathan voltou o olhar para mim.
— Em algum momento deixei de ser gentil com você, srta. Sage?
Por mais que eu quisesse, não havia onde enfiar a cabeça.
Adrian terminou o martíni num gole só e levantou o copo para chamar atenção do garçom.
— Deixe Sydney fora disso — Adrian interpelou. — Não tente manipulá-la para provar seu argumento.
— Não preciso manipular ninguém para provar meu argumento — Nathan replicou. — Acho que já está provado.
— Não tem problema quanto ao almoço — deixei escapar, sabendo bem que aquela discussão entre pai e filho não tinha nada a ver com meus hábitos alimentares. — Preciso mesmo experimentar coisas novas.
— Não ceda a ele, Sydney — Adrian advertiu. — É assim que ele sempre consegue passar por cima dos outros, especialmente das mulheres. Ele fez isso com a minha mãe durante anos.
Em silêncio, o garçom se aproximou e trocou o copo vazio de martíni por um cheio.
— Ah, por favor — Nathan disse, com um suspiro pesado. — Vamos deixar sua mãe fora disso.
— É fácil pra você — Adrian retrucou. Havia linhas de tensão visíveis em seu rosto. A mãe dele era um assunto delicado. — É isso o que você sempre faz. Estou tentando arrancar uma resposta sua há semanas sobre como ela está! Caramba, só estou tentando saber onde ela está. É tão difícil assim responder? Ela não deve estar em segurança máxima. Devem deixá-la receber cartas, pelo menos.
— É melhor vocês não terem contato nenhum enquanto ela estiver presa — Nathan disse. Até eu me espantei com a frieza com que ele falava da própria esposa.
Adrian sorriu com desdém e tomou outro gole do martíni.
— Lá vem você de novo: achando que sabe o que é melhor pra todo mundo. Sabe, eu queria muito, muito mesmo, acreditar que você evita falar dela porque isso te magoa. Tenho certeza de que, se uma mulher que eu amasse estivesse presa, eu estaria fazendo todo o possível para me comunicar com ela. Mas para você isso deve ser difícil demais. Talvez sua única maneira de lidar com a situação seja mantendo-a afastada, e me mantendo afastado também. Quase conseguiria entender isso.
— Adrian... — Nathan começou.
— Mas não é esse o caso, né? Você não quer que eu tenha nenhum contato, e provavelmente não está tendo nenhum contato com ela também, porque tem vergonha. — Adrian estava ficando realmente nervoso. — Você quer afastar a gente e fingir que o que ela fez nunca existiu. Você quer fingir que ela não existe. Porque ela arruinou a reputação da família.
Nathan fixou o olhar incisivo no filho.
— Considerando sua própria reputação, achei que entenderia o bom senso de não ter nenhuma associação com o que ela fez.
— E o que ela fez? Uma grande besteira? — Adrian perguntou. — Todos nós fazemos besteiras. Todo mundo erra. Foi isso que ela fez. Foi falta de discernimento, simples assim. Não se rompem relações com uma pessoa que se ama por causa de erros como esse.
— Ela fez aquilo por sua culpa — Nathan disse. Seu tom de voz não deixava dúvidas de que realmente acreditava naquilo. — Porque você não conseguiu ficar quieto no seu canto com aquela dampira. Tinha que ficar alardeando seu relacionamento com ela aos quatro ventos, e quase entrou numa enrascada tão grande quanto ela depois do assassinato de sua tia. Foi por isso que sua mãe fez o que fez: para proteger você. Ela está presa por causa da sua irresponsabilidade. Tudo isso é culpa sua.
Adrian ficou mais pálido do que de costume, e parecia chocado demais para formular qualquer resposta. Voltou a pegar o martíni e tive quase certeza de ver suas mãos tremerem. Nesse momento, dois garçons do restaurante de cima apareceram com a comida. Fitamos em silêncio enquanto arrumavam nossos pratos e dispunham as bandejas habilidosamente. Olhar toda aquela refeição me fez sentir um enjoo que nada tinha a ver com o teor de sal ou gordura.
— Sr. Ivashkov — comecei, ignorando a voz da razão na minha cabeça que gritava para que eu me mantivesse calada —, é injusto culpar Adrian pelas escolhas dela, especialmente se ele nem sabia o que ela estava fazendo. Tenho certeza de que ele faria qualquer coisa por ela. Se pudesse fazer algo para impedir, ou assumir o lugar dela, ele teria feito.
