23 de outubro de 2017

Capítulo 6

Adrian

CHARLOTTE ERA UMA BOA COMPANHEIRA DE BAR, não só porque bebia bem.
Mesmo quando não estava usando o espírito, ela tinha aquela intuição natural dos usuários desse elemento. Logo entendia quando eu queria falar sobre as coisas e, mais importante, quando não queria. Começamos num bar calmo e não tive problema em deixar que ela falasse mais. Aparentemente, Charlotte não tinha feito nenhum amigo nesses últimos meses na Corte e, com Olive desaparecida, tivera poucas chances de desabafar.
— Simplesmente não entendo — ela disse. — As pessoas parecem ter medo de mim. Quer dizer, falam que não, mas eu percebo. Ficam me evitando.
— O espírito ainda assusta muita gente, é só isso. Uma coisa que posso te dizer, depois de ter convivido com Moroi, dampiros e humanos, é que as pessoas têm medo do que não entendem. — Enfatizei minha fala erguendo o mexedor do drinque. — E a maioria é preguiçosa ou ignorante demais pra tentar aprender.
Charlotte sorriu, mas continuava triste.
— É, mas parece que todo mundo aceita Dimitri e Sonya. E eles foram Strigoi mesmo. Achei que isso seria muito mais difícil de aceitar do que alguém que só ajudou a restaurar uma.
— Ah, mas tinha muita gente assustada quando os dois foram restaurados, acredite. Só que a reputação valente e os atos heroicos de Dimitri ofuscaram isso rápido. Depois Sonya também ficou famosa por seu trabalho com a “vacina Strigoi”.
— É esse o segredo? — Charlotte perguntou. — Eu... e Olive... precisamos realizar alguma grande façanha pra que as pessoas esqueçam nosso passado?
— Vocês não precisam fazer nada que não queira — eu disse, veemente. — Foi por isso que Olive foi embora? Estava difícil pra ela ficar perto dos outros?
Charlotte franziu a testa e olhou para a borda da taça. Ela estava bebendo cosmopolitans, que têm um gosto frutado demais para mim. Parei um momento para pensar no que Sydney beberia, se um dia se permitisse beber. Algum coquetel adocicado como aquele? Não; soube imediatamente que, se Sydney bebesse, seria vinho, e ela seria uma daquelas pessoas capazes de dizer o ano, a região e os componentes do solo em que cultivaram as uvas com um só gole. Já eu teria sorte se conseguisse diferenciar vinho de caixa do de garrafa. Pensar nela me fez começar a sorrir, o que rapidamente escondi para que Charlotte não pensasse que estava rindo dela.
— Não sei por que Olive foi embora — ela disse, finalmente. — O que é quase tão ruim quanto o fato de ela ter ido. Sou irmã dela! Fui eu quem a trouxe de volta! — Charlotte ficou rígida e seus olhos cinza lacrimejaram. — Se ela estava chateada com alguma coisa, devia ter vindo falar comigo primeiro. Depois de tudo que passei por ela... ela achou que eu não iria ouvir? Não sabe como meu amor por ela é enorme? Ela é minha família; esse é um laço que nada nem ninguém pode quebrar. Eu faria qualquer coisa por ela, qualquer coisa, se ela pedisse, se confiasse em mim o bastante para pedir...
Ela estava tremendo e havia um tom levemente descontrolado em sua voz que reconheci. Eu ficava do mesmo jeito quando o espírito começava a me deixar instável.
— Talvez ela ache que você já fez coisas demais por ela — eu disse, pondo a mão de leve sobre a dela. — Já tentou falar com ela durante sonhos?
Charlotte fez que sim, se acalmando um pouco.
— Ela sempre diz que está bem e que só precisa de mais tempo.
— Bom, então é isso. Minha mãe dizia a mesma coisa quando estava presa. Às vezes as pessoas precisam resolver seus problemas sozinhas.
— Talvez — ela disse. — Mas, mesmo assim, odeio a ideia de ela estar sozinha. Queria que pelo menos conversasse com Neil ou com alguma outra pessoa.
— Acho que ele também. Mas vai ficar feliz em saber que Olive está só resolvendo os problemas dela. Acho que ele respeita essa história toda de jornada solitária. — Terminei o drinque e vi que o dela estava acabando.
