19 de outubro de 2017

Capítulo 7

Adrian

EU ESTAVA TRABALHANDO naquele maldito autorretrato de novo.
Pensava em descartar minha última tentativa, não por um pessimismo causado pelo espírito, mas porque o quadro não era bom mesmo. Quer dizer, era razoável e eu poderia inventar uma história sobre simbolismo para minha professora. Ela acreditaria e eu poderia ganhar uma nota decente. Mas eu sabia a verdade. Simplesmente não era bom.
Eu estava um tanto irritado, sobretudo porque não tinha dormido bem. Tinha virado de um lado para o outro, sem conseguir descansar de verdade. As coisas eram ainda piores porque Sydney não passaria em casa naquele dia. Ela havia decidido ficar na escola para fazer alguma coisa com Zoe depois da aula. Eu entendia a lógica de manter a mini-Sage calma, mas nem por isso deixava de sofrer de saudade. Pelo menos, nos veríamos no jantar de sexta na mansão de Clarence, mas nunca era a mesma coisa com os outros por perto.
O celular tocou, me tirando do meu momento sentimental. Procurei o aparelho loucamente até descobrir que ele tinha ido parar entre as almofadas do sofá, e consegui atender pouco antes de a caixa postal pegar a ligação. Foi uma total surpresa ver quem era.
— Vossa Majestade — eu disse, com reverência.
— Oi, Adrian. — Pude perceber que ela já estava sorrindo. — Como está?
— Ah, você sabe. A vida glamorosa do sul da Califórnia. Palmeiras e estrelas de cinema. — Era fácil assumir a máscara petulante, escondendo o que eu realmente sentia. Lissa não teria se deixado enganar pessoalmente, mas, por telefone, eu estava protegido.
— Bom, espero que consiga se afastar um pouco dessa vida… porque tenho uma missão pra você.
— Missão? — As palavras dela e sua mudança de tom me alertaram de que alguma coisa grande estava acontecendo.
— Houve outra restauração de Strigoi.
As surpresas não paravam de chegar.
— Quem foi? E quem fez? Você?
— Não, foi outra usuária de espírito. Uma que não conhecíamos. O nome dela é Charlotte Sinclair, e ela acabou de restaurar a irmã. Olive.
— Charlotte. Olive. Certo. Que mais?
Até eu sabia da seriedade daquilo. A única coisa que chegava perto de ser tão incrível quanto trazer os mortos de volta à vida com o espírito era restaurar os que haviam sido transformados em Strigoi. Era extremamente difícil porque não era só uma questão de usar muito espírito. Primeiro era preciso dominar o Strigoi. Depois, o usuário de espírito precisava cravar à estaca no Strigoi enquanto realizava a magia. Só tínhamos conhecimento direto de três pessoas com quem isso havia acontecido. Também não conhecíamos muitos usuários de espírito, então a descoberta de mais uma era uma grande notícia.
— Preciso que você largue tudo e vá até elas — Lissa disse. Não era exatamente a voz que ela usava na sala do trono, mas seu tom definitivamente não deixava espaço para discussão. — Precisamos descobrir se dá pra notar alguma diferença em alguém que acabou de ser salvo que possa nos ajudar a entender por que eles não podem ser transformados de novo. Sonya está na Europa e não posso abandonar a corte. Você é o único usuário de espírito que pode ir e investigar agora.
Foi então que entendi a importância daquilo. Os Strigoi eram criados por dois métodos. O primeiro era quando um Strigoi drenava a vítima e depois dava o próprio sangue para ela. Mas os Moroi também podiam se transformar por livre e espontânea vontade se drenassem um fornecedor. Recentemente, havíamos descoberto que Strigoi que tinham sido restaurados não podiam se transformar outra vez. Ninguém sabia exatamente se era uma característica específica deles ou se havia uma maneira de usar o espírito para espalhar essa capacidade para outras pessoas. Não podíamos evitar que um Strigoi matasse por outros meios, mas, se houvesse uma forma de criar uma proteção mágica que impedisse as pessoas de entrar naquele estado de mortos-vivos, seria revolucionário. Sonya e eu trabalhamos por quase dois meses, fazendo toda espécie de testes e exames para ver se conseguíamos manipular o espírito até chegar no que havia sido alterado nos restaurados. Não tivemos sorte.
