30 de outubro de 2017

Capítulo 5

Adrian

PRECISEI DE TODO O MEU AUTOCONTROLE para não ligar ou mandar mensagens para Sydney pedindo novidades a todo momento. Não fazia ideia do quanto a ausência dela me afetaria. Não era só a saudade, embora isso também fizesse parte da sensação. Tinha me acostumado a acordar com ela toda manhã, vê-la em casa nas refeições e em outros momentos cotidianos. Agora, não só tinha que passar o tempo sem ela, como também precisava me tranquilizar dizendo a mim mesmo que ela não estava nas garras dos alquimistas.
— Não devia ter deixado ela ir sozinha — falei para minha mãe no dia seguinte.
Ela tirou os olhos do ponto-cruz. Era um novo hobby um pouco menos impressionante do que tudo que acontecera nas nossas vidas nos últimos tempos.
— Você se preocupa demais, filho. Se tem alguma coisa que sei sobre minha nora humana é que ela sabe se virar muito bem sozinha.
Parei de andar de um lado para o outro.
— Você acha mesmo?
Um sorriso irônico perpassou os lábios da minha mãe.
— Você está surpreso porque tenho alguma coisa boa para falar sobre ela?
— Sim, um pouco — admiti. Minha mãe nunca falara mal da minha relação com Sydney abertamente. Na verdade, não houvera nenhuma oportunidade. Eu simplesmente aparecera na Corte com uma noiva a tiracolo e ninguém fora capaz de separar o que o estado de Nevada havia unido. Minha mãe não tinha recebido Sydney de braços abertos exatamente, mas foi uma das únicas a ficar do nosso lado. Imaginava que ela não aprovava, só estava fazendo o melhor possível numa situação ruim.
— Estaria mentindo se dissesse que, em algum momento da minha vida, desejei que você casasse com uma humana — ela disse depois de refletir. — Mas sei que o fardo que você carrega não é dos mais leves. Nunca foi. Nunca vai ser. Notei isso quando você era criança. E sempre soube que quem quer que você escolhesse seria alguém especial, capaz de enfrentar essas dificuldades com você. Essa menina, Sydney, ela é assim. Percebi ao longo do último mês. E prefiro que você tenha uma companheira digna e humana a uma Moroi incapaz de aguentar seus fardos.
Meu queixo quase caiu no chão.
— Mãe, acho que essa é a coisa mais sentimental que já ouvi você falar.
— Quieto — ela disse. — E pare de se preocupar. Ela é competente e talentosa. E não está sozinha. Está com um guardião e com aquela humana esquisita.
Abri um pequeno sorriso, mas não tive coragem de dizer à minha mãe que, apesar de todo o talento e competência de Sydney, ela não tinha conseguido fugir dos alquimistas antes. Inclusive, quando foi capturada, Eddie estava com ela. Ele tinha lutado de maneira implacável, como sempre… mas não fora suficiente.
Uma batida na porta me salvou de continuar ruminando essas ideias, mas trouxe novos problemas. Tinha prometido a Charlotte que poderíamos procurar Olive mais tarde, mas ainda faltavam horas para isso. Sonya tinha dito que o calmante que dera à garota duraria um tempo, mas o efeito poderia ter passado e eu encontraria Charlotte à minha porta com aqueles olhos malucos, exigindo que a gente sonhasse naquele instante.
Mas, quando abri a porta, encontrei Rose. Não sabia direito se me sentia aliviado ou desconfiado. Pelo o que soube da última vez, ela estava fora da Corte.
— Ei — eu disse —, tudo certo?
Ela obviamente estava à paisana, vestindo um jeans e uma camiseta casual bem diferentes do terno preto e branco que os guardiões usavam em ocasiões formais. Ela jogou o cabelo castanho-escuro sobre um dos ombros e sorriu.
— Fiquei sabendo que vocês estavam enfurnados aqui, então pensei em dar uma passadinha para dar um oi.
