13 de outubro de 2017

Capítulo 7

EU PODIA ESTAR DETERMINADA a encontrar Marcus, mas definitivamente não ia argumentar contra uma arma.
Ergui as mãos e levantei devagar, de costas para a recém-chegada. Com o mesmo cuidado, saí de cima de Marcus e pus o frasco no chão. Ainda estava soltando gás, mas a reação logo se esgotaria. Então criei coragem para olhar para trás. Quando vi a garota que estava lá, mal pude acreditar em meus próprios olhos.
— Você está bem? — ela perguntou a Marcus. Ele estava se levantando cambaleante. — Saí assim que você ligou.
— É você! — Não consegui dizer nada mais articulado.
A garota à minha frente tinha mais ou menos a minha idade e longos cabelos loiros e desgrenhados. Ela ainda estava com a arma apontada para mim, mas entreabriu um sorriso.
— É um prazer vê-la de novo.
O sentimento não era mútuo. A última vez que tinha visto aquela menina fora na arena, durante o combate contra os Guerreiros da Luz. Ela também portara uma arma na ocasião e passara o tempo todo com uma careta no rosto. Havia me empurrado de um lado para o outro e me ameaçado, sem disfarçar que achava uma heresia eu defender Sonya. Embora parecesse mais calma agora do que quando estava com aqueles fanáticos, não conseguia ignorar quem ela era, ou as implicações disso. Olhei para Marcus, incrédula. Ele estava esfregando o pulso que eu tinha acotovelado.
— Você... você está com eles! Está do lado dos Guerreiros da Luz!
Acho que nunca fiquei tão decepcionada na vida. Eu tinha apostado todas as minhas fichas em Marcus. Ele havia se tornado um ser quase mítico na minha cabeça, um salvador rebelde que me contaria todos os segredos do mundo e me libertaria de ser mais uma engrenagem na máquina dos alquimistas. Mas era tudo mentira. Clarence mencionara que Marcus tinha convencido os guerreiros a deixá-lo em paz. Eu tinha pensado que Marcus tinha algum poder de barganha incrível contra os guerreiros, mas, pelo jeito, o segredo de sua influência era que ele fazia parte do grupo.
Ele levantou os olhos para mim.
— Quê? Aqueles malucos? Claro que não.
Quase levantei a mão para apontar para a menina, mas achei melhor não fazer nenhum movimento brusco. Preferi acenar com a cabeça na direção dela e notei que todas as fechaduras na porta haviam sido destravadas. Estivera tão concentrada na luta com Marcus que nem tinha ouvido.
— Sério? Então por que uma guerreira acabou de salvar você?
— Não sou uma guerreira. — A voz dela era quase descontraída, mas a arma contradizia seu tom. — Quer dizer, suponho que seja, mas...
— Sabrina é uma espiã — Marcus explicou. Ele parecia muito mais à vontade agora que eu não estava pulando em cima dele. — Uma bela espiã. Ela está disfarçada entre eles há mais de um ano. Foi ela quem me contou sobre você.
Mais uma vez, era difícil responder àquilo. Eu também não tinha certeza se acreditava naquela história de espiã.
— O que ela disse exatamente?
Ele me abriu um sorriso de estrela de cinema. Seus dentes eram tão brancos que fiquei me perguntando se tinha feito clareamento dental. Não combinava muito com a imagem de rebelde foragido, mas nada naquele dia estava acontecendo como eu esperava.
— Ela me contou sobre uma garota alquimista que defendeu uma Moroi e depois ajudou a liderar um grupo de dampiros invasores.
Liderar? Longe disso. Ninguém, muito menos Stanton, havia achado necessário me informar sobre a invasão até que eu estivesse no meio dela. Mas eu não queria revelar mais do que o necessário.
— Os alquimistas autorizaram a invasão — afirmei.
— Vi como você falou — Sabrina disse. Seu olhar passou de mim para Marcus, com intensidade para mim e admiração para ele. — Foi inspirador. E observamos você por um tempo, sabe. Você passou um longo período com os Moroi e dampiros em Palm Springs.
