23 de outubro de 2017

Capítulo 7

Sydney

LEVOU QUASE UMA SEMANA para os outros detentos pararem de afastar as carteiras de mim e de fazer cara de nojo se eu tocasse neles sem querer. Eles ainda não estavam sendo exatamente simpáticos, mas Duncan jurou que eu estava progredindo bastante.
— Já vi levar semanas ou até meses pra chegar a esse ponto — ele disse numa das aulas de artes. — Não vai demorar muito pra você sentar com a gente na hora do almoço.
— Bem que você podia me chamar — comentei.
Ele sorriu enquanto retocava o projeto de artes do dia: copiar o pote de samambaia que ficava na mesa de Addison.
— Você conhece as regras, garota. Outra pessoa que não eu precisa falar com você. Aguente firme. Logo mais alguém vai se dar mal e vai chegar sua hora. Jonah vive se metendo em encrenca. Hope também. Você vai ver só.
Desde aquele primeiro dia, Duncan vinha restringindo nossa interação basicamente à aula de artes, fora uma ou outra piada nos corredores quando não havia ninguém por perto. Por isso eu ficava ansiosa para aquela aula. Era a única chance que eu tinha de conversar de verdade com alguém. Os outros detentos me ignoravam durante o resto do dia, e os instrutores, tanto durante as aulas como durante a purgação, nunca perdiam uma chance de me lembrar que eu não passava de uma pecadora. A amizade de Duncan me deixava mais centrada, me dando esperança de sair daquele lugar. No entanto, mesmo nessa aula, ele era muito cuidadoso em relação às nossas conversas. Embora quase nunca mencionasse Chantal, a amiga — que no fundo eu achava que tinha sido mais do que uma amiga — que os alquimistas tinham levado embora, dava pra ver que essa perda o assombrava. Ele conversava e sorria com os outros durante as refeições, mas nunca falava muito com ninguém, nem lá nem durante as aulas.
Suspeitei que tinha medo de colocar outra pessoa na mira da fúria alquimista, mesmo que fosse apenas um conhecido.
— Você é bom nisso — eu disse, notando os detalhes nas folhas da sua samambaia. — Aprendeu por ficar tanto tempo aqui?
— Não, eu pintava antes de vir pra cá, como hobby. Mas odeio naturezas-mortas. — Ele parou para admirar sua samambaia. — Daria qualquer coisa pra fazer um quadro abstrato. Adoraria pintar o céu. Não, adoraria ver o céu. Não pintei muitas paisagens quando me mandaram pra Manhattan. Achava que era bom demais pra isso e resolvi me poupar pro pôr do sol do Arizona.
— Manhattan? Que intenso!
— Intenso mesmo — ele concordou. — E agitado e barulhento e turbulento. Eu odiava aquele lugar... e agora faria de tudo pra voltar. É pra lá que você e seu namoradinho atormentado deviam ter ido.
— A gente sempre falava em ir para um lugar como Roma — eu disse.
Duncan bufou.
— Roma? Por que enfrentar a barreira da língua se dá pra conseguir tudo que você quer nos Estados Unidos? Vocês poderiam arranjar um apartamento minúsculo que você manteria com dois empregos, ao mesmo tempo que faria todas as aulas imagináveis, enquanto ele passaria o tempo no Bushwick com os amigos artistas desempregados. À noite voltariam pra casa pra comer comida coreana com os vizinhos esquisitos, depois fariam amor num colchão surrado. No dia seguinte, começariam tudo de novo. — Ele voltou a pintar. — Não é uma vida ruim.
— Não mesmo — eu disse, sorrindo sem perceber. Meu sorriso se desfez quando pensei nas chances de algum futuro com Adrian. O que Duncan havia descrito parecia tão bom quanto os “planos de fuga” que eu e Adrian inventávamos... e, naquele momento, tão impossível quanto qualquer um deles. — Duncan... o que quis dizer com “faria de tudo pra voltar”?
— Não — ele avisou.
— Não o quê?
