3 de outubro de 2017

Capítulo 7

PASSEI A MAIOR PARTE DO DIA SEGUINTE lutando contra minha recusa em ajudar Sonya, refletindo sobre minha decisão enquanto ia de uma aula para outra. Em parte, me sentia muito mal por não ceder meu sangue para os experimentos. Afinal, sabia da importância deles. Se houvesse uma maneira de impedir que os Moroi fossem transformados em Strigoi, teoricamente também seria possível aplicá-la aos seres humanos, o que poderia revolucionar as operações alquimistas. Pessoas medonhas como Liam, o prisioneiro do abrigo subterrâneo, não seriam mais uma ameaça. Ele poderia ser “esterilizado” e liberado, sem o risco de que se tornasse vítima da maldade dos Strigoi. Eu sabia também que Sonya e os outros não estavam chegando a lugar algum com a pesquisa. Eles não conseguiam descobrir o motivo que impedira Lee de se transformar em Strigoi novamente.
Ao mesmo tempo, apesar da importância da causa, me sentia fortemente contrária à ideia de ceder meu sangue. Eu realmente temia que, ao aceitar isso, acabaria tendo que me sujeitar a mais e mais experimentos. E eu não conseguia lidar com isso. Eu não tinha nada de especial. Não tinha passado por nenhuma transformação através do espírito. Eu e Lee nunca tivemos nada em comum. Eu era igual a qualquer outro ser humano, a qualquer outro alquimista. Meu sangue simplesmente parecia ter gosto ruim, o que não importava para mim.
— Fale-me sobre o feitiço de encantamento — a sra. Terwilliger pediu, numa tarde alguns dias depois dos eventos na casa de Clarence. Eu ainda estava pensando sobre o que tinha acontecido enquanto, teoricamente, trabalhava no estudo independente com ela.
Levantei os olhos do livro na minha frente.
— Qual versão? A de carisma ou a meta?
Ela estava sentada à sua mesa e abriu um sorriso.
— Para alguém que é tão contra tudo isso, você está aprendendo muito bem. Estou falando da versão meta.
Eu aprendera aquele feitiço recentemente. Ainda estava fresco na minha memória, mas fiz questão de soltar um forte suspiro para que ela soubesse — ainda que de forma sutil — o quanto aquilo me incomodava.
— Ele permite que quem lança o feitiço tenha um controle breve sobre outra pessoa. Para isso é necessário criar um amuleto, usá-lo... — franzi a testa, considerando essa parte do feitiço. — E então recitar um pequeno encantamento sobre a pessoa a ser controlada.
— Por que a hesitação? — a sra. Terwilliger quis saber, ajeitando os óculos.
Ela notava qualquer vacilo. Eu não queria me dedicar àqueles estudos, mas ela era minha professora e aquilo fazia parte das minhas tarefas enquanto estivesse presa àquela aula miserável.
— Não faz sentido. Bom, nada disso faz sentido, claro. Mas, do ponto de vista lógico, acho que falta alguma coisa tangível na vítim... no enfeitiçado. Talvez ele também precise usar um amuleto. Ou beber alguma coisa, sei lá. É difícil acreditar que só quem lança o feitiço precisaria de um reforço. Acho que seria necessário se conectar com a outra pessoa.
— Você usou a palavra-chave — ela disse. — Reforço. O amuleto reforça o desejo de quem lança o feitiço, assim como recitar o encantamento. Se isso for feito da maneira correta, e quem lançar o feitiço estiver num grau avançado e poderoso o suficiente, o poder de comando é impelido sobre o enfeitiçado. Talvez não pareça tangível, mas a mente é uma ferramenta poderosa.
— Poder de comando — murmurei. Sem pensar, fiz o sinal alquimista contra o mal. — Isso não parece nada certo.
— Existe alguma diferença em relação à compulsão que seus amigos vampiros usam?
Congelei. Fazia muito tempo que a sra. Terwilliger tinha admitido conhecer o mundo dos Moroi e Strigoi, mas aquele ainda era um assunto que eu evitava comentar com ela. A magia da minha tatuagem não me impedia de discutir o mundo dos vampiros com pessoas que já soubessem a respeito dele, mas eu não queria revelar acidentalmente nenhum detalhe sobre minha missão específica com Jill. Mesmo assim, o que ela disse me causou um sobressalto. Aquele feitiço era muito parecido com a compulsão, com o que vi Sonya usar para tranquilizar Clarence. Os vampiros podiam simplesmente usá-la, sem nenhuma forma de auxílio. Já aquele feitiço exigia um componente físico, mas a sra. Terwilliger havia me dito que isso era normal para os humanos. Ela disse que a magia era inata para os Moroi, mas que nós precisávamos arrancá-la do mundo à força. Para mim, só parecia ser outro motivo para os humanos não se meterem nesses assuntos.