— Largar tudo, hein? — Não pude deixar de sentir certo rancor. Ainda que ela soubesse que eu estava na faculdade, pelo jeito esperava que eu deixasse tudo de lado a qualquer momento.
Ela suspirou.
— Sei que você tem sua vida. Não pediria se não fosse tão importante. Ela foi restaurada faz pouco tempo… muito pouco tempo. Menos de vinte e quatro horas. Se houver algum sinal do que exatamente aconteceu no processo, não podemos desperdiçar um segundo. Podemos colocar você num voo para Dallas daqui a algumas horas. Rose e Dimitri já estão a caminho.
— Sério? — Àquela altura, nada deveria me surpreender. Passar o fim de semana com minha ex e seu guerreiro russo era provavelmente só o começo da palhaçada. — Bom, pelo menos ele vai poder usar roupas de cowboy.
Pude ouvir um riso baixinho.
— Você sabe por que ele precisa ir.
Eu sabia. Dimitri Belikov era um dos três sortudos — quer dizer, quatro agora — que haviam sido restaurados. Ele não tinha o poder de ver o espírito, mas havia passado pela experiência de “acordar” de repente e descobrir que vinha sendo um monstro sedento por sangue. Eu conseguia imaginar como isso deveria ser devastador. Uns conselhos de alguém que havia passado pela mesma coisa seriam úteis, para dizer o mínimo.
— Entendo. É claro que vou, Vossa Majestade.
— Não me chame assim. E não diga que está fazendo isso só porque é meu súdito. Quero que aceite por amizade… e porque é a coisa certa a fazer. — Havia um tom triste na voz dela. Devia ser difícil, pensei, quando as pessoas viam você mais como rainha do que como uma pessoa de verdade.
Minha resposta foi sincera.
— Estou fazendo isso por todos esses motivos, prima.
— Faz tempo que você não me chama assim — ela disse, com carinho. Não éramos primos de verdade, mas era um termo carinhoso que as famílias reais usavam entre si.
— Faz tempo que não vejo você.
— Pois é. — A voz dela ficou mais saudosa e pensei que a vida deveria ser difícil para uma rainha polêmica de dezoito anos com o peso de uma nação nas costas. — Não tivemos muito tempo no casamento. Como está, Adrian? Estou falando sério, está tudo bem? Com Jill… e tudo mais…
— Sabe como é. — Sem petulância. — Alguns dias são mais fáceis do que outros. E você?
Houve um longo silêncio.
— Também. Não sabia o quanto Rose me ajudava até perder nosso laço. Ela estava carregando tanta escuridão. Agora está tudo em cima de mim. O que é melhor — ela acrescentou rápido. — Mas mesmo assim é difícil.
— Eu sei. — Entendia perfeitamente o peso do espírito e mal conseguia imaginar como isso deveria agravar o estresse dela. — Pelo menos Jill e eu não chegamos a esse ponto. Ela está segura.
— Por enquanto — Lissa disse. — Demorou um tempo até a escuridão começar a passar para Rose. Se vocês conseguirem bloquear um ao outro, vai ajudar muito.
E como, pensei.
— É, estamos trabalhando nisso. Até agora nada.
Tivemos outro momento de silêncio, mas foi um silêncio agradável. Mesmo pelo telefone, havia um carinho e uma cumplicidade entre nós por causa do espírito que mais ninguém, exceto Sonya e essa tal de Charlotte, era capaz de entender. O preço do espírito era alto.
— Rainha ou não, vou estar sempre aqui — Lissa disse, com ternura. — Se algum dia precisar conversar sobre alguma coisa, vou entender.
De novo achei bom estarmos ao telefone porque tinha quase certeza de que não conseguiria esconder toda a perturbação sentimental e o conflito por causa de Sydney. E, por mais que Lissa falasse aquilo de coração, eu sinceramente duvidava que ela fosse entender esse assunto em específico.
— Eu também, prima — eu disse, o mais galante possível. — Me fale a hora e o lugar que vou pra lá imediatamente.
— Vamos mandar as informações do voo para… Ah. Já ia esquecendo. Você precisa levar um dos dampiros com você.
— Você tem milhas para um acompanhante grátis ou coisa assim?
