23 de outubro de 2017

Capítulo 8

Adrian

EU NÃO QUERIA que as coisas saíssem tanto do controle.
Quando chegara à Corte, minhas intenções eram boas, mas, depois de não conseguir nada com Lissa e descobrir a situação dos meus pais, alguma coisa estourou dentro de mim. Me lancei de volta aos velhos hábitos com uma sede de vingança, perdendo toda e qualquer responsabilidade. Tentava convencer a mim mesmo que só estava me divertindo e procurando um jeito de relaxar enquanto estava na Corte. Às vezes, até me convencia de que fazia isso por Charlotte. Essa desculpa podia ter funcionado nos primeiros dias, mas, depois de uma semana de festas e farra ininterrupta, até ela reclamou timidamente quando fui buscá-la numa noite.
— Vamos ficar em casa — ela disse. — A gente pode descansar um pouco e ver um filme. Ou jogar baralho. O que você quiser.
Apesar de falar isso, ela estava vestida para sair, com um lindo vestido lilás que realçava seus olhos cinza. Apontei para ele.
— E desperdiçar isso? Pensei que você quisesse conhecer gente nova.
— Quero — ela disse. — E já conheci. Tanto que a gente está começando a ver as m esmas pessoas nas festas. Todo mundo já me viu neste vestido.
— É esse o problema? — perguntei. — Te empresto dinheiro pra comprar outro.
Ela fez que não.
— Nem tenho como te pagar por este.
Depois de descobrir a farsa em que meus pais viviam, eu havia considerado fazer um protesto recusando a grande mesada que meu pai depositava regularmente na minha conta. Tinha menos gastos ali do que em Palm Springs, e teria gostado de mostrar a Nathan Ivashkov que ele não poderia comprar todos os membros da família. Mas, quando Charlotte comentou inocentemente que se sentia malvestida para as festas da realeza que a gente andava frequentando, decidi que usar o dinheiro do meu pai para ampliar o guarda-roupa de uma secretária o deixaria tão irritado quanto. Embora ele ainda não soubesse o que estava acontecendo, eu tinha uma satisfação pessoal só de fazer isso. Charlotte só havia aceitado o acordo se a gente o tratasse como um empréstimo, não como um presente, mas até ela ficara surpresa quando viu as quantias que eu estava esbanjando. A voz da razão na minha cabeça avisou que eu estava correndo o risco de recair nos maus hábitos de consumo que tivera em meus piores momentos em Palm Springs, mas ignorei essa voz. Afinal, logo ganharia mais do meu pai e quase todo mundo andava me dando bebida de graça nos últimos dias.
— Ficou lindo em você — eu disse. — Seria uma pena esconder tanta beleza em casa. A menos que haja outro problema?
— Não — Charlotte respondeu, corando com o elogio. Ela me olhou de cima a baixo e tive a sensação de que estava lendo minha aura, o que teria revelado (se outros sinais ainda não tivessem) que eu já tinha começado a beber. Ela soltou um suspiro. — Vamos lá.
Ela não aguenta o seu ritmo, tia Tatiana disse enquanto atravessávamos os campos da Corte. O pôr do sol deixava as sombras mais compridas ao nosso redor. Mas, enfim, que menina aguenta?
Sydney aguentava, pensei. Não em festas. Na vida, quero dizer.
As palavras me trouxeram de volta aquela angústia terrível que nenhuma farra era capaz de afugentar. Sydney. Sem ela, eu simplesmente estava me deixando levar, seguindo uma existência vazia agravada pela incapacidade de encontrar a mulher que amava. Tudo que conseguia fazer era uma busca inútil e cada vez mais esporádica em sonhos. Ainda não tinha procurado por ela naquela noite e me perguntei se talvez devesse aceitar a sugestão de Charlotte, pelo menos para passar algum tempo sóbrio.
É cedo demais, tia Tatiana avisou. Depois você procura. Nenhum humano vai estar dormindo a essa hora nos Estados Unidos. Além do mais, você quer aquilo de volta?
