3 de outubro de 2017

Capítulo 6

— UM APERTO DE MÃOS? — Adrian perguntou, incrédulo.
Lancei um olhar acusatório para Eddie e Angeline.
— Não existem segredos por aqui?
— Não — Angeline respondeu, com a franqueza de sempre. Eddie soltou uma risadinha. Era um raro momento de camaradagem entre os dois.
— Era para ser segredo? — ele perguntou.
Estávamos na casa de Clarence Donahue para o fornecimento de Jill e Adrian, que acontecia duas vezes por semana. Naquele momento, Jill estava com Dorothy, a empregada humana de Clarence, e também sua fornecedora. Àquela altura, eu já tolerava muitos hábitos Moroi, mas beber sangue, sangue humano, sempre me causava arrepios. Meu mecanismo para lidar com aquilo era tentar esquecer o motivo de estarmos ali.
— Não — admiti. Julia e Kristin haviam me interrogado sobre todos os detalhes dois dias antes, então acabei contando alguns. Imaginei que teria que aceitar que, depois de contar alguma coisa a elas, era inevitável que chegasse aos ouvidos de todos. E era óbvio que minha família em Amberwood já contara tudo para Adrian.
— Sério? — Adrian perguntou, ainda atônito com o jeito que meu encontro com Brayden tinha terminado. — Aperto de mãos?
Soltei um suspiro e me afundei no sofá de couro macio. Vista de fora, a casa de Clarence sempre me lembrava uma típica mansão mal-assombrada, mas por dentro era muito moderna e bem mobiliada.
— Veja bem, o que aconteceu foi que... Ah, quer saber? Esquece. Não é da sua conta. Desencana.
Mas algo em sua expressão me dizia que ele não desencanaria tão fácil.
— Com toda essa paixão ardente, é uma surpresa vocês conseguirem ficar longe um do outro — Adrian disse, inexpressivo. — Vão ter um segundo encontro?
Eddie e Angeline me encararam, na expectativa. Hesitei. Aquela era uma informação que eu ainda não tinha dado para Julia e Kristin, porque tínhamos acabado de marcar.
— Sim — respondi finalmente. — Vamos... ver moinhos de vento esta semana.
Se meu objetivo era calar a boca de todos, tinha conseguido. Os três pareciam atordoados.
Adrian foi o primeiro a falar.
— Vou supor que isso significa que ele vai levá-la para Amsterdã no jatinho particular dele. Se for isso, gostaria de ir junto. Mas não por causa dos moinhos.
— Tem um parque eólico enorme ao norte de Palm Springs — expliquei. — É um dos poucos no mundo que promove excursões abertas.
Mais olhares atordoados.
— Energia eólica é uma excelente fonte de energia renovável que pode ter um impacto imenso no futuro do país! — exclamei, irritada. — É legal.        
— Legal — Adrian disse. — Já entendi tudo. Boa brisa pra vocês, Sage.
— Isso não tem nada a ver com...
As portas de vidro da sala se abriram e Dimitri e Sonya entraram, trazendo nosso anfitrião, Clarence. Eu ainda não o tinha visto desde que chegara e esbocei um sorriso educado, feliz pela distração da minha vida “amorosa”.
— Olá, sr. Donahue — eu disse. — É um prazer vê-lo de novo.
— Hein? — O velho Moroi estreitou os olhos para mim e, depois de alguns instantes, pareceu me reconhecer. Ele tinha cabelo branco e sempre se vestia como se estivesse num jantar formal de cinquenta anos atrás. — Ah, você. Que bom que você veio, minha filha. O que a traz aqui?
— O fornecimento de Jill, senhor.
Fazíamos isso duas vezes por semana, mas a memória de Clarence já não era a mesma de antigamente. Ele já era muito dispersivo quando nos conhecemos, mas a morte do filho, Lee, parecia ter levado o velho ao limite, ainda mais porque, aparentemente, ele não acreditava na morte do filho. Mais de uma vez contamos com toda a delicadeza que Lee havia morrido, deixando de fora a parte da história com as Strigoi. Sempre que fazíamos isso, Clarence insistia que Lee tinha “dado uma saída” e que voltaria mais tarde. Dispersivo ou não, Clarence era sempre gentil e relativamente inofensivo — para um vampiro, óbvio.
— Ah, sim, claro. — Ele se acomodou na enorme poltrona e voltou o olhar para Dimitri e Sonya. — E então? Vocês conseguem consertar as fechaduras da janela? — Aparentemente eles vinham tendo uma discussão à parte antes de se juntarem a nós.