— O que eles fazem também é errado — retorqui, numa das raras vezes em que admiti a existência dos Moroi diante dela. Não gostava nada da ideia de que os poderes que eu considerava tão perversos e intoleráveis também estivessem ao alcance dos humanos. — Ninguém deveria ter esse tipo de poder sobre ninguém.
— Você se acha muito superior a algo que sequer experimentou — ela ironizou.
— Nem sempre é preciso experimentar para saber. Eu nunca matei ninguém, mas sei que é errado.
— Não faça pouco-caso desses feitiços. Eles podem ser uma defesa muito útil — ela disse, dando de ombros. — Talvez dependa de quem usa, assim como um revólver ou qualquer outra arma.
— Também não gosto nem um pouco de armas — respondi, fazendo cara feia.
— Exatamente por isso você devia achar a magia uma opção melhor. — Ela fez um pequeno gesto gracioso com as mãos e um pote de barro no parapeito da janela explodiu. Estilhaços cortantes se espalharam pelo chão. Pulei da cadeira e recuei alguns passos. Então ela era capaz de fazer aquilo durante todo aquele tempo? E parecia não ter feito esforço nenhum. Que tipo de dano conseguiria causar se realmente quisesse? Ela sorriu. — Viu? Muito eficaz.
Eficaz e simples — tão fácil quanto um vampiro usando magia elemental com a força do pensamento. Depois de todos os feitiços trabalhosos que eu andava vendo nos livros, fiquei pasma ao ver uma magia tão “fácil”. Aquilo levava o que a sra. Terwilliger defendia a um nível inteiramente novo — e perigoso. Todo o meu corpo estava tenso à espera de mais algum ato terrível, mas, a julgar pelo olhar sereno no rosto dela, aquela parecia ser a única demonstração de poder que tinha em mente — por ora. Sentindo-me um pouco ridícula com a minha reação, voltei a me sentar.
Respirei fundo e escolhi as palavras com cuidado, buscando esconder minha raiva — e meu medo. Não seria nada bom ter um ataque na frente de uma professora.
— Por que a senhora continua fazendo isso?
A sra. Terwilliger inclinou a cabeça de lado, como um passarinho.
— Fazendo o quê, querida?
— Isto — respondi, batendo no livro à minha frente. — Por que a senhora continua me obrigando a trabalhar com isso, contra a minha vontade? Eu odeio, e a senhora sabe. Não quero me meter em nada disso! Por que a senhora me faz aprender esses feitiços? O que a senhora ganha com isso? Existe um clube em que você recebe um bônus por trazer um novo recruta?
Ela retomou o sorriso de deboche.
— Preferimos o termo clã, e não clube de bruxas. Embora até que soe bem. Mas, voltando à pergunta, não, eu não ganho nada com isso, pelo menos não do jeito que você está pensando. Membros poderosos são sempre úteis para o clã, e você possui um potencial para a grandeza. Mas na verdade é mais do que isso. Você sempre argumenta que é errado os humanos terem esse tipo de poder, certo?
— Certo — eu disse, cerrando os dentes. Tinha dito aquilo um milhão de vezes.
— Bem, essa é uma grande verdade... em relação a algumas pessoas. Você tem medo de que abusem desse tipo de poder, com razão. Isso acontece o tempo todo, e é por isso que precisamos de pessoas boas e virtuosas que possam se opor àquelas que usam a magia para fins egoístas e nefastos.
O sinal tocou, indicando que eu estava livre. Eu me levantei e arrumei minhas coisas.
— Desculpe, sra. Terwilliger. Fico lisonjeada por me considerar uma pessoa tão honrada, mas já estou envolvida em uma grande batalha épica do bem contra o mal. Não preciso de outra.
Saí da aula me sentindo ao mesmo tempo aflita e furiosa, torcendo para que os últimos dois meses do semestre passassem logo. Se aquela missão alquimista continuasse no ano seguinte, escrita criativa ou alguma outra matéria eletiva seriam opções mais viáveis para minha agenda escolar. Era uma pena, porque eu realmente tinha gostado da sra. Terwilliger no começo. Ela era muito inteligente e conhecia muito sua área de estudo — história, não magia — e tinha me estimulado com aquele tema. Se ela tivesse demonstrado o mesmo entusiasmo que sentia com a magia para me ensinar história, não teríamos acabado naquela confusão.
Eu costumava jantar com Julia e Kristin ou com a minha “família”. Aquela era uma noite em família. Encontrei Eddie e Angeline já à mesa quando entrei no restaurante do campus leste e, como sempre, ele pareceu grato pela minha chegada.