Ela tinha razão quanto ao horário. O problema era que eu tinha perdido várias chances de procurar Sydney durante a semana e isso estava começando a me incomodar. Mas ela também tinha razão em relação àquilo: a escuridão terrível e profunda que ameaçava me consumir por inteiro. Em Palm Springs, depois do desaparecimento de Sydney, a depressão tinha sido ruim, mas, depois de não conseguir a ajuda de Lissa, havia piorado. Sabia que meu antigo psiquiatra e até Sydney teriam me aconselhado a retomar a medicação, mas como faria isso se havia uma chance de salvar Sydney com o espírito? Não estava sendo muito eficaz, mas mesmo assim me recusava a largar a magia. Então o maravilhoso efeito tranquilizante do álcool ajudava a abrandar a depressão, assim como a presença do fantasma de tia Tatiana. Era desconcertante como seus conselhos tinham se tornado mais frequentes na última semana. Sabia que ela não era real e que meu psiquiatra também teria muito a dizer sobre esses delírios, mas parecia estar criando uma parede entre mim e a parte mais profunda da depressão. Pelo menos me ajudava a sair da cama de manhã.
A festa daquela noite tinha sido organizada por um menino da família Conta que eu mal conhecia, mas ele pareceu contente quando a gente chegou e nos cumprimentou com um aceno simpático do outro lado do salão. Charlotte tinha se tornado minha sombra nesses eventos e muita gente achava que se aproximar dela era um bom jeito de ficar meu amigo. Isso a deixava desconfortável, mas até que eu gostava de ver membros da realeza que normalmente a tratariam como lixo a enchendo de elogios para causar uma boa impressão.
Quase todas as festas nessa época do ano eram dadas fora de casa, enquanto o clima ainda permitia. Éramos ensinados desde crianças a ficar trancados em casa nos escondendo dos Strigoi, então sempre que havia uma oportunidade de sair a céu aberto num lugar seguro, como a Corte, era difícil recusar. O jovem lorde Conta tinha feito de tudo para tornar a festa particularmente memorável, oferecendo todo tipo de atrações para divertir os convidados.
Uma das minhas favoritas foi uma fonte gigante que ficava em cima de uma mesa, lançando champanhe para o alto. Dentro da base de vidro, várias luzinhas coloridas iluminavam o líquido espumante.
Enchi uma taça para Charlotte e outra para mim, admirando as luzes que mudavam de cor.
— Adrian — ela disse baixinho. — Olha lá, do outro lado da piscina.
Segui o olhar dela e avistei Wesley Drozdov bebericando uma taça de martíni e me fuzilando com o olhar. A presença dele foi uma surpresa. Ele desaparecera desde nosso último encontro e imaginei que tivesse comparecido achando que eu não estaria numa festa cujo anfitrião não conhecia bem. Canalha, tia Tatiana murmurou na minha cabeça. Ele não merece um sobrenome nobre.
— Nossa, que aura — Charlotte exclamou. — Ele odeia mesmo você.
Eu já tinha tomado uma dose oferecida por um garçom que passara por nós na entrada e não estava no melhor estado para ler auras. Não tinha motivo para duvidar de Charlotte e ri da preocupação em sua voz.
— Não se preocupe. Ele não vai fazer nada. Viu só?
Dito e feito, Wesley deixou a taça vazia numa mesa e saiu, para o meu alívio. Não queria que tia Tatiana voltasse a resmungar sobre ele. Mesmo assim, Charlotte parecia tensa.
— Nunca deixe esse cara te pegar sozinho.
Dei uma taça para ela.
— Isso nunca aconteceria com você ao meu lado — eu disse, galante. — Sempre tenho você pra me proteger.
Seu rosto se iluminou, muito mais do que eu teria esperado com um comentário tão exagerado. Mas se Charlotte estava feliz, eu estava feliz. Podia não ser capaz de resolver todos os meus problemas, mas Charlotte era uma garota legal que merecia coisas boas depois de tudo que sofrera. Além disso, a companhia dela nessas festas fazia eu me sentir menos patético. Beber sozinho era triste. Beber com uma amiga podia, tecnicamente, ser considerado uma interação social.