Dimitri parecia estar procurando uma maneira gentil de responder. Sua beleza estava deslumbrante como sempre; vestia jeans e camiseta, com um sobretudo de couro por cima. Eu não podia imaginar como alguém conseguia sobreviver em Palm Springs usando um sobretudo como aquele, mas acho que se alguém era capaz, esse alguém era ele. Normalmente ele usava dentro de casa, mas eu já o tinha visto com o sobretudo na rua. Eu tinha mencionado aquela escolha inusitada de roupa para Adrian algumas semanas antes: “Dimitri é muito sexy, né?”. A resposta de Adrian não fora de todo surpreendente: “Bem, sim, pelo menos de acordo com a maioria das mulheres”.
A expressão de Dimitri era a pura imagem da cortesia quando respondeu às preocupações do Clarence.
— Não acredito que haja algum problema nas fechaduras desta casa — Dimitri disse. — Todas estão muito bem fechadas.
— É o que parece — Clarence retrucou, sombrio. — Mas nunca se sabe o quanto eles estão preparados. Eu não estou tão desatualizado assim. Sei que existem várias tecnologias por aí que podem ser instaladas. Como lasers que avisam se alguém está tentando invadir sua casa.
— O senhor quer dizer um sistema de segurança? — Dimitri perguntou, arqueando a sobrancelha.
— Sim, isso mesmo — Clarence respondeu. — Vai manter os caçadores bem longe.
O surgimento desse assunto não foi exatamente inesperado. A paranoia de Clarence também havia se agravado, ainda mais, nos últimos tempos. Ele vivia sob o medo constante do que afirmava serem “caçadores de vampiros”, humanos que... bem, caçavam vampiros. Havia muito tempo, ele alegava serem eles os responsáveis pela morte de sua sobrinha, e que os relatos de que ela fora morta por um Strigoi eram falsos. Descobriu-se, no fim, que em parte ele tinha razão. A morte dela não tinha sido causada por um Strigoi, mas por Lee, numa tentativa desesperada de deixar de ser Moroi e voltar a ser Strigoi. No entanto, Clarence se recusava a aceitar isso e insistia em suas crenças sobre caçadores de vampiros. Meus argumentos de que os alquimistas não tinham registro da existência de nenhum grupo como esse desde a Idade Média eram inúteis. Por isso, Clarence estava sempre pedindo que as pessoas fizessem “verificações de segurança” na casa dele. Como Dimitri e Sonya estavam hospedados ali, essa tarefa maçante costumava recair sobre eles.
— Não sou qualificado para instalar um sistema de segurança — Dimitri disse.
— Sério? Então existe alguma coisa que você não consegue fazer?
Adrian falou tão baixo que eu, que estava sentada ao seu lado, mal consegui ouvir. Duvidei até que os outros, mesmo com sua audição excepcional, tivessem entendido o que ele havia dito. Por que Dimitri ainda o afeta tanto?, me perguntei.
— Seria preciso contratar profissionais — Dimitri continuou, dirigindo-se a Clarence —, mas imagino que o senhor não iria gostar de ter um monte de estranhos entrando e saindo da sua casa.
— É verdade — Clarence disse, franzindo a testa. — Seria muito fácil para os caçadores se infiltrarem.
Dimitri era a imagem da paciência.
— Enquanto eu estiver aqui, vou checar todas as portas e janelas diariamente, só para garantir.
— Ótimo — Clarence concordou, relaxando um pouco. — Admito que não faço muito o tipo dos caçadores. Não sou tão perigoso. Não mais, pelo menos — ele disse, rindo para si mesmo. — Mesmo assim, nunca se sabe o que pode acontecer. É melhor prevenir do que remediar.
Sonya abriu um sorriso brando.
— Tenho certeza de que tudo vai ficar bem. O senhor não precisa se preocupar com nada.
Os olhos de Clarence fitaram os dela e, após alguns instantes, lentamente ele também abriu um sorriso. Sua postura rígida relaxou.
— Sim, sim. Você está certa. Não preciso me preocupar com nada.
Senti um arrepio. Convivia com os Moroi havia tempo suficiente para entender o que acabara de acontecer. Sonya usara a compulsão — apenas um pouquinho dela — para acalmar Clarence. A compulsão, o poder de forçar sua vontade aos outros, era uma habilidade que todos os Moroi possuíam, em graus variados. A dos usuários de espírito era a mais forte, igualando-se à dos Strigoi. Usar compulsão em outras pessoas era um tabu entre os Moroi, e os que abusavam dessa habilidade sofriam graves consequências.