— Não — ela respondeu, rindo. — É só mais seguro. Se Charlotte tiver alguma ligação com outros Strigoi… Bom, nunca se sabe se eles podem aparecer para farejar informações. É mais por precaução. Mas você pode escolher qual levar.
Nem havia o que decidir. Eu estava prestes a dizer Eddie, quando tive uma ideia súbita.
— Neil.
— Neil? — Lissa pareceu surpresa, mas não questionou. — Está bem. Vamos tomar as providências.
Tirar o sr. Palácio de Buckingham de Palm Springs por alguns dias poderia fazer com que Jill — e talvez até Angeline — pensassem melhor sobre aquela história com ele. Claro, Jill ficaria com raiva, mas me agradeceria depois, quando percebesse que precisava parar de usar Neil como distração e simplesmente dar um jeito na situação com Eddie.
Assim que desliguei, mandei uma mensagem para Sydney no Celular do Amor: Pode falar agora?
As aulas ainda não tinham terminado, então havia uma chance de ela estar livre de Zoe. Dito e feito: o celular tocou um minuto depois.
— Que foi? — ela perguntou, sem disfarçar a preocupação. — Você está bem?
— Tirando o fato de que o mundo é um lugar frio e solitário sem você, sim, estou bem. Mas vou fazer uma viagem inesperada. — Dei um resumo rápido da história de Charlotte e Olive.
— Puxa — ela disse quando terminei. — Pra onde você vai?
— Adivinha. “À noite as estrelas brilham no céu…”
Ela ficou em silêncio.
— Não conhece essa música? — perguntei.
— Não.
— Vou pro Texas. Dallas. Tentarei encontrar uma fantasia de cowgirl pra você. Saia de couro, camisa curta…
— Só preciso de você de volta — ela disse. Mas parecia estar rindo. O limite entre exasperação e adoração era muito tênue entre nós às vezes. — Quando você vai?
— Pelo que Lissa disse, daqui a algumas horas, então acho que preciso ir para o aeroporto em breve. Ela ainda vai me enviar as informações e mandar alguém avisar Neil. — Eu tinha certeza que ele não mereceria uma ligação pessoal da realeza. Ao contrário de certas pessoas.
— Bom, então tome cuidado… Mas, poxa, que oportunidade! — Senti que ela estava entrando no modo intelectual. Quer dizer, sempre estava nesse modo, mas em alguns momentos era mais forte do que em outros. — Eu tinha quase desistido de encontrar uma maneira de impedir a transformação.
— Não é certeza — eu lembrei. — Talvez não tenha nada pra ser descoberto. Ou talvez eu não consiga encontrar. — Comecei a me tocar da gravidade do que estava sendo colocado nas minhas costas.
Aquele mistério havia consumido as mentes mais brilhantes nos últimos meses. Agora, tínhamos uma pista gigantesca… e cabia a mim examiná-la? Quem era eu para descobrir os segredos do espírito? Sonya era muito mais adequada para aquele trabalho.
— Se der pra descobrir, você consegue — Sydney disse, adivinhando minha insegurança. — Acredito em você.
— Você diz isso porque namora comigo.
— Digo isso porque é verdade.
Mais tarde, enquanto arrumava a mochila, quase desejei que Sydney não tivesse ligado. Falar com ela só tornava nossa separação mais amarga. Nunca, nem quando eu era obcecado por Rose, achei que poderia ficar tão apaixonado por uma garota. Alguns dias longe bastavam para que eu entrasse em desespero. Era irônico porque houve meninas no passado de quem eu até queria ficar longe por alguns dias. Tá, muitos dias. Tudo parecia muito louco, mas, enfim, eu era louco por Sydney.
Lissa mandou as informações da viagem e peguei um táxi para o aeroporto. Sydney me mataria se eu tivesse deixado o Ivashmóvel no estacionamento. Eu tinha que encontrar Neil no balcão da companhia aérea e o avistei imediatamente com sua altura e postura rígida. E, para minha surpresa, uma figura loira mais baixa estava ao lado dele. Sydney se virou quando cheguei, com uma expressão fria de alquimista no rosto.
— Ora, a Sage mais velha — eu disse, torcendo para não demonstrar que estava louco para jogá-la na parede e dar um beijo nela. — Arrastaram você pra essa aventura doida também?
— Sydney fez a gentileza de me dar uma carona — Neil disse, sem suspeitar de nada.
