19 de outubro de 2017

Capítulo 6

Sydney

EU NÃO SABIA HÁ QUANTO TEMPO ESTAVA DORMINDO quando me vi envolvida pelo sonho de espírito.
O peristilo repleto de colunas da Getty Villa se materializou ao meu redor, e a luz do sol brilhava sobre a fonte enorme. Naqueles sonhos, o sol não afetava Adrian. Olhei ao redor e o encontrei encostado num pilar, as mãos no bolso enquanto me observava com aquele seu sorriso malandro. Por um momento, fiquei deslumbrada por ele e pela forma como a luz do sol iluminava seu rosto e seu cabelo. Era de tirar o fôlego. Ele poderia ser uma das obras de arte clássica daquele lugar.
Então lembrei que Adrian não deveria estar ali. Fui até ele e o puxei pela gola da camiseta.
— Ei! O que está fazendo? Pensei que tínhamos concordado em parar com os sonhos!
— Você concordou. Eu nem cheguei a aceitar sua aposta de me surpreender.
— Mas eu… — Parei e repassei, palavra por palavra, nossa conversa de antes, quando desferi o golpe da pílula anticoncepcional. Ele realmente não tinha dito que abandonaria a ideia do sonho se eu o pegasse de surpresa. — Você me enganou.
— Não fiz nada desse tipo. Se tem uma vítima aqui, sou eu depois que você soltou aquela notícia torturante da pílula. Como vou conseguir fazer alguma coisa agora? — Ele me deu um longo beijo antes de continuar. — A Belezinha entregou o baclava?
— Sim, mas não pense que vai comprar meu perdão com isso.
Ele me puxou para outro beijo.
— Você já me perdoou.
Finalmente conseguimos nos separar, mas Adrian continuou com o braço na minha cintura. A luz do sol realçava os tons castanhos de seu cabelo, e aquela pele clara que antes representava algo assustador e sobrenatural agora me parecia maravilhosa. Seus traços se endureceram com uma resolução.
— Pronta para chamar o Robin Hood? — ele perguntou.
A menção a Marcus me afastou daqueles pensamentos carnais e me lembrou da descoberta que eu estava prestes a fazer, e também da situação perigosa em que nos encontrávamos. Adrian era um mestre em me fazer esquecer dessas coisas.
— Você não deveria fazer isso — adverti.
— Já estou fazendo — ele disse, alegre. — Então vamos acabar logo com isso.
Ele me soltou e se concentrou no horizonte, com os olhos verdes muito focados enquanto tentava encontrar Marcus no mundo dos sonhos. Havia uma grande chance de não funcionar. Marcus poderia estar acordado. Ou Adrian poderia não conhecê-lo bem o suficiente. Dos usuários de espírito que eu conhecia, Adrian era o que melhor sabia caminhar entre sonhos, mas algumas coisas nem ele conseguia fazer.
No entanto, depois de quase um minuto de silêncio tenso, vi surgir uma luz do outro lado do pátio. Aos poucos, foi se expandindo para a figura de um homem e, de repente, Marcus estava diante de nós.
Tinha a mesma aparência de sempre, com seu cabelo loiro na altura do ombro e a tatuagem azul sobre o lírio dourado já desbotado. Parecia muito confuso, o que era compreensível. Na primeira vez que Adrian me invocara, achei que estava em um sonho normal e, aos poucos, fui percebendo que havia alguma coisa errada.
— É bom ver você de novo, Marcus — eu disse para ele.
Ele franziu a testa e examinou as próprias mãos, tocando-as como se esperasse que não tivessem substância.
— Isso é de verdade?
— Mais ou menos — Adrian disse.
— Você está num sonho de espírito — expliquei.
Marcus pareceu incrédulo por um momento, mas logo seu olhar ficou maravilhado.
— Uau. — Ele olhou ao redor. — Onde estamos?
— Malibu — eu disse, surpreendendo-o ainda mais. — Onde você está? No México?
Ele desviou o olhar da construção ao nosso redor.
— Sim, mas logo mais a gente volta. Amelia e Wade fizeram a tatuagem, e fiquei sabendo de uns rebeldes que precisam de mim no Arizona. Só estamos esperando um cara que vai nos ajudar a atravessar a fronteira. É sempre mais difícil entrar do que sair.