— É meu trabalho — eu disse. Ela não parecera muito inspirada na época. Parecera, sim, decepcionada por não poder disparar contra mim.
Marcus abriu um sorriso espertinho.
— Pelo que me contaram, você e aqueles Moroi pareciam quase amigos. E aqui está você agora, procurando por mim. Definitivamente é a dissidente que estávamos esperando.
Não, aquilo não estava saindo nem um pouco como o planejado. Na verdade, era quase o oposto dos meus planos. Tinha ficado tão orgulhosa da minha capacidade de rastrear Marcus, quando, na verdade, ele já estava de olho em mim. Não gostei nem um pouco disso. Fez com que me sentisse vulnerável, por mais que ele estivesse dizendo algumas das coisas que eu queria ouvir. Com a necessidade de me sentir no controle, tentei manter a calma e bancar a durona.
— Outros alquimistas podem estar prestes a aparecer — eu disse.
— Eles já estariam aqui a essa altura — ele respondeu, percebendo meu blefe. — Não mandariam você sozinha... apesar de eu ter entrado em pânico quando a vi. Não percebi quem era e achei que havia outros junto com você. — Ele fez uma pausa e seu ar petulante se transformou em constrangimento. — Desculpa por, hum, ter dado um soco em você. Se faz você se sentir melhor, você fez alguma coisa bem grave com meu pulso.
O rosto de Sabrina se encheu de preocupação.
— Ah, Marcus. Você precisa ir ao médico?
Ele tentou mover o pulso e fez que não com a cabeça.
— Você sabe que não posso. Nunca sabemos quem pode estar de olho num hospital. Esses lugares são muito fáceis de monitorar.
— Você realmente está se escondendo dos alquimistas — eu disse, admirada.
Ele fez que sim, parecendo quase orgulhoso.
— Estava duvidando? Imaginei que já soubesse dessa parte.
— Eu suspeitava, mas eles não me contaram. Disseram que você nem existia.
Ele pareceu achar graça naquilo. Na verdade, parecia achar graça em tudo, o que considerei um tanto irritante.
— Sei. Foi o que os outros disseram também.
— Que outros?
— Outros como você. — Aqueles olhos azuis se cravaram em mim por um momento, como se pudessem entrever todos os meus segredos. — Outros alquimistas que querem sair do rebanho.
Eu sabia que estava de olhos arregalados.
— Existem... existem outros?
Marcus se acomodou no chão, recostando-se à parede, ainda esfregando o pulso.
— Vamos sentar. Sabrina, guarde a arma. Não acho que Sydney vá nos dar problemas.
Sabrina não pareceu muito convencida, mas, depois de alguns segundos, obedeceu e sentou no chão, posicionando-se de maneira protetora perto dele.
— Prefiro ficar em pé — eu disse. De jeito nenhum sentaria naquela imundície. Depois de rolar no chão com Marcus, queria tomar um banho de antisséptico.
Ele deu de ombros.
— Como quiser. Você quer respostas? Vai ter que me dar algumas primeiro. Por que veio me procurar sem que os alquimistas soubessem?
Eu não gostava de ser interrogada, mas de que adiantava ficar ali e não entrar na conversa?
— Clarence me contou sobre você — respondi, finalmente. — Ele me mostrou sua foto e vi que você tinha tatuado por cima do lírio. Nem sabia que isso era possível. — A tatuagem nunca se apagava.
— Clarence Donahue? — Marcus pareceu sinceramente alegre. — Ele é um cara legal. Suponho que tenha ficado amiga dele em Palm Springs?
Eu ia dizer que não éramos amigos, mas então reconsiderei. O que mais seríamos?
— Conseguir isso não é fácil — Marcus continuou, apontando para a tatuagem azul. — Vai ter muito trabalho se quiser fazer também.
Dei um passo para trás.
— Calma aí. Nunca disse que queria isso. Por que eu faria uma coisa dessas?
— Porque vai libertar você — ele respondeu, simplesmente. — Ela evita que você discuta sobre vampiros, não é? Você não acha que isso é tudo que ela faz, acha? Pense bem. O que impede a tatuagem de exercer outras formas de controle?