— Você sabe o quê. Era só uma expressão.
— Sim — comecei —, mas, se houvesse algum jeito de sair daqui...
— Não há — ele afirmou, categórico. — Você não é a primeira a sugerir isso. Nem vai ser a última. E, se eu puder evitar, não vai voltar pra solitária por fazer alguma coisa idiota. Acredite, não tem como sair daqui.
Pensei com muito cuidado em como proceder. Ao longo do último ano, ele devia ter conhecido outras pessoas que tentaram fugir e, pela sua reação, visto todas fracassarem. Eu já perguntara várias vezes sobre as saídas, mas, como eu, ele nunca descobrira onde elas ficavam. Precisava encontrar uma abordagem diferente e reunir outras informações que pudessem nos levar para a liberdade.
— Pode responder duas coisas pra mim? — perguntei finalmente. — Não são sobre saídas.
— Se souber a resposta — ele disse, desconfiado, sem fazer contato visual.
— Você sabe onde a gente está?
— Não — ele respondeu prontamente. — Ninguém sabe. Faz parte do plano deles. A única coisa de que tenho certeza é que todos os andares são embaixo da terra. É por isso que não há nenhuma janela ou saída óbvia.
— E como eles espalham aquele gás aqui dentro? Não finja que não sabe do que estou falando — acrescentei quando ele fez uma careta. — Deve ter notado quando estava na solitária. Eles usam pra apagar a gente à noite e nos manter agitados e paranoicos de dia.
— Não precisam de drogas pra isso — ele respondeu. — O pensamento coletivo já espalha a paranoia muito bem.
— Não fuja da pergunta. Sabe ou não de onde vem o gás...?
— Só porque a samambaia é uma planta vascular não significa que produz dióxido de carbono de um jeito diferente — ele interrompeu. Fui pega de surpresa, tanto pela mudança súbita de assunto como pelo leve aumento em sua voz. — Todas as reações químicas da fotossíntese básica estão lá. É só uma questão de usar esporos em vez de sementes.
Fiquei perdida demais para responder na hora e, então, vi o que ele já tinha visto: Emma estava parada perto de nós, procurando lápis coloridos numa gaveta. E era óbvio que estava ouvindo.
Engoli em seco e tentei improvisar alguma resposta coerente.
— Não estava discordando disso. Só comentei que o registro fóssil indica megafilos e microfilos. Foi você quem começou a falar de fotossíntese.
Emma achou o que queria e se afastou, fazendo meus joelhos quase cederem.
— Ai, meu Deus — eu disse quando ela não podia mais ouvir.
— É por isso — Duncan avisou — que você precisa ser mais cuidadosa.
A aula acabou e passei o resto do dia esperando que Emma me denunciasse para alguma autoridade, que me arrastaria para a purgação ou, pior, de volta à escuridão. Logo ela tinha que ouvir a nossa conversa! Os outros detentos podiam não conversar comigo ainda, mas já conseguira ver quais eram os melhores e os piores candidatos a aliados. Emma, sem dúvida, era a pior de todos. Alguns dos outros davam escorregadas de vez em quando, como Hope no meu primeiro dia, soltando um comentário rebelde que os colocava em maus lençóis. Mas minha colega de quarto era boa demais e nunca desviava do discurso alquimista. Pelo contrário: fazia de tudo para dedurar os que não se mantinham na linha. Eu sinceramente não conseguia entender por que ela continuava naquele lugar.
Mas ninguém veio atrás de mim. Emma nem olhou na minha direção e alimentei a esperança de que ela só tivesse ouvido o assunto inventado de Duncan.
Chegou a hora da comunhão e entramos em fila na capela. Alguns sentaram nas cadeiras dobráveis enquanto outros ficaram andando pela sala, como eu. O dia anterior fora domingo e, em vez da hora da comunhão, tínhamos sentado nos bancos, junto com todos os instrutores, enquanto um hierofante dava uma missa completa para nós e orava pelas nossas almas. Essa havia sido a única mudança na rotina. Fora isso, tivemos as mesmas aulas no fim de semana que durante a semana. Mas aquela única missa me deu forças — não por sua mensagem, mas porque era mais uma forma de marcar o tempo. Todas as informações que conseguisse sobre aquele lugar me ajudariam a fugir... ou pelo menos era o que eu esperava.