Marcus estava na lista de mais procurados dos alquimistas. Todo alquimista que saísse do controle já era ruim, mas um que trabalhasse para recrutar outros rebeldes era prioridade. Com seus muitos contatos, Marcus precisava tomar cuidado extra em suas movimentações, ainda mais em lugares de segurança máxima como as fronteiras.
Então ele se tocou de que aquela não era uma visita social.
— O que aconteceu? Você está bem? — Parecia temer que eu não estivesse. Apesar de todas suas peculiaridades, havia ficado sinceramente preocupado por me deixar para trás.
— Por incrível que pareça, sim. Tenho uma coisa que pode ajudar você. — Fiz uma pausa dramática igual às que ele vivia fazendo. — Acho que consigo fabricar a tinta que você usa para selar as tatuagens.
O queixo dele caiu.
— Mas… mas é impossível.
— Ah, é? — Adrian ironizou. — Ela invadiu uma fortaleza alquimista de segurança máxima e caçou você. Acha que não conseguiria fazer o mesmo que um cara qualquer que você encontrou?
Marcus não teve argumento contra isso e voltou a fixar os olhos em mim.
— Você tem a tinta azul?
— Não exatamente. Não consigo achar o mineral que seu amigo provavelmente usa, mas acho que conheço outros que podem servir.
— Você “acha” — ele repetiu.
— Não é o mineral que importa. Quer dizer, importa um pouco. Mas o processo de fabricar a tinta é o mais importante, e eu sei como funciona. — Não era exatamente verdade. Eu entendia os princípios, mas ainda precisava testá-los. Torci para que Marcus não pedisse detalhes. Embora ele aceitasse muitas coisas estranhas, eu não sabia exatamente qual seria sua reação ao meu envolvimento com magia.
Ele pensou um pouco e então abriu um sorriso arrependido.
— Se existe alguém capaz de fazer isso, é você.
— Pense no que isso pode significar — eu disse, animada com a descoberta. — Se conseguíssemos fazer a tinta em massa, você poderia falar com mais gente. Também não precisaria viajar. Economizaria tempo e poderia fazer muito mais.
Adrian, tomando cuidado para manter distância de mim, riu.
— Não acho que Marcus veja problema em viajar. Praias e margaritas, certo?
Marcus o encarou.
— Não é pra isso que viajo. E quem é você pra falar alguma coisa?
Uma tensão hostil encheu o lugar de repente. Eles já haviam saído no braço certa vez, depois de Marcus ter me dado um soco por causa de um mal-entendido. Adrian não tinha gostado nada daquilo e, embora tivesse aceitado que havia sido um engano, eu sabia que o incidente ainda o incomodava muito.
— Ei, foco, pessoal — retruquei. — Não temos tempo pra isso.
Eles se encararam intensamente por mais alguns segundos agonizantes e, então, Marcus voltou a olhar para mim e relaxou os punhos, que eu não havia percebido que estavam cerrados.
— Então, quando vai saber se consegue produzir a tinta?
Boa pergunta. Eu tinha aprendido muitas coisas com minha pesquisa rápida, mais ainda precisava descobrir outras. Além disso, precisaria de tempo longe de Zoe para trabalhar na tinta. Embora ainda conseguisse alegar que estava saindo para realizar projetos para a sra. Terwilliger, sabia que Zoe estava começando a achar que essas excursões eram frequentes demais. Ela poderia não ter suspeitas sobre magia, mas sempre havia o risco de contar para nosso pai que eu estava mais concentrada nas minhas aulas falsas do que na missão.
— Uma semana. Talvez duas — eu disse, com mais confiança do que sentia.
Marcus franziu a testa e assentiu devagar.
— Acho que até lá já estarei de volta. Preciso de mais informações do meu contato. Pode me avisar na semana que vem e dizer como estão indo as coisas?
Hesitei.
— Seria melhor se você conseguisse me ligar…
— Sem problemas — Adrian disse, ignorando meu olhar incisivo. — Desde que você esteja dormindo a essa hora, e não ocupado demais em festas na praia.
Ele sabia tão bem quanto eu que Marcus era obrigado a ficar em esconderijos nessas viagens.