Tive de abandonar todas as expectativas sobre aquela conversa, porque cada assunto era mais maluco que o anterior.
— Nunca ouvi nada sobre isso. E nunca senti nada assim. Ela só me impede de falar sobre os vampiros. No resto do tempo, sou eu quem está no controle.
Ele assentiu.
— Talvez. A primeira tatuagem normalmente só tem a compulsão de fala. Eles só começam a retocar com outros componentes se têm motivos para se preocupar com você. Às vezes as pessoas resistem contra os retoques e, nesse caso... bom, elas são mandadas para a reeducação.
As palavras dele me causaram um arrepio e coloquei a mão na bochecha, me lembrando do encontro que tivera ao receber a missão de Palm Springs.
— Fui retocada faz pouco tempo... mas foi coisa de rotina. — Rotina. Normal. Nada parecido com o que ele estava sugerindo.
— Talvez. — Ele inclinou a cabeça e me lançou um olhar penetrante. — Você fez alguma coisa errada antes disso, querida?
Como ajudar uma dampira fugitiva?
— Depende do que você entende por errado.
Os dois riram. A risada de Marcus era alta, descontraída e até contagiosa, mas a situação era grave demais para que eu me juntasse a eles.
— Eles devem ter reforçado sua lealdade ao grupo, então — ele disse, ainda rindo baixinho. — Mas ou não foi muito forte ou você lutou contra ela, senão não estaria aqui. — Ele olhou de esguelha para Sabrina. — O que você acha?
Sabrina me examinou com um olhar crítico. Eu ainda estava achando difícil acreditar no papel dela em tudo aquilo.
— Acho que ela seria um bom reforço. E, como ainda está lá dentro, pode ajudar com aquela... outra questão.
— Também acho — ele concordou.
Cruzei os braços. Não gostava que discutissem sobre mim como se eu não estivesse ali.
— Um bom reforço para quê?
— Para o nosso grupo — ele respondeu. Depois se virou para Sabrina. — Precisamos mesmo de um nome, sabia. — Ela bufou e ele se voltou para mim. — Somos uma mistura. Alguns são ex-guerreiros ou agentes duplos, como Sabrina. Outros são ex-alquimistas.
— E o que vocês fazem? — Fiz um gesto indicando o apartamento. — Isso aqui não parece exatamente uma base de operações altamente tecnológica para um grupo secreto.
— Olha só você. Bonita e divertida — ele disse, parecendo encantado. — Nós fazemos o que você faz... ou quer fazer. Gostamos dos Moroi. Queremos ajudá-los, mas seguindo nossos próprios termos. Em tese, os alquimistas também querem ajudá-los, mas todos sabemos que no fundo isso se baseia em medo e intolerância, sem mencionar num controle rígido de seus membros. Então trabalhamos em segredo, já que os alquimistas não gostam muito daqueles que se desgarram do rebanho. Não gostam especialmente de mim, e é por isso que venho parar em lugares como esse.
— Ficamos de olho nos guerreiros também — Sabrina disse. Ela fez uma careta. — Odeio ficar com aqueles lunáticos, tendo que fingir que concordo com eles. Eles dizem que só querem destruir os Strigoi, mas, bom, as coisas que já ouvi falarem dos Moroi também...
Uma das minhas lembranças mais perturbadoras da arena dos guerreiros me voltou à mente. Eu tinha ouvido um deles fazer um comentário misterioso sobre como, no futuro, também lidariam com os Moroi.
— Mas o que vocês realmente fazem? — Falar sobre rebeliões e operações secretas era uma coisa, mas fazer alguma mudança concreta era outra. Eu tinha visitado minha irmã Carly na faculdade uma vez e visto vários grupos de estudantes que queriam mudar o mundo. A maioria deles ficava sentada bebendo café, conversando muito e fazendo pouco.
Marcus e Sabrina se entreolharam.
— Não posso colocar você a par das nossas operações — ele disse. — Não até saber que está disposta a romper a tatuagem.
