19 de outubro de 2017

Capítulo 8

Sydney

A VIAGEM DE ADRIAN NÃO DEVERIA TER ME INCOMODADO TANTO. Afinal, eu não teria como passar muito tempo com ele naquele fim de semana mesmo. Mas pensar na distância física entre nós me afetou muito. Em Palm Springs, podíamos não estar juntos, mas eu sempre tinha a sensação de que ele estava por perto, mesmo que “perto” significasse em Carlton, do outro lado da cidade. Eu me sentia no controle, como se pudesse medir os passos entre nós ou imaginar feixes de luz nos ligando onde quer que estivéssemos. Mas o Texas estava além do meu alcance, além do meu controle. Adrian havia saído do nosso abrigo seguro — por menos seguro que fosse — e estava no mundo lá fora, à deriva.
Pelo menos não precisei mentir para Zoe quando cancelei nosso passeio. Neil precisava de uma carona para o aeroporto e descobrir como evitar a transformação em Strigoi era prioridade máxima para os alquimistas, um assunto em que queríamos ajudar os Moroi. Quando Zoe perguntou por que Neil não poderia simplesmente pegar um táxi, dei a mesma desculpa que havia dado a ele e Adrian: que precisava ver com meus próprios olhos os dois indo embora. Como Zoe achava que em sua maioria os Moroi e dampiros eram dissimulados e pouco confiáveis, acreditou em mim.
Isso também me deu um pouco de tempo para passar em uma loja esotérica na volta e procurar alguns cristais e rochas para arriscar a vinculação elemental. Embora eu tivesse muitas teorias sobre o que poderia substituir a boleíte, não havia tido muita sorte até então. Ainda tinha tempo até que Marcus voltasse, mas estava com medo de não conseguir cumprir minha promessa se não descobrisse logo o cristal certo.
Passei na sala da sra. Terwilliger com as compras e a encontrei corrigindo provas em sua mesa. Ela me lançou uma olhadela rápida e voltou para sua papelada, sem nem precisar perguntar por que eu estava ali. Fechei a porta, depois de virar a placa de Bata, por favor, e comecei a trabalhar.
Terra e fogo eram os elementos em que eu era melhor, mas, para aqueles testes, me concentrei na terra. Se aparecesse alguém, seria mais fácil limpar as mãos que disfarçar o cheiro de fumaça. Trabalhei com a primeira pedra, zircão, e, embora sentisse a transferência de magia para ela, algo pareceu estranho.
Levei a pedra para a sra. Terwilliger, visto que ela era mais experiente do que eu em sentir a magia em objetos e pessoas. Ela ergueu o zircão sob a luz e o estudou por alguns segundos antes de balançar a cabeça.
— Tem alguma coisa aí, mas não tanto quanto senti você invocar. Nem tudo entrou. — Ela me devolveu a pedra. — Pode ser suficiente para o que você precisa, mas imagino que queira o máximo possível.
Fiz que sim. Eu não tinha explicado meu objetivo e ela não tinha feito perguntas. Parecia contente que eu tivesse resolvido estudar as artes por conta própria. Voltei para minha carteira e continuei com as duas últimas pedras, chegando a resultados igualmente decepcionantes. Uma não absorveu nada da magia. A outra a conteve por pouco tempo, mas então a magia vazou. Me afundei na carteira, derrotada.
— Estão acabando minhas opções acessíveis — eu disse, mais para mim que para ela. — Um haleto como a boleíte é minha melhor aposta, mas não tem nenhum fácil de encontrar. Daqui a pouco vou ter que encomendar de vendedores de pedra na internet.
A sra. Terwilliger não teve tempo de responder às minhas divagações geológicas porque alguém bateu na porta. Enfiei as rochas discretamente no bolso e tentei fingir que estava estudando enquanto ela mandava a pessoa entrar. Imaginei que Zoe tivesse me encontrado, mas, por incrível que pareça, quem entrou foi Angeline.
— Você sabia — ela começou — que é muito mais difícil colocar órgãos de volta no corpo do que tirar?
Fechei os olhos e, em silêncio, contei até cinco antes de abri-los de novo.
— Por favor, me diga que você não arrancou as tripas de ninguém.