— Ótimo — eu disse. — Vamos entrar em contato.
Adrian tomou isso como uma despedida e mandou Marcus embora.
— Sempre um prazer.
— Não devia ter feito isso… mas, enfim, obrigada. Ajudou bastante — admiti. Novamente a sós, Adrian me envolveu em seus braços.
— Faria qualquer coisa por você, Sage. Passe em casa amanhã e vou considerar a dívida paga.
Fiquei arrepiada, tanto pela sugestão como pela maneira como a mão dele subiu pelo meu quadril e brincou com a barra da minha camiseta. Naqueles sonhos, as coisas pareciam reais. Muito reais.
— Não posso — admiti. — Preciso usar esse tempo para conseguir ajuda da sra. Terwilliger.
A decepção nos olhos dele sumiu tão rápido que quase acreditei que a havia imaginado. O sorriso malandro que ele abriu fez parecer que não havia nada de errado no mundo. Era o jeito de Adrian e o motivo de tão poucos saberem dos tormentos que fervilhavam dentro dele.
— Bom, então, acho que vai ter mais tempo pra pensar em mim — ele disse. — Porque claro que é isso que você faz secretamente em vez de trabalhar.
— Claro — eu disse, rindo. Depois de longos beijos de despedida, desapareci rumo a um sono real.
Quando cheguei ao estudo independente no dia seguinte, a sra. Terwilliger estava esperando com o casaco e as chaves em mãos.
— Primeiro para o Spencer’s — ela disse, seca. — Está sendo um dia daqueles.
— A gente não tem tanto tempo — protestei. Além disso, ir para o meu café favorito era uma tortura nos últimos tempos.
— Podemos conversar no caminho — ela disse.
Ela foi fiel à sua palavra, explicando no carro alguns dos aspectos mais pragmáticos da mecânica de feitiços e da manipulação de elementos.
— É uma arte complicada, trabalhar com eles na forma mais pura — ela refletiu. — Ao mesmo tempo simples e infinitamente complexa. — Igual meu relacionamento com Adrian.
Quando entramos no Spencer’s, torci para que meu amigo Trey Juarez estivesse atrás do balcão. Então lembrei que, tecnicamente, ainda era horário escolar e que nem todo mundo podia sair mais cedo como eu. Entre Adrian e Zoe, eu estava com pouco tempo para conversar com Trey ultimamente. Nossos horários haviam mudado naquele semestre, então não tínhamos mais nenhuma aula em comum. Eu não sabia se a distância era uma coisa boa ou ruim. Havia muitas coisas complexas acontecendo na vida dele, coisas que influenciavam a minha vida — porque Trey tinha nascido em um grupo de caçadores de vampiros.
Eles se chamavam Guerreiros da Luz e diziam que seu objetivo era destruir os Strigoi, mas, assim como os alquimistas, também não viam os Moroi e dampiros com bons olhos. Trey tinha sido expulso do grupo depois de, sem querer, ter me ajudado a acabar com um ritual maluco de assassinato que eles estavam realizando. Por um tempo, ficara triste por ser banido, ainda mais por causa da pressão do pai.
Então, uma coisa mudou.
Trey se apaixonou por Angeline.
De todas as coisas inacreditáveis em que já estive envolvida, essa foi a que mais me pegou de surpresa. O drama era ainda mais complexo porque, tecnicamente, Angeline ainda namorava Eddie na época, que, por sua vez, havia dado uma chance a ela depois de decidir que seu amor por Jill não daria em nada, pois nunca seria digno dela. A relação de Eddie e Angeline havia acabado de repente quando ele descobriu que as sessões de monitoria dela com Trey haviam virado sessões de pegação. Ficar com um humano não era um conceito tão estranho para Angeline, tendo crescido entre os Conservadores. Trey não ficou tão tranquilo quando percebeu quantos princípios dos guerreiros estava violando; além disso, sentia-se culpado por Eddie. Eu tinha quase certeza de que Trey ainda nutria sentimentos por ela. Quanto a Angeline, era mais difícil dizer. Assim como Jill, ela parecia ter entrado para o fã-clube de Neil. Adrian dizia que as duas estavam fingindo gostar dele e eu não conseguia nem começar a entender por quê.