Romper a tatuagem. Havia algo sinistro e definitivo nessas palavras e, de repente, fiquei sem saber o que estava fazendo ali. Quem eram aquelas pessoas de verdade? Por que eu continuava falando com elas? Então, outro pensamento perturbador me passou pela cabeça: Será que estou duvidando deles por causa do controle da tatuagem? Será que ela está me deixando cética em relação a qualquer pessoa que questione os alquimistas? Será que Marcus está falando a verdade?
— Também não entendi essa parte — eu disse para os dois. — O que quer dizer “romper” a tatuagem? É só colocar tinta por cima?
Marcus se levantou.
— Cada coisa em seu tempo. Agora, precisamos dar o fora daqui. Mesmo que você tenha sido discreta, imagino que tenha usado recursos alquimistas para me encontrar, certo?
Hesitei. Ainda que eles estivessem sendo sinceros e tivessem boas intenções em relação aos Moroi, eu definitivamente não revelaria meu envolvimento com magia.
— Mais ou menos.
— Tenho certeza de que você é do bem, mas não podemos correr o risco. Esse lugar está comprometido. — Ele lançou um olhar nostálgico para a quitinete. Para ser sincera, achava que ele deveria me agradecer por lhe dar um motivo para ir embora.
Sabrina também se levantou, com o rosto mais severo.
— Vou garantir que o abrigo secundário esteja pronto.
— Você é um anjo, como sempre — ele disse.
— Ei, como sabia que eu estava chegando? — perguntei. — Você teve tempo de se esconder e mandar uma mensagem para ela. — O que eu realmente queria saber era como ele tinha me visto através do feitiço de invisibilidade. Eu sentira a magia me preencher. Tinha certeza de que havia lançado o feitiço corretamente, mas ele havia me descoberto. O feitiço não funcionava se alguém estivesse procurando você, então será que ele tinha olhado pela janela justo quando eu estava subindo pela saída de incêndio?
Pior coincidência impossível.
— Tony me avisou. — Marcus me abriu aquele sorriso deslumbrante. Acho que ele queria que eu sorrisse de volta. — Ele é um bom menino.
Tony? Foi então que entendi. O menino do estacionamento. Ele havia fingido me ajudar e então me denunciara. Devia ter falado com Marcus enquanto eu subia a escada de incêndio. Talvez Marcus só abrisse a porta com alguma batida secreta. Pelo menos eu tinha o conforto de saber que lançara o feitiço direito. Só não tinha funcionado porque Marcus fora avisado que uma garota estava atrás dele.
Ele começou a guardar seus poucos pertences numa mochila.
— Aliás, O apanhador no campo de centeio é um livro ótimo. — Ele deu uma piscadinha. — Talvez um dia desses possamos ter uma conversa sobre literatura.
Eu não estava interessada. Quando olhei para ele, vi que continuava esfregando o pulso. Eu não conseguia acreditar que havia causado um ferimento tão grave e me senti um pouco culpada, apesar de tudo o que havia acontecido.
— Você deveria cuidar disso — eu disse.
Sabrina concordou com a cabeça.
Ele suspirou.
— Não posso. Pelo menos não por métodos convencionais. Os alquimistas têm olhos em toda parte.
Métodos convencionais.
— Hum, posso ajudar você a se tratar por métodos não convencionais — eu disse.
— Você conhece algum médico discreto? — Sabrina perguntou, esperançosa.
— Não. Mas conheço um Moroi usuário de espírito.
Marcus ficou paralisado, e gostei um pouco de surpreendê-lo.
— Sério? Ouvimos falar deles, mas nunca conhecemos nenhum. Aquela mulher que eles tinham capturado... Sonya? Ela é uma, não é? Ela sumiu antes que pudéssemos descobrir mais.
Falar sobre Adrian me deixava nervosa, mas Sabrina já deveria saber da existência dele se estava me vigiando.
— Sim, é uma usuária, e existe outro em Palm Springs. Posso levar você até ele e pedir que cure seu machucado.
O rosto de Marcus se encheu de entusiasmo. Sabrina olhou para ele, horrorizada.
— Você não pode simplesmente sair com ela. — Era ciúme ou preocupação na voz dela?