— Mais uma rodada? — ela perguntou.
— Não. — Levantei e pus dinheiro na mesa. — Vamos procurar outro lugar. Você não disse que queria conhecer mais gente?
— Sim... — Sua voz estava desconfiada enquanto ela me seguia. — Sabe onde encontrar uma festa ou alguma coisa assim?
— Sou Adrian Ivashkov — declarei. — As festas vêm até mim.
Era certo exagero porque, na verdade, tive que ir atrás de uma... mas acertei na primeira tentativa. Uma menina da realeza que tinha estudado comigo em Alder, Vanessa Szelsky, costumava dar festas nos fins de semana na casa dos pais na Corte, e imaginava que as coisas não teriam mudado em menos de um ano, ainda mais depois que soube que os pais dela continuavam viajando muito. Eu e Vanessa tínhamos ficado algumas vezes ao longo dos anos, o suficiente para que ela me visse com bons olhos mas não para que ficasse surpresa ou chateada se eu aparecesse na festa dela com outra garota.
— Adrian? — ela exclamou, abrindo caminho pelo jardim lotado atrás da casa dos pais. — É você mesmo?
— Em carne e osso. — Dei um beijo na bochecha dela. — Vanessa, essa é Charlotte. Charlotte, Vanessa.
Vanessa examinou Charlotte de cima a baixo e arqueou uma sobrancelha, surpresa. Era uma típica menina da alta sociedade e, embora provavelmente considerasse essa festa “casual”, seu vestido sem dúvida era da coleção primavera-verão de algum estilista famoso. Seu penteado e maquiagem deviam ter custado mais do que toda a roupa de Charlotte, que era apropriada para um trabalho de secretária mas, na melhor das hipóteses, devia ter vindo da arara de uma loja de departamentos. Isso não me incomodava nem um pouco, mas dava pra ver que Vanessa a estava julgando. Charlotte também notou e ficou retorcendo as mãos, nervosa.
Por fim, Vanessa deu de ombros e abriu um sorriso sincero para Charlotte.
— É um prazer conhecê-la. Todos os amigos de Adrian são bem-vindos aqui... ainda mais se você conseguiu tirar o cara da toca. — Vanessa fez um beicinho que sem dúvida praticara centenas de vezes no espelho para deixar ainda mais adorável. — Por onde andou? Sumiu do mapa.
— Assuntos ultrassecretos do governo — eu disse, tentando deixar a voz sinistra mas alta o bastante para ser ouvida sobre a música alta. — Queria contar mais, meninas, mas quanto menos souberem, melhor. Pensem que estou fazendo isso pelo bem de vocês.
As duas riram, mas a piada garantiu que eu fosse bem recebido, e Vanessa nos guiou para dentro.
— Vão entrando e peguem alguma coisa pra beber. Conheço um monte de gente que vai ficar feliz em te ver.
Charlotte se aproximou de mim enquanto atravessávamos aquele mar de gente.
— Acho que esse lugar não é pra mim.
Passei o braço ao redor dela para desviá-la de um cara que balançava os braços exageradamente enquanto contava alguma história maluca.
— Vai ficar tudo bem. Juro que essas pessoas são exatamente iguais a todo mundo que você conhece.
— As pessoas que conheço não comem camarão em pratos de porcelana caríssimos enquanto bebem champanhe com a outra mão como se isso fosse normal.
— Tecnicamente — eu disse —, aquilo não é camarão, mas pitu, e aposto que essa nem é a porcelana mais cara da mãe dela.
Charlotte revirou os olhos mas não teve chance de dizer mais nada porque já tinham espalhado a notícia de que Adrian Ivashkov tinha voltado. Pegamos nossas bebidas e sentamos em cadeiras perto de um laguinho japonês, para onde as pessoas foram em massa falar com a gente. Alguns eram amigos com quem eu vivia saindo antes de ir para Palm Springs. Outros estavam só atraídos pelo segredo do meu longo desaparecimento. Nunca tivera problemas em atrair amigos, mas um passado misterioso me deixou popular como nada que pudesse ter inventado.