Dizer que meus amigos estavam vivendo uma novela mexicana era um eufemismo. Eles quase faziam minha relação perigosa com Adrian parecer monótona.
A única vantagem era que todos pareciam estar em modo de espera. Os princípios divididos de Trey o mantinham longe de Angeline. A firmeza de propósito de Eddie o mantinha longe de todos, e o mesmo servia para Neil. E, enquanto Neil permanecesse fiel a essa postura, Jill e Angeline não teriam o que fazer. Seria bom se todos tivessem um final feliz, mas, por mais egoísta que fosse da minha parte, eu precisava admitir que minha vida era muito mais fácil sem todo esse drama.
Embora Trey não estivesse atrás do balcão naquele dia, eu conhecia o barista que estava lá. O nome dele era Brayden, e havíamos saído por um tempo. Mesmo naquela época, ele parecia um pouco frio e excêntrico, e, agora, vivendo altas emoções com Adrian, mal conseguia entender como havia pensado que o que Brayden e eu tínhamos fosse um relacionamento. Não havia nenhuma paixão com Brayden, nenhum momento de tirar o fôlego e, sem dúvida, nenhum toque que me deixasse em chamas. Pensando agora, os pontos altos de sair com ele foram os cafés grátis e uma conversa particularmente interessante sobre a queda do Império Romano.
— Oi, Sydney — ele disse. Já tínhamos nos encontrado ali algumas vezes e as coisas foram bem civilizadas, ainda mais depois que Trey me contou que Brayden tinha uma namorada nova. “Quase tão inteligente quanto você”, Trey havia dito. “Mas bem menos bonita.”
Respondi com um sorriso:
— Como vão as coisas?
— Bem, bem. Acabei de sair da aula e descobri que meu trabalho sobre as implicações psicossociais dos experimentos associativos de Pavlov me fez ganhar uma bolsa. — Ele pegou um copo para mim. — Latte de baunilha light?
Olhei para o copo, melancólica.
— Chá de menta.
— Vai ficar tudo bem — a sra. Terwilliger disse, depois de pedir um cappuccino triplo, o que, aliás, foi bem cruel da parte dela. — Você não poderia tomar cafeína mesmo. — Ela tinha razão, já que eu pretendia usar magia mais tarde. — Força.
— É verdade — uma voz atrás de mim disse. — Nada fortalece o caráter como um teste de autocontrole.
Dei meia-volta, completamente despreparada para quem estava atrás de nós na fila.
— Wolfe? — Levei um susto. — O senhor… o senhor sai de casa?
Malachi Wolfe, instrutor e proprietário da Escola de Defesa Wolfe, me lançou um olhar gélido com seu único olho.
— Claro que saio. De que outro jeito compraria coisas?
— N-não sei. Imaginei que o senhor mandasse entregar.
— Algumas coisas eu mando — ele concordou. — Mas preciso vir aqui pessoalmente comprar grãos integrais de torra francesa. Os cachorros adoram.
Embora fizesse sentido que ele saísse do terreno desolado que chamava de lar, um café moderninho simplesmente não era onde eu esperava encontrar Wolfe. Adrian e eu havíamos feito o curso de defesa pessoal dele alguns meses antes e, por mais bizarro que tivesse sido, havíamos aprendido algumas dicas úteis. O próprio Wolfe era uma visão e tanto, com seu longo cabelo grisalho e seu tapa-olho.
— Hum-hum — a sra. Terwilliger pigarreou. — Não vai nos apresentar, Sydney?
— Hein? — Eu ainda estava perplexa por Wolfe estar usando calça jeans, e não a bermuda de sempre. — Ah. Esse é Malachi Wolfe. Foi com ele que eu e Adrian fizemos aquele curso de defesa pessoal. Wolfe, essa é minha professora de história, a sra. Jaclyn Terwilliger.
— É um prazer — ela disse.
A sra. Terwilliger foi cumprimentá-lo, mas, em vez de apertar sua mão, ele fez uma reverência exagerada e deu um beijo na mão dela.
— Não, não, acredite em mim. O prazer é todo meu.
Para meu horror total e absoluto, ela não puxou a mão de volta quando Wolfe não a soltou.