Seguimos nossa rotina de sempre de beber e fazer amigos. Eu chegara com a intenção de estabelecer um limite para mim mesmo, mas logo perdi o controle. Deve ter sido isso que me fez atender o celular assim que ele tocou. Normalmente, checava a tela antes de decidir se atenderia ou não, mas, naquela noite, isso nem passou pela minha cabeça.
— Alô?
— Adrian?
Fechei a cara.
— Oi, mãe.
Charlotte se afastou discretamente e fui para um canto mais silencioso. Minha mãe era um dos principais motivos por que eu andava olhando o número antes de atender nos últimos dias. Ela não tinha parado de ligar desde nossa discussão depois do jantar. Agora, não havia como fugir.
— Onde você está, querido? Quase não dá pra te ouvir.
— Estou numa festa — eu disse. — Não posso falar muito. — Não era exatamente verdade, já que pouca gente estava prestando atenção em mim agora e Charlotte encontrara um grupo para conversar perto da piscina.
— Vai ser rápido. — A menos que estivesse enganado, havia um leve nervosismo em sua voz. — Não sei se recebeu minhas mensagens... — Ela parou a frase no meio de propósito, talvez na esperança de que eu desse uma explicação tranquilizadora por ter ignorado as ligações dela a semana toda. Não dei.
— Recebi, sim — respondi.
— Ah — ela disse. — Bom, então, como sabe, fiquei triste com o jeito como deixamos as coisas. Sinto a sua falta, Adrian. Passei muito tempo pensando em você enquanto estava fora e uma das coisas que mais queria era ter você por perto de novo.
Senti uma faísca de raiva ao ouvir isso, lembrando de como ela não queria falar comigo quando eu a visitava em sonhos durante o período em que esteve presa. Guardei esse sentimento pra mim e deixei que ela continuasse.
— Queria que a gente tentasse de novo, só você e eu. Talvez um almoço, para eu poder explicar melhor as coisas. Queria que você entendesse...
— Ainda está morando com ele? — interrompi. — Ainda está aceitando o dinheiro dele?
— Adrian...
— Está ou não? — insisti.
— Sim, mas, como te disse...
— Então entendo perfeitamente. Não precisa explicar nada.
Fiquei esperando um pedido de desculpas ou uma justificativa, como as muitas que ouvira nas mensagens de voz dela e quase podia repetir de cor. Por isso, fiquei um pouco surpreso quando ela retrucou mais áspera que de costume.
— E você está, Adrian? Tenho acesso às nossas contas. Vi que ele continua te mandando dinheiro.
Ela está te chamando de hipócrita, tia Tatiana sussurrou, com veneno na voz. Vai deixar por isso mesmo?
— Não é a mesma coisa — eu disse, sentindo ao mesmo tempo raiva e vergonha. — Estou dando pra outras pessoas.
— Ah, é? — Seu tom demonstrou que ela não tinha acreditado nem por um segundo.
— Sim, eu...
Minha resposta mordaz foi interrompida por gritos e pelo som de alguém caindo na água. Olhei para onde tinha visto Charlotte pela última vez. Alguma brincadeira tinha rolado entre o grupo, e ela e alguns outros estavam na piscina agora, tossindo e esfregando os olhos.
— Preciso ir, mãe — eu disse. — Obrigado por ligar, mas, até você começar a se respeitar, simplesmente não estou interessado. — Sabia que estava sendo cruel e não dei tempo para ela responder antes de desligar e correr até a piscina. Estendi a mão para Charlotte enquanto ela desviava de uma bandeja com copinhos flutuando para sair da água. — Você está bem?
— Sim, sim, estou. — Seus cachos, que antes estavam bonitos e cheios, agora caíam encharcados em volta do rosto. — Queria poder dizer o mesmo do vestido.
Garçons vieram correndo com toalhas e peguei uma para Charlotte.
— Vai secar.
Ela abriu um sorriso triste enquanto se enrolava na toalha.
— Você não lava muita roupa, né? Isso é seda. Não vai voltar ao normal com o cloro e sabe-se lá mais o quê que tinha nessa piscina.
