30 de outubro de 2017

Capítulo 7

Adrian

ALICIA DEGRAW ESTAVA VIVA.
Se já era um choque para mim, mal conseguia imaginar como Sydney estava se sentindo. Ela achava que tinha matado Alicia. Antigamente, Alicia era aprendiz da irmã de Jackie, Veronica, mas tinha optado pelo mal. O que não era pouco, considerando que a própria Veronica não era nenhum exemplo a seguir: ela era obcecada por roubar a juventude e o poder de outras bruxas, deixando-as em coma para o resto da vida. Alicia tinha se voltado contra a mentora, roubado seu poder e ido atrás de Jackie. Eu e Sydney tínhamos entrado em confronto com Alicia na casa de Jackie no final do ano anterior — confronto responsável por botar fogo na casa. Ficamos sem saber se Alicia tinha conseguido fugir, mas agora tínhamos nossa resposta.
— Estou dividida — Sydney admitiu, mexendo o café em que ainda não havia tocado. Tínhamos saído do camping para conversar sobre a situação num restaurante vinte e quatro horas, e o fato de ela não ter encostado no café era um sinal de como estava preocupada. Eu tinha quase certeza de que nunca a vira recusar cafeína em todo o nosso tempo juntos. — Parte de mim está aliviada por não ter matado ninguém de verdade. Por outro lado… enfim, isso meio que complica as coisas.
— Você tem certeza? — Jackie perguntou do outro lado da mesa. — Eram os mesmos cacos?
Sydney ergueu a única lâmina dourada que tinha pegado do camping. As outras foram destruídas.
— Absoluta. É difícil esquecer uma coisa dessas. Na noite em que lutamos, transformei as bolinhas de um pêndulo de Newton em lâminas exatamente iguais a essa.
— Lembro desse pêndulo — Jackie murmurou, quase saudosa. — Foi um presente de fim de ano de um ex-aluno. Acho que ele tinha esperança de que aumentasse a nota dele.
Sydney parecia não estar ouvindo. Seu olhar estava assustado.
— Mandei os cacos na direção de Alicia. Foi por puro instinto. Ela caiu pela escada do porão e não pude ficar para ver o que havia acontecido enquanto tudo pegava fogo ao nosso redor.
Coloquei a mão sobre a dela.
— Você fez o que precisava fazer. Era a coisa certa. Ela era… é uma pessoa má.
— Acho que sim — Sydney disse, com um suspiro. — E também acho que isso responde nossas dúvidas. A gente estava tentando descobrir quem poderia querer se vingar de mim e usar magia humana. Ela é a resposta perfeita.
— Agora que sabemos quem está por trás disso, vamos atrás dela e de Jill — Eddie disse, com a voz ameaçadora. Essa vida de estrada tinha feito com que ele se barbeasse ainda menos e já estava com a barba quase cheia. — Ela deixou a pista de que está em Palm Springs. Precisa ser impedida de uma vez por todas.
— Tem razão — disse Sydney, recuperando o ânimo. — Precisamos acabar com isso e salvar Jill. Nenhum de nós vai dormir tão cedo mesmo, então bem que podemos pegar a estrada agora e ir para Palm Springs.
— Não você — Jackie disse. — Não quero você nem perto de Palm Springs.
— Como assim? — Sydney exclamou. A intensidade dela era igual à de Eddie. — A próxima peça está lá! Foi o que Alicia nos indicou.
— E é por isso que não vamos nos apressar… pelo menos não agora.
— Mas Jill… — Eddie começou.
Jackie balançou a cabeça.
— Ainda não sabemos a extensão do envolvimento de Jill nessa história. O que sabemos é que Alicia está atraindo Sydney para Palm Springs, onde deve ter alguma armadilha muito bem montada. Alicia está seguindo a velha tática de esgotar o inimigo primeiro. Essa “caça ao tesouro” não foi só para ela se divertir. Foi para enfraquecer a magia de Sydney. Se você for correndo para Palm Springs, depois da quantidade de magia que usou nesses últimos dias, é bem possível que não resista ao que ela está planejando. Perderíamos você e nunca descobriríamos o que aconteceu com Jill.