— Você parece muito convicta, hein? — Nathan estava abarrotando o prato de comida e parecia muito contente com isso. Adrian e eu havíamos perdido o apetite. — Bom, srta. Sage, sinto muito por acabar com as suas ilusões, mas parece que você, assim como tantas outras, caiu na lábia do meu filho. Posso lhe garantir que ele nunca fez nada sem visar seus próprios interesses em primeiro lugar. Ele não tem nenhuma iniciativa, nenhuma ambição, e não leva nada adiante. Desde muito novo, sempre quebrava as regras e ignorava o que os outros diziam quando não lhe convinha. Não me surpreende que suas tentativas de cursar uma faculdade tenham fracassado. Posso garantir a você que essa também irá fracassar, já que ele mal conseguiu terminar o ensino médio. E nem foi por causa da bebida, das garotas ou das besteiras que ele fazia... Ele simplesmente não se importava. Ignorava os estudos. Ele só conseguiu se formar graças à nossa influência e nossas contribuições financeiras. Desde então, a situação só se deteriorou.
Adrian parecia ter levado um tapa. Senti vontade de me aproximar e reconfortá-lo, mas ainda estava em choque com as palavras de Nathan. Adrian claramente também estava. Uma coisa era discorrer sobre como você achava que seu pai estava decepcionado com você. Outra coisa bem diferente era ouvir seu próprio pai explicar essa decepção com tamanha riqueza de detalhes. Eu sabia disso porque já tinha passado por ambas as situações.
— Sinceramente, não me importo muito com a bebida, contanto que o derrube e o mantenha quieto. — Nathan continuou, com a boca cheia de queijo de cabra. — Você acha que a mãe dele está sofrendo agora? Garanto que ela está muito melhor. Ela passou inúmeras noites em claro chorando por causa de todos os apuros em que ele se meteu. Eu não o estou mantendo longe dela por minha causa ou por causa dele. Faço isso por ela. Pelo menos agora ela não precisa ouvir sobre a última palhaçada que ele fez, nem se preocupar com ele. Ignorância é uma bênção. Ela está em um lugar melhor exatamente por não ter contato com ele, e eu pretendo manter as coisas desse jeito. — Ele me ofereceu as vieiras como se não tivesse acabado de dar um imenso sermão sem nem parar para tomar fôlego. — Você realmente precisa experimentar. Proteína vai te fazer bem, sabia?
Fiz que não com a cabeça, sem conseguir encontrar palavras.
Adrian respirou fundo.
— Sério, pai? Eu vim até aqui para ver você, para tentar descobrir algum jeito de entrar em contato com ela... e tudo o que eu ganho é isso? Que ela está melhor sem mim?
Ao olhar para ele, tive a impressão de que estava se esforçando muito para se manter calmo e racional. Irromper em suas típicas respostas sarcásticas não o ajudaria em nada, e ele sabia disso.
Nathan parecia perplexo.
— Este é o único motivo que te trouxe até aqui? — Pelo tom dele, estava claro que considerava o motivo ridículo.
Adrian mordeu o lábio, provavelmente para continuar escondendo seus verdadeiros sentimentos. Seu autocontrole me impressionou.
— Também pensei... que talvez você quisesse saber o que eu andava fazendo. Pensei que poderia ficar feliz por eu estar fazendo alguma coisa útil.
Por um momento, Nathan simplesmente fixou os olhos nele. Então sua perplexidade se desfez numa daquelas gargalhadas constrangedoras.
— Ah, foi uma piada. Não tinha entendido.
— Pra mim já chega — Adrian disse.
Como um raio, ele bebeu o resto do martíni e se levantou, seguindo apressado em direção à porta. Nathan continuou a comer tranquilamente, enquanto eu também me levantava. Só quando cheguei à metade do bar, tentando alcançar Adrian, Nathan se deu ao trabalho de abrir a boca.
— Srta. Sage? — Cada centímetro de mim queria correr atrás de Adrian, mas parei e olhei para o pai dele. Nathan estava remexendo num maço de notas que tinha tirado da carteira. — Tome. Permita-me compensá-la pela gasolina e pelo tempo.
Ele estendeu o dinheiro para mim e quase dei risada. Adrian se obrigara a ir até lá por vários motivos, entre eles o dinheiro. Ele sequer havia tido a chance de pedir e, agora, lá estava Nathan me oferecendo. Não me mexi.
— Não quero nada de você — eu disse. — A não ser que seja um pedido de desculpas a Adrian.
Nathan me lançou outro olhar inexpressivo. Ele parecia sinceramente confuso.
— Pelo que eu precisaria me desculpar?
Fui embora.
Adrian havia ou descido a escada, ou tomado o elevador assim que saiu, pois não havia sinal dele do lado de fora do bar. Voltei ao saguão no andar de cima e procurei de um lado para o outro, aflita. Parei um carregador de malas que passava.
— Com licença, onde é o lugar mais perto em que dá pra fumar?
— Do outro lado da entrada dos carros — ele respondeu, apontando com a cabeça para a porta de entrada.