Tentei não fazer careta quando ouvi o “vocês”.
— Pensei que você e Dimitri estivessem procurando Jill — eu disse, torcendo para desviar a atenção de nós.
Parte da animação dela diminuiu.
— A gente estava… mas sem muita sorte. Por isso Lissa mandou a gente voltar para investigar alguns nobres que sempre foram contra ela, caso algum deles tenha sequestrado Jill.
Isso era novidade.
— Você acha provável?
— Acho que não — Rose disse. — E Lissa também sabe que é quase impossível. Mas ela quer esgotar todas as pistas.
Dei um passo para trás.
— Bom, não quero atrasar você…
Seu sorriso voltou.
— Não está atrasando. A gente já trabalhou algumas horas hoje e não tem muito o que fazer até um dos lordes voltar amanhã. Então estamos trabalhando numa coisa mais produtiva. Chama Sydney que mostro pra vocês.
— Ela está, hum… dormindo agora — menti.
— Dormindo? A gente está no meio do dia!
Nosso dia — corrigi. — Ela ainda está no horário humano.
Como era de se esperar, Rose ficou surpresa.
— Jura? Da última vez que vim, achei que ela estava tão bem-adaptada.
— Ela sente falta do sol — expliquei.
— Ela sai?
— Bom, não… mas é uma necessidade. É um lance humano. — A julgar pela expressão cada vez mais perplexa de Rose, eu realmente não estava fazendo um bom trabalho dando cobertura, então decidi minimizar o estrago. — Escuta, por que não deixo um bilhete pra Sydney e você me leva pra ver? — Imaginei que seria melhor do que Rose se oferecer para esperar Sydney acordar.
— Claro — Rose disse. — Depois a gente mostra pra ela.
Apontei para o corredor.
— Depois de você.
— Você não precisa deixar o bilhete? — ela perguntou, incisiva.
— Ah, verdade. Espera um pouco. — Entrei e deixei Rose esperando no corredor. Depois de ficar parado por mais ou menos meio minuto, abri a porta e saí. — Prontinho.
Rose me levou para uma área da Corte que costumava ser reservada aos guardiões. Era perto do quartel-general deles e de alguns dos seus alojamentos. Mais importante, era onde ficavam os campos de treinamento. Era para um deles que ela estava me levando. Só que, quando chegamos, não foi um grupo de dampiros que encontramos. Foi um grupo de guerreiros Moroi.
— Caramba! — exclamei. Era para ser um elogio.
Séculos atrás, na época em que humanos e Moroi podiam se casar, os Moroi também lutavam muito para se defender. Eles utilizavam a magia elemental como arma e enfrentavam os Strigoi pessoalmente. Ao longo do tempo, os dampiros assumiram as funções de proteção, e usar magia para alguma coisa além de truques virou tabu entre os Moroi. Entre muitas das mudanças sugeridas recentemente na política Moroi, reassumir a tarefa de defesa com recursos mágicos sempre vinha à tona nas discussões. Agora estava vendo isso colocado em prática.
Havia cerca de vinte Moroi divididos em quatro grupos, cada um representado por uma cor diferente. Eles estavam fazendo séries de exercícios com manobras defensivas e combate corpo a corpo que poderiam ter saído diretamente do curso de Malachi Wolfe.
Eram auxiliados por alguns guardiões. Um deles reconheci na hora, mesmo de costas para mim, graças à altura e ao sobretudo de couro. Dimitri Belikov se aproximou a passos largos, estendendo a mão para me cumprimentar.
— Adrian — ele disse, simpático. — Não temos um núcleo de espírito ainda. Você gostaria de liderar um? Encontrar alguns recrutas?
A primeira pessoa que me veio à mente foi Charlotte, que já estava correndo o risco de perder a cabeça graças ao uso do espírito. A ideia de levá-la para o combate era preocupante.
Finalmente um papel de liderança para você, comentou tia Tatiana.
Balancei a cabeça.