Também era por isso que eu lia a Parede da Verdade todo dia antes dos encontros. Ela registrava um histórico dos detentos que ficaram naquele lugar antes de mim e eu queria descobrir alguma coisa. A maior parte do que encontrava era o mesmo tipo de mensagem, e nesse dia não foi diferente. Pequei contra os meus e me arrependo profundamente. Por favor, me aceite de volta no rebanho. A única salvação é a salvação humana. Outra mensagem dizia: Por favor, me tire daqui. Vi Sheridan entrar na capela e estava prestes a me juntar aos outros quando notei algo pelo canto do olho. Era uma região da parede que eu ainda não tinha explorado, numa letra rabiscada: Carly, me perdoe. — K. D.
Senti o queixo cair. Seria possível... será que era mesmo... Quanto mais olhava, mais tinha certeza do que tinha visto: um pedido de desculpas para minha irmã Carly, escrito por Keith Darnell, o cara que a havia estuprado. Pensei que poderia ser outra Carly e outra pessoa com as mesmas iniciais... mas minha intuição dizia o contrário. Eu sabia que Keith tinha ido parar na reeducação. Seus crimes foram muito diferentes dos meus e ele fora solto recentemente — uns cinco meses antes. Ele parecia um zumbi quando saiu. Era surreal pensar que tinha passado por esses mesmos corredores, assistido às mesmas aulas, sido submetido às mesmas purgações. Era ainda mais perturbador pensar que eu poderia ficar igual a ele quando saísse dali.
— Sydney? — Sheridan chamou suavemente. — Não vai se juntar a nós?
Fiquei vermelha ao perceber que era única que não estava sentada e rapidamente me juntei aos outros.
— Desculpe — murmurei.
— A Parede da Verdade é um lugar muito inspirador — Sheridan disse. — Achou alguma coisa que tocou sua alma?
Pensei com cuidado antes de responder e concluí que a verdade não me faria mal nesse caso. Poderia até ajudar, já que Sheridan estava sempre tentando me fazer falar.
— Só fiquei surpresa — eu disse. — Encontrei o nome de uma pessoa que conhecia... uma pessoa que esteve aqui antes de mim.
— Essa pessoa ajudou a te corromper? — Lacey perguntou com uma curiosidade inocente.
Foi uma das primeiras vezes que alguém demonstrava um interesse pessoal em mim.
— Não exatamente — eu disse. — Na verdade, fui eu quem o denunciou e o mandou pra cá. — Todos pareceram interessados, então continuei. — Ele estava trabalhando com um Moroi, um Moroi velho e caduco, e tirando sangue dele. Dizia ao Moroi que o sangue estava sendo usado para realizar curas, mas na verdade o vendia para um tatuador local, que por sua vez usava o sangue pra fazer tatuagens anabolizantes que eram vendidas a alunos humanos do ensino médio. O sangue na tinta fazia com que eles ficassem melhores em tudo, principalmente em esportes, mas tinha efeitos colaterais perigosos.
— Seu amigo sabia disso? — Hope perguntou, curiosa. — Que ele estava fazendo mal a humanos?
— Ele não era meu amigo — eu disse rápido. — Mesmo antes disso tudo. E sim, sabia. Mas não estava nem aí. Só estava interessado em ganhar dinheiro.
Os outros detentos estavam hipnotizados, talvez porque nunca tivessem me ouvido falar tanto, ou talvez porque nunca tivessem ouvido um escândalo como esse.
— Aposto que o Moroi sabia — Stuart disse, em um tom sombrio. — Aposto que sabia pra que as tatuagens estavam sendo usadas e como eram perigosas. Ele devia estar só se fazendo de senil.