— Não, não — ela disse. — É só que deixei meu trabalho de biologia na sala da sra. Wentworth, mas, quando voltei pra pegar, ela já tinha ido embora e trancado a porta. Mas como é pra amanhã e eu já estou com problemas nessa matéria, precisava pegar. Daí dei a volta, e a fechadura da janela não foi tão difícil de abrir e…
— Espere — interrompi. — Você arrombou uma sala de aula?
— Sim, mas o problema não é esse.
Atrás de mim, ouvi o riso abafado da sra. Terwilliger em sua mesa.
— Continue — eu disse, resignada.
— Então, quando entrei, não vi que tinha um monte de coisa no caminho e dei de cara com aqueles modelos do corpo humano que ela tem. Sabe, aqueles de tamanho real com todas as partes dentro? Daí bam! — Angeline estendeu os braços para efeito dramático. — Órgãos por toda a parte. — Ela parou e me olhou com expectativa. — Então, o que a gente faz agora? Não posso criar encrenca com ela.
— A gente? — exclamei.
— Tomem — a sra. Terwilliger disse. Olhei para trás e ela me jogou um molho de chaves. Pela cara dela, parecia estar usando todo seu autocontrole para não dar uma gargalhada. — A chave quadrada é a mestra. A sra. Wentworth tem ioga agora e não volta mais hoje. Imagino que você consiga arrumar a bagunça e recuperar o trabalho antes que alguém descubra.
Eu sabia que esse “você” se referia a mim. Com um suspiro, me levantei e guardei minhas coisas.
— Obrigada — eu disse.
Enquanto Angeline e eu caminhávamos para a ala de ciências, eu disse:
— Sabe, da próxima vez que tiver problemas, pode vir falar comigo antes que o problema piore.
— Ah, não — ela disse, com um tom nobre. — Não quero incomodar.
A descrição que ela havia feito da cena foi bem precisa: órgãos por toda parte. A sra. Wentworth tinha dois modelos, um masculino e um feminino, com torsos secionados que engenhosamente abrigavam partes do corpo removíveis que poderiam ser examinadas em mais detalhes. Felizmente, ela havia comprado modelos que chegavam apenas até a cintura. Mesmo assim, era um bagunça e tanto só para nós duas, ainda mais porque era difícil dizer a qual dos corpos os vários órgãos pertenciam.
Eu tinha uma boa noção de anatomia; mesmo assim, abri um livro didático para usar como referência. Angeline, percebendo que não estava sendo de grande ajuda, se sentou no balcão do outro lado da sala e ficou balançando as pernas enquanto me observava. Eu tinha começado a remontar o boneco masculino quando ouvi uma voz atrás de mim.
— Melbourne, sempre soube que você precisava aprender esse tipo de coisa, mas estava torcendo pra que fosse com um homem de verdade.
Olhei para trás e vi Trey, encostado no batente com ar irônico.
— Muito engraçado. Se fosse meu amigo de verdade, viria me ajudar. — Apontei para o modelo feminino.
— Vamos ver sua suposta experiência em ação.
— Suposta? — Ele pareceu indignado, mas entrou mesmo assim.
Eu não tinha pensado muito quando pedi a ajuda dele. Estava mais preocupada que aquilo demorasse demais, porque tinha coisas mais importantes a fazer com meu tempo. Foi só quando ele parou de repente que me dei conta do erro.
— Ah — ele disse, ao ver Angeline. — Oi.
Ela parou de balançar as pernas e seus olhos se arregalaram como os dele.
— Erm, oi.
A tensão subiu de zero a sessenta em questão de segundos, e tentei não soltar um grunhido. Afinal, a situação deles não era muito diferente da minha. Como eu me sentiria se Adrian e eu terminássemos o namoro por causa dos tabus enraizados em nossas raças? Trey e Angeline tinham se separado por pressões externas, não por alguma coisa entre eles. E, quando vi a saudade nos olhos dela, entendi que o charme que ela jogava para Neil não passava mesmo de atuação.
Ninguém parecia saber o que dizer. Angeline apontou com a cabeça para os modelos e falou de repente:
— Causei um acidente.
Isso tirou Trey de seu estupor e ele abriu um sorriso. Enquanto as palhaçadas de Angeline quase me faziam arrancar os cabelos, ele as achava bonitinhas.
— Isso acontece bastante — ele disse.
— Não foi culpa minha — ela insistiu.
— Nunca é.
— Só tenho má sorte.
— Ou é encrenqueira.
— Vê algum problema nisso?
— Problema nenhum — ele disse, baixinho.