— Você também é professor, então? — ela perguntou. — Pensei ter sentido uma afinidade quando o vi.
Ele fez que sim, solene.
— Não existe objetivo mais elevado do que educar e formar as mentes dos jovens para a grandeza.
Achei que isso já era exagero, considerando que pelo menos metade das aulas dele envolviam histórias sobre como tinha escapado de piratas na Nova Zelândia e lutado contra um bando de corvos-presa-de-gancho. (Quando comentei que essa espécie de pássaro não existia, ele insistiu que o governo estava escondendo a existência deles.) Adrian e eu estávamos tentando montar uma linha do tempo das supostas aventuras de Wolfe, porque tínhamos quase certeza de que era impossível que elas tivessem acontecido como ele dizia.
— O que traz as senhoritas aqui hoje? — Wolfe perguntou. Ele olhou ao redor. — E onde está seu rapaz?
— Quem? Ah, o senhor está falando de Adrian? — perguntei como se não fosse nada. — Acho que ainda está na aula. Ele estuda arte em Carlton.
Wolfe ergueu as sobrancelhas.
— Arte? Sempre achei que ele fosse meio maluco, mas não sabia que era um caso perdido.
— Ei, ele é muito talentoso! Foi muito elogiado por um projeto de multimídia que fez.
— E o que era? — Wolfe não parecia nada convencido.
— Uma obra usando o monólito de 2001 como símbolo da evolução da humanidade para um mundo de publicidade e mídia social.
O bufo de desprezo de Wolfe deixou claro o que ele achava da ideia.
— Malditos universitários idealistas.
— É genial — insisti.
— Sydney — a sra. Terwilliger disse. — É um pouquinho exagerado.
Nem consegui formular uma resposta às palavras traiçoeiras dela. Wolfe, porém, não perdeu a chance.
— Se gosta de arte, deveria ver a exposição no estaleiro de San Diego. Eles recriaram uma batalha da Guerra Civil só com facas Bowie.
Abri a boca para responder, não consegui pensar em nenhuma resposta, e então a fechei. Os olhos da sra. Terwilliger se iluminaram.
— Parece fascinante.
— Quer ir comigo? — ele perguntou. — Vou de novo neste fim de semana. Pela quinta vez.
Enquanto eles trocavam números de telefone, olhei de soslaio para Brayden, que estava segurando nossas bebidas com o queixo caído, sem conseguir tirar os olhos dos dois. Pelo menos eu não era a única a ter aquela reação. Peguei o Celular do Amor e escrevi uma mensagem para Adrian.
Encontrei o Wolfe. Ele chamou a sra. T para sair.
A resposta de Adrian foi mais ou menos o que eu esperava: ...
Então, dei o golpe de misericórdia: E ELA ACEITOU.
Adrian ainda não conseguiu passar dos sinais de pontuação: ?!?
No caminho de volta para Amberwood, eu ainda estava sem palavras, o que era agravado pelo ar apaixonado da sra. Terwilliger.
— Professora — eu disse, por fim. — A senhora acha mesmo que sair com ele é uma boa ideia? Da última vez que contei, ele tinha onze chihuahuas.
— Melbourne — ela disse, voltando a usar o antigo apelido —, não faço nenhuma crítica às suas escolhas amorosas discutíveis. Então não questione as minhas.
O flerte com Wolfe havia consumido mais uma parte do nosso tempo, mas, pelo menos, ela aproveitou nossos últimos vinte minutos. Juntamos algumas carteiras e nos debruçamos sobre um dos livros de Inez, ao lado de um pequeno pote de terra. Ela apontou para um diagrama no livro que representava um palmo com quatro montinhos de terra dispostos em formato de diamante.
— Na verdade, não há um encantamento para isso — ela disse, salpicando a terra na minha mão no formato certo. — É um daqueles feitiços mais meditativos. Só que você não está tentando atingir um resultado concreto, mas se ligar à essência da terra. Qual é a primeira coisa que vem à cabeça quando você pensa em terra?
— Não usar branco.
Ela apertou os lábios, mas não perdeu o fio da meada.
— Entre em um transe e pense em tudo o que a terra é no mundo e na função que ela representa nos feitiços que você conhece.