A antiga Sydney — a Sydney em seu primeiro dia ali — teria logo defendido Clarence e sua inocência no esquema de Keith. Esta Sydney, que tinha visto detentos serem punidos por muito menos e sofrido duas purgações naquela semana, aprendera a lição.
— Não era minha obrigação julgar o comportamento dos Moroi — eu disse. — Eles fazem o que a natureza deles manda. Mas nenhum humano tinha o direito de arriscar a vida de outros humanos como meu parceiro estava fazendo. Foi por isso que o denunciei.
Para minha surpresa, todos responderam com acenos e até Sheridan me olhou com aprovação. Então, ela disse:
— Foi um pensamento muito sábio, Sydney. No entanto, alguma coisa deve ter dado errado pra você não ter aprendido nenhuma lição com esse incidente e vir parar aqui.
Todos os olhos se voltaram para mim e, por um momento, não consegui respirar. Eu tinha falado sobre Adrian algumas vezes com Duncan, mas a hora da comunhão era outra história. Duncan não julgava meu romance. Como eu poderia falar de algo tão valioso e intenso na frente de pessoas que insultariam nossa história e a fariam parecer algum tipo de obscenidade? O que eu tinha com Adrian era bonito. Não queria pôr na roda para que eles nos condenassem.
Mas como não dizer nada? Se não desse nada a eles, se não entrasse nesses joguinhos... quanto tempo poderia ficar presa? Um ano, ou mais, como Duncan? Tinha prometido a mim mesma, naquela cela escura, que diria qualquer coisa para sair dali. Precisava ser fiel a essa promessa. Mentiras contadas ali não teriam importância se me levassem de volta para Adrian.
— Baixei a guarda — disse simplesmente. — Minha missão me fazia trabalhar perto de muitos Moroi e parei de pensar neles como as criaturas que são. Acho que, depois do que meu parceiro fez, os limites entre o bem e o mal ficaram confusos pra mim.
Estava preparada para que Sheridan começasse a me interrogar em busca de detalhes do que havia acontecido, mas foi outra menina, chamada Amelia, quem ergueu a voz com algo completamente inesperado:
— Faz sentido — ela disse. — Tipo, eu não teria chegado aos, hum, extremos a que você chegou, mas, quando a gente fica perto de um humano corrompido, isso pode nos levar a perder a fé na humanidade e cometer o erro de recorrer aos Moroi.
Outro rapaz com quem eu quase nunca tinha conversado, Devin, concordou com a cabeça.
— Alguns deles até parecem simpáticos.
Sheridan franziu um pouco a testa e pensei que aqueles dois poderiam se meter em encrenca pelos comentários quase favoráveis aos Moroi. Mas, aparentemente, ela decidiu relevar graças ao progresso que eu tinha feito naquele dia.
— É muito fácil se confundir, ainda mais quando se está sozinho numa missão e as coisas tomam rumos inesperados. O importante é lembrar que temos toda uma infraestrutura pra ajudar vocês. Se tiverem alguma dúvida sobre o que é certo ou errado, não recorram aos Moroi. Recorram a nós e vamos dizer o que é certo.
Porque Deus nos livre de pensar por conta própria, refleti, cheia de ódio. Fui poupada de outros questionamentos quando Sheridan voltou a atenção aos demais, para ouvir que tipo de iluminação eles tinham recebido naquele dia. Não só tinha escapado daquela como, pelo jeito, tinha ganhado alguns pontos com Sheridan e, como vi na hora do jantar, com alguns outros detentos.
Quando peguei a bandeja das mãos de Baxter e comecei a andar em direção a uma mesa vazia, Amelia me chamou para a dela com um curto aceno de cabeça. Sentei ao seu lado e, embora não tenham conversado comigo durante o jantar, ninguém me mandou sair nem brigou comigo. Comi sem dizer uma palavra, prestando atenção em tudo que diziam. A maior parte da conversa era igual ao que eu ouvia no refeitório de Amberwood: comentários sobre o dia letivo ou colegas de quarto que roncavam. Mas aquilo revelou um pouco mais sobre as personalidades deles e voltei a refletir sobre quem poderia ser um aliado.