— Obrigado, mas não. Já estou com muita coisa na cabeça.
— Cadê a Sydney? — ele perguntou. — Achei que ela ia gostar de ver isso.
— Está dormindo — Rose respondeu, prestativa.
Ao perceber a surpresa de Dimitri, expliquei:
— Ela está no horário humano. Mas você tem razão, ela adoraria ver isso. Em outra oportunidade.
— Outra oportunidade — Dimitri concordou. — Olha, estão prestes a começar.
— Começar o quê?
Um guardião que não conhecia tinha acabado de posicionar bonecos de treinamento numa extremidade do campo. Ele foi chamando os grupos e observei admirado enquanto cada um demonstrava como seus elementos poderiam ser fatais. Os usuários de água lançavam jatos potentes nos bonecos, derrubando-os com um só golpe. Usuários de terra faziam o chão tremer e também invocam pedras e o solo. Os usuários de ar lançavam rajadas de vento que teriam acabado logo com um oponente vivo. Alguns conseguiam até erguer objetos com o ar para usar como armas. E os usuários de fogo… bom, sua capacidade destrutiva ficou bem clara quando um dos bonecos foi consumido inteiramente pelas chamas.
— Por favor, só uma demonstração — gritou o guardião, com a voz cansada. — A gente não precisa exterminar nosso estoque de bonecos ainda.
— Foi mal — respondeu uma voz empolgada que reconheci. Christian Ozera estava vestido de vermelho entre os usuários de fogo, e apagou as chamas com um só olhar.
Depois das demonstrações de cada poder elemental, os guerreiros mostraram como poderiam combinar seus elementos. Os usuários de ar ajudaram a congelar a água. Os usuários de terra prendiam os bonecos no chão, permitindo que os de fogo acabassem com tudo. Isso resultou em outro boneco quase destruído quando Christian mais uma vez se empolgou demais com suas chamas. Ele pediu desculpas mais uma vez, sem parecer nem um pouco arrependido.
Finalmente, concluíram a demonstração com um combate corpo a corpo. Eu os vira treinar quando cheguei. Os Moroi não tinham a mesma força física dos dampiros, mas ficou claro que esse grupo tinha treinado muito. Eu é que não gostaria de enfrentar nenhum deles numa briga. Demonstravam golpes que qualquer guardião teria orgulho de realizar, e até mostraram o que fazer durante ataques elementais. Foi uma demonstração impressionante.
— E então? — Christian perguntou em seguida, ao caminhar até nós quando a demonstração terminou. — Acha que podemos convencê-los?
Uma moça loira com roupa azul caminhava ao lado dele e fiquei contente ao ver que Mia Rinaldi era uma líder entre os usuários de água, embora não fosse surpreendente.
— Foi impecável — ela concordou. — Eles não têm como não aprovar o programa agora.
— Do que vocês estão falando? — perguntei.
— Isso foi só um aquecimento — Christian explicou. — Com o perdão do trocadilho. Vamos fazer essa demonstração para o Conselho Moroi na esperança de que eles aprovem um programa para todas as escolas Moroi. Queremos recrutar e treinar mais gente pra causa.
Os olhos de Mia brilhavam.
— A gente também quer aprovação para realizar algumas caçadas independentes a Strigoi.
— Bom, vocês têm meu voto — eu disse, sincero. — Vocês parecem capazes de tirar os guardiões do mercado.
— Sem exagerar — Rose brincou. — Mas você tem razão, eles já avançaram muito. Agora só precisamos convencer o conselho. Lissa já aprovou.
— Claro, né — eu disse. — Porque ela é jovem e progressista. Mas os outros… podem ser mais resistentes a mudanças. Mesmo com uma demonstração tão impressionante.
Rose assentiu, entendendo perfeitamente como até mesmo os Moroi mais bem-intencionados eram apegados à tradição.
— Estava torcendo para que Sydney nos desse alguns argumentos lógicos para usarmos na defesa da causa.