Deixei escapar que Charlotte também era usuária de espírito e não impedi que os outros concluíssem que ela fazia parte das operações clandestinas em que eu estava envolvido. Fiz questão de apresentá-la para algumas das pessoas menos fúteis que eu conhecia na esperança de que saísse da festa com alguns bons conhecidos. Quanto a mim, assumi um papel que não assumia fazia séculos, e me senti praticamente um rei na minha própria corte. Uma coisa que aprendera ao longo dos anos era que a autoconfiança tinha um forte efeito nas pessoas e que, se você agisse como se merecesse a atenção delas, elas acreditavam. Fazia meses que não flertava tanto e fazia tantas piadas, e fiquei surpreso com a facilidade com que voltei a fazer isso. A atenção era inebriante, mas, como em todo o resto, me sentia vazio sem Sydney na minha vida. Logo me peguei moderando o álcool com o passar da noite. Por mais que adorasse a válvula de escape que a bebida me proporcionava, estava decidido a procurar Sydney de novo antes de ir para a cama. Para isso, precisava estar sóbrio.
— Ora, ora, veja só quem voltou — uma voz inoportuna disse de repente. — Achei que não teria coragem de aparecer em público depois da última vez.
Wesley Drozdov, um enorme babaca, parou na minha frente, acompanhado por seus puxa-sacos, Lars Zeklos e Brent Badica. Fiquei sentado e fingi procurar alguma coisa ao redor.
— Você está falando sozinho? Não estou vendo nenhum espelho por aqui. Mas, sério, seu desempenho não foi tão ruim assim. Você não devia ficar chateado por um constrangimento bobo como aquele.
— Bobo? — Wesley perguntou. Ele deu um passo à frente e cerrou os punhos, mas me recusei a sair do lugar. Ele abaixou a voz grave. — Sabe em que tipo de encrenca me meteu? Meu pai precisou contratar um bando de advogados pra livrar a minha cara! Ele ficou furioso.
Fingi uma expressão de compaixão e falei alto, fazendo-o levar um susto:
— Eu também ficaria furioso se uma garota humana acabasse com a raça do meu filho. Ah, não, espere. Fui eu que acabei com a sua raça.
Tínhamos atraído um círculo de curiosos, como sempre acontece nessas situações, e Vanessa logo veio correndo.
— Ei, ei — ela disse. — O que está acontecendo?
— Ah, o de sempre — respondi, abrindo um sorriso sedutor. — Relembrando os velhos tempos, rindo do passado. E se tem uma coisa que aprendi é que Wesley sempre me faz rir.
— Sabe o que me faz rir? — Wesley retrucou. Ele apontou com a cabeça para Charlotte. — Sua namorada pobretona aí. Já vi essa menina antes. Ela é recepcionista no escritório do meu pai. Você prometeu arranjar um trabalho melhor pra ela se ela dormisse com você?
Senti Charlotte ficar tensa ao meu lado, mas não tirei os olhos dos caras à minha frente. Eles tinham começado como um estorvo, mas agora estavam acendendo uma fúria sombria e fora do comum dentro de mim. Encarar Wesley me fez pensar na noite em que ele e os capangas tinham tentado se aproveitar de Sydney. A lembrança do que haviam pretendido fazer a ela se misturou aos medos de todos os perigos desconhecidos que ela poderia estar enfrentando agora. Era tudo a mesma coisa, enchendo meu peito de raiva e temor.
Acabe com eles, tia Tatiana sussurrou na minha cabeça. Faça com que eles paguem.
Me esforcei para ignorar a voz dela e escondi minhas emoções o melhor que pude. Ainda com um sorriso sarcástico, disse:
— Claro que não. Ela está aqui comigo por vontade própria. Sei que deve ser um conceito estranho pra você, considerando seu histórico com as mulheres. Aliás, Vanessa, acho que o Wes estava pra contar uma história quando você chegou... sobre o bando de advogados que o pai dele teve de contratar para acobertar a vez em que ele e os amigos tentaram entreter uma humana convidada da rainha. — Fiz um gesto exagerado. — Por favor, continue. Conte como tudo se resolveu. E se eles deixaram você ficar com as drogas que queria usar nela. Pode ser útil com as garotas daqui, hein?