— Por que não? — ele perguntou. — Ela está confiando em nós. Devemos o mesmo a ela. Além do mais, estou louco para conhecer um usuário de espírito. E o abrigo secreto não é longe de Palm Springs. Você faz os preparativos para que tudo esteja em ordem e me busca depois.
Sabrina não gostou nem um pouco da ideia. Talvez eu ainda não estivesse entendendo a dinâmica do grupo, mas estava claro que ela o via como líder e era obcessivamente protetora. Na verdade, suspeitei que os sentimentos dela não fossem apenas profissionais. Eles ficaram discutindo sobre a segurança dele ao sair comigo, e os escutei sem dizer uma palavra. Enquanto isso, fiquei me perguntando se eu estaria segura saindo com um cara desconhecido. Clarence confiava nele, tentei me tranquilizar. E ele é bem paranoico. Além disso, com o pulso de Marcus machucado, achava que conseguiria me defender.
Ele finalmente convenceu Sabrina a deixá-lo ir, mas não sem que ela soltasse:
— Se alguma coisa acontecer com ele, eu acabo com você. — Aparentemente, sua fachada durona na arena não tinha sido completamente simulada.
Nós nos despedimos, e logo eu e Marcus estávamos na estrada para Palm Springs.
Tentei arrancar mais informações dele, mas ele não mordia a isca. Em vez disso, ficava me elogiando e dizendo coisas que estavam a um passo de cantadas baratas. Pensando em como ele havia flertado com Sabrina também, não achei que havia nada de especial em mim. Imaginei que ele só estava acostumado a ter mulheres a seus pés. Ele era bonito, eu tinha que admitir, mas seria preciso muito mais para me conquistar.
O sol estava se pondo quando estacionamos diante do prédio do Adrian e só então pensei que deveria ter avisado que estávamos chegando. Agora era tarde demais.
Caminhamos até a porta e bati três vezes.
— Está aberta — uma voz gritou de dentro. Entrei, e Marcus me seguiu.
Adrian estava trabalhando numa pintura abstrata que parecia um castelo cristalino de um mundo fantástico.
— Que surpresa — ele disse. Seus olhos pousaram em Marcus e se arregalaram. — Caramba. Você o encontrou.
— Graças a você — eu disse.
Adrian olhou para mim. Um sorriso começou a se formar em seu rosto e, então, se desfez instantaneamente.
— O que aconteceu com seu rosto?
— Ah. — Toquei de leve o inchaço. Ainda doía, mas não tanto quanto antes. Soltei as palavras seguintes sem pensar. — Marcus me bateu.
Eu nunca tinha visto Adrian se mover tão rápido. Marcus não teve tempo para reagir, talvez porque estivesse exausto depois da nossa luta. Adrian empurrou Marcus contra a parede e, para meu espanto completo, deu um soco na cara dele. Uma vez, Adrian me dissera brincando que nunca sujava as mãos, então eu não estava preparada para aquilo. Na verdade, se Adrian fosse atacar alguém, eu imaginava que faria algo com magia e induzido pelo espírito. No entanto... quando olhei para ele, percebi que algo tão delicado como a magia não passava nem perto da sua cabeça. Ele entrara num modo de ação primitivo: ver uma ameaça, partir para cima dela. Era outro lado surpreendente, mas fascinante, do enigma que era Adrian Ivashkov.
Marcus logo se recuperou e respondeu na mesma moeda. Ele empurrou Adrian para trás, retraindo-se um pouco de dor. Mesmo machucado, ele ainda era forte.
— O que foi isso? Quem é você?
— Um cara que vai acabar com você por ter machucado Sydney — Adrian respondeu.
Ele tentou dar outro soco, mas Marcus se esquivou e acertou um que jogou Adrian em cima de um dos cavaletes. Quando Marcus se preparou para dar outro golpe, Adrian o evadiu com uma manobra que aprendera no curso de Wolfe. Eu teria aplaudido se não estivesse tão estarrecida com a situação. Sabia que algumas garotas achavam sexy ter homens brigando por elas, mas não era o meu caso.
— Ei, vocês dois, chega! — gritei.
— Ninguém machuca você e sai impune — Adrian disse.