Duncan estava sentado com os outros em outra mesa, mas, ao passar por mim enquanto saíamos do refeitório, murmurou:
— Viu? Falei que você estava fazendo progresso. Agora não vai estragar tudo, hein?
Quase abri um sorriso, mas, naquele dia, tinha aprendido a não ficar confortável demais. Por isso, mantive o que esperava ser uma expressão solene e diligente enquanto íamos até a biblioteca para escolher nossa opção de leitura tediosa da noite. Parei na seção de história, torcendo para encontrar alguma coisa um pouco mais interessante do que o que tinha pegado nas últimas vezes. Livros de história alquimistas também eram cheios de lições de moral e exemplos de bons comportamentos, mas pelo menos não eram voltados diretamente ao leitor, como na maior parte dos livros de autoajuda. Estava em dúvida entre alguns relatos medievais quando uma pessoa se ajoelhou ao meu lado.
— Por que você perguntou sobre o gás? — uma voz baixa murmurou. Levei um susto. Era Emma.
— Não sei do que está falando — eu disse, com calma. — Está se referindo à aula de artes? Duncan e eu estávamos falando sobre samambaias.
— Uhum. — Ela pegou um livro de diários da Renascença e começou a folhear as páginas. — Não vou dizer uma palavra pra você no nosso quarto. Está sob vigilância. Mas, se quiser minha ajuda agora, tem mais ou menos sessenta segundos.
— Por que você me ajudaria? — perguntei. — Supondo que eu queira ajuda? Está tentando armar pra cima de mim pra melhorar sua imagem?
Ela bufou.
— Se quisesse “armar pra cima de você”, teria feito isso há séculos no nosso quarto, que é filmado. Quarenta e cinco segundos. Por que perguntou sobre o gás?
A ansiedade tomou conta de mim enquanto eu pensava sobre o que fazer. Nas minhas avaliações sobre quem poderia ser um aliado, eu nunca nem tinha considerado Emma. No entanto, ali estava ela, oferecendo o mais próximo de um convite à rebelião do que ninguém, incluindo meu amigo Duncan, tinha oferecido. Isso tornava ainda mais provável que ela estivesse tramando alguma coisa, mas eu simplesmente não podia resistir a uma oportunidade dessas.
— O gás nos mantém aqui tanto quanto os guardas e as paredes — eu disse, finalmente. — Só queria entender. — Com sorte, não seria incriminador demais.
Emma devolveu o livro e escolheu outro diário, esse com decorações elegantes.
— Os controles ficam numa sala no andar da purgação. Cada quarto tem um duto pequeno que se alimenta desse sistema. Fica logo atrás do painel de ventilação, no teto.
— Como você sabe? — perguntei.
— Vi alguns homens da manutenção mexendo num quarto vazio uma vez.
— Então seria mais fácil bloquear quarto a quarto do que a sala de controle — murmurei.
Ela balançou a cabeça.
— Não, porque o duto fica no campo de visão das câmeras de segurança. Os guardas te pegariam antes que arrancasse o painel. E pra isso você precisaria de uma chave de fenda.
Ela começou a pôr o livro de volta e eu o tirei da mão dela. Tintas de cores brilhantes decoravam a capa, e o canto de cada abertura de capítulo era envolto por um pedaço liso de metal. Passei os dedos sobre um deles.
— Uma chave de fenda de ponta chata? — perguntei, medindo a grossura do canto de metal.
Se conseguisse tirar aquilo, viraria uma ferramenta razoável pra desenroscar um parafuso.
O rosto de Emma se iluminou num sorriso lento.
— Sim! Você ganha pontos pela criatividade, tenho que admitir. — Ela me examinou por mais alguns momentos. — Por que quer bloquear o gás? Parece que temos problemas bem maiores aqui. Como estarmos presas aqui dentro.
— Antes me diga uma coisa — falei, ainda sem saber se Emma fazia parte de alguma operação que me deixaria numa situação ainda pior. — Você é praticamente a garota propaganda do comportamento alquimista ideal. Como veio parar aqui?