As palavras da minha mãe ainda estavam frescas na minha cabeça.
— Então vou repetir o que disse antes: vamos comprar roupas novas pra você.
— Adrian, não posso ficar aceitando seu dinheiro. É legal da sua parte e agradeço muito, sério. Mas preciso ganhar dinheiro do meu jeito.
Sentimentos contraditórios tomaram conta de mim. O primeiro era orgulho. Ali estava ela, incorporando a atitude que eu vinha exigindo da minha mãe. Por outro lado, não tinha como negar que, embora fosse admirável Charlotte tentar fazer as coisas por conta própria, eu realmente estava sendo hipócrita, como minha mãe insinuara. A humilhação ardeu dentro de mim, agravada pela frustração que já sentia por não conseguir ajudar Sydney.
— Você vai conseguir — eu disse, decidido. — Nós dois vamos. Venha.
Peguei a mão de Charlotte e a levei para fora do pátio lotado, sem pensar nas consequências da decisão impulsiva que havia acabado de tomar. Caminhamos até quase o outro lado da Corte, para longe das residências da nobreza em que passávamos a maior parte do tempo. Ali, em meio a casas modestas, fui andando até um endereço que me orgulhei de ter lembrado e bati na porta com força. Charlotte, ainda enrolada em sua toalha, parecia desconfortável ao meu lado.
— Adrian, onde a gente está? — ela perguntou. — Você sabe...
Suas palavras foram interrompidas quando a porta se abriu, revelando a cara surpresa de Sonya Karp. Ela tinha sido professora de biologia e Strigoi (mas não ao mesmo tempo). Agora, era Moroi de novo e uma usuária de espírito como Charlotte e eu. Seu cabelo ruivo estava desgrenhado como se tivesse acabado de acordar e quando notei seu pijama hesitei um momento. O sol ainda não havia nascido, mas ao leste o céu estava decididamente mais roxo que preto. Ainda estávamos em horário Moroi.
— Adrian, Charlotte — Sonya disse, a título de cumprimento. Ela estava extraordinariamente calma, considerando as circunstâncias pouco usuais. — Está tudo bem?
— Eu... sim. — De repente, me senti meio idiota, mas ignorei a sensação. Já que estávamos ali, eu faria o que tinha planejado. — A gente precisa conversar com você sobre uma coisa. Mas, se for tarde demais... — Franzi a testa, tentando entender que horas eram com meu cérebro zonzo por conta do álcool. Ela não tinha por que estar na cama. — Você está num horário humano?
— Estou no horário do Mikhail — ela respondeu, se referindo a seu marido dampiro. — Ele anda trabalhando numas horas esquisitas, então adaptei meu sono ao dele. — Ela reparou na toalha de Charlotte e abriu espaço para nós. — Não tem por que se estressar com isso agora. Entrem.
Embora a casa tivesse uma cozinha e a minha suíte não, o espaço total era muito menor que o meu no prédio de hóspedes. Sonya e Mikhail tinham decorado bem a casa, que ganhara um ar aconchegante, mas, mesmo assim, parecia errado que um nobre de visita como eu recebesse acomodações mais luxuosas do que um guardião que trabalhava duro e estava sempre arriscando a vida. O pior era que eu sabia que essa era uma das maiores casas de guardiões que existiam, porque Mikhail era casado. Guardiões solteiros moravam em quartinhos minúsculos.
— Querem beber alguma coisa? — Sonya perguntou, nos levando até a mesa da cozinha.
— Água — Charlotte disse rápido.
Sonya trouxe dois copos e então sentou à nossa frente.
— Agora — ela disse. — O que é tão importante?
Apontei para Charlotte.
— Ela. Está te ajudando na pesquisa da vacina, não está? Ela trabalha duro mas não recebe nada em troca. Isso não está certo.
Charlotte ficou vermelha quando entendeu do que aquilo se tratava.
— Adrian, não tem problema...
— Tem sim — insisti. — Eu e Charlotte ajudamos muito na sua pesquisa com o espírito, mas não recebemos nada.
Sonya arqueou a sobrancelha.