— Ai, meu Deus — exclamei. — Você vai ajudar ou não?
Não sabia como, mas a tensão constrangedora tinha se transformado em tensão sexual e eu queria sair correndo dali. Trey, depois de mais um olhar inflamado para Angeline, começou a remontar o modelo feminino. Eu não tinha botado fé quando ele se gabou, mas, para minha surpresa, terminou bem rápido.
— Falei que sou um especialista — ele disse, olhando de lado para Angeline.
Os dois pareceram se esquecer de mim mais uma vez e estavam com o olhar completamente apaixonado. Pigarreei.
— Angeline, está quase na hora da janta. Você não precisa se trocar?
— Hum? Ah. Sim. — Ela teve presença de espírito suficiente para pegar a lição que havia causado tudo aquilo. — Obrigada pela ajuda — ela disse a Trey, como se eu não tivesse feito nada.
Ele deu de ombros, como se fizesse aquilo todo dia.
— Não foi nada.
Ele lançou um olhar sugestivo e saiu, e Angeline soltou um suspiro triste.
— Ai, Sydney. Por que ele tem que ser um daqueles malditos guerreiros?
Tranquei a sala.
— Bom, tecnicamente não é mais.
— Mas pode voltar a ser — ela disse, arrastando os pés enquanto íamos até o ponto do circular que passava no alojamento. — E, se for, nunca mais vai superar toda aquela baboseira de não se misturar com dampiros. Daqui a pouco, vai começar a namorar humanas de novo e, como a gente está aqui, não vou poder fazer nada para impedir.
— Como assim? — perguntei, desconfiada.
Ela se animou um pouquinho.
— Bom, se a gente estivesse na minha terra, eu poderia desafiar as namoradas dele para duelos.
— Vamos torcer para que ele fique solteiro, então.
Eu a deixei com suas fantasias quando chegamos ao alojamento e cada uma foi para seu quarto. Zoe estava esperando no meu, olhando pesarosa para um livro velho.
— Onde você estava? — ela perguntou. — Não passou todo esse tempo no aeroporto, né? — Ela me olhou, pensativa. — Estava com a sra. Terwilliger?
— Com Angeline, na verdade. Precisei ajudá-la com um… probleminha na aula de biologia dela.
— Lá vai você de novo, fazendo coisas que não precisa.
Os problemas entre Angeline e Trey tinham me feito pensar na minha própria situação, e eu estava com pouca paciência para a retórica alquimista de Zoe.
— Preciso fazer essas coisas, sim. Preciso de Angeline em Amberwood e isso significa garantir que ela não arranje problemas com os professores. — Virei a cadeira e me sentei, pousando o queixo no assento. — Se quer tanto ser uma alquimista, não espere para reagir ao problema à sua frente. Pense adiante. Se olhar a situação de modo amplo, nunca vai ter que lidar com o problema. É melhor evitar uma grande catástrofe do que ficar resolvendo um monte de pequenos incômodos.
— Está bem — ela disse, parecendo magoada com a bronca. — Entendi. Não precisa dar sermão.
— Desculpe — eu disse, me sentindo só um pouco arrependida. — Você veio aqui para aprender. Só estou tentando ajudar.
Ela abriu um sorriso tênue.
— Eu sei. Estou aqui por motivos profissionais. É que às vezes é difícil esquecer que você é minha irmã. Mas você é boa nisso… em me tratar como só mais uma alquimista. Vou me esforçar para fazer o mesmo.
Vacilei. Para Zoe era um elogio dizer que eu conseguia colocar nossa relação de lado e me focar inteiramente nas ordens alquimistas. Mas eu não sentia tanto orgulho disso. Na verdade, aquilo me deixou profundamente incomodada e apontei com a cabeça para o livro.
— O que você está lendo?
Ela saiu do modo profissional, mas fez uma careta.
— Não sei. Um livro de Shakespeare para a aula de inglês. Precisamos escolher um pra amanhã e pensei que esse seria bom porque é curto. — Ela levantou o livro. Ricardo III. — Mas não estou entendendo nada.
— Ah — eu disse.
— A peça é ruim? — ela chutou.
— A peça é ótima, mas não sei se é a melhor pra você. Tente encontrar uma cópia de Sonhos de uma noite de verão. Talvez seja mais o seu estilo. — Ao pensar nos sofrimentos amorosos dos meus amigos, não pude conter um sorriso pesaroso. — E você está praticamente no meio da peça. — Eu ri quando ela não entendeu a referência. — Esqueço que literatura não fazia parte do currículo do papai. Fiz a maior parte da minha pesquisa por conta própria.