Ela hesitou antes de responder.
— Mandei embora alguns guardiões que tinham sido enviados pra ajudar meu grupo alquimista em Kiev. Havia alguns Moroi que achei que precisavam de mais proteção do que eu.
— É, isso deve ter irritado os poderes superiores — admiti. — Mas acho que existem coisas piores, ainda mais considerando como você tem agido bem. Por que ainda está aqui?
O sorriso convencido dela deu lugar a uma expressão melancólica.
— Porque minha irmã não está. Ela passou por tudo isso também, foi liberada e depois ficou ainda mais rebelde do que antes. Ninguém sabe onde ela está e, agora, por melhor que eu me comporte, eles estão tomando cuidado pra não cometer o mesmo erro me libertando cedo demais. Sangue ruim na família, acho.
Era uma boa explicação. E ela parecia sincera, mas também era uma alquimista e nós éramos bons em mentir. Outra dúvida surgiu na minha cabeça quando voltei o olhar para o outro lado da sala, onde Duncan e alguns outros detentos folheavam livros na seção de sociologia.
— Por que Duncan está aqui há tanto tempo? Ele parece ter bom comportamento. Sangue ruim na família também?
Emma seguiu meu olhar.
— Meu palpite? Comportamento bom demais.
— Existe isso? — perguntei, surpresa.
Ela encolheu os ombros.
— Ele é tão bonzinho que acho que eles têm medo de que não consiga resistir à influência dos vampiros, mesmo se quiser. Por isso, não querem libertá-lo tão cedo. Mas também não querem que ele tenha firmeza demais porque isso meio que vai contra o procedimento operacional aqui. Acho que ele quer ser mais corajoso... mas tem alguma coisa o impedindo. Quer dizer, além das coisas que impedem todo mundo.
Chantal, pensei. Era isso que o impedia. Ele tivera coragem para se tornar meu amigo, mas as palavras de Emma explicavam por que tomava tanto cuidado até nesse aspecto. Perder Chantal tinha deixado uma marca nele e o tornado covarde demais para tentar qualquer coisa.
Torcendo para não estar cometendo um erro terrível, respirei fundo e virei para Emma.
— Se o gás estiver desligado, posso mandar uma mensagem para uma pessoa de fora. É tudo que posso te contar.
Ela ergueu as sobrancelhas ao ouvir isso.
— Hoje? Tem certeza?
— Absoluta — eu disse. Adrian estaria me procurando nos sonhos. Ele só precisava me encontrar num momento de sono natural.
— Espere um minuto — Emma disse depois de pensar mais um pouco.
Ela levantou e atravessou a sala até onde Amelia estava folheando um livro. Elas conversaram até tocar o sinal que sinalizava a hora de voltar para os quartos. Então Emma voltou correndo até mim.
— Leve este livro — ela disse, apontando para o diário ornamentado. — Não vou mais falar com você depois que a gente sair por aquela porta. Volte pro quarto, conte até sessenta e depois faça o que precisa fazer com a entrada de ar.
— Mas a câmera...
— Você está sozinha agora — ela disse e saiu andando sem dizer mais uma palavra.
Fiquei olhando pasma por alguns momentos e depois saí correndo atrás dos outros que estavam retirando os livros com a bibliotecária. Na fila, tentei parecer natural e não demonstrar que meu coração estava prestes a sair pela boca. Emma estava falando sério? Ou aquilo tudo não passava de uma grande armação? O que ela poderia ter conseguido numa só conversa que, de repente, permitiria que eu mexesse no sistema de ventilação? Porque, quando voltei para o quarto, pude ver que a pequena câmera preta que nos vigiava estava apontada bem na direção do painel. Quem quer que o abrisse seria visto imediatamente.
Tinha de ser uma armação, mas a linguagem corporal de Emma deixou claro que ela não voltaria a interagir comigo enquanto nos preparávamos para dormir. Contei em silêncio e soube que ela devia ter contado também porque, quando cheguei a sessenta, ela me lançou um olhar penetrante e significativo.