Supus que as autoridades Moroi fariam vista grossa por ela estar tranquilizando um velhinho ansioso, mas aquela ação, ainda que pequena, me incomodava. Sempre considerei a compulsão um dos poderes mais traiçoeiros dos Moroi. E Sonya realmente precisava tê-la usado? Ela já era tão doce e calma. Será que isso não bastaria para tranquilizar Clarence? Às vezes eu tinha a impressão de que eles usavam magia só por usar. Às vezes, me perguntava se a usavam perto de mim... sem que eu percebesse.
A insistência de Clarence sobre caçadores de vampiros sempre gerava um misto de deboche e mal-estar em todos nós. Depois que ele se acalmou (ainda que eu não aprovasse a maneira como isso tinha sido feito), conseguimos relaxar um pouco. Sonya se recostou no sofá, bebendo um coquetel de frutas que parecia perfeito para aquele dia quente. Por suas roupas sujas e seu cabelo desgrenhado, eu podia apostar que ela havia passado um tempo no jardim — mesmo assim, continuava linda. Em sua maioria, os Moroi evitavam o sol forte, mas o amor dela pelas plantas era tão grande que não se importava de correr o risco para cuidar de algumas das pobres flores abandonadas do jardim do Clarence. Um forte filtro solar podia fazer milagres.
— Não vou poder ficar muito mais tempo — ela disse. — Só mais algumas semanas, no máximo. Preciso voltar para planejar meu casamento com Mikhail.
— Quando é o grande dia mesmo? — Adrian perguntou.
Ela sorriu.
— Em dezembro. — O que me surpreendeu, até ela acrescentar: — Tem uma estufa tropical gigantesca perto da Corte, que vamos usar. É magnífica, mas na verdade isso não importa. Mikhail e eu poderíamos nos casar em qualquer lugar. O que importa é estarmos juntos. Mas, claro, se dá pra escolher, melhor que seja com toda a pompa, né?
Até eu sorri. Só mesmo Sonya para encontrar uma área verde em pleno inverno da Pensilvânia.
— Dimitri talvez fique — ela continuou. — Mas seria bom se conseguíssemos fazer algum progresso antes da minha partida. Os testes de aura até agora foram...
— Inúteis? — Adrian sugeriu.
— Eu ia dizer inconclusivos — ela respondeu.
Adrian meneou a cabeça.
— Então a gente perdeu todo esse tempo?
Sonya não respondeu; em vez disso, preferiu tomar outro gole da bebida. Eu podia apostar que não era alcoólica — afinal, Sonya não costumava se intoxicar como Adrian —, e que Dorothy me faria uma se eu pedisse. Mesmo assim, também podia apostar que seria péssimo para mim. Talvez eu devesse ver se tinha alguma Coca Diet na geladeira.
Sonya se inclinou para a frente, com um lampejo de entusiasmo nos olhos.
— Dimitri e eu estávamos conversando e percebemos que tem uma coisa óbvia que deixamos passar. Na verdade, que temos evitado, mas não ir atrás disso seria um desperdício.
— O quê? — Adrian perguntou.
— Sangue — Dimitri respondeu.
Estremeci. Não gostava quando esse assunto vinha à tona. Me lembrava exatamente do tipo de pessoas com quem eu estava convivendo.
— É óbvio que existe alguma coisa nos Strigoi restaurados que protege a sua condição... a nossa condição — Dimitri continuou. — Procuramos por sinais mágicos, mas a resposta pode estar num nível mais físico. E, de acordo com o relatório que li, as Strigoi tiveram problemas para beber o sangue de L... dele. — Dimitri estava prestes a dizer Lee, mas se conteve por respeito a Clarence. O olhar vago e alegre do velho tornava difícil perceber se ele estava entendendo alguma coisa da conversa.
— Elas reclamaram — concordei. — Mas isso não as impediu de beber.
Era possível transformar alguém em Strigoi à força se um desses vampiros macabros drenasse o sangue da vítima e então lhe desse sangue Strigoi para beber. Lee havia pedido que uma Strigoi fizesse isso com ele, mas tudo que a drenagem lhe rendeu foi sua própria morte.
— Queríamos pegar uma amostra do sangue de Dimitri e então comparar com o seu, Eddie. — Sonya disse. — O sangue pode conter todo tipo de propriedades mágicas, e talvez elas nos mostrem como combater os Strigoi.
Procurei me manter o mais inexpressiva possível, torcendo para que ninguém me notasse. O sangue pode conter todo tipo de propriedades mágicas. Com sorte, durante a conversa ninguém lembraria que meu sangue era inexplicavelmente repulsivo para os Strigoi. E, sinceramente, por que eles lembrariam? Eu nunca havia sido restaurada. Não era uma dampira. Não havia motivo nenhum para desejarem minha participação naqueles experimentos. Mas se isso era verdade, por que de repente comecei a suar?