— Não sabia que isso era parte das suas exigências. Achei que estivessem contentes em lutar contra os Strigoi pelo bem geral.
— E estamos — disse Charlotte, ainda morta de vergonha.
— Porém — acrescentei —, você não pode esperar que a gente gaste tempo das nossas vidas com isso e ainda se vire pra pagar as contas. Quer ajuda? Então não faça as coisas pela metade. Forme um esquadrão de espírito em tempo integral. Sei lá. Só estou dizendo que, se quiser fazer a coisa do jeito certo, precisa pagar as pessoas como elas merecem pra garantir que vai ter a melhor ajuda possível. Charlotte precisa fazer malabarismos com o trabalho dela no escritório pra continuar te ajudando.
O olhar de Sonya recaiu sobre Charlotte, que pareceu ainda mais constrangida.
— Sei que você trabalha muitas horas e realmente sinto muito por exigir de você. — Sonya se voltou para mim, com um ar muito menos solidário. — Mas me lembre exatamente em que você está ajudando nesses últimos tempos, Adrian?
Que audácia, disse tia Tatiana.
— Bom — respondi, obstinado —, eu poderia te ajudar a produzir a sua vacina em massa se você me contratasse em tempo integral.
Sonya soltou uma risada curta e seca.
— Adoraria fazer isso, mas tem dois probleminhas. O primeiro é que não estou produzindo nada em massa.
— Não? — perguntei. Olhei de soslaio para Charlotte, que estava constrangida demais para notar. — Mas achei que fosse sua prioridade.
— E é — Sonya respondeu. — Mas, infelizmente, replicar o espírito no sangue do Neil está se provando muito difícil. O espírito não parece estar ligado ao sangue de uma maneira estável e tenho medo de que desapareça antes que a gente consiga decifrar seus segredos. Ter usuários de espírito por perto seria muito útil, sem dúvida. Mas solucionar isso também vai exigir conhecimentos de biologia e uma compreensão do sangue em nível celular, e, infelizmente, só conheço uma pessoa que se encaixa nessa categoria. E essa usuária de espírito não conseguiu descobrir nada por enquanto.
Levei um momento para entender que Sonya estava falando de si mesma. Eu sabia que Charlotte estava ajudando, mas era novidade para mim — e para Charlotte também, pela cara dela — que o projeto estava parado. Tínhamos feito um avanço tão grande ao injetar uma vacina Strigoi em Neil que era decepcionante pensar que ainda não estávamos em posição de tirar proveito disso. Eu imaginara que, depois de todo o nosso esforço, Sonya tinha criado seu elixir miraculoso em algum laboratório e estava pronta para distribuí-lo pelo mundo.
— Qual é o segundo problema? — perguntei, lembrando do que ela tinha dito antes.
— O segundo problema — Sonya disse — é que não estou em posição de pagar vocês. Acreditem, adoraria um “esquadrão de espírito” dedicado a essa tarefa, mas nem eu ganho nada com isso. A rainha e o conselho dão bolsas para pesquisas científicas, e uso esse dinheiro para cobrir despesas de equipamentos e viagens. Mas pagamento? Recebo tanto quanto vocês. Embora... talvez seja uma possibilidade a considerar. Se o conselho realmente quiser que o trabalho avance, precisam garantir que as pessoas mais capacitadas possam devotar todo o seu tempo e recursos a ele.
Sonya parecia sincera em relação a isso, mas voltei a me sentir um idiota. Tinha chegado exigindo dinheiro como se ela fosse algum tipo de tesoureira da nação quando na verdade estava dedicando ainda mais esforços do que nós, também em troca de nada. Mesmo sob efeito do álcool, reconheci que havia agido como um imbecil.
— Sonya, desculpe — eu disse.
Os Ivashkov não se desculpam!, tia Tatiana gritou.
— Tudo bem — Sonya disse. — Não é um pedido insensato.
— Mas eu pedi de um jeito insensato — eu disse, rouco.
Pare de fazer isso, tia Tatiana mandou.
Charlotte, embora ainda envergonhada por ter sido exposta daquele jeito, sem saber tomou o lado da minha tia imaginária e pôs a mão no meu braço.