Me senti dividido e apertei a mão de Sydney. Conseguia entender por que Jackie queria manter Sydney longe do perigo. Era o que eu queria também. Mas por outro lado sentia a pressão que todos os outros sentiam. Jill estava cada dia mais em perigo. Como poderíamos não agir se tínhamos uma pista?
— Mas — continuou Jackie, como se estivesse lendo minha mente — isso não quer dizer que eu pretenda simplesmente abandonar Jill. Quero conduzir uma busca em Palm Springs, especificamente na área do Salton Sea. Meu plano é fazer isso com os reforços apropriados.
Eu e Eddie ficamos confusos, mas Sydney, como sempre, foi a primeira a entender.
— As bruxas do Stelle — ela disse, referindo-se ao clã em que tinha entrado.
— Sim — Jackie respondeu. — Elas e mais outras. Alicia não é só problema seu; ela representa um risco a toda a comunidade mágica. Então toda a comunidade deve cuidar dela. Vou reuni-las e vamos conduzir uma busca usando recursos mágicos e tradicionais. Enquanto isso, você vai ficar em algum lugar seguro e bem afastado.
— E vou ficar com você — eu disse, sentindo-me um pouco melhor sabendo que Jill não seria abandonada. Era difícil, quase como se tivesse de escolher entre Sydney e Jill, mas, pelo jeito, Jackie não ficaria parada sem fazer nada.
— Vou com você — Eddie disse a Jackie. Depois se virou para mim e Sydney. — Quer dizer… — O conflito em seu rosto refletia o que eu sentia por dentro.
— Pode ir — eu falei. — Nós vamos ficar bem. Ninguém sabe que a gente saiu ainda. Vamos desaparecer em algum lugar e tudo vai dar certo.
Eddie hesitou de novo. Ele odiava ter que dividir sua lealdade, mas no fim concordou.
— Se vocês acham que vão ficar bem… Como conseguiu sair sem ninguém ficar sabendo, aliás?
— Depois eu conto — falei.
Pude ver pela expressão de Sydney que ela também estava curiosa. Em vez de perguntar, ela se virou para Jackie.
— Mas quero que me ligue assim que você e as outras bruxas tiverem verificado a situação. Quando estiver tudo seguro, quero participar da busca por Jill.
— A menos que a encontremos antes e derrotemos Alicia — Eddie insistiu.
Sydney entreabriu um sorriso que sugeria que ela não achava que seria assim tão fácil.
— Seria ótimo.
Nós quatro ficamos revendo mais alguns detalhes antes de finalmente nos separarmos. Dava para ver que Eddie ainda estava perturbado por nos deixar e nos encheu de conselhos para mantermos a discrição e não chamarmos atenção. Ele também queria pedir para Neil vir nos proteger, mas Sydney descartou a ideia, dizendo que seria mais fácil se só nós dois simplesmente sumíssemos. Todos concordamos que Neil poderia ser útil em Palm Springs quando fechássemos o cerco em volta de Alicia, então Eddie prometeu fazer isso acontecer.
— Não se preocupe — falei para Eddie, dando um tapinha nas suas costas depois de ouvir mais alguns conselhos bem-intencionados sobre precauções de segurança. — Não pretendo fazer nada que leve os alquimistas ou os Moroi a descobrir que saímos da Corte. Faça a sua parte que cuidamos da nossa. Depois você nos avisa quando for seguro pra irmos também.
Jackie e Eddie concordaram que não queriam saber aonde eu e Sydney estávamos indo. Quanto menos soubessem, menos poderiam revelar acidentalmente para outras pessoas. No entanto, eles nos encheram de recomendações de lugares aonde poderíamos ir e, no fim, tivemos que mandar os dois embora, reafirmando que tudo daria certo.
Sydney e eu ficamos no carro alugado pensando nas infinitas possibilidades.
Também seria a primeira vez que estaríamos realmente sozinhos em muito tempo.