Eu sabia entrar em transe para lançar feitiços, mas comungar com uma substância era um pouco mais difícil. Mesmo assim, fechei os olhos e me concentrei na respiração, entrando em um estranho estado em que minha mente ficava ao mesmo tempo vazia e concentrada. A terra na minha mão era fria e imaginei florestas úmidas, cobertas por névoa, como o Parque Nacional de Redwood, no norte, onde as árvores se ancoravam na terra e o cheiro de terra úmida pairava por toda a parte. A terra propriamente dita nem sempre estava presente em feitiços, mas muitas coisas em que ela se escondia estavam: joias, plantas e…
— Abra os olhos — a sra. Terwilliger disse, baixinho.
Abri e vi uma leve luminescência cercando a mão que segurava a terra.
— Tente colocar na outra mão e segurar.
A luz não tinha substância e eu precisava contê-la com a força da mente. Virei a mão e a luz caiu na outra. O brilho começou a vazar por entre os dedos, dissipando-se no ar. Fechei a mão, tentando segurar aquelas últimas faíscas de luz.
A porta da sala se abriu e levantei de um salto, perdendo todo o controle mental do resto de luz.
— Sydney? — Zoe colocou a cabeça para dentro.
— Entre, Ardmore — a sra. Terwilliger disse com frieza, fechando o livro sem olhar para baixo. — Mas, da próxima vez, faça a gentileza de bater na porta antes.
Zoe ficou vermelha com a repreensão.
— Mil desculpas. Eu estava ansiosa para ver Sydney. — Ela não ficou ofendida, mas envergonhada. Assim como eu, havia sido criada com regras muito rígidas de etiqueta e educação. Seus olhos passaram pela carteira. A sra. Terwilliger havia tomado o cuidado de virar a capa do livro para baixo, mas dava para ver minhas mãos sujas de terra. — O que vocês estavam fazendo?
A sra. Terwilliger pegou o livro e a tigela e caminhou até sua mesa, enquanto eu limpava as mãos.
— Sendo bobas e sentimentais. Peguei um pouco de terra do Partenon na minha viagem para a Grécia ano passado e guardei como lembrança. Fiquei encantada com a ideia de ter alguma coisa que tinha estado presente durante todo o avanço de uma grande civilização.
Era uma história mirabolante, mas muito menos estranha que tentar extrair a magia da essência da terra. Engoli em seco e tentei continuar com a mentira.
— Sim, e você sabe o quanto quero ir para a Grécia, Zo. Pensei que, talvez, se tocasse nessa terra, teria alguma ligação com a história. — Soltei uma risadinha nervosa. — Mas era só terra.
A sra. Terwilliger também riu.
— Nós duas temos cada fantasia romântica, Melrose. Algum dia você vai ter que ver por si mesma. Por enquanto, isso vai voltar para minha coleção. — Com reverência, ela colocou a tigela no escaninho.
Antes de entrarmos, eu a tinha visto pegar aquela terra de um dos canteiros de flores de Amberwood.
Zoe estava com a testa franzida, mas finalmente assentiu porque, sério, o que mais ela poderia fazer?
— Certo… Então, já que acabou a aula, eu estava pensando se você queria sair pra fazer algumas coisas comigo. A gente não tem passado muito tempo juntas e preciso de tênis novos para a educação física. Os que eu trouxe estão velhos. Ninguém precisa da gente hoje. — A indireta era clara para mim. Não havia fornecimentos na mansão de Clarence e Jill ficaria na escola, protegida e em segurança.
Deu para sentir que a sra. Terwilliger estava me observando, esperando minha deixa. Se eu dissesse que tinha algum projeto para fazer para ela, ela concordaria. Mas Zoe tinha razão em um ponto: a gente não vinha passando muito tempo juntas. Isso não só levantava suspeitas sobre minhas ausências como também prejudicava minha relação com ela. Afinal, ela era minha irmã e eu a amava. Queria ter uma boa relação com ela. Queria que as coisas fossem como antigamente, embora isso parecesse cada vez mais impossível a cada dia que passava. Pelo menos um passeio no shopping seria uma coisa normal entre irmãs, apesar de, por dentro, não ser o que eu sentia.