— Que gentil da sua parte — concordei, tentando parecer o mais condescendente possível. — Achei que você e sua irmã estariam fazendo gráficos coloridos ultrassecretos. Ou seja lá o que vocês fazem no seu tempo livre.
Sydney cruzou os braços e fingiu uma expressão séria.
— Remarcamos para eu poder me certificar de que vocês pegariam o voo. Precisava ver com meus próprios olhos se você ia aparecer. É um assunto sério, sabia?
Encolhi os ombros.
— Se você diz…
Ela conseguiu parecer uma perfeita alquimista irritada. Mais do que nunca, quis dar um beijo nela.
— Não temos tempo para discutir — Neil disse. — E é um assunto sério. — Ele se virou para o monitor e, nesse breve instante, Sydney me olhou nos olhos. A sombra de um sorriso perpassou seus lábios, desaparecendo assim que Neil se voltou para nós outra vez. — É hora de ir. Precisamos fazer o check-in.
Ela fez que sim, com o mesmo ar profissional.
— Boa viagem e boa sorte.
— Nós fazemos nossa própria sorte, Sage.
Isso quase a fez trair a atuação. Era uma velha piada entre nós e foi bom que Neil estava distraído demais para notar quaisquer indícios ou linguagem corporal. Estávamos a uma distância segura um do outro, mas eu tinha plena consciência de cada centímetro que nos separava e cada detalhe do corpo dela.
Para qualquer outra pessoa, devia ser completamente óbvio que faltava pouco para arrancarmos as roupas um do outro.
Ela nos deu tchau e saiu sem olhar para trás, mas, enquanto eu entrava na fila do check-in, recebi uma mensagem no celular: Te amo.
Como estava em cima da hora, precisamos voar de terceira classe. Ficar longe da tentação das bebidas gratuitas era bom, já que eu precisaria manter a cabeça fria para me sintonizar com o espírito. Felizmente, Neil era uma companhia silenciosa e tentei me distrair lendo O grande Gatsby. Sydney havia ficado horrorizada quando descobriu que minha biblioteca consistia em um dicionário de drinques e uma edição antiga da Esquire e, com a insistência dela, eu prometera ler alguma coisa mais substancial.
Estava tentando ter pensamentos profundos enquanto lia Gatsby, mas, na maior parte do tempo, só ficava com vontade de dar festas iguais às do livro.
Charlotte e Olive estavam sendo mantidas em um abrigo secreto nas imediações de Dallas, onde havia poucos vizinhos para notar a estranha movimentação de guardiões patrulhando a área.
Estacionamos nosso carro alugado na entrada e, pela janela, reconheci uma silhueta familiar sentada na cadeira de balanço da varanda, com os pés apoiados no parapeito. Uma comichão de ansiedade perpassou meu peito.
— Aqui vamos nós — murmurei.
Rose se levantou quando chegamos. Por um momento, fui transportado para nosso primeiro encontro mais de um ano antes, também em uma varanda. Aquela estivera coberta de neve e ficava em um resort de esqui luxuoso. A beleza dela me fizera perder o fôlego na época e, mesmo agora, depois de tanto tempo, não fiquei impassível. Seu longo cabelo escuro caía sobre os ombros e havia uma chama em seus olhos castanhos tão perigosa quanto sedutora. A mesma combinação irradiava de seu corpo, mesmo naquela postura descontraída, de calça jeans.
No entanto, ainda que admirasse Rose, não senti aquela velha atração nem sofri com a visão dela.
Claro, sempre haveria uma dor pela maneira insensível como ela tinha acabado nosso breve relacionamento, mas meu coração não batia mais rápido em sua presença. Eu não sentia aquela tristeza de ver partir o amor da minha vida, nem ódio por ela. Na verdade, me peguei pensando em Sydney, sentada com as perninhas cruzadas enquanto estudava seus livros na minha cama, com a luz dourada do sol iluminando seu rosto quando levantava os olhos para mim com aquele sorriso de quem sabia das coisas.
— Vocês chegaram rápido — eu disse, a título de cumprimento. — Belikov mudou as leis do espaço-tempo pra reduzir o trajeto? Ele consegue fazer isso, né? — A corte real dos Moroi ficava na Pensilvânia, o que tornava a viagem deles muito mais longa do que a nossa.