— É desnorteante — ela admitiu enquanto estávamos parados no estacionamento do restaurante. — É como se de repente pudéssemos colocar em prática qualquer um dos nossos planos de fuga.
— Bom, não qualquer um — discordei. — Estamos no meio dos Estados Unidos e precisamos arranjar um lugar seguro em até cinco horas para eu poder, hum, encontrar Charlotte num sonho.
Os olhos de Sydney se arregalaram.
— Como assim?
Suspirei e dei partida do carro.
— Posso explicar.
Sabia que teria de contar tudo em algum momento… só não imaginava que fosse tão cedo. Enquanto entrávamos numa rodovia rumo ao norte, resumi para Sydney o que havia acontecido nos dias em que ficamos separados. Charlotte tinha sido fiel à promessa de me acobertar. Ela me levara para fora da Corte em seu carro, usando compulsão no guarda do portão para que ele não lembrasse de ter me visto. Depois de me deixar num pequeno aeroporto regional, prometera ir ao flat e ficar com a minha mãe. Nas vinte e quatro horas que eu tinha levado para pegar os voos de conexão e dirigir até os Ozark, recebera novidades tanto da minha mãe como de Charlotte. Ninguém viera me procurar, e Charlotte havia descido ao saguão e tido uma conversa repleta de compulsão para convencer a recepcionista de que me vira sair e voltar de um fornecimento.
— E agora preciso cumprir minha parte do acordo — expliquei para Sydney, depois de resumir a história.
— Usando um monte de espírito que está esgotando a menina? — Sydney gritou. — Adrian, você me falou que ia parar!
Ela não entende, tia Tatiana vociferou. Você fez isso por ela!
Senti minha raiva crescer.
— Era o único jeito de conseguir sair da Corte!
— Você não precisava sair da Corte — Sydney argumentou. — A gente estava bem. Você só precisava ficar são e salvo e me dar cobertura.
— Bem?! Eu impedi que vocês fossem cortados em pedacinhos por aqueles cacos!
Sydney cruzou os braços e encarou a janela do passageiro fixa e obstinadamente.
— Não dá para saber quais seriam os danos, e eu e a sra. Terwilliger poderíamos ter conseguido lançar um feitiço no último segundo. Mas isso… isso de usar o espírito com Charlotte? Nós sabemos muito bem o dano que pode causar! Você acabou de me contar como ela está mal.
— A minha ajuda vai impedir que ela piore — retorqui. — Uma vez só não vai me prejudicar.
Sydney se voltou para mim, incrédula.
— Não! Nenhuma vez! Nenhuma vez mesmo! Você não pode fazer isso! Não vou deixar!
Desde quando ela manda em você?, perguntou tia Tatiana, furiosa. Mal faz um mês que estão casados e ela já está ditando a sua vida! Você não pode suportar isso. Fala pra ela. Fala que ela não pode controlar você!
Estava tão nervoso quanto o fantasma na minha cabeça e abri a boca pronto para dar uma resposta ríspida a Sydney. Mas, ao virar para o lado, entrevi a expressão dela na luz do farol de um carro que passava. A preocupação e o amor que tomavam seu rosto partiram meu coração e, de repente, a raiva se foi.
Ela está te enganando, insistiu tia Tatiana.
Não, respondi. Ela só se importa comigo. Quer ajudar.
Para Sydney, eu disse:
— Certo, você tem razão. Não é uma boa ideia. Não vou participar do sonho. Só preciso achar… um jeito… de explicar a situação para Charlotte. — Me senti culpado por quebrar minha promessa com Charlotte, mas tinha laços maiores com Sydney.
Quando vi o alívio que essas palavras lhe causaram, soube que tinha tomado a decisão certa.
Charlotte não vai gostar nada disso, sussurrou tia Tatiana.
Não é com ela que sou casado, retruquei.
Sydney colocou a mão sobre a minha.
— Obrigada, Adrian. Sei que não é fácil. Sei que você só quer ajudar.
