13 de outubro de 2017

Capítulo 6

SEGUI DIREITINHO AS INSTRUÇÕES da sra. Terwilliger. Não tirei a granada em nenhum momento, nem mesmo enquanto dormia ou tomava banho. Durante a aula na manhã seguinte, deixei a pedra embaixo da camiseta para evitar perguntas. Não era evidente que se tratava de um amuleto mágico, mas sem dúvida chamava a atenção. Para minha surpresa, a sra. Terwilliger não apareceu no primeiro horário, o que me levou a pensar que talvez estivesse investigando por conta própria.
— A sra. T está em alguma missão secreta?
Tive um sobressalto e percebi que estava perdida em meus pensamentos. Ao me virar, encontrei Trey agachado ao lado da minha carteira. A aula ainda nem tinha começado e uma professora substituta com ar confuso estava tentando entender o caos da mesa da sra. Terwilliger. Trey sorriu com a minha surpresa.
— Q-quê? — perguntei. Será que ele havia descoberto sobre Veronica? Tentei manter a calma. — Por que diz isso?
— Estava só brincando — ele respondeu. — É o segundo ano em que faço uma matéria com ela e ela nunca perdeu uma aula sequer. — Ele me lançou um olhar confuso. — A não ser que você saiba de alguma coisa que eu não sei.
— Não — respondi automaticamente. — Estou tão surpresa quanto você.
Trey ficou me examinando por alguns momentos. Éramos bons amigos em Amberwood, embora houvesse um pequeno probleminha entre nós. A família dele estava ligada aos Guerreiros da Luz. No mês anterior, os guerreiros haviam tentado matar Sonya num ritual bárbaro. Trey havia sido um dos competidores pela “honra” de executá-la, embora tivesse desistido do combate no último minuto. Eu tentara apelar aos guerreiros para libertar Sonya, mas eles não me deram ouvidos. Nós duas fomos salvas quando um grupo armado de dampiros apareceu e derrotou os guerreiros. Stanton havia ajudado a orquestrar a invasão, mas não tinha se dado ao trabalho de me informar que eu seria usada como distração. Era parte do que havia alimentado minha desconfiança em relação a ela e aos alquimistas.
Trey havia levado a culpa por ter me envolvido no ritual e os guerreiros o baniram — assim como a seu pai. Da mesma forma que eu sempre fui pressionada pelos alquimistas, Trey teve a doutrina dos guerreiros incutida dentro dele durante toda a vida. Seu pai sentia tanta vergonha pelo banimento que quase não falava mais com ele.
Eu sabia como Trey desejava a aprovação do pai, e que esse silêncio era mais doloroso para ele do que a punição dos guerreiros.
Nossas lealdades dificultavam as coisas. Quando eu tentara insinuar que havia questões mal resolvidas entre nós, ele me respondeu com um sorriso triste. “Não precisa se preocupar”, Trey me dissera. “Não estou escondendo nenhum plano secreto de você porque não sei mais de nenhum. Eles não nos dizem mais nada. Acham que não sou mais um deles. Fui expulso para sempre e seria preciso um milagre para aceitarem a minha família de volta.” Algo em seus olhos castanhos me dizia que, se ele encontrasse esse milagre, o agarraria com todas as forças. Eu tinha tentado perguntar a respeito disso, mas ele não queria discutir mais sobre o assunto. “Quero ser seu amigo, Melbourne”, ele dissera. “Gosto de você. Nunca vamos resolver nossas diferenças. Melhor ignorá-las, já que precisamos nos ver todo dia.”
O surpreendente era que nossa amizade conseguia sobreviver a todo esse drama. A tensão sempre estava lá, pairando oculta entre nós, mas tentávamos ignorá-la. Claro que, embora ele soubesse do meu envolvimento no mundo dos vampiros, não fazia ideia de que, nos bastidores, eu estava tendo aulas de magia com a nossa professora de história.
Se ele achou que eu estava mentindo sobre a ausência da sra. Terwilliger, não insistiu no assunto. Apontou com a cabeça para a substituta.
— A aula de hoje não vai dar em nada.
Desviei os pensamentos de toda a intriga mágica. Depois de estudar em casa durante a maior parte da vida, alguns detalhes do mundo letivo “normal” ainda eram um mistério para mim.
— Como assim?