— Então, por que não? — Angeline dizia quando sentei com a bandeja.
Era noite de comida chinesa e ela segurava um par de hashis, o que nunca era uma boa ideia. Uma vez tentei ensinar a ela como comer com os pauzinhos, sem muito sucesso. Ela ficou com raiva e acabou apunhalando um rolinho primavera com tanta força que os hashis se partiram ao meio.
— Eu só... é que não tem muito a ver comigo — Eddie disse, procurando responder à pergunta que ela tinha feito. — Eu não vou. Com ninguém.
— Jill vai com Micah — Angeline observou, dissimulada. — Será que você não precisa ficar de olho nela, já que vai ser fora da escola?
Eddie respondeu apenas com um olhar angustiado.
— Do que vocês estão falando? — perguntei, finalmente.
— Da festa do Dia das Bruxas — Angeline disse.
Aquilo era novidade para mim.
— Vai ter uma festa no Dia das Bruxas?
Eddie deixou seu tormento de lado por um instante e me lançou um olhar de surpresa.
— Como você não sabe? Tem cartazes em todo lugar!
Remexi meus legumes cozidos no vapor.
— Não tinha nenhum por onde passei.
Eddie apontou com o garfo para um lugar atrás de mim. Ao me virar, olhei para o balcão de comida por onde passara pouco antes. Lá, pendurado na parede, havia um cartaz enorme que dizia: FESTA DO DIA DAS BRUXAS. Especificava a data e o horário, e era decorado com abóboras mal desenhadas.
— Ah — eu disse.
— Como você consegue decorar livros inteiros, mas deixa passar uma coisa dessas? — Angeline perguntou.
— É que o cérebro da Sydney só registra informações úteis — Eddie disse, com um sorriso.
Eu não neguei.
— Você não acha que Eddie deveria ir? — Angeline insistiu. — Ele precisa cuidar de Jill. E, se ele for, nós podemos ir juntos.
Eddie me lançou um olhar desesperado, e coube a mim tentar encontrar uma saída.
— Bom, claro que ele tem que ir... especialmente por ser longe daqui. — O cartaz mencionava um lugar de que nunca tinha ouvido falar. Não tínhamos visto nenhum sinal de Moroi vindo atrás da Jill, mas um lugar desconhecido apresentava novos riscos, o que me inspirou para acrescentar: — Mas aí é que está o problema. Ele estará de plantão. Vai passar o tempo todo checando o lugar, atento para ver se alguém suspeito aparece. Seria uma perda de tempo se ele fosse com você. Você não iria se divertir muito. É melhor ir com outra pessoa.
— Mas eu também preciso proteger Jill — ela argumentou. — Não é por isso que estou aqui? Preciso aprender o que fazer.
— Bem, sim — ele disse, visivelmente encurralado pela lógica dela. — Você vai ter que ir comigo para cuidar dela.
— Sério? — ela disse, abrindo um sorriso. — Então podemos ir juntos!
— Não — Eddie disse, retomando o olhar angustiado. — Nós vamos um junto com o outro. Mas não juntos.
Angeline pareceu não se incomodar com as nuances.
— Nunca fui a uma festa — ela admitiu. — Quer dizer, lá em casa nós fazíamos festas o tempo todo. Mas acho que as daqui devem ser diferentes.
Com isso era preciso concordar. Eu sabia como eram os eventos sociais dos Conservadores. Eles costumavam dançar ao redor de fogueiras ao som de músicas estridentes, tomando uma bebida alcoólica intoxicante feita por eles mesmos, em que eu achava que nem Adrian tocaria. Os Conservadores também não consideravam um evento social um sucesso se não houvesse pelo menos uma briga. Na verdade, era até impressionante Angeline ainda não ter se metido em nenhuma em Amberwood. Eu tinha sorte que suas únicas transgressões tinham sido violar as regras de vestuário e responder para os professores.
— É, provavelmente — eu disse, de forma neutra. — Não sei. Também nunca fui a uma festa.
— Você vai nessa, não é? — Eddie perguntou. — Com Brody?
— Brayden. E não sei. Nem tivemos o segundo encontro ainda. Não quero acelerar as coisas.
— Claro — Eddie disse. — Afinal, ir a uma festa de Dia das Bruxas juntos é realmente um grande passo no namoro.
Eu estava prestes a retrucar sugerindo que talvez ele e Angeline devessem ir juntos no final das contas quando Jill e Micah sentaram com a gente. Os dois estavam rindo tanto que mal conseguiam se acalmar para explicar o que era tão engraçado.