Quebrei o contato visual com Wesley para dar uma piscada forçada para um grupo de garotas horrorizadas que estava por perto. Tinha certeza de que as ações de Wesley não eram de conhecimento público e que não era intenção dele que as pessoas ficassem sabendo quando me abordou resmungando sobre o passado e os advogados do pai. Os humanos podiam ser inferiores aos olhos de muitos Moroi, mas entreter — o ato de drogar um humano que não era fornecedor e beber o sangue dele contra vontade — era um pecado bem feio entre a nossa raça. Humanos atraentes eram especialmente desejáveis para os canalhas que tentavam fazer isso, e Sydney tinha chamado a atenção de Wesley na última visita dela. Ele e os outros tinham tentado atacá-la pensando que eu iria ajudar. No fim, fui eu quem atacou os três com um galho de árvore até os guardiões entrarem em cena.
Não precisei das exclamações de surpresa ao nosso redor para confirmar que essa história não tinha chegado ao noticiário local. A cara de ódio de Wesley deixou isso claro.
— Seu filho da...
Ele pulou pra cima de mim, mas eu já estava esperando com o espírito pronto. Telecinesia não era uma habilidade que eu usava com frequência, mas não tive problemas.
Acabe com ele! Acabe com ele!, tia Tatiana insistiu.
Escolhi algo um pouco menos brutal. Com um pensamento, fiz um daqueles pratos caros de porcelana sobre os quais Charlotte havia comentado voar na direção de Wesley. O prato o atingiu com força na lateral da cabeça, fazendo um monte de pitus caírem em cima dele e atingindo meu objetivo duplo de dor e humilhação.
— Isso é um truque barato de usuário de ar! — ele rosnou, tentando avançar na minha direção de novo. O ataque perdeu parte do impacto já que ele ainda estava tirando os pitus da cara.
— E esse? — perguntei. Virando a mão de leve, fiz Wesley parar no meio do caminho. Os músculos do seu corpo e do seu rosto ficaram tensos conforme ele mandava os membros se moverem, mas a energia do espírito os bloqueava. Teria sido difícil para um usuário de ar alcançar esse nível de imobilidade completa, e não era fácil para mim também, já que não estava completamente sóbrio e não tinha muita experiência com essa habilidade. Porém, o efeito valeu a pena, a julgar pela cara de espanto de todos. Reuni o que me restava do espírito para parecer ainda mais carismático para as pessoas ao redor. Era impossível compelir uma multidão, mas, usado corretamente, o espírito podia me tornar muito mais cativante.
— Da última vez, vocês perguntaram se eu não era um grande usuário de espírito malvado — comecei. — A resposta é sim. E realmente não gosto quando babacas como você incomodam uma garota, seja ela humana ou Moroi. Então, se quiser se mexer de novo, primeiro vai pedir desculpas pra minha linda amiga aqui. Depois pra Vanessa, por arruinar a festa dela, que estava ótima até vocês darem as caras e desperdiçarem os pitus.
Era um blefe. Usar telecinesia para prender uma pessoa inteira exigia uma quantidade gigantesca de espírito e eu já estava esgotado. Wesley, porém, não sabia disso, e estava com medo da imobilidade.
Por que parar por aqui?, tia Tatiana perguntou. Pense no que ele fez com Sydney!
Ele não conseguiu fazer nada com ela, eu a lembrei.
Não importa! Ele tentou machucar sua garota. Precisa pagar por isso! Não basta congelá-lo com espírito! Use a magia para esmagar o crânio dele! Ele precisa sofrer! Ele tentou ferir Sydney!
Por um momento, as palavras dela e a tempestade emocional que crescia no meu peito ameaçaram tomar conta de mim. Ele realmente tinha tentado ferir Sydney e, embora eu não pudesse impedir as pessoas que a mantinham presa agora, poderia impedir Wesley. Poderia fazer com que pagasse, sofresse por ter cogitado machucar minha namorada, garantir que nunca mais conseguisse...
— Desculpe — Wesley disse de repente para Charlotte. — Você também, Vanessa.