— Normalmente os professores deixam um plano de aula para os substitutos, com a matéria que eles precisam dar. Vi o plano que a sra. Terwilliger deixou. Dizia: “Distraia os alunos”. — Trey meneou a cabeça fingindo solidariedade. — Tomara que você consiga lidar com esse desperdício de tempo acadêmico. Quer dizer, é provável que ela diga: “Façam a lição de casa”. Mas ninguém vai fazer.
Ele estava certo. Não sabia se conseguiria lidar com aquilo.
— Por que não?
Ele pareceu se divertir imensamente com a pergunta.
— Melbourne, às vezes você é o único motivo para eu vir para a aula. Aliás, vi o plano que ela deixou para o seu estudo independente também. Dizia que você nem precisa ficar na escola. Estará livre para fazer uma loucura.
Eddie, que estava sentado por perto, ouviu a conversa e zombou:
— Vai para a biblioteca?
Os dois riram, mas minha mente já estava girando com as possibilidades. Se realmente não precisasse assistir à última aula, estaria livre para sair do campus mais cedo. Poderia ir para Los Angeles procurar Veronica e... não. Adrian ainda não tinha voltado. Por um momento, considerei fazer a investigação sem ajuda da magia dele, mas as advertências da sra. Terwilliger ecoaram na minha cabeça. A caçada teria de esperar.
Mas eu ainda poderia procurar Marcus Finch.
Eram duas horas de viagem até Santa Bárbara, o que significava que eu teria tempo suficiente para ir até lá, investigar Marcus e voltar tranquilamente antes do toque de recolher da escola. Eu não estava pensando em procurar por ele até o fim de semana, mas percebi que não deveria perder a oportunidade. A missão da sra. Terwilliger também me afligia, mas não havia nada que eu pudesse fazer até que Adrian voltasse naquela noite.
Marcus Finch era um mistério para mim desde que eu descobrira que ele era um ex-alquimista. Me dar conta de que eu poderia encontrar algumas respostas naquele mesmo dia fez meu coração acelerar. Uma coisa era suspeitar que os alquimistas estivessem escondendo informações de mim. Outra completamente diferente era aceitar que eu poderia estar prestes a ter essas suspeitas confirmadas. Na verdade, era um tanto assustador.
Com o passar do dia, fui ficando cada vez mais decidida a fazer a viagem. Precisava enfrentar aquilo cedo ou tarde, e seria melhor acabar com a dúvida de uma vez por todas. Afinal, tudo o que eu sabia era que Marcus estivera em Santa Bárbara. Ele poderia já ter saído de lá. Eu não queria repetir o feitiço, se pudesse evitar.
De fato, quando apareci para o que normalmente seria meu estudo independente ao fim do dia, a professora substituta (parecendo extremamente cansada depois de um dia seguindo os passos da sra. Terwilliger) me disse que eu estava livre para ir embora. Agradeci e corri para o alojamento, ciente de que o tempo estava passando. Não sabia exatamente o que esperar em Santa Bárbara, mas queria estar preparada para qualquer eventualidade.
Troquei o uniforme de Amberwood por calça jeans e uma blusa preta lisa. Depois me ajoelhei e tirei de debaixo da cama uma grande caixa de metal. À primeira vista, parecia um kit de maquiagem. No entanto, tinha uma fechadura complexa que exigia uma chave e uma combinação numérica. Dentro eu guardava uma coleção de substâncias químicas alquimistas, que, caso fosse encontrada, provavelmente me levaria a ser expulsa do colégio, uma vez que parecia um kit para produção de drogas ilegais. Para falar a verdade, alguns dos compostos eram realmente suspeitos.
Peguei alguns itens básicos. Um era uma fórmula normalmente usada para dissolver corpos de Strigoi. Eu não estava esperando encontrar nenhum Strigoi em Santa Bárbara, mas o composto também poderia ser usado para desintegrar metal facilmente. Escolhi mais algumas misturas, como uma que poderia criar uma nuvem de fumaça digna de um espião, e as embrulhei com cuidado antes de colocá-las na bolsa. Então tranquei a caixa outra vez e a enfiei embaixo da cama.
Depois de considerar por um momento, respirei fundo e peguei outra caixa escondida. Essa era nova na minha coleção. Continha vários amuletos e poções que eu havia feito sob as instruções da sra. Terwilliger. Olhando para o conteúdo dela, senti meu estômago se revirar. Nem nos meus sonhos mais loucos eu teria imaginado que um dia viria a ter um kit como aquele. No começo, só criava talismãs sob as ordens dela. Agora, tinha feito vários por livre e espontânea vontade, e, se o que ela havia dito sobre a irmã era verdade, logo precisaria fazer mais. Muito relutante, peguei alguns e os embrulhei como havia feito com as substâncias alquimistas. Hesitei um momento e então coloquei alguns no bolso, para acesso rápido.