Ela assentiu e, de repente, arregalou os olhos.
— Ah! Quase esqueci de contar. Ele está vindo pra cá. O papai.
Me endureci na cadeira.
— Quando?
— Semana que vem. — Tentei relaxar, sabendo que tinha parecido um pouco chocada demais. Claro que não podia deixar transparecer que estava com medo. — Ele quer conversar com a gente sobre a audiência com a mamãe. Eles marcaram uma data no mês que vem.
Disso eu não sabia, mas não deveria ter ficado surpresa por meu pai me deixar de fora. Afinal, Zoe havia se mostrado uma filha muito mais interessada que eu. Era natural que ele contasse para ela antes.
— Ele vem ajudar a gente a se preparar — ela continuou. — Para lutar por ele quando chegar a hora.
— Ah — eu disse.
Zoe mergulhou de costas na cama e ficou olhando, melancólica, para o teto.
— Queria que isso já estivesse acabado. Não, melhor: queria ter dezoito anos que nem você e ser livre.
Embora eu pudesse pensar em muitos adjetivos para me descrever, “livre” não era um que costumava vir à mente.
— Ai, Sydney — Zoe lamentou. — Por que ela está fazendo isso?
— Porque ama você — respondi baixinho.
— Isso não é amor.
Foi bom que Zoe não elaborou, porque eu tinha quase certeza que não conseguiria me manter calma diante das definições rasas de amor que ela sem dúvida me daria.
— A mamãe não vai conseguir se equiparar ao discurso educacional e cultural do papai — comentei. — Ela só tem histórias. Como aquela vez que você quebrou o pé.
— Foi a perna toda — Zoe corrigiu, baixinho. Eu não disse mais nada. Nem precisava, julgando pelo olhar distante dela. Ambas tínhamos estudado em casa, mas, quando Zoe tinha dez anos, quis fazer aulas de ginástica, então nossa mãe a matriculou num curso. Um acidente em um treino fez com que Zoe quebrasse a perna e ela teve que passar a noite no hospital, o que foi terrível porque era a mesma noite da comemoração da vitória da equipe dela. Nossa mãe deu um jeito de levar a equipe e a festa toda para o quarto do hospital, para espanto dos funcionários. Zoe, que na época ansiava por contato social, havia adorado. Já nosso pai tinha pensado que o incidente era prova de como aquela aula era inútil.
Quando levei o grupo para a mansão de Clarence no fim da tarde, ouvi uma mensagem chegar no Celular do Amor, que estava na bolsa. Meus princípios rígidos contra mandar mensagens enquanto dirigia me impediram de pegar o celular, mas não foi fácil. Além disso, eu tentava não mexer nele quando havia outras pessoas por perto. No entanto, assim que saímos do carro na frente da mansão de Clarence, li a mensagem de Adrian: Plano de fuga nº5: Abrir um rancho de alpacas no Texas que obrigue todas as meninas loiras e inteligentes de olhos castanhos a usar roupas sexy de cowgirl. Reli as palavras e sorri antes de apagar a mensagem, como fazia com todas que ele mandava. Quando passou por mim, Jill sorriu também. Às vezes, o conhecimento em primeira mão dela era assustador. Mas, às vezes, o fato de ela saber sobre meu romance era reconfortante, quase como ter um diário. Eu não gostava de ter uma vida cheia de segredos, ainda que tivesse sido criada para viver uma.
Ninguém estava bem naquela noite. Eu estava mal por causa de Adrian, Jill por causa do seu dilema entre Neil e Eddie, Angeline por causa de Trey, e Zoe por causa de nossos pais. Só Eddie e Clarence pareciam estar se divertindo. Bom, e Dorothy também, depois de fornecer sangue para Jill. Clarence estava em um dos seus momentos mais coerentes e nos contava algumas histórias de viagens, do tempo em que era jovem e ainda não tinha se retirado do mundo Moroi. Uma delas era sobre uma academia de treinamento para dampiros na Itália que tinha uma reputação excelente. Eddie ouvia com atenção a todos os detalhes que Clarence conseguia lembrar.
— Mortal por dentro, linda por fora. O segundo andar era um terraço panorâmico e os alunos passavam o fim da tarde lá em cima, depois do treino, claro, tomando um expresso e olhando o lago de Garda. — Ele franziu a testa. — Qual era mesmo o outro nome dele?