— Janna Hall terminou um terno masculino no clube de costura hoje — Jill disse, entre risadinhas. Voltei a sentir uma onda de alegria ao vê-la tão contente. — A srta. Yamani disse que era a primeira peça de roupa masculina que ela via lá nos últimos cinco anos. Obviamente, Janna precisava de um modelo e só tinha um garoto lá...
Micah ensaiou um olhar aborrecido, mas logo voltou a sorrir.
— Pois é. Escolhi a atitude máscula e me ofereci. O terno era horrível!
— Ah — Jill disse. — Não era tão horrível... Tudo bem, realmente era horrível. Janna não seguiu nenhuma das diretrizes de tamanho, então a calça ficou gigantesca. Parecia uma barraca. E como ela não fez nenhum passador de cinto, ele precisou amarrar a calça com uma faixa.
— Que quase não aguentou quando elas me mandaram desfilar — Micah disse, balançando a cabeça.
Jill deu uma cutucada zombeteira nele.
— Acho que todo mundo iria gostar se a calça tivesse caído.
— Me lembre de nunca mais me inscrever num clube só de meninas — Micah disse. — Semestre que vem, vou me inscrever em alguma coisa como marcenaria ou karatê.
— Você não vai fazer de novo? Nem por mim? — Jill olhou para ele de um jeito que incrivelmente conseguia ser ao mesmo tempo zangado e sedutor. Percebi que aquilo era muito mais eficaz do que qualquer compulsão ou feitiço de encantamento.
Micah soltou um suspiro:
— Estou perdido.
Nunca me considerei especialmente sentimental, e ainda desaprovava o romance acanhado daqueles dois, mas até eu sorri com aqueles gracejos. Isso até ver a expressão no rosto de Eddie. Não estava transparecendo muito, para falar a verdade. Talvez o convívio com Dimitri tivesse rendido algumas dicas sobre como manter a expressão impassível de guardião. Mas Eddie ainda não era como Dimitri, e eu conseguia notar os sinais mais tênues de tristeza e sofrimento.
Por que ele fazia aquilo consigo mesmo? Ele se recusava a confessar a Jill seus sentimentos. Assumia a postura nobre de quem precisava apenas protegê-la e nada mais. Parte de mim conseguia entender isso. O que eu não conseguia entender era por que Eddie continuava a se torturar apoiando que ela saísse justo com o colega de quarto dele. Mesmo com seu trauma em relação à semelhança entre Micah e Mason, Eddie estava se forçando a ver, todos os dias, a garota de seus sonhos com outra pessoa. Eu nunca tinha passado por nada parecido, mas devia ser terrível.
Nossos olhos se cruzaram e Eddie balançou a cabeça discretamente. Não encana, parecia dizer. Não se preocupe comigo. Vou ficar bem.
Logo Angeline disparou a falar sobre a festa, perguntando se Jill e Micah iriam. Ela também mencionou seus planos de ir “com” Eddie. Isso o tirou do humor melancólico e, embora eu soubesse que ela o importunava, fiquei pensando se aquilo não era melhor do que ser atormentado constantemente por causa do namoro entre Jill e Micah.
A conversa parou abruptamente quando Micah franziu a testa e comentou algo que todos nós havíamos deixado passar, e que resolveria os problemas de Eddie.
— Por que vocês vão à festa juntos? Vocês não são primos?
Eddie, Jill e eu ficamos paralisados. Mais um furo na nossa história. Não podia acreditar que tinha deixado isso passar não uma, mas duas vezes. Devia ter mencionado assim que Angeline surgiu com o assunto da festa.
Aos olhos da escola, todos éramos parentes.
— E daí? — Angeline perguntou, sem entender.
Eddie pigarreou.
— Hum, somos primos de terceiro grau. Mas, enfim. Não vamos juntos de verdade. É só uma brincadeira.
Isso fez o assunto morrer, e ele não pôde conter um sorriso triunfante.
No dia seguinte, Brayden me buscou logo após a aula para chegarmos a tempo do tour pelos moinhos. A sra. Terwilliger até me deixou sair uns minutos mais cedo, depois que prometi que traria um cappuccino para ela no caminho de volta a Amberwood. Eu estava animada com o passeio e com a ideia de ver Brayden, mas, ao entrar no carro, senti uma pontada de dúvida. Será que tinha o direito de me divertir assim, em atividades pessoais? Ainda mais depois dos novos deslizes na nossa história “familiar”? Talvez eu estivesse dedicando tempo demais a mim mesma e tempo de menos à missão.