— Podemos enviar a um laboratório para analisar a parte química e tentar ler alguma propriedade mágica também — Sonya continuou. Seu tom era de desculpas, mas Eddie não pareceu incomodado.
— Sem problemas — ele disse. — Estou à disposição. — Eu tinha certeza de que estava sendo sincero.
Para ele, perder um pouco de sangue era mil vezes mais fácil do que ficar parado sem poder fazer nada. Além disso, ele devia perder muito mais sangue no treinamento diário do que chegaria a dar àquele experimento.
— Se precisar de mais uma dampira — Angeline disse —, pode contar comigo. Eddie e eu podemos ajudá-la juntos. Formaríamos uma equipe. Sydney não precisaria mais nos acompanhar, ainda mais agora que está namorando.
Havia tantas coisas erradas no que ela disse que eu não sabia por onde começar. A convicção que Eddie havia demonstrado quanto a ceder seu sangue desapareceu ao som de “formaríamos uma equipe”.
— Vamos pensar a respeito — Sonya disse. Havia uma faísca em seu olhar, e lembrei de ouvi-la dizer que era fácil enxergar afeto nas auras. Será que conseguia detectar a paixonite da Angeline? — Por enquanto, acho melhor não atrapalhar os estudos de vocês. Como Eddie já se formou, para ele a escola não tem tanta importância, mas você não pode ficar para trás.
Angeline pareceu contrariada. Ela vinha tendo muitas dificuldades na escola, sem mencionar alguns vexames absolutos, como quando a mandaram desenhar um mapa da América Central e ela apareceu com um de Nebraska e do Kansas. Ela mantinha uma postura arrogante, mas eu sabia que Amberwood a sobrecarregava de vez em quando.
Jill se juntou a nós, parecendo reluzente e revigorada. O ideal para os Moroi era beber sangue diariamente. Eles conseguiam sobreviver nesse esquema de duas vezes por semana, mas eu percebia que Jill ia ficando cada vez mais cansada e desgastada até chegar o próximo fornecimento.
— Adrian, sua vez — ela disse.
Ele estava bocejando e pareceu sobressaltado ao ser notado. Não achei que estivesse muito interessado nos experimentos com sangue de que Sonya estava falando. Ao se levantar, voltou os olhos para mim.
— Quer dar uma voltinha, Sage? — Antes que eu pudesse protestar, ele acrescentou: — Não se preocupe, não vou levar você para o fornecimento. Só quero fazer uma pergunta.
Assenti e o segui para fora da sala. Assim que ficamos longe dos outros, eu disse:
— Não quero ouvir mais nenhum comentário “espertinho” sobre Brayden.
— Meus comentários são hilários, não espertinhos. Mas não é sobre isso que eu queria conversar. — Ele parou no meio do corredor, em frente à porta que supus ser do quarto de Dorothy. — Então, parece que meu pai virá a San Diego a negócios no fim de semana. — Me encostei à parede e cruzei os braços, já sentindo um mau pressentimento. — É claro que ele não sabe por que estou aqui, nem mesmo que estou com Jill. Ele nem sabe em que cidade estou morando. Acha que estou curtindo a Califórnia, fazendo besteira como sempre.
Não fiquei surpresa ao descobrir que o sr. Ivashkov não sabia o verdadeiro motivo para Adrian estar ali. A “ressurreição” de Jill era ultrassecreta, assim como sua localização. Não podíamos correr o risco de que outra pessoa, mesmo alguém que não representasse uma ameaça para Jill, descobrisse onde ela estava. O que me surpreendia era Adrian se esforçar tanto para fingir que não ligava para o que o pai pensava, quando era óbvio que se importava. Sua expressão era convincente, mas havia uma amargura em sua voz que acabou por entregá-lo.
— Enfim — Adrian continuou. — Ele disse que almoçaria comigo se eu quisesse. Normalmente, eu diria que não... mas gostaria de saber como minha mãe está; ele nunca me fala nada quando ligo ou mando e-mail.
Mais uma vez percebi sentimentos conflitantes. A mãe de Adrian cumpria pena numa prisão Moroi por crimes de conspiração. Era difícil perceber pela atitude arrogante e pelo senso de humor dele, mas devia ter sido um golpe duro para Adrian.
— Me deixe adivinhar — eu disse. — Você quer meu carro emprestado?
Eu era solidária com pessoas que tinham problemas com os pais, até mesmo Adrian. Mas minha compaixão tinha limites e não se estendia ao Pingado. Não podia arriscar nenhuma batida. Além do mais, a ideia de ficar presa, sem poder dirigir por aí, me dava medo, ainda mais com vampiros envolvidos na história.
— Não, de jeito nenhum — ele disse. — Sei que você não emprestaria por nada nesse mundo.