Dei uma risadinha.
— Aposto que ela teria.
— Onde está Sydney, aliás? — Christian perguntou.
— Dormindo — eu e Rose respondemos em uníssono.
Por mais fascinantes que fossem os guerreiros Moroi, fiquei com medo de que surgissem outras perguntas sobre Sydney. Isso e uma olhada no relógio me avisaram que era hora de ir embora para ajudar Charlotte nos sonhos.
— Tenho que voltar — falei. — Valeu por me deixarem ver isso.
— O prazer foi meu — Rose disse, acompanhando-me de volta até a região central da Corte. — A gente marca de novo quando for um bom dia pra Sydney, num horário mais aceitável para os humanos.
Rangi os dentes, odiando as mentiras que tive que contar.
— Vou falar com ela e te aviso.
Percebi que Rose achou estranho eu não convidá-la para entrar no flat. Dei a desculpa de que Sydney tinha o sono leve, e Rose pareceu aceitar. Quando ela finalmente foi embora, notei que a euforia da demonstração e as novas mentiras tinham me deixado agitado, dificultando meu sono quando deitei na cama. Além disso, estávamos no meio do dia vampírico, o que atrapalhava ainda mais. Mas Charlotte dissera que Olive estava num horário humano, então devia estar dormindo agora. Depois de trinta minutos me revirando na cama, recebi uma mensagem de Charlotte dizendo que não estava conseguindo me encontrar nos sonhos.
Estou com dificuldade para dormir, respondi.
Tenho um monte de calmantes da Sonya se precisar, ela respondeu brincando. É só pegar.
Sorri, contente pelo momento de amizade tranquila como eu e Charlotte costumávamos ter. Não, obrigado. Só me dá mais um tempinho.
No fim, consegui relaxar e dormir sem ajuda. Fazia um tempo desde a última vez em que um usuário de espírito me levara a um sonho. Normalmente eu era o criador do sonho, quem dava as coordenadas e convidava os outros a se juntar a mim. O ambiente se materializou ao meu redor, solidificando-se numa paisagem rural. Estava em frente a uma linda casinha branca. Atrás dela, uma cerca circundava um pasto onde cavalos pastavam tranquilamente sob a luz laranja e púrpura do poente. Pássaros cantavam em meio ao crepúsculo e uma brisa quente tocava minha pele.
— A casa do meu pai em Wisconsin — disse uma voz atrás de mim.
Virei e me deparei com Charlotte se aproximando pelo longo gramado do jardim da frente. Ela parecia mil vezes melhor do que a última vez em que a vi, com o cabelo encaracolado preso num coque e um vestido lavanda no corpo esguio. Torci para que isso refletisse uma melhora no mundo real e não fosse simplesmente uma ilusão do sonho.
— É bonita — eu disse, sinceramente. — O tipo de lugar onde as crianças sonham em crescer.
Ela sorriu.
— A gente só podia vir no verão. Uns amigos da família eram nobres, não muito importantes, mas nobres, e eles vinham também com seus guardiões. Senão podia ser muito perigoso ficar aqui. É bem afastado… mas nunca se sabe.
Ela não terminou o raciocínio. Charlotte e Olive eram meias-irmãs por parte de pai, um Moroi. Como ele não era nobre, não recebia a proteção de nenhum guardião. Olive, sendo dampira, tinha se incumbido de protegê-lo, mas fora transformada em Strigoi durante um ataque. A magia de espírito de Charlotte a trouxera de volta. Era uma distinção rara que Olive dividia com poucos outros — Dimitri e Sonya, para ser exato.
— Vamos trazer Olive aqui? — perguntei, sem querer que Charlotte continuasse nos temas desagradáveis do passado. Porém, sua testa franziu ainda mais com a minha pergunta.
— Não é tão simples assim, você vai ver. Quer dizer, talvez seja diferente com você aqui. Tomara.