Brayden tinha muito a dizer sobre o torneio de debates do qual havia participado durante o fim de semana. Analisamos alguns dos temas mais difíceis que ele teve de enfrentar e rimos com temas fáceis que atrapalharam a equipe rival. Havia anos que eu tinha medo de ficar com alguém, mas era uma grata surpresa a facilidade que tínhamos para conversar. Foi muito parecido com o encontro para ver a peça de Shakespeare: uma fonte inesgotável de assuntos sobre os quais nós dois sabíamos muito. Era o resto da experiência que ainda me deixava angustiada — a parte de “ficar” propriamente dita. Os livros sobre namoro que eu havia lido depois do nosso primeiro encontro davam conselhos principalmente sobre sexo, o que era completamente inútil, já que eu nem sabia como ficar de mãos dadas.
Fiquei fascinada pelos moinhos gigantes. Por mais que não tivessem a beleza e elegância dos carros de que eu tanto gostava, eu sentia o mesmo deslumbramento diante da engenharia que eles representavam. Alguns moinhos tinham mais de trinta metros de altura, com pás do tamanho de meio campo de futebol americano.
Momentos como aquele me deixavam maravilhada com a engenhosidade humana. Quem precisava de magia se podíamos criar maravilhas como aquela?
Nossa guia era uma moça simpática de vinte e poucos anos, que claramente adorava o trabalho dela e tudo o que a energia eólica representava. Ela sabia todo tipo de curiosidades sobre os moinhos, mas não o bastante para satisfazer Brayden.
— Como vocês lidam com a ineficiência de energia provocada pela necessidade das turbinas de ventos em velocidades tão específicas?
Depois:
— O que você acha dos estudos que mostram que o simples aperfeiçoamento dos filtros na queima de combustíveis fósseis reduziria mais as emissões de gás carbônico do que a implantação desse tipo alternativo de geração de energia?
E depois:
— Podemos enxergar a energia eólica como opção viável se, considerando o custo da construção e da manutenção, os consumidores acabam pagando mais do que pelas formas tradicionais de eletricidade?
Não havia como ter certeza, mas tive a impressão de que a nossa guia encerrou o tour mais cedo. Ela incentivou os outros turistas a voltarem quando quisessem, mas não disse nada para mim ou Brayden quando passamos por ela.
— É uma pena, mas ela estava muito mal informada — ele me disse, de volta à estrada.
— Ela sabia muito sobre os moinhos e suas instalações — argumentei. — Acho que os debates mais recentes sobre o assunto não costumam ser levantados nesses tours. Ou — fiz uma pausa, com um sorriso — como lidar com turistas... impertinentes.
— Eu fui impertinente? — ele perguntou, parecendo realmente surpreso. Ele tinha ficado tão envolvido com suas ideias que nem mesmo percebeu. Era fofo.
Tentei não dar risada.
— Você só foi impetuoso demais. Acho que eles não estavam preparados para alguém como você.
— Mas deveriam estar. A energia eólica é realmente promissora, mas por enquanto existem vários tipos de gastos e ineficiências que precisam ser resolvidos. Senão ela se torna inútil.
Recostei-me por algum tempo, tentando decidir a melhor maneira de responder àquilo. Nenhum dos conselhos que recebi dos livros ou dos meus amigos tinha me preparado para lidar com discussões sobre fontes alternativas de energia. Um dos livros, que eu achei melhor nem terminar, tinha uma visão claramente machista que dizia que era obrigação das mulheres fazer com que os homens se sentissem importantes durante um encontro. Suspeitei que Kristin e Julia me aconselhariam a rir e jogar o cabelo para o lado, pondo fim à discussão.
Mas eu simplesmente não conseguia.
— Você está errado — eu disse.
Brayden, que era um grande defensor da direção segura, chegou a tirar os olhos da estrada por alguns segundos e me encarar.
— O que você disse?
Além de descobrir que, assim como eu, ele tinha um vasto estoque de conhecimentos profundos e aleatórios, também havia notado uma coisa dominante na personalidade de Brayden. Ele não gostava de estar errado. Não era nenhuma surpresa. Eu também não gostava, e nós dois tínhamos muito em comum nesse aspecto. E, pelo jeito que ele falava da escola e até mesmo do torneio de debates, deduzi que as pessoas nunca lhe diziam que ele estava errado — mesmo que por acaso ele estivesse.
Talvez não fosse tarde demais para fazer a jogadinha de cabelo. Mas, em vez disso, disparei a falar.
— Você está errado. Talvez a energia eólica não seja tão eficiente quanto poderia ser, mas o simples fato de estar sendo desenvolvida já é um grande avanço em relação às fontes de energia arcaicas e ultrapassadas de que a nossa sociedade ainda depende. Esperar que o custo-benefício seja tão bom quanto o de uma outra que é usada há muito, muito tempo é uma ideia ingênua.
— Mas...