Hesitei por um momento, dividido entre o olhar desesperado em seu rosto e os apelos de tia Tatiana, aos quais meu lado sombrio queria ceder. Logo a decisão foi tomada por mim. Não conseguiria segurar o espírito por mais tempo nem se quisesse. Perdi o controle sobre ele e Wesley caiu com força no chão. Ele se levantou às pressas e recuou rápido, Brent e Lars indo atrás feito os dois bajuladores que eram.
— Isso não vai ficar assim — Wesley ameaçou, se sentindo corajoso depois que ganhou distância. — Você acha que é intocável, mas não é.
Você demonstrou fraqueza, disse tia Tatiana.
— Vai embora — Vanessa mandou. Ela fez um sinal para alguns amigos fortes, que tiveram o maior prazer em acompanhar Wesley até a porta. — E nunca mais apareça numa festa minha!
A julgar pelos murmúrios dos outros, Wesley e seus amigos não seriam mais bem-vindos em nenhuma festa por muito tempo. E quanto a mim? De repente era uma estrela ainda maior do que antes. Não só estava envolvido em mistérios como também tinha usado o poder pouco compreendido do espírito para botar um sedutor barato no lugar. As meninas da festa adoraram. Até os caras aprovaram. Eu tinha mais convites e amigos do que nunca antes na vida — o que não era pouco.
Mas estava exausto. O sol estava prestes a nascer no horizonte e eu ainda estava acostumado ao horário humano. Recebi os elogios o mais humildemente possível e tentei abrir caminho até a porta, prometendo a todos que os veria logo. Nesse momento, Charlotte veio ajudar, me guiando através da multidão, assim como eu a guiara antes, e insinuando que eu precisava tratar de alguns assuntos oficiais.
— O único assunto que tenho a tratar agora é com meu travesseiro — eu disse com um bocejo quando conseguimos sair da casa de Szelsky. — Estou quase dormindo em pé.
— Aquilo foi magia pesada — ela disse. — Nem tinha visto você parar de beber. Está se controlando, hein.
— Se pudesse, viveria bêbado o tempo todo — admiti. — Mas tenho que ficar sóbrio algumas vezes por dia. É... é difícil explicar e nem posso, na verdade, mas tem uma coisa que preciso fazer e, pra isso, tenho que estar com o espírito e a cabeça no lugar. Foi sorte o Wesley aparecer naquela hora. Eu não teria sido tão impressionante se a briga tivesse sido no braço.
Charlotte sorriu.
— Confio em você. Aposto que teria sido incrível.
— Obrigado. Sinto muito pelo que ele falou pra você.
— Tudo bem — ela disse, encolhendo os ombros. — Estou acostumada.
— Isso não significa que seja certo — eu disse.
Certa vulnerabilidade em seus olhos mostrou que eu tinha acertado em cheio, e aqueles comentários a tinham machucado profundamente.
— É... quer dizer, as pessoas não costumam falar as coisas tão descaradamente, mas já vi essa atitude no trabalho. Mas você tinha razão em relação à festa. Algumas pessoas não eram tão ruins quanto pensei. — A voz dela ficou subitamente tímida. — E obrigada... obrigada por me defender.
Suas palavras e a pequena vitória sobre Wesley me deram mais autoconfiança do que eu sentia havia semanas. Meu humor, que andava imerso nas trevas e numa autoestima baixa por tanto tempo, melhorou de repente. Eu não era um inútil completo. Podia não conseguir encontrar Sydney ainda, mas era capaz de fazer coisas pequenas. Não podia desistir da luta.
Quem sabe minha sorte não mudaria naquela noite? Mal podia esperar para levar Charlotte até a casa dela, voltar para a minha e procurar Sydney.
Mas, quando tentei, ficou claro que minha sorte continuava igual nesse campo. Nada de Sydney. Aquele humor inebriante desapareceu, mas, pelo menos, estava tão exausto que tive pouco tempo para me odiar pelo fracasso. Caí no sono logo depois e dormi até quase metade do dia vampírico seguinte, enquanto meu corpo tentava entender que horário eu estava seguindo.
Quando acordei, havia uma mensagem da minha mãe no celular, me lembrando do jantar mais tarde. Quando fui checar a secretária eletrônica da suíte, encontrei milhões de mensagens dos meus novos “amigos”. Pouca gente sabia o número do meu celular, mas alguns convidados tinham descoberto em que prédio de hóspedes eu estava e mandado mensagens. Eu teria eventos sociais por meses.