Ainda não entendia direito qual era o problema, mas achei melhor esperar para ver o que aconteceria. Se Olive estivesse dormindo, seria fácil. Charlotte conseguiria usar o espírito para trazer a dampira a essa casa de campo assim como tinha me trazido.
Charlotte ficou parada, encarando o pasto de cavalos, e senti a magia de espírito crescer dentro dela conforme tentava estabelecer um contato onírico com a irmã. Até aí, tudo certo.
Alguns momentos depois, uma forma translúcida começou a se materializar perto de nós. Reconheci a altura mais baixa de Olive, seu cabelo escuro e sua pele morena. Um grande manto ondulava em volta dela, ocultando o corpo mais musculoso que o da irmã.
Os olhos de Olive se arregalaram quando se deu conta do que estava acontecendo.
— Não, Charlotte. Por favor. De novo não.
Normalmente, Olive deveria ter se solidificado por completo a essa altura, e estaria ali com a gente. No entanto, o cenário rural começou a se desfazer, perdendo cada vez mais substância. Me virei para Charlotte.
— O que você está fazendo?
Ela suspirou.
— Não estou fazendo nada. É isso que estou tentando falar pra você.
A linda paisagem verde desapareceu, substituída por um terreno cinzento e sombrio, pontilhado por rochas. Uma encosta de montanha se erguia íngreme até um céu cinza com nuvens de tempestade. Clarões de raios ocasionais dançavam entre as nuvens.
Não havia sinal de Olive.
— O que é isso? — exclamei. — A gente foi transportado para um filme distópico?
A expressão de Charlotte ficou sinistra.
— A gente está no Havaí.
Observei ao redor.
— Odeio discordar, mas quando penso em Havaí, imagino palmeiras e biquínis.
Charlotte encarou os pés. Suas sandálias se transformaram em tênis. Ela começou a escalar a encosta.
— É um vulcão que a gente visitava nas férias da escola quando criança.
— Não parece tão ruim — eu disse, seguindo-a cauteloso. — Mas por que você mudou? A fazenda era agradável.
Eu não mudei — ela disse, claramente frustrada. — Foi Olive quem mudou.
— Olive não é uma usuária de espírito — argumentei. — Ela até pode mudar a roupa dela, mas não algo dessa magnitude.
— Não sei como, mas ela tirou o controle de mim. Ela faz isso toda vez. Consigo fazer coisas pequenas. — Ela apontou para os sapatos. — Mas não consigo mandar a gente de volta ou trazer Olive.
— Onde ela está?
— Escondida em algum lugar. — Charlotte observou ao redor e apontou para uma caverna escura na encosta do vulcão. — Provavelmente lá. Isso não existia no vulcão que a gente viu de verdade. Ela deve ter criado.
Minha mente estava a mil enquanto eu caminhava até a caverna com ela. O que ela estava dizendo era impossível. Olive não teria como possuir esse poder no sonho, a menos que Charlotte o concedesse.
— Como? — perguntei. — Como ela está fazendo isso? Você acha que tem alguma coisa a ver com ela ter sido uma Strigoi restaurada com a magia de espírito?
— Acho que não — Charlotte respondeu. — Não a sinto usando o espírito. É quase como se ela estivesse controlando o sonho pela… pela força de vontade.
Estava tentando entender isso quando paramos diante da entrada da caverna.
— E agora?
— Agora — Charlotte respondeu —, ela deve estar escondida lá dentro. Mas, se for como os outros lugares para onde me levou em sonhos, a gente não vai poder simplesmente entrar e…
Um rugido vindo das profundezas da caverna interrompeu suas palavras.
Instintivamente, dei um passo para trás.
— Que droga é essa?
Charlotte parecia mais cansada do que amedrontada.
— Não sei. Alguma coisa terrível. Alguma coisa para nos afugentar.
Suas palavras se concretizaram e um enorme monstro humanoide feito de rochas negras saiu desajeitado da caverna, com olhos vermelhos incandescentes. Era uns vinte centímetros mais alto que eu e duas vezes mais largo. Ele parou à nossa frente, bateu no peito e soltou outro rugido.