Ah, é?
— Então o que você quer? — perguntei, surpresa.
— Queria que você me levasse até lá.
— Adrian — resmunguei —, são duas horas de viagem.
— O caminho é praticamente uma reta só — ele ressaltou. — E imaginei que você preferiria dirigir por quatro horas, ida e volta, a emprestar o carro para alguém.
Olhei para ele.
— Isso é verdade.
Ele se aproximou, com uma expressão tão sincera que me deixou desconcertada.
— Por favor, Sage. Eu sei que é pedir demais, então nem vou fingir que você vai ganhar alguma coisa com isso. Quer dizer, você pode passar o dia inteiro lá em San Diego, fazendo o que quiser. Sei que não é a mesma coisa do que ver painéis solares ou sei lá o quê com Brady, mas vou ficar devendo uma para você, em todos os sentidos. Depois te pago o dinheiro da gasolina.
— É Brayden, e onde diabos você conseguiria dinheiro para a gasolina?
Adrian vivia com uma pequena mesada que o pai lhe mandava. Esse era um dos motivos para ele assistir às aulas na faculdade, com a esperança de conseguir algum auxílio financeiro no semestre seguinte e aumentar um pouco a renda. Eu admirava aquilo, mas se todos ainda estivéssemos em Palm Springs em janeiro, significaria que os Moroi estariam com graves problemas políticos.
— Eu... eu cortaria algumas coisas para conseguir o dinheiro extra — ele disse, depois de alguns segundos de hesitação.
Não me esforcei para esconder a surpresa. “Coisas” provavelmente significavam álcool e cigarros, para onde ia a maior parte de sua minúscula mesada.
— Sério? — indaguei. — Você pararia de beber para ver seu pai?
— Bem, não para sempre — ele admitiu. — Isso seria ridículo. Mas talvez eu consiga trocar por alguma coisa mais barata por um tempo. Tipo... raspadinhas. Você não imagina o quanto eu gosto daquilo. De cereja, principalmente.
— Humm, não mesmo — eu disse. Adrian se distraía facilmente com assuntos malucos e objetos brilhantes. — São açúcar puro.
— Delícia pura, você quer dizer. Não bebo uma das boas há séculos.
— Você está fugindo do assunto — alertei.
— Ah, é. Então, mesmo que eu tenha que me alimentar à base de raspadinhas ou sei lá o quê, você vai ver a cor desse dinheiro. E isso nos leva ao outro motivo... Eu meio que estou esperando que ele aceite aumentar minha mesada. Pode até ser difícil de acreditar, mas eu odeio pegar dinheiro emprestado. Para o meu pai, é mais fácil fugir do assunto por telefone, mas cara a cara... Ele não tem como escapar. Além disso, ele acha mais “viril” e “respeitável” pedir as coisas diretamente. A clássica conduta de honra de Nathan Ivashkov.
De novo a amargura. Talvez um pouco de raiva também. Estudei Adrian por um tempo antes de responder.
O corredor estava escuro, o que lhe dava vantagem. Era provável que ele estivesse enxergando perfeitamente enquanto alguns detalhes eram difíceis para eu distinguir. Aqueles olhos verdíssimos que eu tanto admirava pareciam escuros agora. A dor no seu rosto, porém, era completamente visível. Ele ainda não tinha aprendido a esconder seus sentimentos de Jill e do laço, mas eu sabia que tentava manter aquela atitude desleixada e inconsequente para o resto do mundo... exceto para mim, nos últimos tempos. Aquela não era a primeira vez em que eu o via vulnerável, e me parecia estranho que era para mim, entre todas as pessoas, que ele expunha seus sentimentos. Será que era mesmo estranho? Talvez fosse só minha falta de traquejo social me confundindo de novo. Fosse o que fosse, aquilo mexia comigo.
— É essa a questão mesmo? Dinheiro? — perguntei, deixando de lado minhas outras inquietações. — Você não gosta dele. Deve haver alguma outra coisa.
— Em grande parte é pelo dinheiro. Mas eu estava falando a verdade antes... sobre a minha mãe. Preciso saber como ela está, e ele nunca me fala dela. Sério, ele finge que aquilo nunca aconteceu, seja para manter a reputação ou talvez... talvez porque aquilo o magoe. Não sei, mas, como eu disse, ele não poderá fugir quando estivermos cara a cara. Além disso... — Adrian desviou o olhar por um instante antes de reunir coragem para voltar a me encarar. — Não sei. É idiota. Mas achei que... bem, talvez ele ficasse impressionado por eu estar levando a faculdade a sério dessa vez. Mas provavelmente não.