— O que aconteceu entre a gente não tem nada a ver com você — Marcus retrucou.
— Tudo o que acontece com ela tem a ver comigo.
Os dois ficaram se medindo, à espera que o outro atacasse.
— Adrian — exclamei —, foi um acidente!
— Para mim não parece um acidente — ele respondeu, sem tirar os olhos de Marcus em nenhum momento.
— Você deveria ouvir o que ela está falando — Marcus grunhiu. O cara relaxado que eu havia conhecido desapareceu, mas acho que ser atacado faria isso com qualquer um. — Pode poupá-lo de ter seu rostinho bonito arrebentado. Quanto tempo leva pra deixar seu cabelo assim?
— Pelo menos penteio o cabelo — Adrian retrucou.
Marcus avançou, mas não diretamente contra Adrian. Ele pegou um quadro de um cavalete e o usou como arma. Adrian conseguiu se esquivar de novo, mas a pintura não resistiu. A tela se partiu no meio e Marcus a jogou para o lado, pronto para o próximo golpe.
Adrian olhou de soslaio para a tela.
— Agora você realmente me irritou.
— Chega! — Algo me dizia que eles não dariam ouvidos à razão. Aquilo exigia intervenção direta. Atravessei a sala e me coloquei entre os dois.
— Sydney, saia da frente — Adrian ordenou.
— É verdade — concordou Marcus. — Finalmente disse alguma coisa que faz sentido.
— Não! — Estendi os braços para separá-los. — Vocês dois, para trás, agora! — Minha voz ecoou pelo apartamento e me recusei a sair do lugar. — Para trás — repeti, enunciando as palavras devagar.
— Sydney... — A voz de Adrian estava um pouco mais hesitante do que quando me disse para sair da frente.
Me virei de um para o outro, lançando um olhar severo para os dois.
— Adrian, realmente foi um acidente. Marcus, esse é o cara que vai ajudar você, então mostre um pouco de respeito.
Mais do que qualquer outra coisa, minhas palavras deixaram os dois confusos.
— Espere — Adrian disse. — Você disse “ajudar”?
Marcus estava igualmente atônito.
— Esse babaca é usuário de espírito?
— Vocês dois estão agindo como idiotas — repreendi. Da próxima vez que não tivesse nada para fazer, pesquisaria em algum livro sobre comportamento causado por testosterona. Era um mistério para mim. — Adrian, podemos conversar em particular? No quarto, por exemplo?
Adrian concordou, mas não sem antes disparar um último olhar ameaçador para Marcus. Eu disse para Marcus ficar onde estava e torci para que não fosse embora nem chamasse outra pessoa armada. Adrian me seguiu até o quarto e fechou a porta atrás de nós.
— Sabe — ele disse —, em circunstâncias normais, você me chamar para o quarto seria o ponto alto do meu dia.
Cruzei os braços e sentei na cama. Fiz isso por mero cansaço, mas, um momento depois, me dei conta do que estava fazendo. É aqui que Adrian dorme. Estou encostando nos lençóis que envolvem seu corpo à noite. O que ele veste para dormir? Será que veste alguma coisa?
Me levantei em um salto.
— Foi mesmo um acidente — eu disse. — Marcus achou que eu estava lá para raptá-lo.
Adrian, sem ter nada contra a cama, sentou. Então soltou um resmungo de dor, provavelmente por causa do soco no estômago.
— Se alguém como você aparecesse para me raptar, eu deixaria.
Mesmo sentindo dor, ele não parava.
— Estou falando sério. Foi por instinto, e ele pediu mil desculpas no carro depois que descobriu quem eu era.
Isso chamou a atenção dele.
— Ele sabia quem você era?
Fiz um resumo do meu dia em Santa Bárbara. Ele ouviu com atenção, assentindo e alternando entre uma expressão de confusão e outra de surpresa.
— Não imaginei que você acabaria machucando Marcus quando o trouxe para cá — eu disse, depois de terminar a história.
— Estava defendendo sua honra. — Adrian abriu aquele sorriso despreocupado que sempre conseguia me deixar furiosa e encantada ao mesmo tempo. — Muito másculo, não acha?