O trajeto para Santa Bárbara era tranquilo àquela hora do dia. Dezembro havia refrescado o clima quente do sul da Califórnia, mas o sol ainda estava forte, fazendo parecer mais quente do que realmente estava. E, conforme me aproximava da costa, o deserto foi dando lugar a um clima mais ameno. As chuvas aumentavam no centro e no norte do estado naquela época do ano, tornando a paisagem verde e exuberante. Eu gostava de Palm Springs e de Amberwood, mas não ligaria se a missão de Jill nos tivesse levado mais para o norte.
Encontrar a antiga Missão de Santa Bárbara não foi difícil. Era uma atração turística bastante famosa e muito fácil de avistar quando se chegava perto. A grande igreja era exatamente como eu tinha visto no feitiço, exceto pelo fato de estar iluminada pelo sol vespertino e não pelo cair da noite. Estacionei na rua de um bairro residencial e levantei os olhos para aquela obra-prima de estuque e terracota. Queria ter tempo para visitá-la, mas, como sempre acontecia, meus desejos pessoais precisavam ficar em segundo plano em relação a um objetivo maior.
Agora vinha a parte mais difícil: descobrir onde poderia ser a quitinete que eu tinha visto. O quarteirão em que estacionei dava para uma vista da igreja parecida com aquela do feitiço. Entretanto, os ângulos não eram exatos, e aquela rua só tinha casas. Eu tinha quase certeza de que o lugar que tinha visto ficava num prédio residencial. Mantendo a igreja no meu campo de visão, dirigi por algumas ruas e encontrei o que queria: um quarteirão com complexos de apartamentos.
Um dos prédios parecia chique demais. O apartamento que eu vira era simples e antigo. Os outros dois naquela rua pareciam candidatos mais prováveis. Estacionei perto deles e caminhei ao redor, tentando imaginar como poderia ser o ângulo visto de uma janela mais alta. Era uma pena não ter conseguido ver o estacionamento durante o feitiço. Teria me dado uma ideia melhor do lugar. Depois de pensar muito, finalmente deduzi que o apartamento ficava no terceiro ou quarto andar. Como um dos prédios só tinha dois andares, tive uma ideia melhor de qual seria o lugar certo.
Ao entrar no prédio, fiquei contente por ter colocado antisséptico na bolsa. O saguão parecia não ter sido varrido havia mais de um ano. As paredes estavam sujas, e a tinta, lascada. Havia um pouco de lixo espalhado pelo chão. Teias de aranha dependuravam-se em alguns cantos, e rezei para que as aranhas fossem os únicos habitantes rastejantes e repulsivos do lugar. Se visse uma barata, era provável que saísse correndo em disparada.
O prédio não tinha um porteiro que eu pudesse interrogar, então chamei uma senhora de meia-idade que estava de saída. Ela parou, me olhando desconfiada.
— Oi — eu disse, esperando não parecer uma ameaça. — Estou tentando encontrar um amigo, mas não sei em que apartamento ele mora. Você o conhece? O nome dele é Marcus. Ele tem uma tatuagem azul no rosto. — Ao notar o rosto inexpressivo dela, repeti a pergunta em espanhol. Ela pareceu entender, mas, quando terminei a pergunta, sua única resposta foi um curto não com a cabeça. Nem tive tempo de mostrar a foto.
Passei a meia hora seguinte fazendo a mesma pergunta sempre que via moradores entrando ou saindo do prédio. Fiz isso do lado de fora, preferindo uma área pública iluminada àquele interior imundo. Algumas pessoas eram meio suspeitas, e alguns homens me lançaram olhares de que definitivamente não gostei. Estava prestes a desistir quando um menino se aproximou de mim. Ele parecia ter uns dez anos e estivera brincando no estacionamento.
— Conheço o homem que você está procurando — ele me disse em inglês. — Mas o nome dele não é Marcus. É Dave.
Considerando a dificuldade para encontrar Marcus, não era uma grande surpresa ele estar usando um nome falso.
— Tem certeza? — perguntei ao menino. Mostrei a foto para ele. — É esse aqui?