Mas naquele dia só um importava. Meus pais. Não pelo meu pai, mas minha mãe havia se esforçado para me buscar. Tinha se esforçado por mim em várias coisas, na verdade, então era minha obrigação parecer respeitável na frente dos seus amigos. Fiquei sóbrio durante o dia e fiz coisas sem graça como lavar roupa em vez de aceitar os convites que tinha recebido — incluindo um de Charlotte. Por mais que gostasse dela e tivesse me divertido em sua companhia, uma voz interior me avisou que seria mais prudente manter distância.
Cheguei à casa dos meus pais dez minutos antes de o jantar começar, usando um terno recém-passado e as abotoaduras de tia Tatiana, e fui recebido pelo meu pai com seu mau humor de sempre.
— Ora, Adrian, o que quer que a rainha queira tratar com você deve ser importante.
O comentário me pegou de surpresa até minha mãe entrar correndo na sala, glamorosa em um vestido verde-esmeralda.
— Ah, Nathan, querido, não tente arrancar segredos de Estado do nosso filho. — Ela pôs a mão no meu braço e deu uma risada breve e controlada. — Seu pai não me deixa em paz desde que a rainha me permitiu trazer você de volta para sua missão aqui. Falei pra ele que só queria te ver, mas ele tem certeza de que sei mais do que estou dizendo.
Finalmente entendi e lancei um olhar agradecido para ela quando a atenção do meu pai se voltou para outra coisa. Ela não havia contado que me encontrara num estupor alcoólico na Califórnia, me salvando de mim mesmo e de uma descida ao fundo do poço. Tinha deixado ele pensar que viajar comigo era só um gesto maternal impulsivo e até usara isso como uma oportunidade para aumentar minha reputação. Eu não fazia questão de esconder meus comportamentos vergonhosos do meu pai, mas precisava admitir que a vida ficava muito mais fácil quando ele não tinha o que esfregar na minha cara. Dizer que estava orgulhoso de mim seria um exagero, mas definitivamente parecia satisfeito por enquanto, o que tornou a noite suportável.
Os convidados do jantar eram membros da realeza que eu havia encontrado algumas vezes ao longo dos anos. Não sabia muito sobre eles, mas meus pais pareciam preocupados em impressioná-los. Minha mãe, que nunca, em toda a sua vida, havia cozinhado nada com as próprias mãos, supervisionara todos os detalhes do trabalho do cozinheiro, fazendo questão de que cada prato ficasse perfeito, tanto em termos da harmonização com o vinho como na disposição da comida. Depois de um dia de bom comportamento (e de procurar Sydney pouco antes de ir para o jantar), me permiti experimentar um gole do vinho e, embora não pudesse identificar a região ou o tipo de solo, pude perceber que meus pais não haviam economizado.
Logo entendi por quê: essa era a primeira tentativa deles de reingressar na alta sociedade depois que minha mãe voltara da prisão. Ninguém os havia convidado para nada desde o retorno dela, então eles estavam fazendo o gesto inaugural, decididos a mostrar à realeza Moroi que Nathan e Daniella Ivashkov eram companhias dignas. Isso se estendia a mim também, pois meus pais ficaram fazendo menções aos “assuntos importantes” em que eu estava envolvido. Minha relação com Jill e o esconderijo dela eram ultrassecretos — nem eles sabiam desses detalhes —, mas a pesquisa de Sonya para criar a vacina era famosa e todos estavam curiosos para saber mais.
Expliquei o melhor que pude, usando termos leigos e evitando revelar grandes segredos. Todos pareceram impressionados, especialmente meus pais, mas foi um alívio quando a atenção foi desviada de mim. O jantar continuou com uma conversa sobre política, que achei razoavelmente interessante, e assuntos da alta sociedade, que não achei nem um pouco interessantes. Nunca tinha gostado muito dessas coisas, mesmo antes dos acontecimentos em Palm Springs que mudaram minha vida. Não me importava com pontuações de golfe, promoções de trabalho ou futuras festas. Porém, ciente do meu papel, mantive o sorriso educado durante o restante do jantar e me contentei bebendo mais daquele vinho fino. Quando os últimos convidados foram embora, pude ver que tínhamos conquistado todos e que Daniella Ivashkov seria recebida de volta na sociedade como tanto queria.