— Sim — admiti, ainda em conflito com a minha decisão. A vontade de ajudar Charlotte era muito, muito forte. — Mas tem um preço. Não vale a pena perder a minha sanidade. — Apertei a mão de Sydney. — Não vale a pena perder o nosso relacionamento.
Falei pra você, Charlotte não vai gostar nada disso, tia Tatiana avisou de novo. Você pode se parabenizar por proteger sua sanidade, mas a dela já se foi faz tempo. Ela não vai deixar barato.
Vou conversar com Charlotte. Por enquanto, já valeu a pena ficar sozinho com Sydney e não brigar pra variar um pouco.
Era verdade. Fazia muito tempo que eu e Sydney não chegávamos nem perto desse tipo de liberdade e, mesmo presos no meio dos Estados Unidos e não numa ilha tropical, as opções diante de nós pareciam infinitas. Depois de dar uma olhada em alguns mapas da internet, finalmente seguimos para Council Bluffs, em Iowa. Não era exatamente um destino incrível, mas esse foi meio que o motivo. O mais importante: ficava bem longe dos alquimistas de St. Louis e mais ainda de Palm Springs, onde Alicia esperava que Sydney fosse aparecer. Consideramos ficar num hotel de uma grande rede, mas preferimos ir a uma pequena estalagem campestre nas redondezas da cidade. Só chegamos pela manhã, e fomos recebidos por uma placa: BEM-VINDOS AO CHALÉ DO ESQUILO PRETO.
— Ah, não — Sydney resmungou. — Tomara que não seja como aquela pousada em Los Angeles. Não sei se aguentaria um quarto todo decorado com esquilos.
Sorri ao lembrar da vez em que eu e Sydney tínhamos investigado uma pousada que transformara os coelhos da decoração numa cafonice sem precedentes.
— Poxa vida, depois de tudo que a gente passou, esse seria o menor dos problemas.
Quando entramos, tivemos a agradável surpresa de encontrar uma decoração de muito bom gosto, com cores neutras e móveis modernos. Não dava para ver nenhuma colcha com esquilos bordados nem esculturas de vime em formato de esquilo. A dona da estalagem era uma mulher amável de meia-idade e, embora surpresa ao ver hóspedes tão cedo, ficou feliz em nos receber e oferecer um quarto.
— Por que a estalagem tem esse nome? — perguntei, enquanto pagava pelo quarto.
A proprietária abriu um sorriso radiante.
— Ah, é em homenagem ao Caju.
— Caju? — Sydney perguntou.
— Sim — respondeu a mulher. — O esquilo preto que mora aqui. Eu diria que ele é nosso bichinho de estimação… mas, enfim, ele é muito mais do que isso.
Dei uma olhada pelo saguão.
— A gaiola dele fica por aqui?
— Ah, não — ela respondeu. — Seria cruel. Além de ilegal. Ele… — Ela deu de ombros e apontou vagamente para o saguão. — Enfim, ele está por aí em algum lugar.
— Como assim “por aí”? — Sydney perguntou, pouco à vontade. — Lá fora, você quer dizer?
— Ah, não — a estalajadeira disse. — O coitadinho não saberia viver lá fora.
Sydney arregalou os olhos.
— Espera. Se ele não está lá fora, quer dizer que…
— Vou acompanhar vocês até o quarto — a proprietária falou, sorridente. — Estou com as chaves bem aqui.
O quarto tinha uma aconchegante área de convivência e acesso a uma sacada particular, além de uma grande cama macia. Depois de um dia cansativo de viagem, eu mal podia esperar para finalmente dormir de verdade e recuperar o sono. Antes de me jogar na cama, porém, sabia que precisava entrar em contato com Charlotte e contar que o combinado estava suspenso. Quando Sydney falou que ia tomar banho, encontrei a oportunidade perfeita. Era mais ou menos a hora em que Charlotte estaria dormindo, esperando que a contatasse por um sonho de espírito. Eu não precisava estar dormindo para isso, mas simplesmente entrar num estado meditativo.