Ele fez que sim.
— É ele mesmo. Ele é bem na dele. Minha mãe diz que deve estar fazendo alguma coisa errada.
Ótimo. Era só o que me faltava.
— Você sabe onde ele mora?
O menino apontou para cima.
— No último andar, número 407.
Agradeci e entrei, subindo escadas que rangeram todo o caminho até o quarto andar. O apartamento ficava perto do fim do corredor, ao lado de outro do qual saía uma música irritante e muito alta. Bati no 407 e não tive resposta. Sem saber se o morador tinha me ouvido, bati com mais força. Nada.
Olhei para a maçaneta, considerando derretê-la com os ácidos alquimistas. Logo depois, descartei a ideia. Mesmo num prédio de reputação questionável como aquele, algum vizinho poderia ficar preocupado ao me ver invadir o lugar. Eu não queria chamar atenção. A situação estava ficando cada vez mais frustrante e eu não podia ficar ali o dia todo.
Considerei minhas possibilidades. Todos diziam como eu era inteligente. Devia haver alguma solução que funcionasse ali, mas qual? Ficar esperando no corredor não era uma opção. Não tinha como saber quanto tempo Marcus, ou “Dave”, demoraria para aparecer. E, para falar a verdade, quanto menos tempo eu passasse naquele corredor imundo, melhor. Se ao menos houvesse uma maneira de entrar que não envolvesse destruir...
Foi então que encontrei a resposta. Soltei um resmungo. Não gostava muito da ideia, mas poderia funcionar.
Saí novamente e cumprimentei o menino, que estava pulando de cima dos degraus.
— Dave estava em casa? — ele perguntou.
— Não.
Ele assentiu.
— Normalmente não está mesmo.
Pelo menos isso ajudaria meu novo plano maluco. Deixei o menino e fui até a lateral do prédio, que felizmente estava deserta. Lá, encostada à parede, estava a saída de incêndio com mais risco de desabar que eu já tinha visto na vida. Considerando a rigidez dos padrões de segurança da Califórnia, fiquei surpresa por aquilo não ter sido denunciado. Claro, mesmo se fosse, parecia improvável que o dono do prédio agisse rápido, julgando pelas condições do resto do lugar.
Depois de confirmar que ninguém estava por perto, fiquei à sombra da saída de incêndio, torcendo para que ela me ocultasse. Tirei da bolsa um dos amuletos: um colar feito de ágata e penas de corvo. Coloquei-o ao redor do pescoço e recitei um encantamento em grego. Senti o calor da magia perpassar meu corpo, mas não houve nenhuma mudança aparente. Teoricamente, eu estaria invisível para quem não estivesse me procurando. Se isso realmente havia acontecido, eu não sabia. Imaginei que descobriria se alguém passasse e me perguntasse por que eu estava entrando num apartamento pela saída de incêndio.
Quando comecei a subir, porém, quase abortei o plano. Toda a escada rangia e balançava. Os andaimes estavam tão enferrujados que eu não ficaria surpresa se eles se desintegrassem sob meus pés. Fiquei parada onde estava, tentando criar coragem para continuar. Lembrei que essa poderia ser minha única chance de encontrar Marcus. O menino no estacionamento havia confirmado que ele morava ali. Eu não podia perder aquela chance.
Engoli em seco e continuei subindo, angustiada, de andar em andar. Quando cheguei ao quarto, olhei para baixo, espantada, sem conseguir acreditar que a escada ainda estava intacta. Agora eu tinha um novo problema. Havia descoberto onde ficava o apartamento de Marcus, que era a segunda janela depois da escadaria. A distância não era tão grande, mas, sobre uma borda estreita, pareciam quilômetros. Igualmente intimidador era o fato de que eu teria que atravessar a janela. Ela estava fechada, o que fazia sentido se ele estava foragido. Eu tinha alguns amuletos capazes de derreter o vidro, mas não confiava na minha capacidade de usá-los enquanto me equilibrava em cima daquela borda estreita, o que significava que teria de testar o quão boa minha mira tinha se tornado na educação física.
Ainda ciente do estado precário da escada de incêndio, peguei uma bolsinha de pó na bolsa. Medindo a distância, atirei-a com força na direção da janela, recitando um feitiço.
E errei. A bolsinha atingiu a parede do prédio, estourando numa nuvem de poeira, e começou a corroer o reboco. Me encolhi diante da parede dissolvida. O feitiço acabou se extinguindo, mas deixou um buraco perceptível. Porém, não atravessou a parede toda e pensei que, considerando o estado do prédio, era provável que ninguém notasse.