— Não se pode negar que os benefícios compensam os gastos. As mudanças climáticas estão se tornando um problema cada vez maior, e a redução das emissões de gás carbônico pela energia eólica pode ter um impacto significativo. Além disso, o mais importante é que o vento é renovável. As fontes baratas não valerão nada quando se esgotarem.
— Mas...
— Precisamos ser progressistas e pensar naquilo que irá nos salvar no futuro. Concentrar-se exclusivamente no custo-benefício que temos agora e ignorar as consequências demonstra falta de visão a longo prazo, o que acabará levando a espécie humana à destruição. Quem não considerar isso só estará perpetuando o problema, a menos que crie outras soluções. A maioria não faz isso. Só reclama. É por isso que você está errado.
Fiz uma pausa para recuperar o fôlego e então me atrevi a olhar para Brayden. Ele estava com os olhos fixos na estrada, incrivelmente arregalados. Achei que ele estaria menos chocado se eu tivesse dado um tapa na cara dele. Imediatamente me arrependi do que havia dito. Sydney, por que você não deu só uma risadinha e pronto?
— Brayden? — arrisquei, hesitante, depois de quase um minuto sem resposta. Atônito, ele continuava em silêncio.
De repente, sem nenhum aviso, ele fez uma curva brusca e jogou o carro no acostamento, fazendo voar poeira e cascalho ao nosso redor. Naquele momento, tive a certeza absoluta de que ele me mandaria sair do carro e eu teria que caminhar de volta até Palm Springs. E estávamos a quilômetros de distância da cidade.
Em vez disso, ele pegou a minha mão e se inclinou na minha direção.
— Você — ele disse, quase sem ar — é incrível. Absolutamente, indiscutivelmente e perfeitamente incrível.
E então ele me beijou.
Fiquei tão surpresa que mal consegui me mexer. Meu coração acelerou, mas era mais por nervosismo do que qualquer outra coisa. Eu estava beijando certo? Tentei relaxar, abrindo um pouco os lábios, mas meu corpo continuava tenso. Brayden não recuou em repulsa, o que era um bom sinal. Eu nunca havia beijado ninguém e sempre me preocupara sobre como seria. A mecânica do beijo se revelou mais fácil do que eu imaginava.
Quando ele finalmente se afastou, estava com um sorriso nos lábios. Bom sinal, pensei. Retribuí o sorriso, hesitante, porque sabia que era o que se esperava de mim. Mas, sinceramente, uma parte secreta de mim estava um tanto desapontada. Era só isso? Não tinha nada de mais? Não que tivesse sido horrível, mas também não tinha me mandado às alturas. Tinha sido exatamente como parecia, lábios sobre lábios.
Com um grande suspiro de felicidade, ele se virou e voltou a dirigir. Eu só conseguia observá-lo com assombro e perplexidade, incapaz de esboçar qualquer reação. O que tinha acabado de acontecer? Aquele tinha sido meu primeiro beijo?
— Spencer’s, certo? — Brayden me perguntou, quando viramos na saída que dava no centro da cidade, pouco depois.
Ainda estava tão atordoada por causa do beijo que levei um tempo para lembrar que havia prometido um cappuccino para a sra. Terwilliger.
— Isso.
Pouco antes de entrarmos na rua do Spencer’s, Brayden estacionou de repente em frente a uma floricultura.
— Já volto — ele disse.
Assenti, sem saber o que dizer, e cinco minutos depois ele voltou e me ofereceu um grande buquê de rosas delicadas, num tom rosa pálido.
— Obrigada? — eu disse, soando mais interrogativa do que agradecida.
Agora, além do beijo e da declaração de que eu era “incrível”, tinha merecido flores também.
— Elas não são adequadas — ele admitiu. — No simbolismo tradicional das flores, vermelho ou laranja seriam cores mais apropriadas. Mas eles só tinham essas e um tom de lavanda, e você não parece o tipo de pessoa que gosta de roxo.
— Obrigada — respondi, dessa vez mais firme.
Ao sentir o doce aroma das rosas a caminho do Spencer’s, me dei conta de que nunca tinham me dado flores na vida.
Chegamos ao café pouco depois. Saí do carro e, como um raio, Brayden apareceu ao meu lado para fechar a porta atrás de mim. Entramos e fiquei aliviada ao ver Trey trabalhando. A implicância dele seria um bom retorno à normalidade, já que minha vida tinha acabado de sofrer uma reviravolta maluca.