Sentei na cama, me acalmei e fechei os olhos, invocando uma quantidade de espírito suficiente para atravessar o mundo onírico até encontrar Charlotte. No entanto, meu estado de tranquilidade foi abalado quando ouvi um grito vindo do banheiro. Abri os olhos e atravessei o quarto correndo, escancarando a porta.
— Adrian, cuidado! — Sydney gritou.
Um bichinho preto e felpudo pulou da pia e pousou bem no meu peito. Por instinto, o afugentei. Ele caiu no chão e atravessou o quarto correndo. Sydney saiu enrolada numa toalha e parou ao meu lado.
— Acho que ele foi pra baixo da cama — ela disse.
— É melhor esse bicho não subir em mim de novo — murmurei, caminhando devagar até a beira da cama.
Você já enfrentou coisas muito piores do que isso, disse tia Tatiana com desprezo. Larga a mão de ser besta.
Sydney me seguiu e, quando me abaixei para verificar embaixo da cama, ela fez um gesto que reconheci ser de algum feitiço. Segundos depois, senti uma brisa se agitar e soprar embaixo da cama. O esquilo — Caju, imaginei — saiu em disparada e começou a correr freneticamente pelo quarto. Sydney, depois de criar coragem para vencer o choque inicial, correu até a porta que dava para a sacada e a abriu. Depois de algumas voltas pelo quarto, o esquilo percebeu e saiu. Sydney trancou a porta e, por alguns segundos, ficamos parados ali.
— Por que nada pode ser simples para nós? — ela perguntou finalmente.
— Olha só você — brinquei, andando até ela —, enfrentando destemidamente Caju, o Esquilo Ensandecido.
— Não fui tão destemida assim no começo — ela admitiu. — Não na hora em que ele pulou em cima de mim quando estava prestes a entrar no banho.
Eu a puxei para perto, notando subitamente que estava só de toalha e maravilhosa mesmo depois de um confronto feroz com um esquilo.
— Ei, você foi mais corajosa do que eu. E fez tudo isso sem perder a toalha.
Sydney abriu um sorriso. Ela mostrou a parte de cima da toalha amarrada em volta dos seios.
— O segredo é como você dobra — ela disse, em tom prático. — Se fizer do jeito certo, nunca vai cair.
— Aceito o desafio — murmurei, levando os lábios até os dela.
Sydney se apertou contra mim, quente e cheia de energia, com o aroma maravilhoso que só ela tinha. Encostei-a na parede, unindo nossos corpos, e ela envolveu meu quadril com a perna. Passei a mão pela pele macia e perfeita de sua coxa e percebi que era a primeira vez que ficávamos realmente sozinhos em muito tempo. Minha mãe não estava atrás da porta esperando que saíssemos, tampouco havia uma equipe de alquimistas nos caçando do outro lado das paredes. Nós tínhamos sumido, seguido um plano de fuga. Ninguém sabia onde estávamos. Se quiséssemos, a possibilidade de simplesmente desaparecer estava bem diante de nós.
Acho que essa noção de que estávamos verdadeiramente livres pela primeira vez despertou uma intensidade ainda maior entre nós. Havia um calor em Sydney enquanto retribuía meu beijo e enlaçava os dedos no meu cabelo que me lembrou nossos primeiros dias juntos. Eu a ergui com facilidade e a levei para cama, admirado por como parecia tão leve em meus braços se era uma mulher tão forte.
Também fiquei admirado com a dificuldade de tirar aquela toalha.
Sydney ria baixinho, passando os dedos pela minha bochecha. A luz do sol que entrava por entre as persianas fazia ela parecer feita de ouro.
— Opa — ela disse. — Vai perder o desafio?
Finalmente desamarrei o nó e tirei a toalha, jogando-a o mais longe possível.
— De jeito nenhum — falei, maravilhado com o corpo dela, como sempre. — Precisa de muito mais para me manter longe. Você vai ter que se esforçar da próxima vez.
Ela me ajudou a tirar a camiseta.
— Por que iria querer uma coisa dessas?