— Benàco — respondi automaticamente.
— Isso. E não era muito longe de Verona também. Dava para ter um pouco de inspiração shakespeariana — ele disse, rindo.
Zoe levantou os olhos do seu resto de pizza e fez uma rara demonstração de interação com Clarence.
— Nem me fale dele.
— Por que não? É um grande escritor. Pensei que gostasse de literatura.
Zoe apontou com a cabeça para mim.
— É ela quem gosta. Eu tenho que escrever sobre uma peça dele e não tenho o livro ainda. E minha professora quer que a gente mande a escolha amanhã. Num sábado! Vou ter que procurar uma versão on-line no computador quando a gente voltar.
— Entendi. — Clarence abriu um sorriso magnânimo. — Bom, então por que não pega um meu emprestado?
Por um minuto, pensei que Clarence estava falando que ela poderia pegar um computador emprestado, o que seria uma surpresa, já que, até onde eu sabia, o micro-ondas era o aparelho mais avançado da casa. Então lembrei que todos os cômodos tinham prateleiras de livros.
— Você tem alguma peça dele? — perguntei.
— Tenho todas. Estão no depósito extra da garagem. Podem ir lá procurar.
— Você tem… — Zoe olhou para mim, interrogativa. — Como era? Sonho de uma noite de verão?
— Claro — Clarence disse. — Uma ótima peça sobre o amor.
Ironizei:
— Não sei, não. Está mais para uma série de desventuras malucas em um cenário mágico.
— Você não falou que a gente estava praticamente no meio dela? — Zoe perguntou.
— Pela minha experiência — Clarence começou —, o amor costuma ser uma série de desventuras malucas.
— O amor é… — Uma antiga lembrança com Adrian me veio à mente e parte das emoções turbulentas que eu andava carregando dentro de mim nos últimos dias cresceu no meu peito. Era idiota sentir tanta saudade de alguém que eu tinha visto no dia anterior, mas não conseguia tirar Adrian e suas descrições do amor da cabeça. — … uma chama na escuridão. Uma brisa quente numa noite de inverno. Uma estrela que nos guia pra casa. — Quando percebi que todos estavam me encarando, tentei mudar de assunto. — Li isso num livro. Você deveria dar uma olhada na biblioteca de Clarence, Zoe. Mesmo que não tenha o Sonho de uma noite de verão, pode encontrar alguma outra coisa interessante.
Quando a vi empalidecer, percebi que a distração tinha dado certo. Todos se voltaram para ela, embora Eddie tenha sido o último. Não demorei para entender em que Zoe estava pensando. Explorar a garagem de um vampiro deveria ser, aos olhos dela, como entrar em uma catacumba. Provavelmente ela achava que encontraria alguns caixões. Abri um sorriso.
— Quer que eu vá com você? — Eu estava um pouco curiosa para saber o que havia nesse “depósito extra”.
— Faria isso? — ela perguntou, fazendo que sim, ansiosa.
— Claro. — Senti uma onda de carinho ao poder fazer alguma coisa por ela, mesmo que tão minúscula. Não havia me esquecido de seu comentário sobre sermos irmãs ou colegas de trabalho, e consolar Zoe em um lugar assustador era algo que eu fazia quando ela era pequena.
No fim das contas, porém, a garagem de Clarence não tinha nada da ostentação gótica do resto da casa. Seu Porsche, que quase nunca era usado, estava estacionado lá, deixando Zoe boquiaberta. Havia algumas ferramentas de jardinagem e reparos, um aquecedor de água, uma mesa de trabalho e toda uma área com livros encaixotados. Eu estremeci um pouco ao ver aquilo. Palm Springs poderia não ser tão úmida quanto outras cidades, mas, mesmo assim, era um risco desnecessário deixar os livros ali. Ajudei Zoe a encontrar a caixa de Shakespeare e deixei que fizesse sua escolha, recomendando que lesse a quarta capa em vez de decidir pelo número de páginas. Passando os olhos pelos outros livros de Clarence, vi uma coletânea de poesia que coloquei embaixo do braço para levar para Adrian.