— Bom — ela disse com um suspiro, afundando num sofá recém--estofado. — Ouso dizer que foi um sucesso.
— Você agiu bem, Adrian — meu pai acrescentou. Vindo dele, era um elogio e tanto. — Temos alguns problemas a menos com que nos preocupar agora.
Terminei o vinho do Porto que tinha sido servido com a sobremesa.
— Não diria que não ser convidado para o chá anual de verão da Charlene Badica seria um “problema”, mas fico feliz em ajudar.
— Vocês dois ajudaram a reparar os danos que causaram a esta família. Espero que continuem assim. — Ele levantou e se espreguiçou. — Vou para o meu quarto. Vejo vocês de manhã.
Já fazia uns trinta segundos que ele tinha saído quando suas palavras entraram na minha cabeça embebida de vinho.
— O quarto dele? O quarto não é seu também?
Minha mãe, ainda arrumada após o longo jantar, cruzou as mãos sobre o colo com elegância.
— Na verdade, querido, estou dormindo no seu antigo quarto agora.
— Meu... — Me esforcei para entender. — Espere. É por isso que me mandou pro prédio de hóspedes? Achei que tinha dito que eu precisava do meu espaço.
— E precisa. Mas... enfim, desde que voltei, seu pai e eu chegamos à conclusão de que as coisas correriam melhor se levássemos vidas separadas... sob o mesmo teto.
A voz dela era tão tranquila que ficava difícil apreender a gravidade da situação.
— O que isso significa? Vocês vão se divorciar? Estão separados?
Ela franziu a testa.
— Ai, Adrian, que palavras horríveis. Além do mais, pessoas como nós não se divorciam.
— E pessoas casadas não dormem em quartos separados — argumentei. — De quem foi a ideia?
— De ambos — ela disse. — Seu pai condena o que fiz... e a vergonha que isso causou a todos nós. Ele chegou à conclusão de que não pode me perdoar por isso e, pra ser sincera, não vejo mal em dormir sozinha.
Eu estava pasmo.
— Então se divorcie e fique sozinha de verdade! Se ele não pode te perdoar por agir por impulso pra salvar seu próprio filho... Enfim, nunca fui casado, mas não acho que é assim que um bom marido age. Não é assim que se trata a pessoa que você ama. E não entendo como você consegue amar alguém que a trata desse jeito.
— Querido — ela disse como uma risadinha —, amor não tem nada a ver com isso.
— Tem tudo a ver — exclamei. Baixei a voz logo em seguida, com medo de atrair meu pai de volta para a sala. Não estava preparado para isso. — Não há motivo para casar ou continuar casado sem amor.
— É complicado — ela disse no tom de voz que usava comigo quando eu era criança. — Tem a questão do status. Não ficaria bem para nenhum de nós se nos separássemos. Além disso... Bom, minhas finanças estão ligadas às do seu pai. Assinamos um acordo quando nos casamos, e, se nos divorciássemos, eu não teria como me sustentar.
Me levantei de um salto.
Eu sustento você, então.
Ela me olhou nos olhos.
— Como, querido? Com seu curso de arte? Sei que a rainha não paga pela sua ajuda... embora devesse pagar.
— Arranjo um emprego. Qualquer emprego. Pode não ser fácil no começo, mas pelo menos você não teria que se humilhar! Não precisaria ficar aqui, presa ao dinheiro e às críticas dele, fingindo que isso é amor!
— Ninguém está fingindo nada. Isso é a coisa mais parecida com amor que dá para ter num casamento.
— Não acredito nisso — disse. — Sei o que é amor, mãe. Tive um amor que ardia todas as fibras do meu corpo, que me fazia querer ser uma pessoa melhor e me dava forças pra passar por todos os momentos do dia. Se você já tivesse sentido alguma coisa assim, teria se agarrado a ela com todas as forças.