Agradeci e quase corri para fora. De fato, na área reservada aos fumantes, lá estava Adrian, encostado a uma cerca de metal, à sombra de uma laranjeira, acendendo um cigarro. Corri em sua direção.
— Adrian — exclamei —, você está bem?
Ele deu um longo trago no cigarro.
— Você realmente quer fazer essa pergunta, Sage?
— Ele estava fora de si — eu disse, convicta. — Não tinha o direito de dizer aquelas coisas.
Adrian deu mais uma tragada, e então jogou o cigarro na calçada e pisou sobre ele com a ponta do sapato.
— Vamos voltar para Palm Springs.
Voltei o olhar para hotel.
— Devíamos pegar uma água ou alguma outra coisa pra você. Você tomou aquela vodca rápido demais.
Ele quase abriu um sorriso. Quase.
— É preciso muito mais vodca para me fazer mal. Não vou vomitar no seu carro. Juro. Só não quero ficar e correr o risco de ver o velho de novo.
Assenti e, pouco depois, estávamos de volta à estrada. Passamos menos tempo em San Diego do que no caminho para lá. Adrian permaneceu em silêncio e, dessa vez, não tentei tirá-lo de sua melancolia nem distraí-lo com conversas banais. Nada que eu pudesse dizer iria ajudá-lo. Duvidava que alguém pudesse dizer alguma coisa para ajudá-lo. Não culpava Adrian pelo humor em que ele estava. Me sentiria igual se meu pai tivesse acabado comigo daquele jeito na frente de outras pessoas. Mesmo assim, desejei poder fazer algo para abrandar a dor que ele estava sentindo. Algum pequeno consolo para lhe dar um instante de paz.
Minha oportunidade surgiu ao avistar um pequeno posto de gasolina perto da cidade de Escondido, com um cartaz que dizia: AS MELHORES RASPADINHAS DO SUL DA CALIFÓRNIA AQUI NO JUMBO JIM’S!
Lembrei da piada que ele havia feito sobre entrar numa dieta à base de raspadinhas. Fiz uma curva brusca, saindo da rodovia, mesmo sabendo que seria inútil. Afinal, o que era uma raspadinha perto do desastre que tínhamos acabado de deixar para trás? Ainda assim, eu precisava fazer alguma coisa, qualquer coisa, para que Adrian se sentisse melhor. Ele só pareceu notar que havíamos parado quando eu comecei a sair do carro.
— Que foi? — ele perguntou, abandonando forçosamente seus pensamentos sombrios. A tristeza no seu rosto acabou comigo. — Ainda tem meio tanque.
— Já volto — respondi.
Voltei cinco minutos depois e, mesmo com um copo em cada mão, consegui bater na janela dele. Ele saiu do carro, realmente confuso.
— O que aconteceu?
— Raspadinhas — eu disse. — De cereja pra você. Mas precisa beber aqui fora. Não quero correr o risco de sujar o carro.
Adrian piscou algumas vezes, como se eu fosse uma miragem causada pelo excesso de sol.
— O que é isso? Festinha de piedade para mim? Porque eu sou patético?
— Não é por sua causa — repreendi. — Vi o cartaz e fiquei com vontade. Pensei que também fosse querer uma. Se não quiser, jogo a sua fora e bebo só a minha.
Tinha dado apenas um passo em direção ao lixo quando ele me deteve e pegou a raspadinha vermelho-vivo.
Nos encostamos no carro e bebemos sem dizer nada por um tempo.
— Cara — ele finalmente disse, com o olhar fascinado, depois de beber metade. — Tinha me esquecido de como isso era bom. Qual você pegou?
— De amora.
Adrian assentiu e deu um gole ruidoso na raspadinha dele. Aquele ar soturno ainda pairava ao seu redor, e sabia que uma bebida infantil não iria desfazer tão rápido o estrago que o pai dele havia feito. O melhor que eu podia esperar era que ele tivesse alguns momentos de paz.
Terminamos pouco tempo depois e jogamos os copos no lixo. De volta ao Pingado, Adrian soltou um suspiro exaurido e esfregou os olhos.
— Nossa, raspadinhas são incríveis. Acho que estava precisando disso. Talvez a vodca tenha batido mais do que eu pensei. Que bom que você escolheu outra coisa além de café, para variar um pouco.
— Ei, se eles tivessem com sabor de café, eu teria pedido, você sabe disso.
— Que nojo — ele disse. — Nenhum açúcar no mundo faria isso minimamente... — Ele parou no meio da frase e me lançou um olhar espantado. Parecia tão chocado que parei de dar ré no carro e voltei a estacionar.
— Qual é o problema? — perguntei.
— A raspadinha. Aquilo é noventa e nove por cento açúcar. E você acabou de tomar uma, Sage. — Ele parecia interpretar meu silêncio como se eu não tivesse entendido. — Você acabou de beber açúcar líquido.