Trey pareceu não nos notar. Estava compenetrado numa conversa com alguém do outro lado do balcão, um rapaz mais velho do que a gente. A pele bronzeada, o cabelo preto e alguns traços do rosto me indicaram que ele e Trey deviam ser parentes. Brayden e eu esperamos em silêncio atrás do rapaz até Trey finalmente olhar para nós, com o semblante surpreendentemente tristonho, muito diferente de como costumava ser. Ele pareceu surpreso ao nos ver, mas depois relaxou um pouco.
— Melbourne, Cartwright. Passaram para pegar um pouco de cafeína depois dos moinhos?
— Você sabe que nunca bebo cafeína depois das quatro — Brayden disse. — Mas Sydney veio buscar uma bebida para a professora.
— Ah — Trey disse. — O de sempre para você e para a sra. T?
— Sim, mas o meu é gelado desta vez.
Trey me olhou com ar de espertalhão.
— Precisando se refrescar um pouco, então?
Revirei os olhos.
O rapaz que antes estava na nossa frente continuava por ali, e Trey apontou para ele enquanto pegava dois copos.
— Este é meu primo, Chris. Chris, Sydney e Brayden.
Aquele devia ser o “primo perfeito” de Trey. Em uma olhada rápida, vi poucos indícios de que ele fosse melhor do que Trey, exceto talvez sua altura. Chris era muito alto. Não tanto quanto Dimitri, mas muito alto. Fora isso, os dois tinham traços parecidos e o corpo atlético. Chris até tinha alguns machucados e arranhões parecidos com os que Trey costumava exibir, me fazendo supor que havia uma relação familiar com os esportes. Independente disso, Chris não parecia uma pessoa por quem Trey deveria se sentir intimidado, mas talvez eu estivesse tomando partido da nossa amizade.
— De onde você é? — perguntei.
— San Francisco — Chris respondeu.
— Por quanto tempo ficará na cidade? — Brayden perguntou.
Chris encarou Brayden, desconfiado.
— Por que quer saber?
Brayden pareceu surpreso e não o culpei por isso. Antes que qualquer um de nós pudesse imaginar qual seria o próximo passo no manual de conversas casuais, Trey interferiu depressa:
— Relaxe, C. Eles só estão sendo simpáticos. Não trabalham pra nenhuma agência secreta. Pelo menos Brayden não.
— Desculpe — Chris disse, sem parecer realmente arrependido. Essa era a diferença entre os primos, percebi. Trey teria rido daquele engano. Na verdade, nunca teria cometido aquele engano. Definitivamente havia níveis diferentes de simpatia na família dele. — Algumas semanas.
Nem eu nem Brayden nos atrevemos a perguntar mais alguma coisa depois disso e, felizmente, Chris aproveitou a oportunidade para ir embora, prometendo ligar para Trey mais tarde. Quando ele se foi, Trey balançou a cabeça como se estivesse se desculpando e colocou os cafés prontos no balcão. Quando pus a mão no bolso para pegar minha carteira, Brayden se adiantou e pagou para mim.
Enquanto dava o troco para Brayden, Trey disse:
— Os horários da semana que vem já estão no mural.
— Ah, é? — Brayden virou para mim. — Você se importa se eu for lá nos fundos por um segundo? No sentido figurado, claro.
— Vai lá — eu disse. Assim que ele saiu, me virei para Trey, desesperada. — Preciso da sua ajuda.
Trey arqueou as sobrancelhas.
— Pensei que nunca fosse ouvir isso de você.
Eu também não, mas estava completamente perdida, e Trey era minha única possibilidade de ajuda naquele momento.
— Brayden me deu flores — declarei. Eu não pretendia mencionar o beijo.
— E?
— Por que ele fez isso?
— Porque ele gosta de você, Melbourne. É isso que os garotos fazem. Pagam o jantar, dão presentes e torcem para que, em troca, vocês, hum... gostem deles também.
— Mas eu discuti com ele — sussurrei, olhando apreensiva para a porta onde Brayden havia entrado. — Pouco antes de ele me dar flores, fiz um discurso sobre como ele estava errado em relação às fontes alternativas de energia.
— Peraí — Trey interrompeu. — Você disse... você disse para Brayden Cartwright que ele estava errado?
Assenti.
— Por que ele reagiria desse jeito?
Trey soltou uma gargalhada tão sonora que tive certeza de que faria Brayden voltar.
— As pessoas não costumam dizer para ele que ele está errado.
— É, imaginei.
— Ainda mais as meninas. Elas nunca dizem que ele está errado. Você deve ter sido a primeira a fazer isso. Deve ter sido a única garota inteligente o bastante para discordar dele.
Eu estava ficando impaciente.
— Isso eu entendo. Mas por que as flores? Por que os elogios?
Trey meneou a cabeça e pareceu prestes a rir de novo.
— Melbourne, se você não sabe, não sou eu quem vai te dizer.