Rose sorriu com a piada, embora eu pudesse notar que também estava desconfiada. Não sabia ao certo o que esperar de mim e tinha medo que eu pudesse fazer uma cena. Não tirava a razão dela. Devia ser por isso que estava me recebendo ali antes de me deixar entrar numa situação explosiva lá dentro.
— Hoje não precisou. Tivemos muita sorte e pegamos um voo assim que ficamos sabendo do caso. E chegamos faz mais ou menos uma hora só. — Ela apertou a mão de Neil. — Sou Rose.
— Neil — ele disse, fazendo uma reverência formal com a cabeça. — É uma honra conhecer você. Suas histórias heroicas com Dimitri Belikov são lendárias.
— Hum, valeu — ela disse. Era bom finalmente ver uma mulher imune àquele sotaque. Não que ela não tivesse um fraco por sotaques, mas preferia os do outro lado da Europa. — Dimitri está lá dentro, se quiser falar com ele.
Neil abriu um sorriso.
— Seria maravilhoso. — Ele me lançou um olhar inseguro e fiz sinal de que estava tudo bem.
— Vai lá. Vou ficar bem. Além disso, essa é a maneira não tão sutil de Rose dizer que quer conversar a sós comigo. Vai lá venerar seu herói, vai.
Não precisei dizer duas vezes. Ela ficou olhando para ele, rindo, e então se voltou para mim, um pouco mais séria.
— Também imaginei que você quisesse um cigarro. Deve ter sido difícil não fumar por… quanto tempo? Três horas? — ela ironizou.
— Três horas? Caramba, Rose. Faz seis semanas que não fumo.
O choque completo no rosto dela foi uma das melhores coisas que eu tinha visto naquele dia. Para ser sincero, a surpresa de Rose não era completamente injustificada. Eu supostamente tinha parado enquanto a gente namorava, mas tinha sofrido algumas recaídas e desistido por completo depois.
— Você… parou de fumar?
Enfiei as mãos no bolso do casaco e me recostei no parapeito.
— Não é bom pra saúde.
— Nossa… que ótimo. — Ela superou o espanto e, pelo visto, decidiu testar os limites da minha nova respeitabilidade. — E ouvi dizer que está na faculdade também.
— Pois é. Estudando arte. Acabei de terminar um trabalho examinando a evolução simbólica da era do australopiteco até a nossa era de obsessão superficial com a mídia. — As palavras saíram fáceis da minha boca e fiquei pensando quantos pontos eu teria ganhado com Sydney se ela estivesse ali.
— Nossa — Rose repetiu, arregalando os olhos.
Fiz que não era nada.
— Só uma coisinha que montei. Mas vamos nos concentrar no trabalho. O que vou encontrar lá dentro?
Ela se focou imediatamente.
— Mais ou menos o que vi em Lexington quando Robert Doru salvou Sonya. Uma usuária de espírito exausta e uma paciente confusa. Dimitri está conversando com Olive, o que parece ter ajudado, e tenho certeza que Charlotte vai se sentir melhor com você por perto.
Era um bom momento para mencionar como todas as mulheres adoravam me ter por perto, mas achei melhor conter meu senso de humor incrível até ver a situação com meus próprios olhos.
— Como vocês descobriram?
— Um guardião chamou a gente. Acho que Charlotte estava procurando a irmã fazia um bom tempo e usou um guardião amigo dela pra criar uma armadilha elaborada a fim de restaurá-la. — Rose assumiu uma expressão solidária. — Mas Charlotte não estava preparada para o impacto físico e mental que isso teve sobre elas. Foi aí que o guardião pediu ajuda. Tudo aconteceu faz menos de vinte e quatro horas.
— O que explica a urgência — murmurei. Todos realmente tinham agido rápido. — Bom, vamos ver o que consigo descobrir então. O espírito é imprevisível.
— Pois é, acredite em mim, sei do que está falando. Sinto falta do laço com Lissa, mas não de sentir o espírito na pele. — Ela inclinou a cabeça para me examinar. — Como vão as coisas com Jill?
Dei a mesma resposta que havia dado a Lissa.
— O mesmo de sempre. Os efeitos colaterais negativos não estão indo muito pra ela, mas ainda não aprendemos a criar barreiras. Então ela ainda está vivenciando as incríveis aventuras de Adrian Ivashkov.