Enquanto Zoe continuava sua busca, me sentei num banquinho, apoiando os pés confortavelmente em um saco de cascalho. Certa de que Zoe estava concentrada na tarefa, peguei o celular às escondidas para ver se havia alguma mensagem nova de Adrian. Não havia. Escrevi: Peguei um livro de poesia para você. Talvez obras menores sejam mais fáceis que o Gatsby. Esperançosa, fiquei olhando para a tela, desejando uma resposta. Não veio nenhuma e precisei me lembrar de que ele estava em uma viagem profissional, provavelmente imerso no caso do espírito.
Mudei os pés de posição e algumas pedrinhas caíram do saco. Porém, quando olhei mais de perto, percebi que não era cascalho, e sim sal-gema para o degelo de ruas. A julgar pelo pó e pela sujeira cobrindo o saco, não era muito usado. Mas tinha que dar crédito a Clarence pela precaução. Me ajoelhei e peguei algumas pedrinhas que haviam caído. Segurando os cristais na mão, tive uma revelação súbita. Sal-gema. Cloreto de sódio. O haleto mais comum que existia, com uma formação de cristal cúbico, assim como a da boleíte. Na verdade, era tão comum que nem havia passado pela minha cabeça como candidato para a tinta dos rebeldes. Eu vinha me concentrando em minerais mais exóticos. Ergui um cristal, observando a maneira como a luz se refletia nele. Mentalmente, listei as propriedades de que conseguia me lembrar, fazendo comparações com a boleíte. Será que a resposta estava bem embaixo do meu nariz? Será que minha busca poderia ter uma solução tão simples?
Meu coração acelerou e tomei coragem para olhar para Zoe. Ela estava concentrada na busca e parecia folhear Como lhe aprouver. Era idiota e imprudente fazer um experimento ali, mas senti uma necessidade urgente de saber. Recuando para o lado oposto da garagem, fui para um canto que me dava uma boa visão de Zoe, mas a deixava de costas para mim. Foi fácil sujar as mãos naquele chão imundo e, depois de mais uma olhada nervosa na direção dela, invoquei a essência da terra.
Eu tinha feito aquilo tantas vezes que já era quase natural para mim. Uma luminosidade envolveu a minha mão e cobri rapidamente a outra, na qual estava o sal, transferindo a luz. O cristal brilhou por um tempo, então a luz desapareceu. Será que tinha funcionado? Tinha infundido a magia? Parecia ter dado certo, mas eu não tinha como ter certeza. A sra. Terwilliger poderia me dizer no dia seguinte, mas, de novo, minha urgência foi maior.
Voltei para o banquinho, como se nada tivesse acontecido, e mandei uma mensagem para ela: A senhora teria como passar no meu alojamento hoje à noite pra pegar um trabalho?
Se ela não pudesse, eu poderia arranjar uma desculpa para sair, mas Zoe faria perguntas. Felizmente, a resposta que recebi foi: Sim, dou uma passada lá depois do encontro com MW.
Levei um minuto para lembrar que MW era Malachi Wolfe. Ai.
Zoe se levantou, se alongando, e mostrou uma edição de Sonho de uma noite de verão.
— Decidi. Tomara que dê certo.
— Tomara mesmo — concordei, colocando o cristal no bolso.
Foi fácil sair do dormitório mais tarde, quando a sra. Terwilliger entrou em contato para dizer que estava no saguão. Eu a encontrei perto da porta e tentei não deixar o queixo cair quando a vi. Ela estava não só maquiada como também usando um vestido tubinho lindo que não parecia um resquício de Woodstock.
— Uau… a senhora está linda.
Ela sorriu, alisando a saia.
— Acha mesmo? Fazia anos que não usava este vestido. Malachi disse que esse tom de rosa me faz parecer um anjo de Botticelli.
— Ele disse o quê?
— Nada de mais. Aquelas coisas que a gente fala em momentos íntimos. — Meu queixo caiu de verdade dessa vez. — Enfim. Do que você precisa?
Engoli em seco e tentei lembrar.
— Ah, só queria devolver isso.
Entreguei um livro de história qualquer ao mesmo tempo que coloquei o sal discretamente na mão dela. Todos os traços de paixão desapareceram de seu rosto. Ela estava séria quando pôs o sal cuidadosamente em cima do livro. Apertei os punhos com tanta força que meus dedos começaram a doer.
— Ora, ora — ela disse, baixinho. — Veja só.
— O quê?
Ela ergueu os olhos e sorriu.
— Parabéns, Sydney. Você fez um feitiço elemental impecável.

Um comentário:

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)