Nós nos beijamos de novo e, enquanto nos emaranhávamos, senti que todas as preocupações que vinham me perseguindo desapareciam. Charlotte, os alquimistas, Alicia… até mesmo tia Tatiana. Naquele momento, não havia nada além de mim e Sydney no universo, e as únicas coisas que importavam eram nosso amor e como me sentia nos seus braços. Era uma felicidade que ultrapassava o simples prazer físico, embora eu estaria mentindo se dissesse que não havia prazer de sobra.
Depois, suados e exaustos, deitamos juntos, mais calmos. Ela pousou a cabeça no meu peito e beijei sua testa, contente. Naquele momento, concluí que a melhor coisa que poderia acontecer seria Jackie ligar falando que Alicia tinha sido derrotada, Jill estava livre e Sydney e eu poderíamos viver felizes para sempre em Council Bluffs. Peguei no sono, sonhando com essa fantasia.
Isso, porém, durou pouco. Logo fui levado para um tipo muito diferente de sonho. Lembrei do aviso de tia Tatiana sobre como Charlotte não me deixaria simplesmente esquecer do trato.
— Onde você esteve? — Charlotte exclamou. A casa de campo em Wisconsin se materializou diante de nós. — Era pra você ter vindo me encontrar.
Observei ao redor, tentando me ajustar à mudança súbita de ambiente.
— Eu, hum, desculpa. Me distraí no mundo real e peguei no sono.
— Tudo bem — ela falou rapidamente. — Vou liderar o sonho. Lembra que você precisa portar mais espírito desta vez.
Meus olhos arregalaram.
— Não, Charlotte… espera…
Mas Charlotte não me deu ouvidos. Estava concentrada demais em sua obsessão de encontrar Olive. Senti Charlotte invocar o espírito e trazer outra pessoa para se juntar a nós. Momentos depois, Olive começou a se materializar à nossa frente, indistinta e coberta por um manto como antes. E, como da outra vez, Olive entrou em pânico e começou a arrancar o controle do sonho das mãos de Charlotte. Dessa vez, sabendo o que esperar, senti melhor o que estava acontecendo.
Desde a última tentativa, tinha pesquisado o máximo possível sobre visitar sonhos, embora não houvesse muitas fontes a que recorrer. Tinha até conversado com Sonya, e juntos chegamos à conclusão de que tudo dependia da força de vontade de Olive. Se a motivação dela fosse grande o bastante, ela poderia vencer o usuário de espírito que controlava o sonho. Claramente era o que estava acontecendo agora.
Você caminha entre sonhos melhor que Charlotte, tia Tatiana me lembrou. Melhor que ninguém.
Eu sei, disse a ela. E, enquanto via o ambiente se dissolver, tomei uma decisão impulsiva, contrária ao que tinha prometido a Sydney.
— Pode liberar o sonho — falei para Charlotte.
Entendendo minha intenção, ela obedeceu. Eu estava pronto, canalizando o espírito, e logo me tornei o novo controlador do sonho. A casa de campo, que tinha começado a ruir, começou a se rematerializar. Da mesma forma, Olive também começou a se solidificar.
— Não! — ela gritou.
Charlotte correu até ela.
— Olive! Senti tanto a sua falta.
O rosto de Olive estava tomado de medo e ela recuou rapidamente, apertando o manto em volta do corpo.
— Não… não. Por favor, me deixa em paz!
De repente comecei a sentir o sonho escapar das minhas mãos. Apesar do meu controle, a força de Olive continuava vencendo. Fendas surgiram nas paredes de madeira. Os móveis de vime viraram pó. As janelas banhadas pela luz do sol ficaram escuras.
Invoquei mais poder do espírito, passando mais magia pelo meu corpo para impedir que Olive controlasse o sonho. O espírito ardeu dentro de mim, mas ela já tinha mudado o cenário. A casa desaparecera, substituída pelo que parecia um estacionamento de hotel.
Um poste emitia uma luz fraca e trêmula sobre nós, aliada ao brilho vermelho fantasmagórico de uma placa de neon pendurada na janela do saguão do hotel. Estávamos cercados por ruas que normalmente estariam movimentadas, mas não havia trânsito no sonho. Um silêncio perturbador dominava até eu falar:
— Desculpa, ela foi muito rápida — disse para Charlotte. — Onde estamos?