— Você só diz isso porque é jovem e não sabe das coisas. — Ela estava tão insuportavelmente calma que só me deixava mais nervoso. — Pensa que amor é uma relação irresponsável com uma dampira, só porque é emocionante. Ou está se referindo àquela menina por quem estava se lamentando no avião? Cadê ela? Se seu amor consome tudo e pode triunfar sobre todas as coisas, por que vocês não estão juntos?
Boa pergunta, disse tia Tatiana.
— Porque... não é assim tão fácil — eu disse, entredentes.
— Não é assim tão fácil porque não é real — ela respondeu. — Os jovens confundem essas paixõezinhas com “amor verdadeiro”, mas isso não existe. Amor entre mãe e filho? Isso existe. Mas essa ilusão do amor que vence tudo? Não se engane, meu filho. Esses seus amigos que tiveram romances grandiosos vão acabar descobrindo a verdade. Essa sua garota, onde quer que esteja, não vai voltar. Pare de correr atrás de uma fantasia e procure alguém com quem possa construir uma vida junto. Foi isso que seu pai e eu fizemos... e ouso dizer que sempre funcionou bem pra nós.
— Sempre? — perguntei, com a voz fraca. — Vocês sempre viveram essa farsa?
— Bom... — ela admitiu. — Algumas fases do nosso casamento foram mais... amigáveis do que outras. Mas sempre fomos pragmáticos em relação a tudo.
— Sempre foram frios e vazios em relação a tudo — retruquei. — Você disse que, quando saiu da prisão, entendeu as coisas que realmente importavam. Pelo jeito não, se está disposta a viver essa farsa, com um homem que não te respeita, por status e dinheiro! Nenhuma segurança vale isso. E me recuso a acreditar que é o máximo que posso esperar do amor. Existe mais do que isso. Eu vou ter mais do que isso.
Os olhos da minha mãe pareciam tristes ao encarar os meus.
— Então onde ela está, querido? Onde está sua garota?
Eu não tinha uma boa resposta para ela. Só sabia que não aguentava mais ficar lá. Saí da casa batendo a porta, surpreso com as lágrimas nos meus olhos. Nunca havia pensado nos meus pais como pessoas românticas e poéticas, mas achava que existia algum tipo de afeto entre eles, apesar — ou talvez por causa — de suas personalidades difíceis. Ouvir que era uma farsa, que todo amor era uma farsa, não poderia ter acontecido em um momento pior.
Claro, não era nisso que eu acreditava. Sabia que existia amor verdadeiro no mundo. Tinha sentido esse amor na pele... mas as palavras da minha mãe doeram porque eu estava vulnerável; porque, apesar da minha popularidade na Corte ou das minhas boas intenções, não estava nem perto de encontrar Sydney. Meu cérebro não acreditava na minha mãe, mas meu coração, tão cheio de medos e dúvidas, temeu que as palavras dela tivessem algum grau de verdade, e o peso sombrio e melancólico do espírito só piorou as coisas. Me fez duvidar de mim mesmo. Talvez eu nunca encontrasse Sydney. Talvez nunca encontrasse amor nenhum. Talvez desejar muito uma coisa não bastasse para fazer com que ela acontecesse.
O clima tinha esfriado lá fora e um vento fresco prometia chuva. Parei de repente e tentei contatar Sydney, mas o vinho do jantar tinha reduzido meus poderes. Desisti e peguei o celular em vez disso, optando por um meio mais simples de comunicação. Charlotte atendeu no segundo toque.
— E aí? — ela disse. — Como não ouvi notícias suas, pensei que... enfim, deixa pra lá. Como você está?
— Melhor. Quer fazer alguma coisa hoje?
— Claro. O que você está planejando?
— Qualquer coisa — respondi. — Pode escolher. Tenho milhões de convites. A gente pode se divertir a noite toda.
— Você não precisa parar em algum momento? — ela brincou, sem saber como estava perto de tocar num ponto sensível. — Achei que tinha dito que precisava ficar sóbrio de vez em quando.
Pensei na minha mãe, aprisionada num casamento sem amor. Pensei em mim, aprisionado e sem opções. E pensei em Sydney, simplesmente aprisionada. Era demais, e não havia nada que eu pudesse fazer a respeito.
— Hoje não — eu disse para Charlotte. — Hoje não.

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