— Você já viu isso antes? — exclamei.
— Não exatamente — Charlotte respondeu. — Da última vez ela mandou um bando de morcegos. Antes, foi uma criatura parecida com um lobisomem.
— Você que fez esse sonho — insisti, recuando mais quando o monstro rochoso se aproximou. — Se livra dele.
— Não consigo. Pelo menos não com meus pensamentos. A gente precisa fazer do jeito tradicional.
Senti uma onda de magia de espírito surgir nela mais uma vez e um porrete apareceu na sua mão. Ela avançou e atacou o monstro de repente. Nisso, senti mais espírito acender dentro dela. Na verdade, pareceu que a magia de espírito atingira o monstro, não o porrete em si. A criatura urrou de dor, e rachaduras apareceram onde o porrete havia golpeado.
— Você falou que iria me ajudar! — ela gritou, visivelmente incomodada.
Eu tinha falado isso, mas definitivamente não estava esperando que fosse desse jeito.
Antes de entrar na briga, porém, invoquei a minha própria magia e tentei mudar o ambiente para algo mais agradável. Mas, ao fazer isso, encontrei uma resistência firme e entendi melhor o que Charlotte queria dizer. Não era exatamente o espírito que estava mantendo o sonho daquele jeito… mas alguma coisa como intenção ou força de vontade, como ela dissera.
Sem conseguir alterar o contexto do sonho, fiz o mesmo que ela e criei um porrete para mim. Eu não era muito violento, e, enquanto atacava o monstro, lembrei a mim mesmo que ele era uma criação onírica, não um ser real. Charlotte já tinha feito bastante progresso e, quando o porrete atingiu o corpo rochoso da criatura, quase caí para trás com o impacto. Meus ossos e dentes tremeram… e não pareceu fazer diferença nenhuma no monstro. Charlotte parou para me encarar.
— Você precisa se encher de espírito na hora de acertar — ela explicou, frustrada. — É assim que se luta.
Ela definitivamente estava colocando isso em prática. Transbordando de magia, ela parecia uma tocha de espírito. Fiquei um tanto espantado com a quantidade que ela estava usando. Não era exatamente tão intensa quanto a explosão necessária para se restaurar um Strigoi ou trazer alguém dos mortos, mas era uma quantidade significativa para portar por um longo período. Relutante, invoquei um pouco do meu — nem de perto tanto quanto o dela — e o usei ao atingir a criatura com meu bastão. Dessa vez também rachei a superfície.
— Mais, mais! — Charlotte gritou.
— Não precisa — eu disse. — Já causa impacto sem tanta magia. Só demora um pouco mais.
— Não temos tempo!
Só entendi o que ela quis dizer depois que nossos esforços coletivos finalmente derrotaram o monstro rochoso, que se desintegrou em pó diante de nós. Charlotte correu caverna adentro. Com a criatura derrotada, ela parecia ter recuperado o controle do sonho. O cenário ao nosso redor mudou e, de repente, estávamos correndo na casa de campo branca em Wisconsin. Mal deu para entrever Olive no canto escuro da sala de estar, com o corpo envolto pelo mesmo manto ondulante de antes.
— Olive! — Charlotte gritou. — Mostra pra mim onde você está! — Mais poder surgiu de dentro dela e a sala começou a tremular. Eu podia sentir um pouco do que ela estava fazendo e fiquei admirado. Ela estava tentando fazer o sonho refletir o que havia em volta de Olive no mundo real, algo que eu nem sabia que era possível.
Mas Olive estava desaparecendo.
— Desculpa, Charlotte. Por favor… por favor, pare de tentar me encontrar. É melhor assim.
— Olive!
Era tarde demais. Olive desapareceu e a sala parou de tremer. O cenário se estabilizou e voltou a parecer apenas uma pequena sala rural, sem nenhuma pista de onde Olive estava. Derrotada, Charlotte se deixou cair numa cadeira de vime, com lágrimas nos olhos.