Ela se aproximou de mim, com o rosto tomado de medo.
— É o lugar onde fomos atacadas com o nosso pai. Quando Olive foi transformada. Tinha Strigoi…
Antes que pudesse terminar, duas figuras ameaçadoras surgiram de trás da sombra de um carro antigo estacionado. A pouca luz deixava sua pele pálida ainda mais horripilante. Não conseguia ver o vermelho de seus olhos, mas a perversidade transparecia claramente mesmo na penumbra. Eles rosnaram, revelando presas parecidas com as minhas, exceto que a única intenção delas era matar.
Apertei a mão de Charlotte e recuei devagar.
— Eles não podem matar a gente num sonho — eu disse, com a boca subitamente seca. — Não de verdade.
— Não, mas a gente vai acordar — ela falou. — E Olive vai sumir de novo.
— Não se a gente acabar com eles antes.
Meu corpo se encheu de terror, embora soubesse que os Strigoi eram apenas parte do sonho. Toda a minha vida, tinha sido condicionado a odiá-los, então deveria sentir algo além de medo. Mas o que eu dissera era verdade. Não dava para morrer num sonho de espírito. A gente simplesmente acordaria. Antes disso, sentiríamos uma dor profunda e excruciante. Eles não são reais, disse a mim mesmo. Isso é um sonho e ainda tenho algum controle.
Olive tinha assumido o controle de coisas grandes, como o cenário, mas ainda havia coisas pequenas sob o meu comando. No sonho eu poderia controlar o fogo com a mesma habilidade de Christian ou Sydney. Uma bola de chamas surgiu na minha mão, alimentada pela magia de espírito. Sentia a magia crescer em Charlotte também e fui rápido em repreendê-la.
— Não, deixa que eu cuido disso. — Já que tinha me metido naquilo, pelo menos deveria cumprir o objetivo inicial de mantê-la longe de uma crise de espírito. — Só ajuda. Não usa demais.
Lancei a bola de fogo na direção de um dos Strigoi e ela passou longe, pelo menos a um bom meio metro de distância. Certo, talvez eu não conseguisse controlar o fogo com a mesma habilidade de Christian ou Sydney. Sempre parecia tão fácil quando Sydney fazia, e entendi que estava imitando o lançamento dela. No entanto, o certo não era confiar nas minhas habilidades físicas. Precisava usar mais a intenção. Invoquei outra bola de fogo e, dessa vez, usei o espírito para guiá-la especificamente contra o Strigoi. Minha mira foi boa, mas o Strigoi, mesmo num sonho, se moveu rápido. Ele desviou do ataque, que acabou só chamuscando seu braço. Mas isso foi o suficiente para me estimular. Voltei a invocar o espírito, criando mais duas bolas de fogo, uma para cada Strigoi.
Também consegui prever como o Strigoi desviaria dessa vez, então me adaptei, enviando a bola de fogo bem contra seu peito. Ele foi engolido pelas chamas e usei o espírito para invocar uma estaca de prata. Avancei para onde ele se contorcia no chão, invoquei o espírito para me proteger do fogo e enfiei a estaca onde imaginava que ficava seu coração. Ou estava certo ou o fogo já tinha cumprido seu trabalho, porque a criatura parou de se mexer instantaneamente e desapareceu.
O outro Strigoi tinha ameaçado avançar na direção de Charlotte enquanto eu estava distraído. Ela também lançou uma bola de fogo e, assim como eu, estava demorando para aprender, errando na primeira tentativa. Mas foi o suficiente para distrair o Strigoi até eu poder entrar em ação.
— Espera — falei para Charlotte.
Acertei o segundo Strigoi bem no peito e, mais uma vez, terminei o serviço com a estaca de prata. Mas a animação com meu triunfo vacilou quando outros quatro surgiram de repente. Dei um passo rápido para trás, me aproximando de Charlotte.