Eu estava tão preocupada que Brayden fosse voltar a qualquer instante que achei melhor mudar de assunto e não comentar o conselho inútil que Trey havia me dado.
— Chris é o primo perfeito de quem você me falou?
O sorriso dele desapareceu.
— Em carne e osso. Tudo o que eu faço, ele faz melhor.
Imediatamente me arrependi de ter feito a pergunta. Trey, assim como Adrian, era daquelas pessoas que eu não gostava de ver tristes.
— Bem. Ele não me pareceu tão perfeito. Talvez eu esteja sendo tendenciosa por passar tanto tempo com você. Você definiu o modelo de perfeição.
Isso trouxe seu sorriso de volta.
— Desculpe pela grosseria dele. Chris sempre se comportou desse jeito. Nunca foi o mais charmoso da família Juarez. Esse sou eu, claro.
— Claro — concordei.
Quando Brayden voltou, Trey ainda estava sorrindo, mas quando olhei para trás antes de sair do café, a expressão dele tinha voltado a se fechar. Ele estava concentrado em seus pensamentos e eu queria saber como poderia ajudar.
No caminho de volta a Amberwood, Brayden disse, tímido:
— Bom, agora eu sei meus horários das próximas duas semanas.
— Ah, que... bom — eu disse.
Ele hesitou.
— Então... eu sei quando posso sair de novo. Quer dizer, digo, se... se você quiser sair de novo.
Aquilo teria me surpreendido se eu já não estivesse pasma com todos os outros acontecimentos daquele dia. Brayden queria sair comigo de novo? Por quê? Ainda mais as meninas. Elas nunca dizem que ele está errado. Você deve ter sido a primeira a fazer isso. Deve ter sido a única garota inteligente o bastante para discordar dele. E, o mais importante, será que eu queria sair com Brayden de novo? Dei uma olhada nele e então nas rosas. Lembrei do jeito como Brayden me olhou nos olhos no carro parado. Percebi, então, que as chances de eu encontrar outro garoto que achasse Shakespeare e parques eólicos divertidos eram minúsculas.
— Tudo bem — eu disse.
Ele estreitou os olhos enquanto pensava.
— Vai ter uma festa da sua escola, não vai? Você quer ir? As pessoas costumam ir a esse tipo de coisa, né?
— É o que parece. Como você ficou sabendo?
— Pelo cartaz — ele disse.
E naquele exato momento, como se tivesse sido combinado, ele estacionou na entrada do meu alojamento. Pendurado na porta principal, havia um cartaz decorado com teias de aranha e morcegos. VAI SER DE ARREPIAR! FESTA DO DIA DAS BRUXAS.
— Ah — eu disse. — Este cartaz. — Eddie estava certo. Eu realmente tinha memória seletiva. — Acho que a gente pode ir, sim. Se você quiser.
— Claro. Quer dizer, se você quiser.
Silêncio. Então, nós dois rimos.
— Bom, então — eu disse —, acho que vamos.
Brayden se inclinou na minha direção e entrei em pânico até perceber que ele só estava tentando dar uma olhada melhor no cartaz.
— Daqui a uma semana e meia.
— Tempo suficiente para arranjar fantasias, acho.
— Acho que sim. Apesar de...
E foi nesse momento que aconteceu mais uma coisa louca. Ele segurou a minha mão. Confesso que não estava esperando muita coisa, ainda mais depois da minha reação dúbia depois do beijo no acostamento. Ainda assim, com a mão dele sobre a minha, fiquei surpresa pela sensação de... bem, de simplesmente tocar a mão de outra pessoa. Achava que sentiria pelo menos algum arrepio ou o coração batendo mais forte. Mas minha maior reação emocional foi ficar preocupada em relação ao que fazer com a minha mão. Entrelaçar os dedos? Apertar a mão dele de volta?
— Queria sair com você antes — ele disse. E voltou a hesitar. — Se você quiser.
Baixei os olhos para nossas mãos, tentando entender o que eu estava sentindo. Ele tinha mãos gostosas. Macias, quentinhas. Eu poderia me acostumar a segurar as mãos dele. E, claro, ele cheirava a café. Será que aquilo era o bastante para desenvolver o amor? Aquela velha incerteza voltou a me incomodar. Que direito eu tinha àquilo tudo? Eu não estava em Palm Springs por diversão. Não havia espaço para interesses pessoais entre os alquimistas. Sabia que meus superiores não aprovariam nada daquilo.
Mesmo assim, quando eu voltaria a ter aquela chance? Quando eu ganharia flores novamente? Quando alguém voltaria a me olhar com aquele fervor? Decidi arriscar.
— Claro — eu disse. — Vamos sair de novo.

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