Senti um aperto no coração por ele e suspeitei que essa última parte — ganhar a aprovação do pai — era muito mais importante do que Adrian conseguia admitir. Eu sabia como era ter um pai que estava sempre te julgando, e para quem nada era bom o bastante. Entendia também seus sentimentos conflitantes... Como, num dia, você poderia dizer que não se importava, e no dia seguinte ansiar por uma espécie de aprovação. E, sem dúvida, entendia seu apego à mãe. Uma das maiores dificuldades para mim em Palm Springs era a distância que eu ficava em relação à minha mãe e às minhas irmãs.
— Por que eu? — deixei escapar. Não queria tocar nesse assunto, mas de repente não consegui me conter. Havia tanta tensão ali, tanto sentimento. — Você podia ter pedido para Sonya ou Dimitri levarem você. Talvez eles até o deixassem pegar emprestado o carro alugado deles.
A sombra de um sorriso perpassou o rosto de Adrian.
— Não tenho muita certeza disso. E acho que você sabe muito bem por que eu não gostaria de ficar preso num carro com nosso amigo russo. Quanto ao resto... não sei, Sage. Tem alguma coisa em você... Você não critica como os outros. Quer dizer, critica, sim. Você é a pessoa que mais critica aqui em alguns aspectos. Mas é honesta em relação a isso. Eu me sinto... — O sorriso foi se desfazendo conforme ele buscava a palavra certa. — À vontade com você, acho.
Não tinha como refutar aquilo, apesar de eu achar irônico ele se dizer à vontade perto de mim, ao passo que eu ainda tinha ataques de pânico perto dos Moroi. Você não é obrigada a ajudá-lo, alertou uma voz dentro de mim. Você não deve nada a ele. Você não deve nada a nenhum Moroi além do estritamente necessário. Esqueceu do Keith? Isso não faz parte do seu trabalho. A imagem do abrigo subterrâneo voltou à minha memória e me lembrei de como uma transação com vampiros tinha levado Keith à reeducação. O que podia dizer de mim? A interação social era parte inevitável da minha missão, mas eu estava ultrapassando os limites outra vez.
— Certo — concordei. — Levo você. Me avise por e-mail o horário em que precisará ir.
Foi aí que veio a parte mais engraçada. Ele pareceu completamente embasbacado.
— Sério mesmo?
Não consegui conter o riso.
— Você fez todo esse discurso e realmente não esperava que eu fosse aceitar, não é?
— Não — ele admitiu, ainda visivelmente admirado. — Quando se trata de você, nunca tenho certeza. Sabe, eu trapaceio com as pessoas. Quer dizer, sou bom em ler as expressões faciais, mas percebo muita coisa pelas auras também e finjo que é graças à minha boa intuição. Mas ainda não aprendi a compreender os humanos totalmente. Vocês têm as mesmas cores, mas um quê de diferente.
Auras não me causavam tanto estranhamento quanto outras magias dos vampiros, mas eu ainda não me sentia à vontade com elas.
— De que cor é a minha?
— Amarela, óbvio.
— Por que “óbvio”?
— As de pessoas inteligentes e analíticas costumam ser amarelas. Mas você tem um pouquinho de roxo aqui e ali. — Mesmo na penumbra, pude notar uma faísca maliciosa em seu olhar. — É isso que torna você interessante.
— O que o roxo significa?
Adrian encostou a mão na porta.
— Preciso ir, Sage. Não posso deixar Dorothy esperando.
— Ah, vamos lá! O que o roxo significa? — perguntei, tão curiosa que quase o segurei pelo braço.
Ele girou a maçaneta.
— Só se você se juntar a nós.
— Adrian...
Ele entrou no quarto rindo e fechou a porta. Me recompus e comecei a voltar para a sala, mas decidi procurar minha Coca Diet antes. Fiquei na cozinha bebendo por um tempo, encostada no balcão de granito, fitando distraidamente as panelas de cobre brilhantes penduradas em cima. Por que eu tinha aceitado levar Adrian? O que havia nele que conseguia quebrar toda a retidão e lógica em torno das quais eu construíra minha vida? Eu entendia por que muitas vezes tinha um fraco por Jill. Ela me lembrava minha irmã mais nova, Zoe. Mas Adrian? Ele não se parecia em nada com ninguém que eu conhecesse. Na verdade, eu tinha quase certeza de que não havia ninguém no mundo que parecesse com Adrian Ivashkov.
Passei tanto tempo ali que, ao voltar para a sala, Adrian também estava voltando. Sentei no sofá, bebendo lentamente os últimos goles do refrigerante. Sonya abriu um sorriso ao me ver.
— Sydney, acabamos de ter uma ideia ótima.