Existem maneiras mais fáceis de armar para mim, pensei. Maneiras mais fáceis com consequências piores.
Engolindo em seco, empurrei minha cama para perto da parede e fiquei de pé em cima dela para alcançar o painel de ventilação. Eu já tinha tirado o canto metálico da página do livro e minha avaliação estava correta. Ela funcionava certinho como uma chave de fenda de ponta chata. Claro, não era tão ergonômica quanto uma ferramenta de verdade, mas, depois de tentar algumas vezes, finalmente consegui afrouxar os quatro parafusos o suficiente para arrancar o painel. Minhas mãos trêmulas não estavam acelerando o processo, e eu não fazia ideia de quanto tempo teria para isso... nem se Emma me avisaria quando meu tempo estivesse acabando.
Do lado de dentro, encontrei um poço de ventilação comum. Era pequeno demais para uma pessoa entrar, de modo que não haveria nenhuma fuga cinematográfica por aquele caminho. Como ela dissera, um pequeno duto estava ligado ao poço, com uma abertura logo atrás das grades do painel para disseminar os gases depois que as luzes tivessem sido apagadas. Agora eu precisava bloquear o duto. Levei a mão à cama, onde tinha deixado uma meia velha que pegara do cesto de roupa suja do nosso quarto. Não duvidava que os alquimistas fizessem um inventário das nossas roupas regularmente, mas também sabia que, quando buscavam os cestos, as roupas eram jogadas imediatamente num cesto maior. Assim, se notassem uma meia faltando, não saberiam de que quarto tinha vindo. E sem dúvida até secadoras alquimistas comiam meias de vez em quando.
Enfiei a meia no duto o melhor que pude, torcendo para que fosse o bastante para impedir que a maior parte do gás passasse. Atrás de mim, ouvi Emma murmurar baixinho:
— Rápido.
Com as mãos escorregadias de suor, recoloquei o painel e quase esqueci de pôr a cama de volta no lugar antes de me enfiar nela com meu livro. Todo o trabalho tinha durado menos de cinco minutos, mas será que tinha sido rápido o suficiente?
Emma estava com os olhos fixos em seu livro e em nenhum momento olhou para mim, mas pude ver a sombra de um sorriso em seus lábios. Seria de triunfo por me ajudar a atingir meu objetivo? Ou de satisfação por eu ter cometido uma insubordinação grave enquanto era filmada?
Se me viram, ninguém veio atrás de mim naquela noite. Nossa hora de leitura passou, e não demorou para que as luzes se apagassem e a porta se trancasse automaticamente com um clique. Me aconcheguei na cama desconfortável e fiquei à espera de outra coisa que tinha virado rotina nessa última semana: o sono artificial trazido pelo gás. Não veio.
Não veio.
Eu mal podia acreditar. A gente tinha conseguido! Eu havia impedido que o gás entrasse no quarto. O irônico era que uma ajuda para dormir teria sido bem-vinda, porque eu estava tão ansiosa para falar com Adrian que não conseguia cair no sono. Parecia véspera de Natal.
Fiquei deitada no escuro por umas duas horas até a exaustão natural me vencer e me pôr para dormir. Meu corpo andava num estado contínuo de fadiga, tanto pelo estresse mental como pelo fato de que o sono naquele lugar não era adequado. Dormi profundamente até o sinal de despertar, e foi então que me dei conta da terrível verdade.
Eu não havia tido sonho nenhum. Adrian não tinha vindo.

4 comentários:

  1. Adrian!!! Cadê você criatura???

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Ta bebendo horrores igual um idiota junto com a charlotte...
      Aaaaaaah, que infernoooooooooooooooooooo.

      Excluir
  2. Que caquinha...puts...quando menos da certo o burro enche a cara vo mata ele matadinho...

    ResponderExcluir
  3. Tava enchendo a cara com certeza...pobre coitado...

    ResponderExcluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)