— Muito mesmo — respondi, seca. Eu não gostava de violência, mas o fato de ele ter feito algo tão inesperado por mim era mesmo incrível. Não que eu fosse dar esse gostinho para ele. — Wolfe ficaria orgulhoso. Acha que consegue não dar mais nenhuma demonstração de “masculinidade” enquanto Marcus está aqui? Por favor?
Adrian abanou a cabeça, ainda sorrindo.
— Já disse várias vezes que faria qualquer coisa por você. Só fico torcendo para que um dia você peça algo como “Adrian, vamos para uma banheira de hidromassagem?” ou “Adrian, me leva para comer fondue?”.
— Bom, às vezes a gente precisa... Você disse fondue? — Algumas vezes era impossível seguir a linha de raciocínio dele. — Por que eu diria uma coisa dessas?
Ele deu de ombros.
— Eu gosto de fondue.
Não sabia como responder a isso. Aquele dia estava ficando cada vez mais desgastante.
— Desculpe por não estar pedindo uma coisa tão chique quanto queijo derretido, mas agora preciso descobrir mais informações sobre Marcus e o grupo dele... e sobre a tatuagem.
Adrian reconheceu a gravidade da situação. Levantou e tocou de leve o lírio na minha bochecha.
— Não confio nele. Pode estar usando você. Mas... também não gosto da ideia de isso controlar você.
— Somos dois — admiti, perdendo um pouco da postura rígida de antes.
Ele traçou o contorno do meu rosto por alguns segundos ofegantes e então deixou a mão cair.
— Talvez valha a pena ajudar o cara pra conseguir algumas respostas.
— Promete que não vai entrar em mais nenhuma briga? Por favor?
— Prometo — ele respondeu. — Desde que ele não me provoque.
— Vou pedir para ele prometer também. — Só me restava torcer para que a “masculinidade” deles não fosse mais forte. Enquanto pensava em tudo aquilo, outra coisa que tinha quase esquecido me veio à mente. — Ah... Adrian, tenho que pedir outro favor. Um grande favor.
— Fondue? — ele perguntou, esperançoso.
— Não. É sobre a irmã da sra. Terwilliger...
Contei o que havia descoberto. A ironia em seu rosto desapareceu e se transformou em incredulidade.
— E você só menciona isso agora? — ele exclamou quando terminei. — Que uma bruxa sugadora de almas está atrás de você?
— Ela nem sabe que eu existo. — Fiquei surpresa com o quão defensiva me senti de repente. — E sou a única pessoa que pode ajudar, pelo menos segundo a sra. Terwilliger. Ela acha que eu sou algum tipo de superdetetive.
— Bom, você tem um quê de Sherlock Holmes — ele disse. A brincadeira não durou; ele estava incomodado demais. — Mas você devia ter me contado! Podia ter ligado.
— Estava meio ocupada com Marcus.
— Agora suas prioridades são outras. Isso é muito mais importante que o grupinho de Vingadores dele. Se precisamos acabar com uma feiticeira do mal antes que ela pegue você, claro que ajudo. — Ele hesitou. — Com uma condição.
Olhei para ele, desconfiada.
— Qual?
— Me deixe curar você também.
Dei um pulo para trás, quase mais chocada do que ficaria se ele tivesse sugerido me dar outro soco.
— Não! De jeito nenhum! Não precisa. Estou melhor que ele.
— Você quer voltar para Amberwood com a cara assim? Não vai conseguir esconder esse roxo, Sage. E se Castile vir, com certeza vai atrás de Marcus. — Adrian cruzou os braços com ar de desafio. — Esse é o meu preço.
Ele estava blefando, e eu sabia disso. Talvez estivesse sendo egocêntrica, mas tinha certeza de que ele não me deixaria entrar numa situação perigosa sozinha. No entanto, ele estava certo. Eu ainda não tinha visto a marca que Marcus havia deixado, mas não queria ter que explicar aquilo na escola. E, sim, havia uma boa chance de Eddie decidir caçar meu agressor. Ser espancado por um dampiro vingativo poderia dificultar o trabalho com Marcus.