— Tenho medo do significado de “incríveis” nesse caso. — Ela trocou o olhar desconfiado por um de puro horror. — Ai, meu Deus, Adrian! Você não está ficando com todas as Moroi do sul da Califórnia, está?
— Claro que não — respondi. — Sou muito mais seletivo.
Ela soltou um resmungo.
— Mesmo uma já é demais. Você deveria se envergonhar de expor Jill à sua vida sexual. Não consegue ficar sem suas noitadas baratas por um tempo? Pelo bem de Jill?
Parte de mim queria defender a grandeza da minha relação com Sydney. Outra parte sabia que, se o mundo achasse que eu tinha milhões de casos com meninas Moroi, ninguém nunca suspeitaria que eu era devotado a uma única garota humana.
Abri um sorriso petulante.
— Ei, preciso aproveitar a vida, não é?
Ela balançou a cabeça com desgosto e seguiu para a porta.
— Acho que algumas coisas nunca mudam.
Era uma casa antiga, mas bem conservada, e fiquei me perguntando onde tinham arranjado aquele lugar. Segundo Lissa, não era de nenhuma das irmãs e havia sido preparada pelos guardiões para servir de abrigo. Quando entramos na sala, uma menina Moroi mais ou menos da minha idade estava em pé à nossa espera. O cabelo dela era um emaranhado de cachos escuros e ela estava enrolada em um cobertor como se fosse uma capa.
A expressão de Rose se abrandou imediatamente.
— Charlotte, você deveria voltar pra cama.
A menina fez que não e olhou para nós com os olhos cinza arregalados.
— Quero saber o que está acontecendo. Por que tem gente nova aqui? O que vai acontecer com Olive? Vão fazer experimentos nela como se fosse um animal de laboratório? — A menina começou a tremer, com o rosto cheio de medo e fúria, e meu coração doeu por ela.
— Vai ficar tudo bem — eu disse, enviando uma onda de compulsão para acalmá-la. — Não precisa se preocupar.
Ela começou a relaxar, mas então, de repente, piscou e cravou os olhos em mim.
— Não tente isso comigo.
Exausta ou não, Charlotte Sinclair ainda era uma usuária de espírito. Ri e fiz um gesto apaziguador.
— Só estou tentando ajudar.
— Vai ficar tudo bem mesmo — Rose disse a ela. — Este é Adrian. Ele só precisa conversar com ela. Você pode vir junto se quiser.
Charlotte me lançou um olhar desconfiado, mas não disse nada enquanto nos seguia para o interior da casa. Chegamos a um quarto espaçoso com papel de parede descascado e uma cama acolchoada. Uma dampira estava sentada nela. Escondi minha surpresa. Ninguém havia mencionado isso e simplesmente supus que as duas irmãs eram Moroi. Embora tivessem o mesmo cabelo preto, os traços das duas eram completamente diferentes. A pele de Olive era marrom avermelhada, o que me fez suspeitar de uma ascendência indígena, e seus olhos eram grandes e escuros. Ela tinha a constituição mais atlética da maioria dos dampiros, ao contrário da silhueta alta e magra da irmã. Só o formato do rosto e os maxilares altos sugeriam um parentesco, provavelmente por parte de pai, já que os homens Moroi gostavam de pular a cerca com mulheres dampiras. Isso me deu um novo respeito por Charlotte, visto que meios-irmãos dampiros nem sempre eram reconhecidos. Charlotte havia arriscado a vida pela sua.
Além de Rose, Dimitri e Neil, havia três outros guardiões no quarto, criando um cenário quase cômico, considerando como Olive estava calma. Dimitri estava apontando exatamente isso para um dos guardiões que eu não conhecia:
— Não tem mais nenhum resquício de Strigoi nela, confie em mim. Vocês não precisam de tanta segurança. Ela está a salvo.
O outro guardião não pareceu tão confiante.
— Temos nossas ordens.
Frustrado, Dimitri passou a mão pelo cabelo, sabendo melhor do que ninguém que Strigoi restaurados não retinham nenhuma parte daquela condição de mortos-vivos. Tecnicamente, todos sabiam, mas algumas pessoas ainda tinham muito medo. Ao me ver, ele deixou a discussão de lado e abriu um sorriso sincero. Pouco antes, eu e ele havíamos passado bastante tempo juntos e, embora fosse difícil esquecer que Rose tinha me largado por ele, eu não podia deixar de respeitá-lo, ainda que de má vontade.