Eu só tinha mais uma bolsinha. A vidraça era relativamente grande e eu não podia errar dessa vez. Atirei com força — e acertei. O pó atingiu o vidro, espalhando uma reação e começando a fundi-lo imediatamente. Derreteu como gelo no sol. Agora, observando ansiosa, queria que a reação continuasse o máximo possível. Precisava de um buraco grande o bastante para poder passar. Felizmente, quando parou, senti que seria suficiente — se eu conseguisse chegar até lá.
Não tinha medo de altura, mas, enquanto engatinhava pela borda, senti como se estivesse no topo de um arranha-céu. Estava com o coração na boca e pensei quais seriam as chances de sobreviver a uma queda de quatro andares. Minhas mãos começaram a suar e ordenei que parassem. Não tinha chegado até aquele ponto para elas escorregarem no último minuto.
No fim, foi meu pé que escorregou. O mundo deu uma volta, e estendi o braço desesperadamente, por pouco conseguindo segurar o lado interno da janela. Me joguei para cima e, com uma explosão de esforço movida pela adrenalina, consegui passar uma perna pela janela. Respirei fundo e tentei acalmar meu coração. Estava em segurança. Eu ia conseguir... Um momento depois, consegui passar a outra perna pela beirada, entrando no quarto.
Caí no chão; minhas pernas estavam fracas e trêmulas enquanto eu me esforçava para acalmar a respiração. Tinha sido por pouco. Se meus reflexos tivessem sido mais lentos, teria descoberto exatamente o que uma queda de quatro andares poderia fazer com o corpo humano. Por mais que gostasse de ciência, esse não era um experimento que eu estava ansiosa para realizar. Talvez passar tanto tempo perto de dampiros tivesse melhorado minhas habilidades físicas.
Depois que me recuperei, consegui examinar o ambiente. Ali estava eu, no mesmo apartamento que tinha observado na visão. Olhando para trás, avistei a igreja, e verifiquei se era o mesmo ponto de vista. Sim. Exatamente o mesmo. Lá dentro, reconheci o colchão e os poucos pertences de Marcus. Do outro lado do quarto, a porta que dava para o corredor tinha várias fechaduras novas e modernas. Dissolver a maçaneta não teria dado em nada.
— E agora? — murmurei. Eu havia conseguido entrar. Não tinha acesso a Marcus, mas, teoricamente, tinha acesso ao apartamento dele. Não sabia bem o que estava procurando, mas devia começar por algum lugar.
Primeiro, examinei o colchão, sem esperar muita coisa. Não tinha como esconder alguma coisa embaixo, como o meu. Tinha, porém, como ocultar ratos e sabe Deus mais o quê. Com cuidado, levantei um canto, sabendo que devia estar fazendo uma careta — mas não havia nada ali, vivo ou não. Meu alvo seguinte foi uma pequena pilha de roupas desordenadas. Vasculhar as roupas sujas (porque imaginava que estivessem sujas se estavam no chão) não foi muito mais promissor do que olhar sob o colchão. Um cheiro de amaciante me disse que, na verdade, aquelas peças tinham sido lavadas recentemente. Eram roupas masculinas normais, provavelmente de um jovem, o que se encaixava no perfil de Marcus. Jeans. Camisetas. Cuecas. Quase comecei a dobrá-las enquanto remexia na pilha e precisei me lembrar de que não queria deixar nenhum sinal da minha passagem. Se bem que a janela derretida era uma evidência um tanto óbvia.
Havia alguns itens pessoais perto do colchão: uma escova de dentes e um desodorante com um aroma descrito, sabe-se lá por quê, como “ fiesta oceânica”. Além de uma cadeira de madeira velha e da TV antiga, só havia outra fonte de conforto e entretenimento naquele cômodo sem graça: uma cópia gasta de O apanhador no campo de centeio.
— Ótimo — murmurei, tentando adivinhar o que isso dizia sobre alguém que não possuía nenhum outro objeto pessoal. — Marcus Finch é um intelectual pretencioso.
O banheiro era claustrofóbico e quase não havia espaço para o boxe do chuveiro, o vaso e a pia, que estava pingando. A julgar pela mancha de fungo no chão, devia espirrar muita água quando o chuveiro estava ligado. Uma grande aranha preta correu para dentro do ralo e recuei rápido.