Apesar de nem sempre ser boa em captar os sinais das pessoas, notei que essa ideia ótima era direcionada a mim, e não a mim Adrian.
— Estávamos falando sobre os relatos daquela noite do... incidente. — Ela lançou um olhar significativo para Clarence, e eu assenti, compreensiva. — Tanto os Moroi como os alquimistas disseram que as Strigoi tiveram problemas com o seu sangue também, certo?
Fiquei tensa; não estava gostando nada daquilo. Temia aquela conversa fazia semanas. As Strigoi que mataram Lee não tiveram apenas “problemas” com o meu sangue. O de Lee tinha um gosto estranho para elas. Mas o meu era repulsivo. A Strigoi que tentou beber de mim não tinha conseguido nem dar um gole. Chegou até a cuspir.
— Sim... — eu disse, cautelosa.
— Claro que você não é uma Strigoi restaurada — Sonya disse. — Mas queríamos dar uma olhada no seu sangue também. Talvez alguma coisa possa nos ajudar. Uma amostra pequena já seria suficiente.
Todos os olhos se voltaram para mim, até mesmo os de Clarence. A sala parecia se fechar ao meu redor conforme um pânico conhecido tomava conta do meu corpo. Nunca tinha pensado muito sobre por que as Strigoi não tinham gostado do meu sangue — na verdade, até evitava pensar sobre isso. Não queria acreditar que havia alguma coisa especial em mim. Não era possível que houvesse. Eu não queria atrair a atenção de ninguém. Uma coisa era ajudar nos experimentos, outra era virar cobaia. Se me quisessem para um teste, poderiam me querer para outro. E depois outro. E eu acabaria trancafiada, esquadrinhada e futucada.
Somava-se a isso o fato de eu não querer dar meu sangue. Não importava o quanto gostasse de Sonya e Dimitri. Não importava que o sangue seria retirado com uma agulha e não com os dentes. O conceito básico era o mesmo, e violava um dos princípios primordiais dos alquimistas: dar sangue aos vampiros era errado.
Aquele era o meu sangue. Meu. Ninguém, muito menos os vampiros, tinha nada a ver com ele.
Engoli em seco, com a esperança de não dar na cara que meu desejo era sair correndo.
— Foi a opinião de apenas uma Strigoi. E vocês sabem que eles não gostam tanto de humanos quanto de... vocês. — Esse era um dos motivos pelos quais os Moroi viviam com medo e tiveram seu número reduzido ao longo do tempo. Eles eram uma especiaria da culinária Strigoi. — Deve ser só isso.
— Talvez — Sonya disse. — Mas não faz mal dar uma olhadinha. — Seu rosto estava iluminado com essa nova ideia. Eu odiava desapontá-la... mas meus princípios nessa questão eram fortes demais. Tinha sido criada para acreditar neles.
— Acho que é perda de tempo — eu disse. — A gente sabe que o espírito precisa estar envolvido e eu não tenho nenhuma ligação com isso.
— Eu realmente acho que pode ser útil — ela disse. — Por favor.
Útil? Do ponto de vista dela, sim. Ela queria descartar todas as possibilidades. Mas meu sangue não tinha nada a ver com as conversões de Strigoi. Não tinha como.
— Eu... acho melhor não.
Uma resposta controlada, considerando a violência das emoções que se engalfinhavam dentro de mim. Meu coração começou a bater mais forte e as paredes da sala pareciam se fechar cada vez mais. Minha ansiedade crescia conforme eu era tomada por um sentimento conhecido, a terrível percepção de que eu estava em minoria na casa de Clarence. Era eu e uma sala cheia de vampiros e dampiros. Criaturas antinaturais. Criaturas antinaturais que queriam meu sangue...
Dimitri me examinou, curioso.
— Não vai doer, se é disso que você tem medo. Não vamos retirar nada além do que um médico tiraria.
Balancei a cabeça, inflexível.
— Sonya e eu somos treinados nesse tipo de coisa — ele acrescentou, tentando me transmitir segurança. — Você não precisa se preocupar em...
— Ela disse que não, tudo bem?
Todos os olhos que estavam voltados para mim de repente se lançaram na direção de Adrian. Ele se inclinara para a frente, fixando o olhar em Sonya e Dimitri, e vi naqueles belos olhos uma coisa que nunca tinha visto antes: ira. Pareciam esmeraldas em chamas.
— Quantas vezes ela precisa recusar? — ele interpelou. — Se ela não quer, não quer e ponto final. Isso não tem nada a ver com ela. É o nosso projeto de ciências. Ela está aqui para proteger Jill e já tem coisa demais para fazer. Então parem de atormentá-la!