— Adrian — ele disse. — Que bom que conseguiu vir. Estamos torcendo para que agir rápido nos dê alguma informação que os experimentos não deram.
Ele continuou falando, mas minha atenção estava toda em Olive. Invoquei o espírito para observar a aura dela, que era um misto do que eu esperava ver em uma dampira com o que eu não esperava: as chamas douradas reluzentes de um usuário de espírito. Enquanto observava, aquele dourado já ia perdendo o brilho. Invoquei ainda mais espírito e ouvi Charlotte prender o fôlego. Ela poderia estar cansada demais para produzir muito espírito por conta própria, mas devia ser óbvio para ela o quanto eu estava usando. Voltei a me concentrar em Olive, tentando olhar mais profundamente, além de sua aura, até sua própria essência. Nunca havia feito isso antes e foi muito mais difícil do que eu imaginara.
Nem sabia se conseguiria alguma coisa. Estava só seguindo minha intuição.
Cerrei os dentes e me concentrei mais. Ali — era difícil de ver. Na verdade, era mais uma sensação que uma visão propriamente dita. Mas tudo em Olive estava infundido com aquele brilho dourado. Eu não conseguia enxergar em nível microscópico ou coisa assim, mas, de repente, tive certeza que todo o ser dela estava envolvido em espírito. E, assim como na aura, esse brilho estava desaparecendo a cada respiração. Ainda havia muito, mas, pensando no que eu via ali e no tempo que se passara desde que ela tinha sido salva, suspeitei que tudo se dissiparia dentro de poucas horas. Pisquei e o espírito que ardia dentro de mim desapareceu. Olive parecia normal novamente.
O quarto estava em silêncio. Tirei os olhos dela e me voltei para os outros. Todos estavam me encarando com expectativa. Engoli em seco e, por um momento, o nervosismo de antes cresceu dentro do meu peito. A magnitude do que eu enfrentava caiu com tudo em cima de mim. Estávamos à beira de uma das maiores descobertas da história de nossa raça e todos estavam esperando que eu a desvendasse.
Logo eu! O que tinham na cabeça? Eu não era um gênio como Sydney. Não passava de um moleque mimado que lutava diariamente contra a tentação do armário de bebidas e não conseguia terminar O grande Gatsby. Quem era eu para fazer aquilo?
Uma imagem de Sydney surgiu na minha mente, calma e graciosa. Acredito em você.
O nervosismo passou. Respirei fundo e enfrentei os olhares de todos que me observavam no quarto.
Quem era eu para fazer aquilo?
Eu era Adrian Ivashkov. E estava prestes a provar do que era capaz.
— Se querem ter alguma chance de aprender a salvar outras pessoas, precisam fazer exatamente o que eu mandar. E agora.

3 comentários:

  1. Nossa, tinha me esquecido como a Rose é petulante. Ela pode ter sido a heroína de Academia de Vampiros, mas como diria meu avô: explica mas não justifica, ela prejudicou muita gente como que ela fez...

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    1. Até que enfim alguém viu isso, quado eu era mais nova, eu gostava muito da Rose e tal, mas com o passar do tempo, para mim, ela só foi ficando insolente e irritante, apesar do vulgo "amadurecimento" dela...

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    2. Não acho que ela seja petulante, ela fala o que pensa e faz o melhor que pode, ela passou por muita coisa com toda a morte que viu e toda a escuridão que sugou, e afinal, ela pode ser uma super dampira, mas não pode salvar todo mundo.
      E ela só tratou o Adrian desse jeito porque é o que ele insiste em demonstrar(ele mesmo disse que preferia que as pessoas o vissem desse jeito pouco antes desse lapso de coragem), ela sempre soube disso, mas ela não tem que aceitar e ser boazinha com ele, principalmente depois de tudo o que ele disse pra ela depois do termino. E ele ainda se faz de vitima, tudo o que ela disse sobre não ser certa pra ele e não fazer bem pra ele se mostrou ser 100% verdade com o decorrer do relacionamento dele com a Sydney.

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Boa leitura :)