— Sem problema — falei para ela. — A gente vai se livrar deles também. — Ver quatro deles era perturbador, mas meu método parecia estar funcionando. Pelo menos num sonho, poderia lutar tão bem quanto qualquer guardião.
— Não temos tempo! — Charlotte exclamou. O espírito se agitou dentro dela… muito espírito. Me voltei para ela, em choque.
— O que você está fazendo? Isso é demais!
Ela me ignorou e fez o impossível, invocando ainda mais espírito. Parecia um balão prestes a explodir.
— Precisamos deles mortos, agora!
— Para! — gritei. Chacoalhei seu braço na esperança de fazer com que ela perdesse a concentração. Ela se soltou e continuou a acumular espírito a níveis gigantescos e vertiginosos.
— Não vou deixar Olive escapar de novo! — Charlotte disse.
Chamas dispararam da ponta dos seus dedos. Não eram bolas compactas como as que eu tinha formado. Charlotte estava comandando paredes de fogo. Em quantidades enormes. As chamas iluminaram a noite, envolvendo os quatro Strigoi. Não foi preciso usar a estaca em nenhum deles. Acho que morreram quase instantaneamente.
— Chega! Libere a magia! — esbravejei com ela de novo.
O que ela fizera ao criar aquela quantidade absurda de fogo não tinha sido uma pequena mudança no sonho. Ela não só precisara vencer o controle de Olive como o meu controle sobre o fundamento do sonho. A quantidade de espírito necessária para destruir todos aqueles Strigoi num só golpe era inacreditável. Era pelo menos duas vezes maior do que a vira portar no último sonho em que estivemos juntos.
O fogo desapareceu como os Strigoi, e Charlotte caiu de joelhos. Ela levou as mãos à cabeça e começou a gritar. E gritar. Ao nosso redor, o estacionamento escuro se transformou na Getty Villa ensolarada. O controle do sonho tinha voltado a mim por conta do esforço dela. Ajoelhei ao seu lado e apoiei de leve a mão no seu ombro. Com o olhar perdido, ela não parava de gritar.
— Charlotte. Charlotte, está tudo bem. Está tudo bem.
Mas não sabia se estava mesmo. Ela não estava gritando por causa dos Strigoi. Tinha outra coisa, as consequências terríveis do uso de todo aquele espírito. Semana após semana de tanto uso e depois aquilo… Era demais. A gota d’água. Eu não fazia ideia de quanto mal tinha sido causado, mas algo estava gravemente errado. Precisava nos despertar para descobrir como ela estava no mundo real. Com um pensamento, deixei que o sonho começasse a se desintegrar.
— Charlotte…
A voz suave me fez erguer os olhos de repente. Não tinha notado que Olive estava conosco de novo na Getty Villa. Quando Charlotte havia explodido os Strigoi, ela arrancara o controle das mãos de Olive e, temporariamente, de mim. Olive tinha ficado sem nada, nenhum controle, sem poder escapar. Mas ela estava se apagando, assim como Charlotte e eu enquanto voltávamos ao mundo real.
Antes que todos desaparecêssemos, porém, vi algumas coisas com muita clareza.
Uma foi a preocupação no rosto de Olive enquanto encarava Charlotte. Apesar de tudo que havia se passado entre elas, Olive amava a irmã e não estava tentando machucá-la de propósito com aqueles obstáculos.
A outra coisa que notei foi que o manto de Olive tinha sumido. Sem nenhum controle do sonho, Olive aparecia agora como estava no mundo real. As roupas que usava eram velhas e gastas. Ela usava também um pingente pequeno e circular de madeira, com a borda verde. Nunca tinha visto aquele símbolo antes e não fazia ideia do que significava.
Mas, quando a observei pela última vez antes de acordar, notei outra coisa que reconheci imediatamente.
O sonho se desfez por completo e acordei alerta, sentando na cama da estalagem. Enquanto piscava para recuperar o foco, Sydney segurou meu braço para tentar me acalmar.
— Adrian — ela exclamou, e percebi que já estava me chamando havia um tempo. — O que foi?
— Olive está grávida — exclamei.

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