— Você não tinha como saber. E estava fazendo isso por mim.
— Vou fazer o pedido — Sonya acrescentou, olhando de mim para ela. — Quem sabe? Talvez um esquadrão faça as coisas andarem. Na verdade, estou esperando que as aulas acabem em Amberwood para que Neil volte com Jill. Minha esperança é que tê-lo aqui torne as coisas mais claras.
— Talvez, se Neil voltar, Olive também volte — Charlotte disse. O encontro com Sonya tinha deixado Charlotte visivelmente abalada, mas pensar em Olive a animou um pouco.
— Talvez — eu disse, não me sentindo tão confiante, considerando as coisas que Charlotte me contara nos últimos dias. — Mas acho que você seria um motivo maior para Olive voltar do que um garoto que ela mal conhece.
— É, mas ela gosta mesmo dele. — Charlotte ficou mexendo na ponta da toalha por um momento e então me encarou. — Se apaixonar por alguém leva as pessoas a fazer coisas que o amor por um parente não leva.
Franzi a testa enquanto a examinava mais de perto e percebi que ela estava tremendo.
— Meu Deus — eu disse, com vergonha por não ter notado isso antes. — Você deve estar congelando. — A temperatura lá fora estava agradável, mas tinha esfriado desde o começo da semana, e aquela longa caminhada num vestido de festa encharcado não devia ter sido muito divertida. Voltei o olhar para Sonya. — Você tem alguma roupa que ela possa usar?
Charlotte ficou vermelha.
— Estou bem. Não precisa se preocupar...
— Claro — Sonya interrompeu, levantando. Ela chamou Charlotte. — Tenho algumas coisas que você pode experimentar.
Relutante, Charlotte foi atrás dela. Sonya voltou para a cozinha um minuto depois e sentou comigo na mesa.
— Ela está se trocando.
Acenei com a cabeça, ainda pensando na conversa de antes.
— Tomara que ela não fique decepcionada se Olive não voltar pra Corte. Acho que a irmã dela tem muita coisa pra processar depois de... enfim, você entende.
— Sim, entendo — Sonya disse, com gravidade. — Mas, pra ser sincera, não acho que é Olive quem vai decepcionar a garota.
Eu estava um pouco mais sóbrio, o suficiente para sentir uma dor de cabeça, mas, pelo jeito, ainda não estava com a mente afiada.
— Como assim?
Sonya suspirou.
— É disso que estou com medo. Você não faz a menor ideia de que essa menina é louca por você, faz?
— Quem... você está falando de Charlotte? — Balancei a cabeça. — Não, nada a ver. A gente é só amigo.
— Vocês passam muito tempo juntos. E sempre que encontro com ela, só fala de você.
— Não tenho o menor interesse nela — eu disse, firme. — Não nesse sentido, pelo menos.
Sonya me lançou um daqueles olhares penetrantes, uma especialidade dela.
— Não disse que tem. Na verdade, está perfeitamente claro pra mim que você não está interessado nela. Mas pra ela não está. E é cruel da sua parte deixar que ela pense isso.
— Não estou deixando que ela pense nada! — discordei. — A gente só sai pra se divertir junto.
— Ela me contou que você comprou roupas pra ela.
— É um empréstimo — eu disse, com firmeza. — Porque ela não ganha o suficiente pra se sustentar.
— Ela estava se virando perfeitamente bem até você arrastá-la pro turbilhão da vida social da nobreza. — Sonya me encarou. — Olha, quer um conselho? Se gosta dela de verdade, se afaste um pouquinho. Sem perceber, você está mandando sinais contraditórios e vai chegar a hora em que ela finalmente vai perceber que o que você quer com ela não é o mesmo que ela quer com você. Seria difícil pra qualquer pessoa, mas mais do que ninguém você devia saber que nós, usuários de espírito, somos frágeis.
— Na verdade, não. Não quero seu conselho, e não vou me afastar dela coisa nenhuma, porque não estou fazendo nada de errado. Charlotte é esperta. Ela sabe que somos só amigos e gosta da nossa amizade. Largar a garota é meio prematuro.