— Você tem sorte — Zoe disse quando estávamos perto do shopping. O sensor de ponto cego do carro havia acabado de apitar. — Ele sempre fala quando tem um carro atrás. Na autoescola tínhamos que olhar nós mesmos. Aqueles carros eram uma porcaria.
Não pude deixar de rir.
— É sempre bom dar uma olhada, mesmo que não dirija uma porcaria. Costumo ver os outros carros antes de o sensor apitar.
Ela soltou um suspiro chateado.
— Queria dirigir. Eu tinha acabado de tirar a carteira provisória em Utah.
— Você não pode dirigir sem um responsável nem lá nem na Califórnia — eu a lembrei.
— Pois é. — Ela relaxou no assento, parecendo quase uma menina normal, e não parte de uma organização antiga e ramificada que acobertava o mundo sobrenatural. — Alguém poderia mexer uns pauzinhos na burocracia e tornar você minha guardiã. Quer dizer, de que outro jeito eu conseguiria uma carteira de motorista? A menos que alguém simplesmente faça uma falsa para Zoe Ardmore. Sou uma boa motorista.
— Você vai ter que perguntar para o papai — eu disse, sentindo uma pontada de culpa. Na verdade, não seria tão difícil usar contatos alquimistas para conseguir uma coisa do tipo. Mas se fizéssemos isso sem confirmar com nosso pai antes, era provável que ele nos desse uma bronca e, se pedíssemos para ele… enfim, algo me dizia que ele acharia desnecessário. — Se ele mesmo não sugeriu, deve querer que você se concentre em aprender as coisas. O trabalho é prioridade.
Ela não podia argumentar contra isso. Depois de olhar para os carros por um longo tempo, disse:
— Por falar em prioridades… você já pensou que o que está fazendo com a sra. Terwilliger talvez não seja bom?
Congelei, embora soubesse que não teria como ela estar falando de magia.
— Como assim?
— Não sei. É só que você já terminou o ensino médio. Está aqui para fazer o trabalho alquimista, mas parece que está levando as aulas bem a sério, especialmente a dela. Parece pessoal também, como se vocês fossem amigas. Quer dizer, falar sobre viagens? Não seria um problema se fosse só no horário letivo, mas você vive fazendo trabalhos pra ela que não parecem trabalhos. Nada contra querer amigos ou um tempo social… mas você não pode fazer isso à custa da missão. O que o papai diria?
Fiquei em silêncio e pensei por um tempo antes de responder.
— Você tem razão. Preciso tomar cuidado. É que é difícil quando falamos da Grécia, já que eu quero tanto ir pra lá. Adoro as histórias dela. Mesmo assim, não justifica meu comportamento. Acho que às vezes me esqueço disso quando está tudo tão tranquilo com Jill e os outros. Preciso fazer alguma coisa pra passar o tempo e definitivamente não quero ficar com eles.
— Você poderia ficar comigo — ela disse, esperançosa. Olhei para ela por um bom tempo e abri um sorriso.
— Vou ficar. Vamos fazer mais coisas, e não só conversar sobre a missão. Sair da escola assim é uma boa ideia. Vou tentar fazer isso mais vezes, mas não quero parecer muito desinteressada nas aulas. Não posso arriscar problemas por estudar menos. — Na verdade, os professores gostavam tanto de mim que era bem possível que eu conseguisse matar o resto do semestre.
No entanto, Zoe acreditou na história e pareceu animada com a ideia de uma relação mais próxima. O mais importante foi que não voltou a mencionar nosso pai. Assim como ela, ele não suspeitaria de magia, mas também não gostaria que eu tivesse uma vida pessoal. Selei o acordo dizendo:
— Vamos parar pra tomar sorvete depois de comprar o tênis. Quem sabe a gente encontra um de noz-pecã.
Ela abriu um sorriso com a referência a um velho restaurante perto de onde a gente cresceu. O cardápio sempre dizia: “Pergunte sobre nosso sorvete especial do dia”. Mas, todo dia, era de noz-pecã. Quando meu pai comentou com a dona, que era uma velhinha, ela deu de ombros e disse: “Não consigo encontrar nada mais especial. Por que mudar?”. Tinha virado uma piada entre a gente e até uma espécie de tradição familiar. Enquanto tomávamos nossas casquinhas no restaurante, tive uma ideia súbita.