— “Atormentar” é uma palavra meio forte — Dimitri disse, calmo apesar da explosão do Adrian.
— Não quando você fica pressionando alguém que quer ser deixada em paz — Adrian rebateu. Ele me lançou um olhar de preocupação, antes de voltar a fúria contra Sonya e Dimitri. — Parem de se unir contra ela.
Sonya olhou de mim para ele, em dúvida. Ela parecia realmente magoada. Por mais astuta que fosse, acho que nunca tinha percebido o quanto aquilo me incomodava.
— Adrian... Sydney... não estamos tentando irritar ninguém. Só queríamos muito levar isso a cabo. Pensei que vocês todos também quisessem. Sydney sempre nos apoiou muito.
— Não importa — Adrian vociferou. — Pegue o sangue de Eddie. Pegue o de Belikov. Pegue o seu também que pouco me importo. Mas se ela não quer dar o dela, então pronto. Ela disse que não. Fim de papo.
Alguma parte remota de mim percebeu que aquela era a primeira vez que eu via Adrian confrontar Dimitri. Normalmente Adrian simplesmente o ignorava, e esperava ser ignorado de volta.
— Mas... — Sonya começou.
— Deixa pra lá — Dimitri disse. Era sempre difícil interpretá-lo, mas havia uma suavidade em sua voz. — Adrian está certo.
Como era de se esperar, o ambiente ficou um pouco tenso depois disso tudo.
Houve algumas tentativas fracassadas de conversa casual que mal notei. Meu coração ainda estava acelerado, e eu ainda não tinha recuperado o fôlego. Me esforçava muito para ficar calma, garantindo a mim mesma que aquela conversa tinha chegado ao fim, que Sonya e Dimitri não iriam me interrogar ou drenar meu sangue à força. Tomei coragem e olhei para Adrian. Ele não parecia mais nervoso, mas ainda havia certa ferocidade ali. Era quase... protetora. Uma sensação estranha e quente se retorceu em meu peito, e, por um breve instante, enquanto olhava para ele, me senti... segura. Essa não era minha sensação usual perto dele. Lancei a ele um olhar tentando demonstrar gratidão. Ele deu um breve aceno em retorno.
Ele sabe, percebi. Sabe como me sinto em relação aos vampiros. Claro que todos eles sabiam. Os alquimistas não escondiam nossa convicção de que, em sua maioria, vampiros e dampiros eram criaturas das trevas que não tinham por que interagir com os humanos. Mas, como eu passava muito tempo com eles, não acreditava que o grupo em Palm Springs realmente entendesse a profundidade dessa crença. Eles entendiam em tese, mas não sentiam na pele. Não tinham por quê, já que raramente viam evidências disso em mim.
Mas Adrian entendia. Eu não sabia como, mas ele entendia. Lembrei das poucas vezes em que eu havia perdido o controle perto deles desde que chegara a Palm Springs. Uma foi num percurso de minigolfe, quando Jill usou sua magia de água. Outra com Lee e as Strigoi, quando Adrian se ofereceu para me curar com sua magia. Aqueles foram pequenos lapsos de controle que ninguém mais notou. Exceto Adrian.
Como seria possível que Adrian Ivashkov, que parecia nunca levar nada a sério, era o único entre as pessoas “responsáveis” ali que prestava atenção a esses detalhes? Como era possível que ele fosse o único que realmente entendia a intensidade do meu sentimento?
Chegada a hora de irmos, levei Adrian para casa e os outros que estudavam comigo para Amberwood. O silêncio continuou no carro. Depois que Adrian desceu, Eddie relaxou um pouco e balançou a cabeça.
— Nossa! Acho que nunca tinha visto Adrian tão bravo. Na verdade, acho que nunca tinha visto Adrian bravo antes.
— Ele não estava tão bravo assim — eu disse, evasiva, com os olhos fixos na estrada.
— Pra mim, ele parecia furioso — Angeline retorquiu. — Pensei que fosse pular em cima de Dimitri.
— Acho que ele não chegaria a esse ponto — Eddie zombou.
— Sei não — ela cismou. — Acho que ele estava disposto a encarar qualquer um que mexesse com você, Sydney.
Continuei com o olhar fixo na rodovia, recusando-me a olhar para eles. O confronto todo havia me deixado confusa. Por que Adrian tinha me protegido?
— Eu me ofereci para fazer um favor a ele na semana que vem — eu disse. — Acho que ele sente que está me devendo uma.
Jill, sentada ao meu lado no banco do passageiro, estivera em silêncio até aquele momento. Por causa do laço, talvez ela soubesse a resposta.
— Não — ela disse, com um tom intrigado na voz. — Ele teria feito isso por você de qualquer jeito.

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