Derrotada, fui investigar a porta estreita do único armário no apartamento. Depois de todo aquele trabalho, tinha conseguido encontrar Marcus Finch, mas não o encontrara em pessoa. Minha busca não havia dado em nada. Eu tinha pouco tempo para esperar e, sinceramente, se fosse ele e encontrasse uma janela derretida em casa, daria meia-volta e sumiria dali para sempre. Se ele fugisse, eu não teria escolha além de continuar fazendo feitiços de clarividência e...
— Ahh!
Algo pulou em cima de mim quando abri a porta do armário, e não era um rato ou uma barata.
Era um homem.
O armário era tão minúsculo que era um milagre ele caber ali dentro. Mas não tive tempo para processar a logística espacial porque seu punho disparou e me atingiu na cara.
Na minha vida, já tinha sido prensada contra paredes e mordida por um Strigoi. Mas nunca havia levado um soco e não era uma experiência que gostaria de repetir.
Cambaleei para trás, tão surpresa que demorei para reagir. O rapaz avançou contra mim, segurando meus braços e me chacoalhando enquanto se aproximava.
— Como vocês me encontraram? — ele exclamou. — Quantos outros estão vindo?
Apesar da dor que irradiava do meu rosto, consegui recuperar os sentidos. No mês anterior, tinha feito um curso de defesa pessoal com um criador de chihuahuas meio maluco que parecia um pirata. Apesar do comportamento pouco convencional de Malachi Wolfe, ele realmente havia me ensinado algumas técnicas legítimas, que me foram úteis naquele momento. Dei uma joelhada na barriga do meu agressor. Seus olhos azuis se arregalaram enquanto me soltava e caía no chão. Porém, não ficou caído por muito tempo. Com dificuldade, se reergueu e partiu para cima de mim, mas, a essa altura, eu já tinha pegado uma cadeira e a estava usando para mantê-lo afastado, como um domador de leões.
— Fique longe — eu disse. — Só quero...
Ignorando minha ameaça, ele avançou e puxou uma das pernas da cadeira, arrancando-a de mim. Depois me encurralou num canto e, apesar de alguns truques que Eddie havia me ensinado, eu não tinha confiança suficiente para dar um soco. Mesmo assim, me defendi bem quando Marcus tentou me segurar de novo. Nós nos atracamos e caímos no chão. Eu chutava e arranhava loucamente, dificultando as coisas ao máximo.
Foi só quando ele conseguiu me segurar no chão com todo o peso de seu corpo que parei de me debater. No entanto, tinha liberdade de movimento o bastante para colocar uma mão no bolso.
— Quem enviou você? — ele perguntou. — Onde estão os outros?
Não respondi. Em vez disso, tirei um pequeno frasco do bolso e abri a tampa com uma mão. Imediatamente, saiu um vapor amarelo nocivo com a consistência de gelo seco. Estendi o frasco para o rosto dele. Marcus se contorceu com repulsa, lágrimas escapando dos olhos. A substância em si era relativamente inofensiva, mas o gás agia como uma espécie de spray de pimenta. Ele me soltou e, com uma força que eu não sabia que tinha, consegui rolar para cima dele e mantê-lo no chão. Dei uma cotovelada no pulso dele e ele soltou um resmungo baixo de dor. Com o outro braço, empunhei o frasco de maneira ameaçadora, como se fosse um facão. Isso não o enganaria por muito tempo, mas, felizmente, me deu tempo para reavaliar a situação. Agora que ele estava parado, finalmente consegui dar uma boa olhada nele e fiquei aliviada ao ver que tinha atingido meu objetivo. Ele tinha um rosto bonito e jovem, com uma tatuagem azul na bochecha. Era um desenho abstrato que parecia uma treliça de meias-luas. Um tênue brilho prateado saía pelas bordas de algumas linhas azuis.
— É um prazer conhecer você, Marcus.
Então, a coisa mais surpreendente aconteceu. Com os olhos lacrimejantes, ele também estava tentando olhar direito para mim. Pareceu me reconhecer ao piscar e focar a visão.
— Sydney Sage — ele exclamou, admirado. — Andei procurando você.
Não tive tempo para ficar surpresa porque, subitamente, ouvi o clique de uma arma e senti o cano dela encostar na minha nuca.
— Saia de cima dele — ordenou uma voz. — E solte a bomba de fumaça.

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