— Você quer mesmo dirigir? — perguntei.
O brilho nos olhos dela respondeu antes que abrisse a boca.
— Sim! Vai tentar me arranjar uma carteira?
Fiquei mastigando uma noz-pecã, com a cabeça a mil.
— Então, sabe, o objetivo da provisória é praticar antes de ter a carteira definitiva.
— Mas eu não preciso…
Lancei um olhar severo de irmã mais velha.
— Regras são regras, e elas existem por um motivo. Não posso emitir sua carteira definitiva, mas, se quiser, pode praticar numa propriedade privada, como estacionamentos e tal. Acompanhada por um motorista com carteira — acrescentei.
Ela pensou na ideia e então fez que sim, ansiosa.
— Tudo bem, eu topo. A gente vai se divertir.
— Então — eu disse, com delicadeza. — Talvez eu não consiga praticar sempre com você, porque ainda estou atarefada com as coisas na escola. Mas a gente pode encontrar outra pessoa.
— Quem?
Era a hora da verdade. Eu tinha dois motoristas com carteira à minha disposição: Eddie e Neil. As meninas pareciam achar o sotaque de Neil encantador, mas eu não estava procurando alguém para encantar Zoe. Precisava de alguém que fosse acessível e simpático para mostrar a ela que nem todos os dampiros eram criaturas perversas da noite.
— Eddie — respondi.
Os olhos dela se arregalaram.
— Eddie? Mas ele é um…
— Eu sei, mas é um bom motorista. Quer dizer, se quiser esperar até eu ter tempo… — Fiz uma pausa significativa. — Vou entender. Você não vai conseguir praticar tanto assim, mas não é como se a gente fosse sair daqui tão cedo, né?
Ela ficou em silêncio e terminei minha casquinha. Tinha certeza que a minha atuação havia sido impecável. Ela não fazia ideia de que minha sugestão era algo além de preocupação de irmã. Agora era o momento de ver se eu era tão inteligente quanto pensava.
Eu vinha pensando nisso fazia um tempo, em como fazer com que ela começasse a ver os dampiros e Moroi com outros olhos. As barreiras dela eram muito fortes e eu sabia que não conseguiria obrigá-la a se envolver ou acreditar em alguma coisa que não quisesse. Mas dirigir? Isso ela queria e, se entrasse nessa achando que a decisão havia sido dela, talvez houvesse a chance de quebrar as regras rígidas que haviam sido inculcadas na sua cabeça. Era uma esperança fugaz, mas eu precisava arriscar. Afinal, tinha sido assim comigo: uma série de acontecimentos me obrigou a trabalhar com os Moroi e dampiros, e a entendê-los de verdade. Além disso, gostava de acreditar que minha capacidade de pensar por conta própria havia desempenhado um papel.
— Está bem — Zoe disse, finalmente. — Vou tentar. Mas promete ficar junto na maior parte do tempo?
Fiz que sim, solene.
— Pode deixar.
Ela relaxou um pouco e ficou girando o resto da casquinha na mão.
— Acho que é uma coisa boa ele ser dampiro. Pelo menos eles parecem humanos.
— Pois é — eu disse, tentando esconder um sorriso. Eu havia dito a mesma coisa quando fui obrigada a viajar com Rose Hathaway pela Rússia. Aquele plano era tão maluco que poderia dar certo. — Parecem mesmo.

3 comentários:

  1. Eu li a sinopse do próximo livro e levei um baita spoiler, agora to com raiva da Zoe e achando a Sydney muito ingénua por acreditar que a Zoe possa ser como ela... Acho que a Zoe como a mãe dela mesmo disse, é muitp parecida com o pai :x

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Meu não acredito, com esse seu comentário já conseguir deduzir o que vai acontecer, e muito obrigada por me avisar, e eu te abomino Zoe!!!

      Excluir
    2. Aiai, Carla...
      Bom, Sydney era assim também, lembra? Foi aprendendo aos poucos a conviver com eles. Quem sabe Zoe também não aprenda com a irmã? O problema é o medo que ela tem do pai, o respeito que quer ganhar dele... Sydney tem que mostrar quem ele é de verdade

      Excluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)