— Largar? — Sonya riu. — Parece coisa de viciado. Pra que exatamente você está usando Charlotte? Ou melhor, o quê... ou quem... ela está substituindo?
— Nada. Ninguém. Pare de me encher! Qual é o problema de eu ter uma amiga?
Charlotte voltou, usando uma calça de moletom e uma camiseta de Sonya e pondo fim à discussão. Sem notar a tensão em que tinha acabado de entrar, agradeceu Sonya várias vezes e fez mais algumas perguntas sobre a situação atual da vacina. Durante a conversa delas, minha cabeça estava longe, e fiquei me perguntando se, sem querer, não tinha mentido para Sonya.
Não em relação a algo romântico entre mim e Charlotte. Eu não conseguia nem me imaginar com outra pessoa além de Sydney. Mas depois, enquanto eu levava Charlotte até a casa dela, me peguei pensando na outra parte do comentário de Sonya. O quê... ou quem... ela está substituindo?
Claro, não havia substituta para Sydney. Não havia ninguém no mundo como ela, ninguém que pudesse se comparar a ela no meu coração. Mas, quando Sonya sugeriu que eu me afastasse de Charlotte, tive um momento de pânico ao pensar que ficaria sozinho de novo. Porque, embora tristeza, medo e raiva tivessem dominado minhas emoções depois que Sydney desaparecera, eu não podia negar que também sentira solidão. Meu relacionamento com Sydney tinha curado uma parte perdida de mim, um pedaço da minha alma que parecia à deriva no mundo. Quando ela foi levada, perdi o controle dessa parte e ela voltou a flutuar para longe.
Embora não substituísse Sydney no sentido romântico, Charlotte tinha me ajudado bastante a me firmar na realidade. Não que eu estivesse exibindo um comportamento exemplar nos últimos dias. Mas Charlotte era uma pessoa com quem podia conversar — e que não morava dentro da minha cabeça — e, pelo menos, impunha certa regularidade à minha vida de festas.
Buscá-la e levá-la para casa toda noite impedia que eu perdesse o controle por completo. E, além do prazer de punir meu pai em segredo gastando dinheiro com ela, eu também me sentia bem cuidando de outra pessoa. Isso me fazia sentir um pouco menos inútil. Ainda que não encontrasse Sydney, pelo menos era capaz de garantir que Charlotte estivesse vestida para a vida noturna da realeza.
Mas será que Sonya tinha razão e eu estava me aproveitando de Charlotte no processo?
Estava ponderando sobre isso quando chegamos à casa dela, em outra área residencial que era só um pouco melhor que a de Sonya. Charlotte destrancou a porta e se virou para mim. O sol já tinha nascido e iluminava seu rosto com as cores do alvorecer.
— Bom, como sempre, obrigada pela diversão — ela disse, com uma risadinha. — E obrigada pelo que tentou com Sonya. Não precisava. Mas obrigada. — Ela estava retorcendo as mãos, um tique nervoso que eu já tinha notado outras vezes.
Encolhi os ombros.
— Você ouviu o que ela disse. Talvez dê em alguma coisa.
— Talvez. — Houve um momento de silêncio, e então ela perguntou: — Enfim... mesma hora amanhã?
Hesitei, sem saber se estava criando uma situação pouco saudável para mim. Sem saber se estava fazendo isso com ela.
Vai deixar Sonya mandar na sua vida?, tia Tatiana perguntou. Ela não sabe de nada.
Senti uma pontada de raiva. Sonya estava exagerando. Qual era o problema de ter uma amiga? Qual era o problema de ter alguém com quem conversar? Eu tinha que viver isolado agora, só porque Sydney estava desaparecida? Além disso, Charlotte era intuitiva demais para alimentar algum sentimento por mim. Ela tinha seus próprios problemas e não teria ideias malucas a respeito de nós.
— Mesma hora — prometi.

2 comentários:

  1. Posso bater nele posso?????num credito que ele e tao burro assim ...socorro...

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  2. Ele é um fraco...não merece a Sage...ela teve muito azar em gostar dele...coitada

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Boa leitura :)