— Ela deu um jeito de acordar. É o que acontece toda vez. Ela lança algum obstáculo para eu enfrentar e isso me distrai de fazer o sonho mostrar onde ela está. Quando consigo encontrá-la, ela acorda e foge do sonho. — Charlotte voltou o olhar acusador contra mim. — Se a gente tivesse derrotado o monstro mais rápido, ela não teria tempo de acordar! Você deveria ter usado mais espírito!
Por mais que estivesse angustiada, Charlotte parecia relativamente sã no mundo onírico. Como vira no outro dia, porém, sabia que no mundo real era outra história.
— Não acho que seria uma boa ideia — eu disse, devagar. — Acho que usar todo esse espírito tem causado, hum, efeitos negativos em você.
— Se você me ajudasse, me ajudasse de verdade, a gente só precisaria fazer isso uma vez. Se encurralássemos Olive, poderíamos fazer o sonho nos mostrar onde ela está.
— É, em relação a isso… — eu disse, sentando ao lado dela. — Onde você aprendeu a fazer? Levar o sonho a mostrar onde ela está no mundo real? — Isso teria sido incrivelmente útil quando eu estava tentando encontrar Sydney.
Charlotte deu de ombros.
— Dá pra fazer uma pessoa aparecer como ela está na vida real, certo? Estava tentando um dia e canalizei o espírito através dela para fazer com que o sonho simplesmente refletisse o lugar onde ela está.
— Não sei se usaria a palavra “simplesmente” — comentei. — Isso envolveu muito espírito. Será que… foi depois disso que ela começou a controlar o sonho? Você não deu controle a ela sem querer?
Ficou claro que Charlotte nunca tinha pensado nisso antes.
— Eu… eu não sei. Talvez… mas de que outro jeito vou descobrir onde ela está?
— Conversando com ela? — sugeri.
Ela socou o braço da cadeira de vime.
— Eu tentei! Ela não quer conversar. Esse é o único jeito. Tem alguma coisa errada e a gente precisa descobrir o que é. A gente precisa tentar de novo. Só que da próxima vez…
— Epa, epa! Não pode ter próxima vez — avisei. — Você vai se esgotar. Está fazendo isso todo dia há quanto tempo?
Seu olhar ficou distante.
— Sei lá. Meses.
Pestanejei. Não era surpresa que ela estivesse enlouquecendo.
— Chega de espírito.
Ela ergueu o olhar suplicante para mim.
— Eu preciso. Você não entende? Sabe como é não saber o que aconteceu com alguém que você ama?
Jill, pensei e senti uma pontada de dor. Charlotte deve ter visto isso na minha expressão, porque seu rosto se iluminou de repente.
— Me ajuda! Me ajuda, Adrian, e juntos teremos espírito suficiente pra vencer a força dela. Poderei parar de fazer isso todo dia. Vou descobrir o que aconteceu com ela. Por favor.
Pensei nas preocupações de Sonya em relação a Charlotte. Então pensei em Sydney me pedindo para tomar cuidado com o espírito. Já teria problemas suficientes se ela descobrisse essa explosão de uso de espírito. Balancei a cabeça devagar.
— Não posso. Não devia nem ter ajudado hoje.
— Se a gente trabalhar junto, não vai exigir muito de nenhum de nós — Charlotte implorou. — Por favor, me ajuda. Te ajudo em troca. Tem alguma coisa de que você precisa? Me ajuda a encontrar Olive que te ajudo no que for.
Comecei a fazer que não de novo, então parei ao ter uma ideia súbita.
— Não — eu disse, mais para mim mesmo do que para ela. — Não.
Ela levantou em um salto.
— Tem alguma coisa, não tem? Me fala!
Hesitei, sabendo que não devia seguir esse caminho. Mas a oferta de ajuda me fez pensar em uma coisa que queria muito: voltar para perto de Sydney.