Mas... como eu poderia aceitar? Quando eu usava magia, pelo menos, era nos meus próprios termos. E, embora minha tatuagem contivesse traços de sangue de vampiro, eu me consolava com a ideia de que estava ligada aos quatro elementos “normais”, que eu conseguia entender. O espírito ainda era uma entidade desconhecida, com habilidades que sempre nos surpreendiam. Como eu me poderia me sujeitar a essa magia vampírica?
Adivinhando meu debate interior, a expressão de Adrian se abrandou.
— Eu vivo fazendo isso. É um feitiço simples. Sem surpresas.
— Talvez — eu disse, relutante. — Mas cada vez que você usa o espírito, tem mais chances de ficar louco.
— Já sou louco por você, Sage.
Pelo menos esse era um território conhecido.
— Você disse que não voltaria a falar desse assunto.
Ele simplesmente ficou me olhando, sem dizer nada. Por fim, abri os braços.
— Tudo bem — eu disse, com mais coragem do que realmente sentia. — Acabe logo com isso.
Adrian não perdeu tempo. Deu um passo à frente, estendeu o braço e pousou a mão na minha bochecha outra vez. Prendi a respiração e meu coração acelerou. Seria muito, muito fácil para ele me puxar e me beijar outra vez. Um calorzinho formigante se espalhou pela minha pele e, por um momento, pensei que fosse só minha reação normal ao toque dele. Mas não. Era a magia. Seus olhos se fixaram nos meus e, por uma fração de segundo, ficamos suspensos no tempo. Depois, ele tirou a mão e deu um passo para trás.
— Pronto — ele disse. — Foi tão ruim assim?
Não, não tinha sido nada ruim. A dor latejante havia desaparecido. Tudo o que restava era a voz constante na minha cabeça repetindo que o que havia acabado de acontecer era errado. Essa mesma voz tentou me dizer que Adrian havia deixado uma mácula em mim... mas era difícil de acreditar vindo dele. Voltei a respirar.
— Obrigada — eu disse. — Não precisava.
Ele abriu um daqueles sorrisinhos dele.
— Ah, acredite, precisava.
Um silêncio constrangedor pairou entre nós por um momento. Pigarreei.
— Bom. Precisamos voltar para falar com Marcus. Talvez tenhamos tempo de jantar antes de Sabrina aparecer e vocês dois podem fazer as pazes.
— Duvido que mesmo uma caminhada sob o luar vá resolver nossos problemas.
Suas palavras me lembraram de outra coisa que eu queria falar com ele quando voltasse à cidade, algo que tinha uma prioridade muito menor.
— Seu casaco; você nunca pegou de volta depois do casamento. Está no meu carro.
Ele fez um gesto de desdém.
— Pode ficar com ele. Tenho outros.
— O que vou fazer com um casaco de lã? — perguntei. — Ainda mais aqui em Palm Springs?
— Durma com ele — sugeriu Adrian. — Pensando em mim.
Pus as mãos na cintura e tentei lançar um olhar intimidador, o que não era nada fácil considerando a altura dele. Além disso, as palavras dele subitamente trouxeram de volta a sensação desnorteante que tivera ao me sentar em sua cama.
— Você prometeu que não voltaria a falar de coisas românticas comigo.
— Isso foi romântico? — ele perguntou. — Só estava fazendo uma sugestão porque o casaco é pesado e quentinho. Imaginei que fosse pensar em mim porque esse foi um gesto muito legal da minha parte. Mais uma vez é você quem está interpretando tudo o que eu falo de maneira romântica.
— Não estou. Você entendeu o que eu quis dizer.
Ele meneou a cabeça, fingindo compaixão.
— Sabe, Sage, às vezes acho que sou eu quem precisa de uma ordem de restrição contra você.
— Adrian!
Mas ele já havia saído pela porta, sua risada brincalhona ecoando pelo corredor.

Um comentário:

  1. — O que vou fazer com um casaco de lã? — perguntei. — Ainda mais aqui em Palm Springs?
    — Durma com ele — sugeriu Adrian. — Pensando em mim.

    AAAAAAH Adrian seu lindo <3

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Boa leitura :)