— Você é que bebeu açúcar líquido. A minha era sem açúcar — eu disse, torcendo para soar convincente.
— Ah. — Não consegui saber se ele estava aliviado ou desapontado. — Quase tive um ataque agora.
— Parece que não me conhece.
— Pois é. — Seu humor melancólico voltara; as raspadinhas só tinham sido uma distração temporária. — Sabe o que foi o pior de tudo?
— O quê? — perguntei, sabendo que ele se referia ao pai, e não às raspadinhas.
— Você imaginaria que foi eu não ter conseguido o dinheiro, ou ele ter acabado com a minha vida, ou ele não acreditar que estou levando a faculdade a sério. Mas quanto a isso tudo bem. Vindo dele, estou acostumado. O que me incomoda mesmo é que eu realmente destruí a vida da minha mãe.
— Não acredito nisso — respondi, atônita. — Como você mesmo disse, nós continuamos amando as pessoas, mesmo que elas cometam erros. Tenho certeza de que ela ama você também. De qualquer forma, isso é uma coisa que você tem que discutir com ela, não com ele.
— Sim. Mas outra coisa que me incomodou... foi ele dizer tudo aquilo na sua frente.
Isso também foi um choque. Não reagi, me sentindo um tanto desconcertada por ele se preocupar tanto com a minha opinião. Por que ele haveria de se importar?
— Não se preocupe comigo. Já estive com pessoas muito mais enervantes do que ele.
— Não, não... O que quero dizer... — Adrian olhou para mim e logo depois desviou o olhar. — É que depois do que ele disse a meu respeito, não suporto a ideia de que você me despreze.
Fiquei tão surpresa com aquilo que não pude formular uma resposta de imediato. Quando consegui, apenas disparei a primeira coisa que me veio à mente:
— Claro que não desprezo você. — Ele continuou sem me encarar, aparentemente não acreditando nas minhas palavras. — Adrian. — Pousei a mão sobre a dele e senti uma faísca quente com a conexão. Ele virou a cabeça para mim num movimento súbito de surpresa. — Nada do que ele disse poderia mudar o que penso de você. Já faz tempo que formei uma ideia sobre você... e é uma ideia muito boa. — Adrian desviou o olhar para baixo, onde minha mão cobria a dele. Enrubesci e soltei. — Desculpe. — Imaginei que tivesse feito ele surtar com aquilo.
Ele voltou a me olhar nos olhos.
— Foi a melhor coisa que me aconteceu hoje. Vamos pegar a estrada.
Voltamos para a pista e me vi distraída por duas coisas. Primeiro, minha mão, que formigava e ainda estava quente no ponto em que tocara a dele, o que era meio engraçado. As pessoas sempre pensavam que os vampiros eram frios, mas eles não eram. Pelo menos não Adrian. A sensação começou a desvanecer conforme eu dirigia, mas bem que gostaria que ela permanecesse.
A outra coisa que estava me distraindo era todo aquele açúcar que eu havia acabado de beber. Ficava passando a língua nos dentes o tempo todo. Toda a minha boca estava revestida de uma doçura enjoativa. Queria muito escovar os dentes e depois beber um frasco inteiro de enxaguante bucal. Açúcar líquido. Sim, era exatamente isso que eu tinha bebido. Não queria ter tomado, mas sabia que, se levasse uma só para Adrian, ele teria interpretado como uma demonstração de piedade e acabaria recusando. Precisava fingir que também queria uma e que só tinha pensado nele depois. Ele parecia ter acreditado na mentira sobre o teor de açúcar da minha, embora em uma rápida visita ao posto de gasolina ele descobriria que o Jumbo Jim’s definitivamente não vendia raspadinhas sem açúcar. Eu cheguei a perguntar. Eles riram na minha cara.
Não ter almoçado não compensava aquelas calorias, pensei, triste. E eu não conseguiria tirar aquele gosto doce da boca tão cedo. Considerando a rapidez com que Adrian retornou à sua depressão, subitamente me senti idiota por ter chegado a usar aquele artifício. Uma raspadinha não era capaz de mudar o que o pai dele tinha dito, e eu estaria meio quilo mais gorda no dia seguinte. Talvez não tivesse valido a pena.
Então relembrei o breve instante em que ficamos encostados no carro e o olhar efêmero de felicidade no rosto do Adrian, seguidos pelo: “Nossa, raspadinhas são incríveis. Acho que estava precisando disso”.
Um curto momento de paz em meio à escuridão do desespero. Era aquilo que eu queria e era aquilo que tinha conseguido. Tinha valido a pena? Esfreguei as pontas dos dedos umas nas outras, ainda sentindo aquele calor.
Sim, concluí. Tinha valido a pena.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)