— Preciso sair da Corte sem que ninguém fique sabendo. E preciso fazer as pessoas pensarem que ainda estou aqui com a minha mãe.
— Fechado — Charlotte disse. — Posso fazer isso. Tranquilo.
— Charlotte…
— Escuta — Charlotte disse —, posso ajudar você a sair da Corte agora, neste exato minuto. Seria um simples feitiço de compulsão. Depois, onde quer que você estiver, poderá me encontrar num sonho para achar Olive.
— É legal da sua parte querer ajudar — eu disse, cansado —, mas isso não vai convencer as pessoas de que ainda estou aqui.
Um sorriso travesso apareceu em seus lábios.
— Posso fazer isso também. Se sua mãe me deixar ficar com ela. Vou compelir todos que forem te procurar a acreditar que te viram. Vou fazer os funcionários no prédio de hóspedes pensarem que viram você entrando e saindo. Ninguém vai desconfiar de nada. Por favor, Adrian. — Ela apertou minha mão. — Vamos nos ajudar.
Puxei a mão sem querer admitir que estava tentado. Ela estava oferecendo minha única chance de ficar com Sydney, o que eu queria tanto a ponto de considerar ignorar todos os perigos do uso de espírito. Mas como poderia sujeitar qualquer um de nós a mais magia? Ainda mais ela. Seria egoísmo.
— É muito perigoso — falei para ela.
— Não ligo — ela disse, obstinada. — Vou continuar tentando com ou sem a sua ajuda. Olive é tudo pra mim.
E Sydney é tudo pra mim, pensei. Desesperadamente, tentei encontrar um jeito de apaziguar a culpa que sentia por aceitar a ajuda de Charlotte. Ela tinha dito que continuaria procurando por Olive, certo? Bom… se eu a ajudasse a encontrar a irmã, Charlotte usaria menos espírito no fim das contas. Isso era uma coisa boa, certo?
Respirei fundo e a encarei no fundo dos olhos.
— Se a gente tentar isso de novo… eu carrego a maior parte do espírito.
— Mas nós dois…
— Nós dois vamos carregar — eu disse. — E a gente só vai fazer isso mais uma vez, não todo dia. Se eu fizer o trabalho pesado uma única vez, não vai me afetar tanto. Você acrescenta… um pouco. Mas só. Você não pode continuar fazendo mal a si mesma.
Ela fez menção de pegar minha mão de novo, mas desistiu, embora parecesse mais calma.
— Você gosta de mim, não é? Eu sabia. Mesmo estando casado…
— Charlotte — eu disse, com firmeza. — Não é por aí. Gosto de você, mas é Sydney que eu amo. E, se for pra fazermos isso de novo, vamos fazer do meu jeito.
Seus olhos continuaram sonhadores por mais um tempo e então ela assentiu, relutante.
— Do seu jeito — concordou. — E vou ajudar você.
— Estou contando com isso — admiti. — Mas tomara que consiga fazer o que a gente precisa usando o mínimo de espírito possível.
Ela concordou docilmente e então pareceu curiosa.
— Certo… mas você tem certeza que não está preocupado com a sua sanidade durante tudo isso?
Hesitei. Se Sydney estivesse ali, tenho certeza que me falaria que isso tudo era loucura, que estava usando espírito à toa e correndo o risco de fazer mal a mim mesmo. Mas não podia abandonar Charlotte à insanidade, muito menos se realmente houvesse algo de errado com Olive. E definitivamente precisava aproveitar a chance de sair para ajudar Sydney e Jill. Só torcia para estar certo quando disse a Charlotte que um uso único não me faria mal. Abri um sorriso tenso.
— Ei, ainda não estou mostrando nenhum sintoma de insanidade — falei para ela. — Tenho certeza que vou ficar bem.
Eu também, sussurrou tia Tatiana. Tenho certeza que você vai ficar bem.

Um comentário:

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Boa leitura :)